Mostrando postagens com marcador Genserico Junior. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Genserico Junior. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Melancolia - Genserico Júnior

Ensaio - manifesto

Melancolia é um belo filme de Lars von Trier, boquirroto cineasta dinamarquês que, por falar demais, não logrou a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes no ano passado. Entre outras parlapatices, em entrevista aos jornalistas, disse que, se pudesse acabar com a humanidade de maneira instantânea e indolor, acionando um botão ou outro expediente parecido, o faria.

No citado filme, a Terra desaparece do mapa universal, depois de uma explosão proveniente da colisão com um planeta descarrilado vagando pelo espaço sideral, chamado Melancolia. Mistérios da ficção: quem teria contado tal história depois da hecatombe?

Após essa introdução, vamos ao que interessa no momento: organizar meus argumentos a respeito de um assunto polêmico e expô-los aos meus leitores. Não se trata de algo bombástico como o pensamento daquele cineasta. Mesmo que assim pensasse, não teria coragem de divulgá-lo. O von Trier é um maluco beleza!

Segundo o estado da arte científica dos nossos dias, não existe vida em outros planetas. Ela é exclusiva da nossa pequena Terra. Isso não garante que não possa existir vida alhures, desde que existam as condições físico-químicas propícias, e venham a ocorrer os mesmos fenômenos aleatórios que fizeram o aparecimento da vida humana, inteligente, animal e vegetal por aqui. Uma coisa interessante a observar é que a vida em outros corpos celestes não deva necessariamente existir ao mesmo tempo que a nossa. Pode ter ocorrido há alguns milhões de anos ou mesmo vir a acontecer num futuro longínquo, milhões de anos distante de nosso tempo.

Segundo a nossa ciência, o Universo (ou Multiverso, como queiram) é mineral. Salvo melhor juízo, não há sinal de vida vegetal nem animal, muito menos inteligente, em outras galáxias, sistemas ou planetas até agora conhecidos. Portanto, não estou aqui pregando a exclusividade da vida para a Terra. Estou tão somente afirmando que a ciência, em seu estágio atual, desconhece vida que não seja por aqui.

Esse pensamento é geralmente criticado com o argumento de que seria muita pretensão de nossa parte, admitir que sejamos o único lugar no Universo a ter vida. Implícito a esse raciocínio está a premissa de que a vida é uma preciosidade, a mais maravilhosa de todas as coisas do Universo. Trata-se de um pensamento antropocêntrico.

A vida pode ser uma doença, uma espécie de câncer no Universo, que aconteceu por aqui. Aparentemente benigno, pode se transformar em maligno. Aproveitando a oportunidade, alguém já disse que “A vida é uma doença letal, transmissível sexualmente”.

Intermezzo segundo Richard Dawkins: A natureza – incluindo aí a humana – e tudo o que nos cerca são pura magia do acaso, de um processo incansável e imemorial de tentativa e erro evolucionário da ciência e da paradoxal linearidade do caos. A vida humana é de uma monumental insignificância, pois somos apenas mais uma entre milhões e milhões de espécies que a habitaram e habitam este tão frágil planeta.

Diante do exposto, proponho uma atitude aos terráqueos, que, embora possa não se basear numa verdade à luz da ciência no futuro, é uma posição politicamente correta para os dias que correm. Não tem nada de antropocentrismo, nem soberba de sermos os únicos seres vivos no Universo. Nada disso.

Trata-se do seguinte: assumamos, por hipótese até aqui admitida pela ciência, que a Terra tenha a exclusividade da vida no Universo. Assim nós temos a obrigação de preservá-la para, inclusive, perpetuar a inteligência no Cosmos. Ela pode ser uma doença, seja lá o que for, mas é a nossa vida. Embora a morte individual seja uma fatalidade, façamos o possível para manter a vida planetária (a animal, a vegetal e a humana), a despeito dos perigos que possam acontecer daqui para frente.

Sobre esse último detalhe, é sabido que houve grandes acidentes ao longo da história de nosso planeta. Até a Bíblia conta o infausto dilúvio que o temível Deus nos mandou, mas o bondoso e mesmo Deus logo arranjou uma maneira de nos salvar da extinção total, com o engenho e a arte de Noé. É sabido também que um asteroide gigantesco colidiu com a Terra em tempos pré-bíblicos, acabando com a raça dos dinossauros, o que, de certa forma, foi um acidente abençoado, pois só sem a presença desses mastodontes houve possibilidade da aparição dos mamíferos, inclusive os humanos. Pode, por que não, acontecer outro cataclismo geral e irrestrito, mas isso será um acidente que não poderíamos contornar, a não ser emigrando para outro planeta, redirecionando o bólido sideral para fora da nossa órbita, se for o caso, ou mesmo salvando-nos das catástrofes terrenas.

Estou a pregar essa atitude, exatamente nesta época, em que se deu a Conferência Internacional sobre o Meio Ambiente, conhecida popularmente como Rio + 20. É fundamental que todos nós nos conscientizemos dos perigos que corremos com a deterioração ambiental de nosso planeta e a possibilidade de nós mesmos provocarmos nossa extinção, não somente da vida no planeta Terra, mas da vida no Universo. A responsabilidade é muito maior do que pensávamos com essa colocação, contextualizando-a no plano universal.

Assim pensando, podemos dizer que a vida na Terra é a guardiã da memória, da cultura, da consciência e da inteligência do imenso Universo. Fora disso, resta a mineralidade. Só nós fazemos o Universo existir. Só nós o validamos. O Universo, sem o observador inteligente, não se reconhece como tal.

Uma lembrança pitoresca me ocorre agora. Antigamente eu ficava grilado com o concurso de Miss Universo. Implicava com esse nome. Por que Universo? Tem que ser Miss Terra ou Mundo ou Planeta, mas não Universo. Contudo, atentem, se o nosso raciocínio procede, de fato, a mulher eleita a mais bela do concurso seria, efetivamente, a Miss Universo. Um detalhe hilário para congregar mais adeptos masculinos para a minha tese: mulher só existe aqui neste pedaço.

Conheci um senhor maduro no Acre, pessoa muito interessante, ambientalista radical que, a despeito de seu pessimismo sobre as ações humanas a respeito da sustentabilidade do planeta, sustenta sim que solução haverá, nem que seja pelas mãos da própria mãe natureza, com acidentes localizados ou globalizados, a partir dos quais, depois da destruição, renascerá um novo equilíbrio.

De minha parte, eu não acredito no desenvolvimento com sustentabilidade. Todo desenvolvimento, todo crescimento, quase todas as atividades humanas são predatórias e não têm jeito. A mais nefasta das atividades humana é o próprio aumento populacional. Só acredito na possibilidade de uma tênue tentativa de minimizar os efeitos perversos da nossa ação. A não ser que se possa mudar o infeliz sistema econômico que preside todas as atividades e mentes ao redor do planetinha, que atende pelo nome de Capitalismo. Sua voragem, seu modo de produção, seu consumismo, seu hedonismo. Seja lá o nome que venha a ser dado a isso. Poderia até ser chamado de Melancolia.

Façamos tudo e vamos torcer para que a desgraça do von Trier não nos abata, nem como acidente, como degradação ambiental e nem tampouco como desprezo pelo gênero humano.

Para terminar o brado retumbante, política e inocentemente otimista, de um declarado, incorrigível e convicto pessimista: “Viva a vida!”






   
 ANO XI - N° 307, em 10 de 
Sugestão  de (re)leitura: 250 – Tema do Traidor e do Herói.
Genserico Encarnação Júnior, 73 anos.
Itapoã, Vila Velha (ES).

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Caixa de Pandora - Genserico Júnior

Adaptação de um mito grego Prossegue a temporada jornalegórica dos mitos metafóricos, de sentido parabólico, incorporando estilos hiperbólico, onírico, telúrico, lúdico, idílico, etílico, elíptico, poético, caótico e diabólico, com sutil olhar político. Esse palavrório inicial serve tão somente para impressionar e confundir o pobre leitor. Exatamente para isso: não está aqui para esclarecer, mas para obnubilar ainda mais o panorama visto da ponte. Quem quiser que destrinche as chacrinhas, digo, as charadas. Não estamos em época de falar às claras, diante do respeito, e mesmo temor que tenho pelo dito senso comum, que atende também pelo nome de opinião pública, de um público mesmerizado pela não dita e maldita, porque parcial, opinião publicada da grande mídia nacional. Eis a nova história: Brasiliano mantinha no fundo dos seus guardados uma caixinha com aplicações de marchetaria, de estilo árabe, que lhe foi presenteada por um gênio mesopotâmico, quando naquela região babilônica esteve, no início da década dos anos setenta do já saudoso século passado. Caixa que foi bem preservada durante todo esse tempo, mas que lhe reservou incontáveis surpresas, como a seguir contarei, tal como um emocionante e aterrorizante jogo de futebol do meu time no brasileirão deste ano, perigando cair no caldeirão do mundo inferior da segundona. Desde que recebeu a caixinha, ela fora displicentemente colocada no chão, num canto esquecido do seu escritório, sob uma coluna de pastas contendo papéis antigos, e nunca foi aberta. A experiência o aconselhava a não abri-la jamais, dada a sua origem misteriosa. Ninguém sabe o que ali estaria guardado, principalmente por ser um regalo de um gênio (gênio mesmo, daqueles que saem das lâmpadas maravilhosas). Aliás, esse maravilhoso ser o advertira nesse sentido, pois em tal interior teriam sido depositados segredos milenares da oriental sabedoria. Foi a sua arrumadeira, a Jefinha, quem bisbilhotou o misterioso objeto, possivelmente em busca de alguma coisa valiosa: dinheiro, jóias, dólares, euros, para compensar a parca remuneração que recebia do seu patrão, um pensador politicamente correto, mas um mão de vaca dos mais renhidos, coitado, por ter-se transformado em um aposentado senil, desamparado também pela sociedade, especialmente pelo INSS e pelo SUS. Assim posto, era incompatível seu estado de penúria com as grandes expectativas de Jefinha quanto ao conteúdo do receptáculo (para não ficar repetindo caixinha, caixinha...). O fato é que o recipiente (sempre evitando a repetição) enfim foi violentado. De lá saiu o pecado que gera todos os males do mundo: corrupção em todas as suas formas e nuances, e, ainda, todas essas imundícies humanas que fazem parte do jogo dos viventes em seu exercício de convivência, de competição e de poder. Saiu muito mais do que um simples reforço na mesada que tanto interessava a faxineira. Foi então que essa vetusta e rotunda senhora, frustrada com a aparição de tantas desgraças, na esperança de encontrar o perdão ou se vingar do pão-duro de seu patrão, pegou o seu celular, ligou para o 190 e delatou os males que estavam ocorrendo na vizinhança que, segundo ela, teriam origem na abertura daquela caixa misteriosa. Instaurado, o devido inquérito superou em todos os sentidos o que foi denunciado. O assunto foi levado à consideração suprema de uma corte de sábios que analisou a fundo a procedência do acontecido, julgou e condenou Brasiliano e Jefinha às miasmas do cativeiro por um longo período de tempo. Eles ainda penam por lá, não se sabe quando sairão. Mas a desgraça era tanta que transbordou da culpa do Brasiliano e de sua serviçal. A população atônita viu-se surpreendida com tanta sorte de torpeza e impureza que dali continuou saindo. Se possível voltar atrás, talvez fosse melhor nunca ter dado à luz tamanha porcariada, estancando a fonte de todas essas mazelas, pensou Jefinha. Manteria tudo por baixo da tapeçaria. Mas não se pode voltar no tempo. É para frente que se anda. O julgamento das imundícies foi exemplar. Espera-se que os ânimos delituosos se arrefeçam daqui para frente. Contudo, como deveria ser, o exemplo repercutiu para além (ou seria aquém?), do que foi julgado pelos zeuses. A caça às bruxas retrocedeu no tempo e foram julgados, culpados e condenados todos os responsáveis por terríveis delitos cometidos pratrasmente. E assim aconteceu: foi uma enxurrada de desgraças que assomou à superfície do pântano, o que deixou ainda, por muito tempo, a população estupefata, principalmente pelo cheiro que exalava. Mas assim é que deve ser, desde a prática da medicina antiga, quando se recorria às sangrias para extirpar o mal de certas doenças do organismo infectado, até o ápice da psicanálise freudiana que procura o afloramento e a consequente conscientização daquilo que está guardado nos escaninhos escabrosos da mente humana, para se chegar à saúde plena. Se não tanto, minimizar os males das doenças. Assim é também a vida das pessoas, que só melhora quando se perscruta o que vai além das aparências. Muitos são de opinião que se deve tampar a caixa tenebrosa de Pandora do Brasiliano, para se evitarem maiores tumultos. Outros, como eu, consideram ser bem melhor mantê-la aberta, deixando escorrer o sangue ruim ou, alternativamente, deitarmo-nos todos no divã do mestre austríaco. Para tornar exemplar o julgamento, faz-se mister deixar sair toda a podridão contida e chegar às últimas consequências da exumação, porque, caso contrário estaríamos vivendo no vergonhoso reino da indignação seletiva. No dia a dia da convivência entre as pessoas em nossas sociedades atuais, já não se pode mais apelar para a justiça de Zeus, no seu Olimpo, há muito alheio às nossas vicissitudes, para que nos livre de nossos males, amém. Só com a abertura da realidade, evitando-se os exibicionismos gratuitos e distorções mal intencionadas, se consegue um mínimo de correção dessas nossas distorcidas alminhas humanas que, pela observação milenar da espécie, se encontra em pleno processo de transformação, mas ainda muito longe do dia em que iremos galgar o Olimpo, e nos transformarmos também em semideuses, substituindo os zeuses decaídos. Isso jamais acontecerá. Palavra de contador de causos mitológicos revisitados. Afinal, os mitos originais foram criados há milhares de anos e ainda se prestam a adaptações atualizadíssimas. Nada de muito novo acontece que não tenha acontecido desde que o mundo é mundo. O conteúdo é sempre o mesmo, a forma é que muda. Itapoã, Vila Velha (ES). jornalego@terra.com.br www.ecen.com/jornalego

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Surfando a onda - Genserico Júnor



Lanço uma nova bossa: uma crônica com vários títulos. Estava para escolher um entre os três que aí estão; na dúvida, eles foram ficando, ficando e enfim ficaram. Apraz-me cometer ligeira subversão dos costumes já que não tenho coragem para maiores transgressões.

Como corre o tempo! Nesta data o JORNALEGO completa seis anos de idade. O selo “ANO VII” já encabeça o presente texto, mostrando que o periódico decendial entra no sétimo ano de sua existência. No próximo número, também a dezena que se segue ao nome do redator, ao final de cada exemplar, pulará mais uma unidade. E como isso se reflete no viver, no pensar, no escrever! É por essa razão que as marcas do tempo vão sendo registradas por aqui. Esse expediente serve para o leitor considerar a passagem do tempo e aquilatar como ela afeta a cabeça do autor. Nos primórdios desta invenção jornalístico-literária, não expunha a minha idade escancaradamente. No entanto, compreendi que é importante para o leitor saber que quem escreve já rodou bastante, e que o que ele escreve está intimamente ligado ao seu DNA (data de nascimento antiga). Vejam, por exemplo, esta crônica, cujo tema já está ficando crônico.

Para começar introduzamos algumas máximas de celebridades intelectuais ao texto. Marx já dizia que a história só se repete sob a forma de farsa. Norberto Bobbio, sobre a senectude, chamou-a de tempo da memória. De minha lavra, mas sem a pretensão de me ombrear com os já citados: o passado só se recupera sob a forma de recordações, e essas, geralmente são ficcionais.

O que acontece nestes tempos pós-modernos, pós-industriais em que vivemos é que o hoje parece não ter relação alguma com o passado, não é a sua continuação. O futuro nunca foi a simples projeção do passado, ele contém o seu próprio germe. Mas o descolamento do que já foi com o que é e será, nos tempos que correm, é muito mais pronunciado do que fora antes.

O século passado, o estonteante início do atual – a que chamarei de tempo presente – e o que nos aguarda no futuro deixam-me pensativo e preocupado.

O novo século traz em seu bojo, novamente, depois que o fantasma de uma hecatombe nuclear parece superado, a possibilidade de extinção da humanidade, ou de grande parte dela, pela deterioração ambiental do planeta. Produto da estressante atividade econômica capitalística e da superpopulação mundial. Essa situação colabora para o embrutecimento dos costumes e das relações sociais, e daí, o perigo da decadência global.

As bases daquela atividade, as fontes primárias de energia, cuja maioria é ainda jurássica, vêm sendo disputadas a ferro e a fogo e seu consumo gera danos irreparáveis ao meio ambiente (inclusive a energia de geração hidráulica com a construção das grandes barragens). Se, por exemplo, a China vier a ter, com a sua enorme população, os mesmos índices per-capita de consumo energético registrados pelos americanos, o planeta possivelmente não suportará. Está sendo anunciada uma crise mundial de alimentos, devido às enormes populações da Índia, da China e, em menor grau, do Brasil, que estão se alimentando mais e melhor. Um fenômeno mais novo ainda é a possibilidade de a nova geração de energia, a partir dos biocombustíveis, vir a concorrer com a produção de alimentos, ocupando-lhe os seus espaços agricultáveis.

Há poucos dias assisti a três filmes que me deixaram inquieto, a provocar curtos circuitos nos meus neurônios ainda ativos, muito depois que a poeira das tramas cinematográficas se assentasse. O primeiro foi Onde Os Fracos Não Têm Vez (atentem para o título original em inglês: No Country For Old Men, que eu traduziria livremente como “não há lugar para os homens velhos”, muito mais contundente do que o título em português). Seguiu-lhe o Sangue Negro, uma história sobre as origens da exploração do petróleo (com o título original em inglês: There Will Be Blood, acredito que essa seja uma máxima bíblica, apocalíptica, que eu traduziria livremente por “choverá sangue”). Esses filmes são americanos e concorreram ao Oscar. Existe, portanto, vida inteligente no planeta Bush! O primeiro ganhou a estatueta do melhor filme e do melhor coadjuvante; o outro, o de melhor ator. Finalmente, assistido mais recentemente, Em Busca da Vida, um filme chinês (Hong Kong) com o título original inglês: Still Life (expressão idiomática que significa Natureza Morta).

São filmes que ultrapassaram a barreira prosaica do cinema, a de apenas contar uma boa história, com boas imagens e belas interpretações. Ao transpor os limites do entretenimento, esses filmes deixaram em mim um rastro de inquietação intelectual. Afinal, estamos falando da Sétima Arte. Portanto reverenciemo-la.

Pois bem, esses filmes me fizeram pensar que o novo século vem derrubando tudo o que era válido no passado e que a linguagem atual é a da força, da violência, do progresso a qualquer custo, do dinheiro, e que tudo mais vá para o inferno. Se é que o inferno já não é esse que os novos tempos trouxeram.

Onde os Fracos Não Têm Vez mostra a violência insensível utilizada para se apoderar de um punhado de dinheiro, produto de atividade criminosa. Patética é a impotência do velho xerife, demonstrada pela impossibilidade de compreender o que estava se passando ou pela tentativa frustrada de fazer justiça. Sangue Negro, por sua vez, associa a violência à atividade petroleira desde as suas origens, agora magnificada com a violência institucionalizada dos impérios contra os povos produtores. Em Busca da Vida, a implacabilidade do progresso sobre as populações carentes, criando-lhes dificuldades e situações pessoais desumanas. No caso específico, tratava da construção de barragens para geração de hidreletricidade.

Vejam o que acabo de ler na imprensa local: um pronunciamento da candidata à indicação dos democratas à Presidência dos Estados Unidos, depois de sua vitória nas prévias da Pensilvânia: “Se eu for eleita presidente, aviso que nós vamos atacar o Irã e destruí-lo.” [A acreditar no que publicou A Gazeta (ES), em 24-04-2008].

Não há mais espaço para o passado ou idéias passadistas. O velho já morreu, e o novo nasceu natimorto. O espaço do passado é a memória ficcional. São tempos duros!

Por mais que queira evitar ser saudosista, corro o risco de ser considerado como tal e sê-lo, efetivamente. Vivíamos um tempo de esperança. Agora prevalece o desespero. O fim dos grandes discursos ideológicos deixou o ser humano (principalmente o jovem) egoísta, hedonista e místico.

Esta é a crônica dos tempos que correm. Vejo o ser humano se equilibrar numa prancha de surfe, na descendente de uma onda de dimensões havaianas. O que o aguarda? Uma capotagem na descida da grande vaga provocando um fatal acidente de percurso ou uma chegada triunfante, suave, nas franjas espumantes e tranqüilas que a mesma onda faz chegar à praia?

Deu para entender? Meio confuso, meio embolado, não? Samba do branquelo doido. Livre pensar, tão-somente. Pessimista, sim. Esta, por acaso, seria a melhor maneira, a mais correta, de se comemorarem datas natalícias? Parece que bebi! Mas ainda não. No próximo dia 8 vou tomar um porre com o oportuníssimo, sintomático e também velho uísque VAT 69. Estou indo. Fui.

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego