sábado, 6 de dezembro de 2014

A Fita métrica do amor - Martha medeiros

Como se mede uma pessoa?
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.
Ele é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri, destravado.
É pequena pra você quando só pensa em si mesma, quando se comporta de maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.
Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto.
É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições?
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Geovanas, Jocileides e a burocracia - Angela Delgado

      
     Filha Casada, com problemas em seu telefone, colocou o meu no jornal em um anúncio à procura de uma babá.
     Foram quase 200 telefonemas em apenas dois dias, em que houve de tudo:  chamadas a cobrar; ligações em que fui tratada por gatinha; minha linda, até uma candidata que falava francês! Esta assustou-me, fazendo-me suspeitar de que fizesse parte de uma rede internacional de sequestradores. Não. Apenas trabalhara quatro anos na França, tomando conta de uma criança. Ah, bom. Mas temi que seu perfil de governanta dos tempos passados, tê-la-ia encarecido sobremaneira.
    Não podia me concentrar no computador ou fazer café, e muito menos tomá-lo.
     As Adrianas, Alines, Anízias, Catarinas, Geovanas, Jocileides, Josélias, Luísas, Marinas, Marias, Osanas, Roses, Selmas, não me deixaram sentir solidão.
     Apresentaram-se, prometeram voltar, mas não o fizeram, talvez amedrontadas pelos Três Mosqueteiros e pela Princesa, de brinde...
     Nesse ínterim, Filha Antropóloga passara no concurso para o Ministério da Educação e precisava apresentar seus títulos que se resumiam a um, já que ainda não havia concluído o Mestrado.
     Estando ela em outra cidade, coube-me telefonar para requerer a declaração atestando que ela trabalhara, durante dois anos, como professora da Fundação, o que lhe adicionaria oito pontos em seu  resultado. Declaração para amanhã? Impossível. Terei que entregar mais de quinhentas.
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Mas, mãe, já a pedi há meses! Deve estar pronta.
     Às oito da manhã, estaciono no estacionamento ainda vazio, que bom, só que declarações eram entregues a partir das dez horas.
     Volto às dez. Em que mês sua filha fez o pedido? Vocês não arquivam por ordem alfabética? Não, pelo mês da requisição.
     Não tenho como falar com a Filha Requerente e preciso do papel para ontem. Por sorte, a funcionária, em menos de dez minutos, achara a declaração.
   Saí exultante. Agora restava apenas reconhecer firma, tirar xerox e enviá-la pelos Correios. No cartório, algum corretor, à espera de sua cliente que não chegava, trocara sua senha pela minha; ganhei mais alguns minutos em minha corrida contra o tempo. Que menina sortuda essa Filha Antropóloga. Mas aí Deus achou que já havia me concedido muito. A máquina de xerox não estava funcionando e o Sedex não poderia entregar o envelope no dia seguinte, pois era feriado. Ao lado, uma loja transportadora de cargas expressas o faria, porém mediante quantia tão exorbitante, que retruquei: Por esse preço, pego o avião e levo pessoalmente.
     Solução: Filha Antropóloga, via Fax, me passou uma Procuração.
     Só não entendi por que para obter a declaração, não me fora requisitada a carteira de identidade, no entanto para entregá-la, além da carteira de identidade, era preciso uma procuração.
     E de curiosidade em curiosidade, finalizo com o fato de minha “maturidade” ter achado um ótimo meio de saber onde coloquei certos objetos. Por exemplo, um saquinho bem pequeno de plástico, que achei ter utilidade futura, foi guardado na letra “p” da pasta sanfonada de documentos, e me divirto comigo mesma, constatando a hilaridade da faixa etária.
O que será que ainda vai parar nessa pasta? Celular e chaves na letra “c”, óculos no “o” ou no “e” de eureca?!

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O caso da senhora Santiago - Gustavo Bernardo Krause


Bom-dia, minha senhora. Dormiu bem? Trataram-na bem? Com certeza que sim. Nosso estabelecimento é famoso pelo acolhimento que dispensa a seus hóspedes. Diga-me, por favor, seus aposentos estão a seu gosto? Não se preocupe, providenciaremos roupas de cama mais condizentes com a sua pessoa. Algo mais? Sinto muito, mas infelizmente não podemos retirar as grades da janela. Quando voltar a seus aposentos observe com atenção, por favor, esticando só um pouco o pescoço, e verá que todas as janelas de todos os aposentos têm as mesmas grades. Não seria estético retirarmos as grades apenas da sua janela, não lhe parece? Os outros hóspedes decerto não apreciariam a exceção. A cor da janela também a deprime? Eis algo que se me mostra improvável, senhora Santiago: a cor verde foi cuidadosamente escolhida para as janelas por lembrar a natureza, portanto por suas óbvias características calmantes. Essa cor, ao contrário da cor amarela, nesse caso a senhora teria toda a razão, não é de nenhuma maneira depressiva. Além do mais, retornamos ao problema anterior: se todas as janelas são verdes então não podemos modificar apenas uma, sob pena de desobedecermos à estética do prédio e assim desagradarmos a todos os demais hóspedes, digamos assim. Sim, estética é algo a que se pode desobedecer e a que na verdade não se deve desobedecer, sob pena de perdermos as referências de harmonia que nos ajudam a trabalhar e a viver. Tudo isso por causa da cor verde e das grades, estas completam aquela e emprestam a segurança, inclusive visual, de que os senhores e as senhoras tanto precisam. Ah, a senhora quer voltar para casa, onde não há grades nem janelas verdes? Compreendo. É natural. É bastante natural, de fato. Prometo, falaremos sobre o seu desejo mais à frente. Isso, sobre sua volta para casa. Hoje mesmo, não se preocupe. Por ora, preciso apenas confirmar algumas informações suas para preencher a nossa ficha. Nome? Capitolina Santiago, perfeitamente. Claro que eu já sabia o seu nome, minha cara. Todavia, é necessário confirmá-lo, quer para que não pairem dúvidas, quer para que eu a escute falar sobre a senhora mesma. Sim, isso é absolutamente fundamental. Sua idade, por favor? Sei que não é pergunta que se faça a uma dama, mas os funcionários que elaboraram a ficha, tempos atrás, não tiveram a elegância de abrir essa exceção, que se há de fazer. Idade, por favor? Não diz? Recusa-se a dizê-la? Tudo bem, não é um grande problema: por ora posso deixar esse campo em branco. Nome da mãe? Dona Fortunata, interessante. Expressivo. Pai? Senhor Pádua, confere. Filhos? Ah, um menino, ótimo. Seu nome, por favor? Luís, foi o que disse? Mas não é Ezequiel? Se eu sei, por que pergunto. Já lhe disse, porque preciso perguntar, precisamos ambos, a senhora e eu, ter certeza do que falamos e sobre o que falamos. Perfeito, Ezequiel. Moradia, por favor?... Muito obrigado. Por enquanto, é suficiente. Podemos voltar à sua pergunta anterior. Qual pergunta? Ora, se a senhora pode voltar à sua casa ainda hoje, já não o deseja mais? Ah, não era uma pergunta, a senhora quer e vai voltar para casa ainda hoje. Pois é, mas não pode, não assim, logo logo. Isso mesmo, não pode. Porque o senhor Bento Santiago, seu marido, certo?, nos procurou para nos solicitar que a internássemos no nosso estabelecimento. Agora a senhora entendeu, de fato não se encontra hospedada em um hotel, mas sim internada em um nosocômio. Exatamente, um nosocômio, uma espécie de hospital destinado ao tratamento de pessoas, digamos, mentalmente perturbadas. A senhora não se sente mentalmente perturbada, folgo em sabê-lo. No entanto, uma pessoa mentalmente perturbada não é a mais indicada para julgar a si mesma, se o está ou não. Como os bêbados, que sempre dizem que não estão bêbados. Sei perfeitamente, a senhora não se encontra alcoolizada, não é essa a nossa questão. Falamos de determinado tipo de doença mental: a senhora sente que está bem, perfeito, mas esse sentimento faz parte dos sintomas da sua doença, é muito comum que o doente negue a sua doença. Que bom que perguntou qual é a sua doença, assim nós todos evoluímos na direção da cura que desejamos, sem dúvida. Provisoriamente, já que ainda precisamos proceder a alguns exames, testes e provas, eu diria que a sua doença é uma manifestação secundária, nem por isso menos elaborada, de Confiance Affective Peu Fiable. Não conhece a expressão nem a língua, compreendo. O sr. Pádua não pôde lhe pagar cursos de francês, ora, isso não é vergonha nenhuma. Eu traduzo a expressão para a senhora: digamos que a sua doença é uma manifestação secundária de Confiança Afetiva Não-Confiável. O que isso quer dizer, afinal? Bem, retraduzindo os termos técnicos para uma linguagem que compreenda com mais facilidade, eles querem dizer que a senhora é afetiva e compulsivamente não-confiável, isto é, ao mesmo tempo que atrai as pessoas não lhes desperta a mínima confiança necessária para uma convivência saudável e civilizada. Como posso dizer uma barbaridade dessas sem conhecê-la? Primeiro, não é uma barbaridade, mas sim uma doença, como lhe falei. Segundo, na verdade eu a conheço bem, ou melhor, conheço bastante bem casos crônicos como o seu. As particularidades do seu caso em particular me foram transmitidas pelo seu marido de maneira extremamente detalhada, quando a trouxe aqui. Depois que a enfermeira Leonela a levou para o seu quarto, ele fez questão de me entregar um dossiê volumoso a seu respeito, dossiê este a que ele curiosamente não deu o seu nome ou apelido, como seria de se esperar, mas sim o próprio apelido pelo qual ficou conhecido: Dom Casmurro. Trata-se de um apelido muito revelador, temos de convir. Naturalmente, na hora me lembrei de outro Dom, aquele que enlouqueceu de tanta leitura de romances de cavalaria e saiu pelo mundo montado num pangaré com uma bacia de barbeiro na cabeça. Um caso clássico, citado em todos os anais da ciência, Juntando esse título que ele deu para o dossiê com a circunstância inusitada de tê-lo escrito como um romance, não pude deixar de considerá-lo um outro caso interessantíssimo. Poderíamos chamá-lo, elaborando quiçá uma nova teoria a respeito, de Fobia de Ficção. A Fobia de Ficção se associa, reconhecemo-la, a uma insegurança patológica específica, fazendo com que se combine a sua própria doença, sra. Capitolina, com a doença do seu marido, e de uma maneira esteticamente muito interessante, também devo reconhecer. A senhora sabia que no seu romance, digo, no seu dossiê, o sr. Santiago é capaz de levantar tantos argumentos contra a senhora, isto é, a favor de que a senhora o tenha traído com o seu melhor amigo, quanto argumentos a favor da senhora, isto é, contra a hipótese de que o tenha traído com esse melhor amigo ou com qualquer outro homem? Impressionante, não acha? Não? E quer falar com ele para desfazer de uma vez por todas o que chama de mal-entendido? Creio que não será possível, pelo menos ainda não. Por que? Ora, porque eu não podia deixá-lo à solta na cidade, Eu o internei imediatamente depois da senhora, ele nem chegou a ultrapassar o portal. Preciso estudar os dois casos cuidadosamente, eles são tão significativos que me ajudarão a dar mais alguns passos importantes no domínio do oceano da loucura. É isso, o seu marido também se encontra internado aqui conosco, em outra ala. Curioso é que ele tenha igualmente reclamado das grades e da cor verde nas janelas, o que me empresta mais uma conexão que pode ser importante. Fora o fato de vocês dois – perdão pela intimidade momentânea, mas o estudo dos seus casos me torna como que um pouco íntimo tanto de você quanto de seu marido, se me permite -, portanto, fora o fato de vocês dois serem muito ligados um ao outro desde muito jovens, o que seria uma outra motivação para explicar as preocupações semelhantes, devemos acrescentar a reação negativa ao ambiente como um outro sintoma secundário, e novamente, nem por isso menos importante. A relação interna entre vocês me leva a formular uma espécie de diagnóstico duplo e complementar deveras interessante. Por que é interessante? Bem, porque sugere que o seu casamento com o seu marido seria não apenas um casamento entre duas pessoas, entre duas personalidades, entre duas almas, digamos assim, mas igualmente um casamento entre duas doenças que desse modo se reforçam uma à outra em uma espiral contínua e viciosa muito difícil de interromper. Não, não estou dizendo que cada um de vocês é em si uma doença, o que estou dizendo é que foram as duas doenças, a sua e a do seu marido, que os aproximaram e os casaram e, depois, os separaram, percebe? Não percebe? Compreendo, a teoria não é simples sequer para os meus ilustres colegas, que dirá para leigos no assunto, mas posso lhe assegurar que, apesar da sua ousadia e do seu ineditismo, ela se encontra muito bem, na verdade muitíssimo bem fundamentada. Quem gosta de falar assim? Assim como? Ah, cheio de superlativos: o sr.José Dias, perfeitamente, li sobre ele no dossiê-romance. Outro caso interessantíssimo, talvez o chame aqui um dia desses. Mas por ora nos concentremos em você, minha cara, e no seu ilustre marido e autor. Não, ele não é necessariamente o seu autor, mas sim autor do dossiê-romance sobre você.Todavia, talvez possamos pensá-lo, em algum nível, como seu autor sim: como se a manifestação enviesada do ciúme masculino fortalecesse a doença feminina em questão, a saber, a nossa conhecida Confiance Affective Peu Fiable. Que seja. Mas voltemos à minha teoria. O casal que Bento e Capitolina Santiago ainda formam, mesmo que no momento em aposentos separados, se tornará o corolário dessa teoria, fornecendo-me a demonstração que faltava no brilhante edifício que, modéstia à parte,
venho construindo pouco a pouco. Compreendo, compreendo, você não entende de edifícios e teorias, logo também não entende de metáforas. Como? Prefere que eu volte a tratá-la por senhora? Perfeitamente, seu desejo é uma ordem, mas somente aqueles a que eu possa atender, como o de tratá-la mais cerimoniosamente. Dizia então que a senhora não entende de edifícios e teorias, logo também não entende de metáforas. Todavia, a despeito dessa dificuldade natural a seu sexo, sempre me sinto na obrigação moral e científica de explicar a meus pacientes e demais hóspedes do estabelecimento todos os aspectos envolvidos no tratamento. Trata-se de uma atitude pedagógica que, em algum nível subterrâneo, talvez a ajude a se curar mais à frente, além de auxiliar a mim mesmo a organizar os meus procedimentos e, portanto, o meu pensamento. Ah sim, a senhora quer saber o que acho não do seu caso clínico mas sim da acusação do seu marido, a saber, que a senhora o teria traído com o sr.Ezequiel. Calma, eu não quis dizer que o seu marido disse que a senhora o teria traído com o seu próprio filho, nesse caso teríamos de chamar um outro tipo de profissional, que aliás pouco me agrada. O que eu quis dizer foi que o seu marido disse que a senhora o teria traído com o seu melhor amigo, o sr.Ezequiel Escobar. Ah, bom. Mesmo assim não está bom, compreendo. Mas respondo à sua interrogação. Deixando à parte, para consideração posterior, o fato de a senhora não afirmar explicitamente, pelo menos até o presente momento, que não traiu de modo algum o seu marido, nem com o sr.Ezequiel Escobar nem com ninguém mais, minha intuição e minha experiência me dizem que a senhora não deve ter traído o seu marido. Então por que está aqui?!, a senhora me pergunta com a devida ênfase, percebi. Eu lhe respondo que não me cabe julgá-la e muito menos condená-la por infidelidade e adultério, tais atos não competem à medicina que professo, mas sim cuidar adequadamente da sua doença e, se possível, curá-la. E se não for possível?!, eu escutei bem, não precisa gritar, por favor, se controle. Não me agradaria chamar a srta.Leonela antes do término dessa nossa sessão. Controlou-se? Muito bom, esse é um bom sinal. Afirmo-lhe então que é possível curá-la e que sou o profissional mais indicado para fazê-lo, não se preocupe, a expressão “se possível” é apenas modéstia científica preventiva. Qual é a sua doença, então? Já lhe disse de maneira sumária, mas passo a lhe explicar um pouco mais detalhadamente, me agrada bastante o seu interesse. Bem, continuando a relevar o fato, para  aquela consideração posterior, de a senhora persistir não afirmando explicitamente que não traiu de modo algum o sr.Bento Santiago, mesmo depois de eu lhe fazer notar isso, passo a comentar a sua doença e o seu caso particular. Contudo, para melhor definir o conteúdo da doença precisamos definir o seu continente, isto é, a pessoa que porta a doença. Então, precisamos perguntar: quem é a senhora? Quem é Capitolina Santiago? Em última instância, mais íntima e mais próxima: quem é Capitu? Vejamos. Há uma expressão, no dossiê-romance do seu marido, que tenta descrevê-la: “olhos de ressaca”. A expressão é precedida daquela outra, proferida pelo sr.José Dias: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Não conhecia esta última? Interessante. Ambas as expressões são fortes, mas a segunda, que parece ter sido pensada primeiro, é um pouco ofensiva, reconheço, enquanto a primeira constitui-se a partir de uma metáfora muito bonita que também me serve. A partir dos seus olhos, as portas da alma!, conforme diziam os antigos, olhos cuja cor vejo agora que oscilam do verde-claro ao azul-escuro como se seguindo a luminosidade do ambiente, a partir desses olhos o sr.Santiago pretendeu que eles lembram e sugerem a ressaca no mar, a saber, a revolta das ondas movidas pela maré e por ventos muito fortes. Interessante notar, de passagem – sim, gosto da palavra “interessante” – mas, interessante notar que o amigo dos dois, supostamente seu amante segundo o sr.Bento, tenha justamente morrido afogado no mar e num dia de ressaca, apesar de nadar muito bem. Bem, normalmente são os melhores nadadores aqueles que morrem afogados, porque lhes falta o medo que garante a sobrevivência cotidiana. Ou seu amante, digo, o sr.Escobar teria preferido morrer no mar, afogado que já se encontrava na ressaca dos olhos de uma certa senhora carioca? Oh, desculpe-me a menção desagradável, compreendo que o estimava, de um jeito ou de outro. Naturalmente que compreendo, a minha função é compreender. Tome, use o meu lenço. Por nada, não se preocupe. Voltemos então a seus olhos de ressaca, neste momento ainda salgados e molhados como as águas da baía de Guanabara, me perdoe a licença poética. A senhora gosta de licenças poéticas? Que bom. Pois são esses seus olhos que mostram a senhora como uma força da natureza, indubitavelmente bela mas igualmente inconstante e, portanto, perigosa. Sim, eu disse perigosa. Seu marido parecia vê-la de ambas as maneiras, sintetizando sua percepção na bela imagem dos olhos de ressaca. Creio que ele se encontrava próximo da verdade, mas não atinou com a verdade mesma. Não creio, tanto pelo dossiê-romance quanto pela minha observação in loco e in pectore, que a senhora mesma seja uma ressaca ambulante, prestes a invadir e afogar as terras e as pessoas. Não. Não me parece que a senhora seja mesmo inconstante. Aliás, se o seu problema fosse esse, o tratamento seria muito fácil e muito mais curto. Não. A senhora é na verdade muito calma e controlada; o que faz é provocar nos outros, jamais em si mesma, as mais terríveis ressacas, afogando as pessoas que a cercam e a amam em incerteza, insegurança e ansiedade, em suma: em desespero. Por isso o sr.Escobar, por conta de sua própria doença em combinação com a da senhora, talvez tenha precisado se afogar em uma ressaca de verdade. Oh, desculpe-me novamente, mas simplesmente não posso censurar as minhas próprias palavras em benefício da precisão do diagnóstico, espero que me entenda. Aqui tem outro lenço pode usá-lo. Dizia eu que a senhora provoca ressacas nos que a cercam. Claro que não se trata apenas da cor dos seus olhos. Ela tão somente espelha e expressa o seu interior, paradoxalmente intenso e plácido ao mesmo tempo. É essa intensidade da senhora e do seu desejo, não importa o objeto desse desejo, que, associada a uma placidez interna impressionante, desequilibra as pessoas à sua volta e em particular os homens, como que devolvendo-nos à nossa lama primitiva. Eu disse nossa? A senhora quer dizer, como se me incluísse entre os homens que você, perdão, que a senhora perturba? Deve ter sido apenas um lapso: a ciência me protege e à senhora, os meus interesses são e só podem ser científicos. Voltemos a seus olhos, mas para sair deles. Há obviamente aspectos psicológicos fundamentais na constituição da sua doença, mas desejo comentar antes os aspectos propriamente físicos...
Talvez por ser tão bela, o sr.Machado de Assis tenha desejado tê-la construído ele mesmo como a personagem feminina mais forte da literatura brasileira... Como? Quem é esse sr. Machado de Assis? Ora, apenas um funcionário público que chegou aqui na Casa Verde contando que escrevera uma história que explicava o amor e todas as suas sombras, com dois personagens chamados Bentinho e Capitu. A coincidência é impressionante, admito, o que só torna o caso de vocês três extremamente interessante. Digo o caso de vocês três porque, antes mesmo do sr.Bento e da senhora, eu já havia internado o sr.Machado de Assis, considerando-o acometido de uma variante mais sofisticada ainda da Fobia de Ficção. Não contente em afirmar que os inventara, à senhora, a seu marido e ao sr.Escobar, que Deus o tenha, ainda afirmou que inventou a mim mesmo, a mim, o dr.Simão Bacamarte que tem à sua frente, e que tinha vindo aqui apenas para tirar uns dedos de prosa com sua própria criação, imagine só. Passarei a me dedicar agora a essa combinação impressionante de doenças mentais, a partir da qual, sem sombra de dúvida, terei todas as condições de compreender e curar a loucura humana...



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Pessoa - Cristiano Menezes

                                                  São tão diversos
                                            os seres que me habitam
                                                  Conheço alguns
                                                  outros nem tanto

                                                 Os que se gostam
                                                  quando juntos
                                                      é festa

                                                 Os que se detestam
                                                  não me habitam
                                                     infestam

                                               Para evitar desconfortos
                                                      já combinei
                                     
                                                 Cada um de uma vez

                                                 Por isso sou assim
                                                 de repente assado
                                                    gosto de rock
                                              mas posso cantar um fado

                                                 Às vezes dou choque
                                                  sou fio desencapado
                                                       até que surge
                                                o que mais gosto em mim

                                               
                                                         O palhaço
                                                 que me faz rir, enfim


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A morte como consolo - Martha Medeiros


Assim como qualquer mortal, eu também esquento a cabeça com questões de difícil praticidade. Teorizar é moleza, mas como agir do mesmo modo que essas supermulheres que a gente vê nas revistas e jornais, sempre bem resolvidas? Você acha que eu sei? Sei nada.
            Também me desgasto com assuntos mundanos, aqueles que nos atormentam dia e noite: sinto ciúmes, me constranjo ao negar convites, às vezes acho que sou severa demais com minhas filhas, às vezes severa de menos, não consigo ser tão solícita quanto gostaria, me sinto desatualizada em relação a tanta coisa, não sei direito a direção para a qual conduzir minha vida, enfim, coisinhas que nos roubam algumas horas preciosas de sono.
            Como não faço terapia e não posso perder nem um minuto precioso de sono, já que normalmente durmo pouco, resolvi procurar um método pessoal para relativizar meus pequenos grilos cotidianos. E encontrei um que pode parecer macabro, mas está funcionando. Quando estou muito preocupada com alguma coisa, penso: eu vou morrer.
            Óbvio que vou morrer, todo mundo sabe que vai morrer um dia, mas a gente evita pensar nesse assunto desagradável. No entanto, tenho pensado na morte não como uma tragédia, mas como um recurso para desencanar dos problemas, e então a morte se torna um ulalá, um paliativo: daqui a quarenta anos, mais ou menos, eu não vou estar mais aqui. O que são quarenta anos? Um flash. Todas as minhas preocupações desaparecerão. Nada do que sinto ou penso permanecerá, ao menos para mim mesmo – o que as pessoas lembrarem de mim será de responsabilidade delas. Eu vou evaporar. Sumir. Escafeder-me. Então pra que me preocupar com bobagem?
            Diante da morte, tudo é bobagem. Recapitulando os exemplos dados no segundo paragrafo: ciúmes? Ouvi bem: ciúmes? De quem, para quê, se todos irão pra baixo da terra e ninguém sobreviverá para cantar vitória? Aproveite os momentos que você tem hoje – hoje! – para desfrutar seus prazeres e não pense em perdas e ganhos, isso não existe, é pura ilusão.
            Os filhos nos amam, mas fatalmente reclamarão de nós um dia, não importa o quão bacana fomos com eles. Ser 100% solícita é coisa para Madre Teresa. Atualização pode ser importante para o trabalho, mas nem sempre para nosso bem- estar. E, finalmente, seja qual for a direção que você der à sua vida, o que importa é que ela seja satisfatória hoje (repito a palavra mágica – hoje!) porque daqui a pouco você e suas preocupações virarão poeira. Até Ivete Sangalo vai virar poeira.
           Importantíssimo (me descuidei, deveria ter colocado esse último parágrafo lá no início, mas já que vou morrer, dane-se): se você tem menos de quarenta anos, desconsidere todas as linhas dessa crônica. Leve seu nascimento a sério. Antes dos quarenta, ninguém vai morrer. Essa é a ordem natural do pensamento humano. Pague seus impostos, preocupe-se com a direção que sua vida está tomando, morra de ciúmes, dê-se o direito de todas as cenas passionais que incrementam seu script: mão se entregue ao fatalismo. Honre o primeiro ato dessa encenação chamada vida.
            Porém, depois dos quarenta, apenas divirta-se e não perca tempo se preocupando com bobagens. Vai dar em nada.



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Porta do lado -- Martha Medeiros



Li uma ótima entrevista dada pelo médico Dráuzio Varella à revista Marie Claire, não lembro exatamente em que edição. Disse ele na entrevista que a gente tem um nível de exigência absurdo em relação à vida, que queremos que absolutamente tudo dê certo, e que às vezes, por aborrecimentos mínimos, somos capazes de passar um dia inteiro de cara amarrada. E aí ele deu um exemplo trivial, que acontece todo dia na vida da gente. É quando um vizinho estaciona o carro muito encostado ao seu na garagem (ou pode ser na vaga do estacionamento do shopping). Em vez de simplesmente entrar pela outra porta, sair com o carro e tratar de sua vida, você bufa, pragueja, esperneia e estraga o que resta do seu dia.
                Acho que essa história de dois carros alinhados, impedindo a abertura da porta do motorista, é um bom exemplo do que torna a vida de algumas pessoas melhor, e a de outra, pior. Tem gente que tem a vida muito parecida com a de seus amigos, mas não entende por que eles parecem ser mais felizes. Será que nada dá errado pra eles? Dá aos montes. Só que, para eles, entrar pela porta do lado, uma vez ou outra, não faz a menor diferença.
                O que não falta neste mundo é gente que se acha o último biscoito do pacote. Que audácia contrariá-los! São aqueles que nunca ouviram falar em saídas de emergência: fincam o pé, compram briga e não deixam barato. Alguém aí falou em complexo de perseguição? Justamente. O mundo versus eles.

                Eu entro muito pela outra porta, e às vezes saio por ela também. É incômodo, tem um freio de mão no meio do caminho, mas é um problema solúvel. E como este, a maioria dos nossos problemões podem ser resolvidos assim, rapidinho. Basta um telefonema, um e-mail, um pedido de desculpas. Um deixar barato. Eu ando deixando de graça, pra ser sincera. 24 horas têm sido pouco pra tudo o que eu tenho que fazer, então não vou perder ainda mais tempo ficando mal-humorada, Se eu procurar, vou encontrar dezenas de situações irritantes e gente idem, pilhas de pessoas que vão atrasar meu dia. Então eu uso a porta do lado e vou tratar do que é importante de fato. Eis a chave do mistério, a fórmula da felicidade, o elixir do bom humor, a razão por que parece que tão pouca coisa na vida dos outros dá errada.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

De volta ao calçadão? - João Ubaldo Ribeiro



Espero que este domingo esteja um dia meteorologicamente irretocável, um sol quase de verão amenizado por ares outonais. Sempre espero mais ou menos isso aliás, mas é frequente que não me dê bem na previsão e o domingo só seja propício para os espíritos melancólicos, que sentem estranho prazer em contemplar sozinhos a paisagem penumbrosa e úmida, a chuva escorrendo pela vidraça e ocultando o horizonte, talvez uns versos de Lupicínio Rodrigues insistindo em ser cantados no fundo da mente, lembranças enevoadas e frias enxameando em torno da cabeça. Porque os melancólicos também são filhos de Deus, dias assim não deixam de ter seu valor e serventia, sublinhando a sutil sabedoria da frase de meu amido Benebê, que às vezes a repete em tertúlias no bar de Espanha, em Itaparica. “O mundo é perfêtcho”, diz ele, em seu implacável sotaque do Recôncavo, e ninguém ousa contestá-lo, inclusive eu, naturalmente.
Sim, o mundo é perfeito, ou tem sido até começar a acabar (vai ver que Benebê vê nisso outra mostra de sua perfeição, porque ele vai acabar para nós, mas não para ele mesmo ou para as baratas), mas peço vênia aos que hoje estão inclinados ao quebranto, ao banzo, a pensamentos macambúzios e diversos outros estados de espírito em que às vezes misteriosamente nos comprazemos, para preferir o sol e a claridade brilhante que para a maioria é a melhor forma de a manhã de domingo apresentar-se.
 Um belo domingo de sol com tudo a que tem direito e por que adiar a temível decisão, que precisará ser tomada mais cedo ou mais tarde?
Sabem os abnegados que me leem, com constância que a malha médica me pegou firme outra vez, desta vez com pinta de quem quer botar tudo no papel passado, ou seja, a malha médica quer casar comigo, ou entrar numa coabitação mais ou menos intensa. Há uns exames programados que ainda não fiz e que, só em olhar para as requisições, me congelam o sangue. Um aqui, deve ser coisa boba, leva cerca de quatro horas. Não sei bem o que me quer dizer minha imbatível equipe de esculápios, mas temo que não façam uma ideia lá muito favorável de minhas condições físicas ou mentais, ou ambas as coisas. Sofro pesadelos em que imagino todos os 11 (ainda não contei, mas acho que já dá um time de futebol, com sobras para um banquinho de reservas) fazendo o comentário que eles fazem entre si, quando deparam um estado de saúde no mínimo estapafúrdio: “É um belo caso”, dizem eles, entre risinhos sádicos. “Belo caso, belo caso!”
Nenhum deles ainda me disse, mas eu sei que sou um belo caso, daí os exames. E daí a inevitável sentença: calçadão. Não serve esteira, porque eu enrolo, não serve bicicleta estacionária, porque me recuso a livrar-me da minha, que deverá fossilizar-se em breve e os arqueólogos não me perdoariam se a jogasse no lixo. E porque se convencionou, ignoro eu a razão, que andar no calçadão é fantástico e nada pode ser comparado ao calçadão e quem não gosta do calçadão é porque  deve ter uma doença rara e que, depois de andar no calçadão, a sensação de euforia e bem-estar é indescritível.
Claro, não espalhem, mas sou um anormal. Outro dia, em palestra com o lépido calçadonista Zuenir Ventura, ele dissertou doutamente sobre endorfinas e ficou pasmo quando eu disse que ignorava os benefícios trazidos por elas, pois que, depois de andar no calçadão, só me vinha uma sensação de alívio e cumprimento de penas no Purgatório, acompanhada do desejo intenso de que uma ressaca cobrisse inteiramente o calçadão no dia seguinte. Ele ficou penalizadíssimo e chamou alguns amigos circunstantes para me mostrar, como quem mostra um ornitorrinco num zoológico. Caso raríssimo de – como diria? – anendorfinia. Fiquei com tanta vergonha de minha doença que perguntei se não dava para injetar endorfinas na veia e ele prometeu verificar para mim.
A malha médica, entretanto, não se contenta com isso, exige o calçadão. Usei todos os argumentos possíveis, notadamente, o que sei que é politicamente muito incorreto, pois abomino o calçadão, embora com todo o respeito pelos seus cultores. Mas ninguém parece a favor da liberdade religiosa e assim sou obrigado, quer queira quer não, a andar no calçadão. Dois ou três membros da malha médica ainda sugeriram que eu me matriculasse numa academia, mas também já tenho essa experiência. Na minha idade, dá muito trabalho adaptar-se a uma subcultura de elevada complexidade como a das academias, onde todo mundo me acha chato e eu acho todo mundo chato.

Ainda não me dei por vencido intimamente, mas já capitulei. Desejei um domingo de sol porque planejava começar hoje, sério mesmo. Comprei um calção novo, sapatos metidos a besta e obviamente superfaturados conforme os costumes nacionais, até uma camisa especial – não sei por que, mas o balconista disse que era especial e eu acredito em tudo o que me dizem. Achei o chapéu e os óculos escuros, está tudo pronto. Mas agora senti que não será hoje. Sempre em perfeita sintonia com a realidade nacional, vou começar de uma forma que, pelo menos simbolicamente represente algo importante para mim e para o Brasil. Já escolhi a data: no dia em que o espetáculo do crescimento começar, podem ter certeza de que estarei marchando briosamente pelo calçadão e vocês vão testemunhar o desempenho do maior caminhador deste país, desde que a coluna Prestes percorreu toda a muralha da China. Esperem sentadinhos, claro, Roma não foi feita num dia.

domingo, 17 de agosto de 2014

O calor e o frio dos outros - Martha Medeiros

                                

Mantenho correspondência por e-mail com algumas pessoas que moram fora de Porto Alegre e fora do Brasil. Não há um único e-mail, de ida ou de volta, em que não se fale rapidamente do tempo. “Aqui está um calor dos infernos.” “Pois aqui choveu o dia inteiro e refrescou.”
            Uma conversa mundana que eu achava típica de pessoas mundanas como eu, mas quando li o livro que traz as cartas que Clarice Lispector trocava com alguns de seus amigos, reparei que 90% delas também continham observações meteorológicas. Por mais filosófico ou intelectual que fosse o teor da carta, sempre havia um momento para falar do sol ou do nublado lá fora.
            Fico pensando o que significa isso. Que me importa se em Paris está chovendo ou se no Rio faz 42 graus à sombra, já que não estou de passagem marcada para lá? O que importa para meus amigos forasteiros se em Porto Alegre choveu muito em 2012? Todos os dias chove ou faz sol, está frio ou quente, úmido ou seco, e a cada manhã isso nos parece um fenômeno sobrenatural e espantoso.
            Creio que compartilhar as condições climáticas do lugar em que se está é um recurso de aproximação. É uma maneira de nos situar geograficamente, de preparar um cenário “visível” para quem não está nos enxergando. Lá no hemisfério norte a pessoa está encarangada, congelada, e no entanto pode nos imaginar bronzeadas e suando, vestindo uma leve blusinha de alças. E talvez seja também uma maneira de justificar nosso humor: temos nossas próprias variações de temperatura, somos pessoas nubladas ou ensolaradas, gélidas ou quentes. A meteorologia nos influencia tanto quanto a posição dos astros, e se não estamos muito pra conversa, vai ver é porque tem uma ventania lá fora que está perturbando por dentro também.
            Não sei se você está lendo este texto na beira da praia ou embrulhado num cobertor. Não sei onde você está. Não sei se há um temporal se armando ou se está um daqueles dias cinzentos que provocam melancolia na gente. Se eu soubesse, talvez soubesse um pouco de você. É um mistério que a natureza não explica: nossa necessidade de localizar o outro climaticamente. Relutamos em perguntar: você está deprimido hoje? chorando muito? com vontade de cometer uma loucura? Com saudades de alguém? Em vez disso, é tão mais fácil: como é que está o tempo aí?

            Aqui, agora, chove, mas acho que vai abrir.

domingo, 1 de junho de 2014

Me conta uma história - Anna Maria Assis Ribeiro

Ela fecha a porta de casa atrás de si e pensa: agora vai passar! A entrada em casa sempre foi o alívio para todos os males. Mas o porto seguro desta vez não está funcionando. Sabe-se lá por que. Coisa esquisita! Será que finalmente a velhice ataca? Não o ficar velha: isto ela o é, desde muito. Mas não haviam aparecido até agora os efeitos desagradáveis da coisa. Mas hoje aquela sensação de tristeza e desamparo se instalou desde cedo.
Depressão senil. Sempre ouviu falar disto. É... vai ver atacou. Quando, como um autômato, foi ao caixa eletrônico tirar dinheiro nem olhou as frutas na Cobal. Tão bonitas sempre, hoje murchas; e as verduras nem verdejavam. Vai ver é isto: na depressão as cores somem substituídas por um cinza feio e sem graça. Fica ali parada sem achar o destino certo dentro de casa. Falta alguma coisa, pensa. É isto! Falta! O que é que falta ela não sabe. Mas a sensação de não estar lá “a coisa que falta”, é verdadeira, é sólida! O que poderá ser? Se falta deve ter um buraco, um vazio em algum lugar. Seus olhos percorrem cada canto, cada objeto.
Ao passar pela foto do pai se detém e se assusta. Não é uma “coisa” que falta. É o pai. Ele mesmo. Pessoa. Mas isto não tem sentido. A falta dele existe sempre e já não dói tanto, faz tempo. Ao contrário, é bom lembrar. Mas é ele. Ela tem certeza. É ele que falta hoje. Deixa-se ficar ali, agora no sofá, olhando a foto. Que estranho! No prédio ao lado uma criança chora... ... e o Pai sorri. Aninha-se no colo dele e pede:
- Pai, conta uma história. Uma história daquelas que muda tudo.
- Muda? O que é que você quer mudar?
- Eu. Muda eu.
- Pra quê?
- Tô triste.
- Ah!
- Conta!
- Tristeza não é ruim. Sabe?
- É, sim. Muito. A história, pai. A história.
A história vem, perfumada pela loção de barba que conduz à calma e ao peso das pálpebras que não têm mais medo de fechar. A história que muda tudo invade o sono. Alça voo nos braços do Pai e faz um pouso suave nos lençóis de linho. Já está dormindo. Mas mesmo assim sente o beijo e o ajeitar das cobertas.
Percebe quando ele sai do quarto ao mesmo tempo permanecendo ao lado da cama na mágica de sua sempre onipresença. Ela ainda murmura: Pai... no prédio ao lado a criança parou de chorar. Da foto o Pai ainda sorri observando a samambaia. É para lá também que vai o olhar dela. Meu Deus! Como está verde! Tão verde! E a volta da cor, conduz o sono.

sábado, 17 de maio de 2014

Gran finale - Angela Delgado

Gran finale  -  Angela Delgado
30 de abril

Nunca tive senso de direção e não seria em outro país que eu o teria.
Como era necessário pegar dois ônibus para ir ao Salão Internacional do Livro, a incerteza sempre baixava: é aqui, ali, esse, aquele? E se eu não memorizava os pontos de ônibus, muito menos diferenciaria rostos rosados pelo frio de motoristas e agentes de trânsito.

- Bonjour, s´il vous plaît, pour aller au Palexpo, l´arrêt du bus c´est ici, monsieur ?  
(Bom-dia, por favor, para se ir ao Palexpo, o ponto de ônibus é esse?)
- Oui, madame !                 

1 de maio

- Bonjour, s´il vous plaît, ce bus-ci  m´amenera-t-il  au Palexpo? 
( Bom-dia, por favor, esse ônibus me levará ao Palexpo?)
- Comme hier, madame ! respondeu sorrindo.
(Como ontem, senhora!)

O evento do Varal do Brasil na Feira Internacional de livros em Genebra só não foi melhor porque apanhei uma gripe que me deu até febre. A organizadora, muito atenciosa e os demais escritores igualmente simpáticos, música e livros interessantes.
Em Genebra, os hotéis oferecem a seus hóspedes um cartão que permite o acesso gratuito a ônibus e tramways, durante todo o período da estada.
Em Paris, entre voltar ao Louvre ou ao Quai d´Orsay, optei por estar com uma amiga, que não via há mais tempo do que os museus e que recentemente se casara com um francês. Após a curta estada parisiense, fui ao encontro de minha irmã que mora na Inglaterra. A travessia no trem-bala foi um pouco decepcionante para quem achava que vislumbraria o Canal da Mancha e, "tchum", mergulharia. Não deu nem para vê-lo. O Euro túnel, na realidade são dois: um para ir e outro para voltar. Trata-se de cinquenta e um quilômetros construídos no subsolo, a cinquenta metros abaixo do leito do mar. Na ida, não houve nenhum aviso. Por acaso, vi pela janela uma plaquinha que passou "voando": Euro Tunnel. Mas, como, sem ao menos um sonoro Welcome to England? Na volta, os franceses anunciam a proximidade do famoso túnel, para os ingleses agora banal.
Na estação de Diss, fui resgatada por minha irmã e seu marido inglês, ambos muito queridos. Fomos para Pulham St Mary, um município encantador, onde fiquei oito dias, indo passear pelos arredores. Voltamos a Diss, onde fomos a um parque e a um Pub, naturalmente; Harleston, onde jantamos em um restaurante indiano, no qual minha irmã quase morre ao mastigar uma pimenta genuína;  Norwich, a capital do condado de Norfolk; Southwold, uma pequena cidade à beira-mar no condado de Suffolk, onde a chuva nos pegou e só não foi um sufoco, porque estávamos prevenidos; Cambridge com seus Colleges seculares e alunos famosos, como Isaac Newton, "Qui genus humanum ingenio superavit" e barcos, como gôndolas de Veneza transportando turistas pelo rio Cam, que deu origem ao nome da cidade; Abingdon, cidade no condado de Oxfordshire, à beira do Tâmisa e Oxford com com seus quadros de Van Dyke e Caravaggio entre inúmeros outros e suas universidades igualmente centenárias e célebres alunos.
Enfim, sem me restringir a Londres, percorremos grande parte do vasto , verde e florido Countryside.
Isso tudo, para mim, que nunca viajara sozinha, além de um prazer, foi uma vitória pessoal e um exercício para os neurônios. Venci meus medos, tomei as inúmeras providências e tout s´est bien passé.
 Aqui me lembro de uma canção do Sacha Distel, narrando o telefonema entre Madame la Marquise e seu mordomo, que lhe assegura que tudo vai muito bem, exceto que o jumento de Madame la Marquise morrera em um incêndio em seu castelo. Daí se intensificam as pequenas desgraças, sempre intercaladas com o refrão à part ça, tout va très bien, até cumular com a notícia da morte do marido de Madame la Marquise.
Felizmente nada de tão grave aconteceu no gran finale de minha viagem, exceto que, ao chegar em Brasília, querendo poupar o marido de uma ida até ao aeroporto, peguei um taxi para casa, onde, após ter pago a corrida e o taxi ter-se ido, reparei, horrorizada, que a mala que trouxera não era a minha!
Afonso estava mesmo predestinado a ir ao aeroporto nesse dia... Retornando com a mala extraviada, encontramos logo uma mulher que veio ao meu encontro fazendo perguntas, dizendo, esclarecendo que o marido dela estava com a minha mala, a qual havia sido devidamente protegida com o celofane rosa, como a de seu marido, motivo do quiproquó. Abracei-a pedindo mil desculpas e coisa e tal. Tenho que confessar que eu é que me apossara primeiro da mala errada, pois me lembro que fora a primeira a aparecer na esteira, o que me deixara bem contente, em minha ingenuidade do que viria pela frente.
 E enquanto, inocentemente, eu me dirigia para casa com uma mala contendo, supostamente, roupas masculinas em vez dos perfumes que eu comprara, minha mala rodava solitária pela esteira, o que suscitara o interesse do segundo personagem deste drama, que dela se apoderou, certamente com um faro detetivesco a perscrutar algum nome ou endereço. 
Sorte minha ter isso acontecido em Brasília e não nos países por onde eu pervagara; sorte maior eu morar relativamente perto do aeroporto e sorte com letra maiúscula o fato de que eu não “perdera tempo” no Freeshop, o que fatalmente faria com que o personagem secundário desse drama perdesse a conexão para o Rio e sua cabeça, o que talvez fizesse com que eu tivesse o mesmo destino do marquês.     

Se algum dia eu proteger minha mala novamente, vou querer uma cor exclusiva!
                      

                                  

domingo, 20 de abril de 2014

Tecendo comentários - Angela Delgado

Muita gente está elogiando Cem anos de solidão, mas como preferi  Vivir para contarla, irei na contramão e contarei sobre o livro que acabei de ler e viver:
I Miserabili, em três volumes, de um dos meus escritores preferidos: Victor Hugo.
Li-o no original antes de 2005, época em que o reli, em sua tradução espanhola, juntamente com uma tradução portuguesa. Esta, a meu ver, malfeita, ou fui eu que estranhei o português do meu querido Portugal.... Não sei mais em que ano o li em inglês, tradução também que pula vários capítulos! Em 2013, comecei a me ensinar italiano, relendo essa mesma obra, com todas as traduções ao redor. Ontem, terminei o terceiro e último volume desse maravilhoso romance de aventura moral.
 Victor Hugo disse uma vez que se não conseguisse emocionar os leitores com Os Miseráveis pararia de escrever! Impossível não ir às lágrimas ao final, mesmo após tê-lo lido em tantas línguas.
Seu resumo se encontra nele próprio: “O livro que o leitor tem neste momento diante dos olhos é, do princípio ao fim, no todo e nos pormenores, quaisquer que sejam as intermitências, as exceções ou defeitos, o caminhar do mal para o bem, do injusto para o justo, do falso para o verdadeiro, da noite para o dia, do apetite para a consciência, da podridão para a vida, da bestialidade para o dever, do inferno para o céu, do nada para Deus. Ponto de partida: a matéria; ponto de chegada: a alma. No começo, hidra; no fim, anjo.”
Para quem quer aprender italiano, como eu, eis a tradução: “Il libro che il lettore ha sotto gli occhi in questo momento, è da cima a fondo, nel suo insieme e nei particolari, qualunque sia le intermittenze, le eccezioni o le manchevolezze, il cammino dal male al bene, dall´ingiusto al giusto, dal falso al vero, dalla notte al giorno, dall´appettito alla conscienza, dal putridume alla vita, dalla bestialità al dovere, dall´inferno al cielo, dal nulla a Dio. Punto di partenza: la materia, punto 
d´arrivo: l´anima. Al principio l´idra, alla fine l´angelo.”
Outras palavras imperdíveis:
“Se a liberdade é o cume, a igualdade é a base. A Igualdade, cidadãos, não é o nivelamento de toda a vegetação, é, civilmente, o mesmo ingresso a todas as aptidões e, religiosamente, todas as consciências com o mesmo direito. A Igualdade tem um órgão: a instrução gratuita e obrigatória. O direito ao alfabeto, é por onde se deve começar. A escola primária imposta a todos, a escola secundária oferecida a todos.”
“Si la liberté est le sommet, l´égalité est la base. L´égalité, citoyens, ce n´est pas toute la végétation à niveau, une société de grands brins d´herbes et de petits chênes; c´est, civilement, toutes les aptitudes ayant la même ouverture; religieusement, toutes les consciences ayant le même droit.
L´Égalité a un organe : l´instruction gratuite et obligatoire. Le droit à l´alphabet,
c´est par là qu´il faut commencer. L´école primaire imposée à tous, l´ecole secondaire offerte a tous.»
Repararam que a tradução portuguesa ignorou a frase, "uma sociedade de relvas crescidas e carvalhos pequenos”, que seria a consequência de um nivelamento, sem levar em conta as naturais diferenças?
Há muito mais. Só comentei esses dois trechinhos do terceiro volume, para não cansá-los.
Quem não leu Os Miseráveis, não sabe o que está perdendo.  
Boa Páscoa a todos!


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Frases de Clarice Lispector (Obrigada, Geo, pelo empréstimo do livro!)

"... Cercas delimitando cantos que não seriam cantos se não houvesse as cercas arbitrárias."
 (Já vejo por outro ângulo: Graças às cercas, a infinitude cansativa se torna um cantinho aconchegante.)

"Com uma sabedoria instintiva, Ermelinda não demonstrou que notara o seu passo para ela,
 assim como não se dá um grito de alegria quando uma criança começa a andar, para que
 esta não pare assustada por meses."

"Se uma pessoa fizesse apenas o que entende, jamais avançaria um passo."

"Um pouco vivida, sabia que na hora as coisas pareciam certas e depois não pareciam mais."

"Quando tomo um calmante, não ouço meu grito, sei que estou gritando, mas não ouço."

"De repente pareceu a Martin que ele andara em caminhos superpostos. E que sua verdadeira 
e invisível jornada se fizera na realidade embaixo do caminho que ele julgara palmilhar.
 E que a verdadeira jornada estava agora saindo subitamente à luz como de um túnel."

"... aquela iminência para a qual tudo pareceu debruçado."

“- E a senhora, por que veio para cá?
  - Que pergunta estúpida. É como se eu lhe perguntasse: por que é que o senhor vive!
  - Porque tenho certo instante em vista, disse ele."

"Deus sabe que há pessoas que não podem viver com a felicidade que há dentro delas,
 e então Ele lhes dá uma superfície de que viver, e lhes dá uma tristeza."

“É preciso ter técnica para pedir. Não é só dizer "me dá" e acabou-se! É preciso pedir disfarçando.
 Se a senhora precisa de um par de sapatos, o mais aconselhável seria dizer aos pouquinhos:
 meus sapatos estão velhos. Compreende? Seu marido um belo dia acordaria de manhã e,
 sem ao menos saber por que, diria assim: Vitória, meu amor, vou lhe dar um par de sapatos!
 Receber pedidos assusta muito as pessoas, que, no entanto, às vezes estão doidas para dar, entendeu?"

"... consigo levava a impressão que hoje, agora, neste momento, enfim se revelava. 
Como se tivesse guardado tanto tempo que o acontecimento enfim exalasse um maduro odor 
de fruto, e o vinho que fora novo tinha ganho espessura e essa qualidade que ilumina uma taça."

“A senhora olhou aquele homem, aquele homem que era cruamente o dia de hoje, e como tocar diretamente no dia de hoje, nós que somos hoje?
 E tudo é teu se tiveres coragem de olhar de frente, mas de súbito, naquele homem ali, 
o tempo viera de tão longe para se esborrachar em: hoje!  Urgente instante de agora.
Por erro de vida - e bastava um erro, nessa coisa frágil que é a direção, para que a pessoa 
não chegue - por um erro de vida ela jamais usara o silencioso pedido que usamos
 que faz com que os outros nos amem."

"Sobressaltou-se de novo, ainda não firme naquelas pernas que lhe estavam sendo dadas.
 E como um cego que tivesse recobrado a visão e não reconhecesse com os olhos aquilo que 
 mãos sensíveis sabiam de cor, ela então fechou um instante as pálpebras, tentando recuperar o conhecimento íntegro anterior; abriu-as de novo e procurou fazer das duas imagens uma só."

“Preciso me exagerar. Senão que é que faço de mim pequena?”

domingo, 23 de março de 2014

Um pouquinho de Humberto Maturana


     Se cuenta la historia de una isla en Alguna Parte, donde los habitantes anhelaban intensamente ir a otro lugar y fundar un mundo más sano y digno. El problema, sin embargo, era que el arte y la ciencia de nadar y navegar nunca habían sido desarrollados (o quizás habían sido perdidos hacia mucho). Por esto había habitantes que simplemente se negaban siquiera a pensar en las alternativas a la vida de la isla, mientras otros hacían algunos intentos de buscar soluciones a sus problemas, sin preocuparse de recuperar para la isla el conocimiento de cruzar las aguas. De vez en cuando, algunos isleños reinventaban el arte de nadar y navegar. También de vez en cuando, llegaba a ellos algún estudiante, y se producía un diálogo como el que sigue:
-          Quiero aprender a nadar.
-          ¿Que arreglos quieres hacer para conseguirlo?
-          Ninguno. Sólo deseo llevar conmigo mi tonelada de repollo.
-          ¿Qué repollo?
-          La comida que necesitaré al otro lado o donde quiera que esté.
-          Pero si hay otras comidas al otro lado.
-          No sé qué quieres decir. No estoy seguro. Tengo que llevar mi repollo.
-          Pero así no podrás nadar, para empezar, con una tonelada de repollo.
-          Entonces no puedo aprender. Tú lo llamas una carga. Yo lo llamo mi nutrición esencial.
-          ¿Supongamos, como una alegoría, que no decimos repollos sino ideas adquiridas, o presuposiciones o certidumbres?
-          Mmmm… Voy a llevar mis repollos donde alguien que entienda mis necesidades.


quinta-feira, 13 de março de 2014

Velhinho em folha - João Ubaldo Ribeiro


     Vai ter reclamação. Sempre tem reclamação, quando me declaro velho. Vem de leitores com mais idade do que eu que me consideram um infante mal saído dos cueiros e veem no que digo a insinuação de que já estão mais ou menos com um pé na cova. Nunca pretendi fazer tal sugestão, mas compreendo que reajam dessa forma e até parei de me chamar de velho. Agora, contudo, é oficial, está na lei. Não a li, mas é do conhecimento público que quem tem mais de sessenta atualmente se enquadra na categoria de idoso, ou seja, velho mesmo. Isto quer dizer que sou idoso há três anos e, portanto, se não posso ter-me na conta de veterano, não há como classificar-me de calouro. Manda a honestidade, porém, que eu confesse ter sido um idoso negligente e alienado. Até a semana passada, nunca havia feito o menor esforço para assumir de verdade minha condição. Mas agora, subitamente, fui despertado para sua plenitude e devo dizer que estou encantado com os horizontes abertos. Achando-me calejado e até meio cético, pensava que não toparia com mais descobertas e desafios. Que engano, que visão estreita da existência! Como tinham razão os que diziam que a vida começa aos sessenta! Vocês, meninas e meninos de cinquenta, ainda não viram nada, em sua ingenuidade juvenil. Percebo claramente que ser idoso é um grande barato e mal posso esperar pelos dias vindouros, quando pretendo explorar todas as vias abertas, cujas potencialidades ainda apenas vislumbro, mas tenho certeza de que serão uma fonte inesgotável de experiências enriquecedoras.                                                                            Sei disso porque já estreei minha (desculpem) idosidade e é igual a um brinquedo novo, não quero largar. Da mesma forma que outros achados felizes, minha iniciação se deu por acaso. Foi numa prosaica fila de banco. Estava eu na fila comum, quando observei, bem ao lado, que havia uma para gestantes, deficientes e idosos. No raciocínio veloz que  me caracteriza, ponderei as informações durante alguns minutos. Não sou deficiente (a não ser mental, mas até hoje relativamente pouca gente reparou), não me encontro grávido, mas – aleluia! – sou idoso. Como perder aquela chance inédita? Senti falta de um fotógrafo para registrar o momento, mas a felicidade não pode se completa e, sem a menor hesitação, passei emocionado e, não nego, um pouco nervoso, para a primeira fila de idosos.                                                                                      Ah, nem lhes conto, foi um impacto atrás do outro. A fila, naturalmente, andava bem mais devagar do que a normal, mas aqueles moços imaturos que compunham a do lado não faziam ideia do que estavam perdendo, a começar pela extraordinária companhia em que me vi, logo rodeado de amigos feitos na hora, todos ansiosos por trocar experiências e estabelecer um sadio convívio geriátrico. Creio até mesmo, Deus me perdoe, pois não quero ser gabola nem indiscreto, que, se tivesse demorado na fila mais do que os quarenta minutos que passei nela, a conversa com a companheira de bengala e aparelho de surdez teria dado futuro. Cheguei a cogitar em pedir o número do telefone dela e só não o fiz porque ela observou que seu programa favorito era bingo e eu não sou bom de bingo. Mas foi muito estimulante para o ego notar que ainda desperto vivo interesse feminino e, se me dedicar um pouco ao bingo ou aos bailes da terceira idade, sou capaz de fazer grande estrago no mulherio, que é que vocês estão pensando?   
         Saí dali para um cenário luminoso e repleto de perspectivas inebriantes. Sim, agora eu via como a vida nos destina surpresas preciosas, descerrava-se um mundo ignoto e inexplorado, cabia esmiuçar cada possibilidade, era preciso desfrutar do esplêndido leque que se desdobrava, uma avalanche tão farta que estonteava. Por onde começar? Difícil, bem difícil, mas ao mesmo tempo fácil, é só não se afobar e ir pegando o que aparece, sem dar importância a prioridades complicadas de estabelecer, deixando a vida me levar.
          E ela leva. Mal pus os pés na rua, quis o feliz acaso que eu comprasse um jornal e visse, logo de primeira, que o Estatuto do Idoso prevê adoção para nós. O coração bateu mais acelerado. Adoção? Quer dizer que poderei inscrever-me num dos programas que certamente serão criados e esperar pelos meus pais adotivos? Não se deve querer impor condições excessivas ao processo de adoção, mas de uma coisa estou seguro. Vou querer um pai tipo paizão mesmo e, se prometo bom comportamento (inclusive tomar banho assiduamente, pois li também que nós, idosos, costumamos criar dificuldades para tomar banho, coisa que ainda não faço, mas vou treinar para fazer, enquanto não for adotado), exijo mesada digna e Papai Noel, espero ser levado regularmente ao Maracanã e, quando completar setentinha, comemorar no Disney World. Além, é claro, de passar as manhãs no Baixo Vovô, fruto natural da existência, inegavelmente discriminatória, do Baixo Bebê, aqui no Leblon.
          Fiquei tão exultante que decidi ostentar meus status e mesmo inaugurar uma linha de camisetas para nossa identificação, com dizeres apropriados. Aceito sugestões, porque até agora só bolei “Idoso – Use sem agitar”, o que pode ser até um bom começo, mas haverá melhores. O céu é o limite e, garanto a vocês, minha próxima iniciativa, acreditem se quiserem, será usar meu sagrado direito de andar de graça nos ônibus. Estou apenas aguardando que se apresentem voluntários para minha equipe de apoio, pois dizem que exercer esse direito é um esporte radical, que requer adestramento especial e uso de capacete, joelheiras, cotoveleiras e tanque de oxigênio portátil. Mas um dia destes eu tomo uma papinha de aveia reforçada, meto no juízo uma dose dupla de Maracugina, fico doidão e encaro. O idoso brasileiro é o melhor do mundo.



domingo, 2 de março de 2014

QUEDA DO MINISTRO EM TRÊS TEMPOS -- Anna Maria Assis Ribeiro

Episódio 1

Orgulhosa, ela escutou o convite: o Ministro queria conhecê-la. Sua solução para a automação no tratamento das informações daquele importante projeto era uma inovação, na época. Merecia elogios. Aprontou-se, o mais executiva que conseguiu com seu guarda-roupa nada ortodoxo e mandou-se para o ministério. Ali sentada, frente ao Ministro emoldurado pela Bandeira e pelo retrato do Presidente, deitou falação. Às folhas tantas o Ministro embatucou diante de uma fórmula matemática. Ela levantou-se, rodeou a mesa e colocou-se em pé, a seu lado, curvando-se para melhor explicar. Foi neste exato momento que sentiu alguma coisa roçar no peito do pé, acondicionado numa meia Dior, como pedia a ocasião (naquele tempo os Ministros eram importantíssimos! Acreditem os mais jovens). Deus! Faça com que não tenha corrido um fio! Esta meia é caríssima! Um discreto olhar revelou o horror! Uma barata instalara-se ali! O mundo desabou. Tudo escureceu! Privação de sentidos total! Ao voltar a si, percebeu-se de quatro, em cima da mesa do Ministro, aos gritos: Mata! Mata! A Bandeira e o Presidente da República ainda ladeavam o Ministro que em pé, com uma frieza glacial, ordenou: a senhora desça! Procurando manter elegância, impossível pelo quadrúpede recuo, escorregou mesa abaixo, obedecendo à ordem severa: a senhora está dispensada.
Episódio 2
Alguns meses depois. No dia 29 de dezembro duas datilógrafas batiam furiosamente uma Instrução Especial que teria efeitos tributários e que deveria para tanto, depois de assinada pelo Ministro, ser publicada no DO, antes do dia 31. Naquele tempo não existia xerox e o raio da Instrução era em 8 vias. As máquinas não eram corretivas e as cópias eram feitas com carbono, naquelas folhas fininhas, fininhas. Um trabalho cão. Terminaram já tarde. Alguém graduado tinha que ir colher a assinatura do Ministro. Infelizmente o único alguém disponível era ela. Fazer o quê? Disfarçou-se o mais que pode. Mas não surtiu efeito. Ao entrar viu o horror do reconhecimento nos olhos do Ministro. Um exame discreto para o chão garantiu a não existência de baratas por perto e ela postou-se ao lado do Ministro virando as páginas para que ele rubricasse cada uma daquelas malditas folhas de papel fino. A cada folha um sentimento de alívio. Nada iria acontecer. Foi aí que surgiu, sabe-se lá de onde, um copeiro com uma bandeja com xícaras de café. Cheias e pelando. Ao levantar o braço, alçando mais uma folha, foi-se a bandeja pelos ares. As xícaras derramaram-se sobre o Ministro e sobre a Instrução Especial, inundando-os de café. Em sua aflição ela tentou secá-lo com as próprias folhas da Instrução enquanto ele se debatia aos tapas, tentando dela se livrar. Escorraçada, ela retornou e confessou-se ao Presidente e ao Diretor que entre risos e censuras fizeram com que duas datilógrafas passassem a noite em claro (nunca mais falaram com ela, as duas).
Episódio 3
Alguns meses mais se passaram e ela foi chamada ao Gabinete do Presidente. O Diretor também estava presente. Solenes eles informaram que a Missão Francesa viria visitar a instituição, a convite do Ministro. Ela, em hipótese alguma, deveria estar presente. Que fosse a praia, ao cinema, onde bem lhe desse na telha, mas sob pretexto algum deveria aparecer nas imediações do prédio, no dia da visita. Enfim alguma coisa de bom havia resultado dos incidentes. O acúmulo de trabalho lhe tirava até os fins de semana. Uma trégua seria mais que bem vinda. No dia da visita arrebanhou os filhos: vamos à praia! Se eu vou faltar ao trabalho, vocês vão faltar colégio! Uma heresia nunca vista! Naquele tempo ela não tinha telefone. Era difícil conseguir. Era o número 1.144 da fila para obtê-lo! A campainha da porta revelou um colega e o prenúncio de tragédia: o interprete havia quebrado a perna num acidente de carro. Que conhecesse o projeto e falasse francês só mesmo ela. Tremeu! Uma hora depois se viu numa sala, sentada como um suspeito em interrogatório, acuada pelo Diretor e pelo Presidente que de pé, ferozes, gritavam: fique o mais afastada possível! Imóvel. Aja como um robô!  O olhar do Ministro, ao vê-la, revelou pânico. Ela engoliu em seco e com uma voz trêmula começou a traduzir e verter as diversas manifestações. Aos poucos foi se acalmando. É claro que nada iria acontecer. Até o momento em que um idiota qualquer sugeriu que o Ministro mostrasse ao General Francês, o CPD. Naquele tempo computadores eram raridades dignas de serem exibidas. A escada que conduzia ao CPD não tinha o espelho dos degraus. O Ministro, ao lado do General, começou a descida. Ela veio atrás, traduzindo, furiosamente. E... eis que o salto de seu sapato pisa fora do degrau e ela tomba para frente. Falta de outro apoio agarra-se às costas... do Ministro. Alguém que estava atrás impede sua queda. Mas ninguém, ninguém mesmo, impede a do Ministro que rola os felizmente poucos degraus que faltavam. Confusão total. Todos se precipitaram para ajudar o Ministro a recompor-se da queda. Ele levanta-se rubro de raiva gritando: esta mulher é uma catástrofe! Demita-se!
Epílogo
O Diretor e o Presidente não cumpriram a ordem e ela ficou escondida, impedida de participar de qualquer evento em que o Ministro pudesse estar presente. Já se passaram anos, muitos anos. O trauma causado não a abandonou, nem com seis anos de terapia. O Ministro, agora bem velhinho, às vezes vem ao Rio. Quando ela vê seu nome nos jornais recusa-se a sair de casa. Não importa o que tenha que fazer. Tranca-se no quarto enquanto ele permanece na cidade. Tem certeza que se pisar fora de casa, vai topar com ele e sabe-se lá o que poderá ocorrer! Pensa, às vezes, em se converter a alguma religião que, afirmando a existência de reencarnação, explique o que este Ministro lhe teria feito de terrível em outras vidas. Isto explicaria tudo e ela poderia se livrar, sem culpa, deste Carma.