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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Alta ajuda - Tarlei Martins


Li em algum lugar que a filosofia é uma espécie de auto desajuda. É que a filosofia não facilita nada. Não tenho a menor atração pela dita literatura de autoajuda. Não gosto do excesso de simplificação que é o caminho da autoajuda. Também não gosto do excesso de complicação pelo qual costuma se embrenhar a filosofia – ou certos filósofos. Sou devoto mesmo é da alta ajuda que pode advir da alta literatura. O ser humano é um macaco complexo, como já disse Caetano numa canção. A literatura é um dos mais sofisticados e complexos exercícios de alteridade a que um ser humano, esse macaco complexo, pode se entregar. Porque a verdade é que quase nada sabemos de nós mesmos. A literatura nasce da falta, da falha… Somos cheios de buracos. A literatura é o impulso que leva o homem a querer saber de si – que é um querer saber de todos. Como diz uma canção, “todos nós um nó / todos nós os mesmos”. A literatura é a arte da procura. Quem escreve literatura, quem vai ao fundo de si mesmo, às vezes tem vislumbres de como se tramam os fios do feixe de sentimentos que comanda e sustenta o macaco complexo que somos. Esses vagos clarões sobre a desordem constitutiva dos nossos sentimentos são altamente redentores, humanizadores. A alta literatura propicia o que tão sabiamente disse Guimarães Rosa: “É preciso sentir até tirar as cascas da alma”. É isso que nos salva. Ou nos põe no caminho da salvação. Amém.

sábado, 8 de setembro de 2012

De alma leve (O que o vento não levou)


O mantra da maioria é: eu quero é mais. O meu é: eu quero é menos. Claro que o sentido desse “mais/menos” repousa no “ter”. Quando se trata dos domínios do “ser”, aí, sim, quero mais. No mais, quero menos. Em matéria de “ter”, vale lembrar a sábia observação do Millôr Fernandes: “O importante é ter sem que o ter te tenha”. Em matéria de querer menos, caminho na direção desses versos do poeta José Paulo Paes: “Para quem pediu sempre tão pouco / o nada positivamente é um exagero”. E se eu chegar a esse nível de desapego, poderei, enfim, subscrever estas palavras do José Saramago: “Talvez por nunca ter querido nada, tenho tudo”. A prática do desapego é um caminho seguro para a felicidade, felicidade que, segundo uma máxima latina, “é desejar o que se pode, e poder o que se deseja”. Tudo o que desejo é poder viver de alma leve, sempre aferindo se na bagagem não há pesos inúteis que podem ser eliminados. O budismo fala em caminho do meio como medida de equilíbrio. Eu proponho o caminho do menos. Acredito que na vida, tal como na matemática, menos com menos dá mais. Exemplos: menos gula com menos caloria dá mais saúde; menos ambição com menos competição dá mais leveza; menos apego com menos desejo dá mais contentamento; menos trabalho com menos pressa dá mais ócio etc. Ter mais com menos é tudo que quero. E esse tudo virá de eu nada querer, o que me lembra esta frase: “Eu não tenho nada e nada me falta”. Melhor que isso, só estes versos do Fernando Pessoa/Ricardo Reis: “Quer pouco: terás tudo. Quer nada: serás livre”. Hoje não quero nada além de um excelente fim de semana para mim e para todos! Isso é querer muito?

sábado, 11 de agosto de 2012

O fio da palavra - Tarlei Martins Ferreira

A palavra falada não passa de uma rajada acústica, de um aglomerado de sons. A palavra escrita não passa de um aglomerado de traços. Contudo, é espantoso o que pode uma palavra carregar de sentido, de significado, de sopro de vida inscrito na sua superfície. Eu fico pasmo. É o fio da palavra que nos leva a todos os lugares, a todas as pessoas, a todos os sentimentos, a nós mesmos… É no fio da palavra que me equilibro. É na palavra que me seguro. É da palavra que vem meu sustento metafísico. É pela palavra que me salvo. É com a palavra que leio o mundo. É para a palavra que peço proteção. É a palavra que compõe os silêncios de quando rumino. A palavra anda na cabeça, anda na boca de todos os homens… A palavra cura feridas. A palavra abre feridas. A palavra enlouquece. A palavra traz sanidade. A palavra lança luz. A palavra lança sombras. A palavra faz rir. A palavra faz chorar. A palavra dá esperança. A palavra tira esperança. A palavra esclarece. A palavra confunde. A palavra acalenta. A palavra desespera. Parafraseando o grande Bartolomeu Campos de Queirós, autor do belíssimo livro que dá título a esta mensagem, digo que a palavra é meu porto, minha porta, meu cais, minha rota… Sem a palavra não sou (somos) ninguém. Viva a palavra!