quarta-feira, 13 de abril de 2011

XVIX

Uma amostra de Tu rostro mañana de Javier Marías, sobre “o tumulto do Juízo Final onde os mortos contariam suas histórias, argumentariam, refutariam, apelariam antes de escutar a sentença, em um Juízo tão monumental de faraós egípcios misturados com nossos executivos, os imperadores romanos com nossos bandidos e nossos toureiros. (Está evidente a procedência espanhola. Fazendo uma adaptação à nossa realidade, mudaríamos os réus para: nossos políticos e nossos traficantes, nossos exploradores, pedófilos e atiradores...) A história inteira do mundo com todos os seus casos particulares transformada em um galinheiro, onde os mortos mais antigos, fartos de esperar e de contar o incontável tempo que faltava para esse Juízo, certamente amotinados pela tardança infinita, mas calados durante milhões de séculos, à espera do último morto, e que se fosse ele, estaria desejando com egoísmo que se acabasse de uma vez o mundo... Mas hoje as atrocidades tornaram os homens céticos, mesmo se decidem aparentar o contrário por um reflexo de superstição, de tradição e de rendição mesclados, se congregam nas igrejas a cantar hinos para, em primeiro lugar, se sentirem mais próximos e se infundirem integridade e conformidade, da mesma maneira que os soldados cantavam ao avançar, quase indefesos, com suas baionetas em riste, só para se anestesiarem um pouco com seus alaridos, antes do impacto ou do golpe ou de voar pelos ares, e, finalmente, para ensurdecer o pensamento ferido muito antes do que a carne, e silenciar os variados ruídos da morte.”
E tem mais: (sobre os mortos que nos falam nos sonhos.) “Essas vozes estão em nós e não fora em algum lugar. Estão em nossa imaginação e em nossa memória. É a memória imaginando. Sonhamos e o fato se assemelha mais a uma reencarnação, a uma personificação de nossa parte, do que a supostas visitas ou advertências do além túmulo. Às vezes queremos tanto bem a alguém, que facilmente vemos o mundo com seus olhos e sentimos o que sente esse alguém. Colocamo-nos em seu lugar. E se isso fazemos despertos, não é raro que essas fusões, conversões ou justaposições aconteçam quando estamos dormindo, são quase metamorfoses. Milton, já cego, escreveu que um dia sonhou com sua falecida esposa e a viu e a ouviu perfeitamente. E no sonho recuperou triplamente a visão: a sua, como faculdade e sentido; a imagem impossível de sua mulher, pois não apenas ele, como ninguém podia vê-la no presente, e, sobretudo, o rosto e sua figura, que nele eram apenas imaginados, pois jamais a havia contemplado em vida, a não ser com a mente e o tato. Fora seu segundo casamento e já estava cego ao se casar. E, no sonho, ao inclinar-se para abraçá-lo, ela o acordou, desapareceu, e o dia lhe devolveu a noite.”
Não sei se poderia estar traduzindo aqui um pouquinho desse escritor, mas acho que é uma propaganda completamente gratuita. Não lucro nada com isso. Tenho até trabalho em fazê-lo e o faço pelo prazer de compartilhar a beleza, mas, agora, adeus ou até mais, Javier Marías. Comecei a ler, finalmente, outro livro do Victor Hugo, sem ser Os Miseráveis. Neste, empaquei, pois o li em português, em francês, em inglês e em espanhol e depois de ter enveredado por outros escritores, só agora resolvo ler outra obra de Victor Hugo, L’Homme qui rit, com 830 páginas. Pulei a introdução, que, absurdamente, conta a história do livro, e fui direto ao que interessava. Desde o primeiro capítulo, fiquei encantada.
 A mania de ler o mesmo livro em várias línguas vem de minha formação de tradutora e do indizível prazer que tenho com as palavras, seja em que língua for, e também por ter encontrado a maneira de trazer novamente à memória leituras agradáveis.
Hoje, depois de somente ter feito uma caminhada e lido algumas páginas do livro mencionado acima, estava sentido certa densidade no meu dia e me dei conta de que essa sensação de dia cheio provinha do fato de ter ficado fuçando o blog da Luciafonso e de nele ter lido uma crônica do Luiz Fernando Veríssimo, uma do Affonso Romano de Sant’Anna (“A mulher madura"), seus poemas “Envelhecer” e “Iniciação musical”.
Temos no Brasil uma penca de escritores maravilhosos e eu lendo um livro de 830 páginas do V. Hugo... Adoro esse escritor francês, mas estou louca para voltar à literatura nacional e ler mais um pouco do ARS, assim como da Raquel de Queiróz.

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