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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O balanço de madeira - Cinthia Kriemler


     Faz muito tempo que não venho aqui. Com um pequeno esforço vou lembrar exatamente quanto tempo faz, mas, por ora, um barulho vindo dos fundos chama a minha atenção e me atrai.
     Deixe ver se ainda me lembro... Quarenta e sete passos da porta da sala até o quintal. Mas, se eu der passadas largas, consigo reduzir quatro ou cinco. Enquanto coloco um pé depois do outro no friso reto do ladrilho, me recordo de quando Joana e eu apostávamos quem chegava primeiro ao balanço de madeira. Eu sempre ganhava, embora soubesse que era uma aposta sem sentido. Com nove anos, minhas pernas eram maiores e mais firmes, mas apesar disso Joana insistia em competir.
     Durante anos foi assim, até que, numa manhã de chuva branda, eu a encontrei sorridente, me esperando no balanço. Foi aí que notei que ela havia crescido e era mais alta, mais magra e mais ágil do que eu. Mas meu desaponto não durou um fôlego, porque Joana, com sua voz aquecida, apenas me olhou e disse. “É muito chato chegar na sua frente! Eu  gosto de te encontrar me esperando.”
     Se eu pudesse saber, teria percebido que aquela frase se tornaria uma verdade constante nos anos que se seguiriam. Eu, embora mais velha, passei a vida competindo por alguma coisa e me deixando magoar pelas perdas. Joana, dócil, encarou os problemas com naturalidade e fez das conquistas um evento corriqueiro, elegante. Nem quando ficou viúva, com dois filhos pequenos, ela se queixou ou esmoreceu.
     Alguém deixou uma torneira aberta. Meu ouvido é afiado para o barulho de água. Talvez eu deva ver o que é... Não. Estou muito cansada e preciso de um banho antes de me encontrar com as pessoas.
     Enquanto minhas pernas tentam subir o primeiro lance de escadas, o passado grita:
     - Luiz! A água da bica está escorrendo! Quebra a mão se fechar?
     Tonha ainda está viva! Essa voz meio rouca, meio falsete é inconfundível! Quantos anos ela deve ter agora? Setenta e dois, setenta e três, eu acho. Num minuto a água para de escorrer, mas ela continua os  resmungos contra meu sobrinho:
     - Muito preguiçoso! Não sei quem foi que você puxou! Se acostumou mal porque a Tonha está aqui pra fazer tudo, não é mesmo? Tonha cozinha, Tonha lava, Tonha arruma a cama, Tonha fecha a bica. Menino mimado!
     A voz se afasta antes que eu tenha tempo de alcançá-la para um longo abraço. A mesma Tonha de sempre, chamando a si mesma na terceira pessoa. Desde que nasci, o rosto negro é a única moldura de que me lembro em volta do meu berço. A mão de Tonha me segurando para andar, o sorriso incentivando minhas bobagens de criança, o cafuné na cama. Nunca entendi como ela sempre foi capaz de se multiplicar entre o fogão, a pia e as brincadeiras que fazia conosco e, anos mais tarde, com os filhos de Joana.
     Minha primeira frustração foi o dia em que perdi a corrida até o balanço para Joana. Os passos que ela aprendera a dar, mais largos e mais rápidos do que os meus, tinham feito mais que ganhar uma corrida: quebraram a minha autoconfiança. E eu me senti cheia de um sentimento que depois aprendi ser tristeza. Tonha, como sempre, estava lá, com as suas lições de vida.
     - Cara feia pra mim é fome – disse ela, tentando me abraçar e me animar. – Acho que um chocolate pode estar perdido aqui no meu bolso, querendo ser mordido por uma menina bonita e cheirosa.
     - Não quero! – respondi com maus modos.
     - Xi! A coisa tá feia mesmo! Nem quer ver o meu chocolate...
     - Não! – gritei.
     - E por que tudo isso?
     - Porque eu perdi para a Joana a aposta de ver quem chega primeiro no balanço.
     - Ah! Só isso?
     - Só?! Eu nunca perdi para ela, nunca, nunquinha!
     - Perdeu hoje.
     - Ih! Para, viu! Pode parar! Até você?
     - Perdeu, perdeu, perdeu.
     Nem meus movimentos bruscos soltaram os braços de Tonha. A cada tentativa, mais ela me abraçava forte.
     - Me solta! Eu tô mandando!
     - E desde quando você manda?
     Comecei a chorar alto, mas não adiantou. Tonha me prendeu até que tudo o que restou foi um soluço entrecortado, sem forças. Só então ouvi de novo sua voz.
     - Perdeu hoje, ganha amanhã. É assim que a vida é.
     - Mas é ruim...
     - É, é ruim. Imagina então como é que foi para a Joana esses anos todos, perdendo, perdendo, hein?
     - Hã, hã. Coitadinha, né? Primeira vez que ela ganha. Esses anos todos perdendo, perdendo... Que horrível, né, Tonha? Foi bom ela ganhar hoje. Pra não ficar triste.
     - Isso mesmo.
    - Amanhã eu ganho de novo.
     - Ou ela...
     Antes que eu emburrasse de novo, Tonha mudou de assunto:
     - Chocolate mole é bom?
     - Não.
     - Então corre e come este aqui porque senão vai virar mingau de chocolate – disse, me entregando minha barra preferida.
    
     Chego, finalmente, ao meu quarto, o terceiro depois do topo da escada. Tudo está impecável, como sempre. O casarão, mesmo velho, possui conforto em cada um dos cinco grandes quartos, todos com suíte, fiação elétrica restaurada e móveis modernos. Mas o que é isso?! Onde está a minha cama entalhada? E o guarda-roupa que fazia par com a cama? Abro assustada a porta do banheiro e vejo que até o armário de laca sumiu. Meu primeiro impulso é descer na mesma hora para perguntar sobre o acontecido, mas a necessidade do banho me vence. De qualquer forma, Joana não parece estar em casa e é melhor perguntar diretamente a ela sobre essas mudanças não autorizadas no meu quarto.
     Enquanto a água bem quente me alivia o cansaço, escuto um carro sendo ligado e, logo a seguir, a voz de Tonha, gritando:
     - Luiz, já tô pra tirar o jantar, menino! Isso é lá hora de sair?
     Deixa guardado que depois eu esquento, Toninha – ele grita de volta.
     Toninha? Essa é boa! Nunca pensei que alguém conseguisse diminuir ainda mais o nome da pobre Maria Antônia.
     Bom, Luiz acaba de sair sem eu ter tempo de falar com ele. Maria Fernanda, minha sobrinha, mora em outra cidade, desde que se casou. Pelo visto, restamos na casa Tonha e eu, mas ela não me viu entrando e é capaz de achar que sou um ladrão. Vou descer e dar um alô.
     O cheiro de peixe grelhado captura meu estômago vazio e um instinto garante que vem acompanhado de purê de batatas batido com ervas ainda de um molho de mel e mostarda. Antes de entrar na cozinha, o barulho de metal de correntes desvia a minha atenção de novo para o quintal. Tenho certeza de que é o velho balanço se agitando em boas-vindas. Desisto do peixe e sigo em direção ao barulho, mas quando abro a porta dos fundos vejo que o balanço está parado. Engraçado... Nem tem vento. Com certeza é minha memória me pregando peças. A volta à casa de meus pais está me fazendo ir e vir no tempo. Sem pressa, me viro novamente para o cheiro divino do peixe de Tonha, mas, assim que dou as costas ao quintal, escuto outra vez o rangido do balanço atrás de mim. Pelo visto, estou mais cansada do que imagino.
     Dentro da cozinha, caminho silenciosamente até Tonha e abraço por trás, estalando um beijo em sua bochecha gorda. Ela se volta e, apalpando o meu rosto, pergunta:
     - Berma?
     De repente, percebo que Tonha não enxerga. Seus olhos sem brilho miram o vazio além de mim.
     - Bernadete, é você mesma?
     - Claro que sou, Tonha. Não me conhece mais?
     - Mas... mas...
     - Tonha, o que foi que aconteceu com os seus olhos? – mudo de assunto para evitar a emoção.
     - Velhice.
     Uma dor de cabeça vinda do nada faz minhas têmporas latejarem; me sinto tonta.
     - Preciso comer alguma coisa, Tonha – peço.
     Em silêncio, ela termina de aprontar o jantar.
     - Sente aí – diz, apontando a mesa como se pudesse ainda enxergar.
     Faço isso, ansiosa por comer o cheiro bom que toma conta da cozinha.
     - Eu ouvi meu sobrinho saindo. Joana também foi passear?
     Ela não me responde e eu não sei por que está tão ranzinza.
     - Tonha, por que é que você está esquisita comigo?
     Sem me responder de imediato, ela põe a mesa e espera eu me servir antes de se sentar ao meu lado.
     - O que é que você veio fazer aqui, Berna? Você sabe quanto tempo faz que você foi embora?
     - Muito tempo... – sussurro.
    - E voltou por quê? Por que agora?
     Por que isso, por que aquilo. Que droga!
     - Tonha, qual é o problema?
     - Você não sabe?
    Agora, estou realmente assustada.
     - Não, não sei de nada!
     - Joana está doente. Está com aquela doença ruim.
     Eu não escuto. Não quero escutar. Não esperei tanto tempo para voltar para encontrar a minha irmã doente! Joana é saudável, mansa, adora a vida, não guarda mágoas. Eu não quero essa verdade! Joana não tem nada!
     - Mentira! Quem disse isso?
     - O doutor.
     - Esses médicos não sabem de nada!
     - É, pode ser. Mas o destino sabe.
     Não tenho tempo para as superstições de Tonha e estou magoada pelo fato de Joana não ter me dito nada só porque eu estava distante.
     - Os meninos sabem?
     - Sabem, mas não imaginam que a mãe está no fim. Joana prefere desse jeito.
     - Pare de falar assim! Eu quero vê-la. Em que hospital ela está?
     - Hospital nenhum. Está lá em cima, deitada.
     - Ela está em casa? Mas que loucura é essa?!
     Sem me responder, Tonha se volta para a pia. E eu aproveito o que se rompe entre nós para subir correndo as escadas, até o quarto de Joana.
     No primeiro instante, só a escuridão me rodeia. Depois de acostumar a vista, vejo primeiro os cabelos castanhos sobre o travesseiro e, em seguida, seu corpo magro coberto pelo edredom pesado
     - Quem é? – pergunta ela com voz sumida.
     - Sou eu. Bernadete.
     - Berna! – exclama, desta vez com um pouco mais de vigor.
     - O que é isso, minha irmã? Dando um susto em todo o mundo?
    Ela estica os braços para mim, esperando que as minhas mãos encontrem as dela, trêmulas. Aperto com força aqueles dedos finos e frios, e me aproximo para abraçá-la.
     - Você veio porque eu estou doente, não é?
     - Não, eu nem sabia. Foi a Tonha quem me disse, agora há pouco, na cozinha.
     - Você esteve com a Tonha?
     - Estive.
     Joana parece, de repente, ainda mais sem forças.
     - Eu estou no fim, Berna.
     - Não fale bobagem, Joana! Você ainda vai viver muito!
     - Não, não vou. Senão você não estaria aqui.
     - Eu? Mas eu já lhe disse que nem sabia que você estava doente!
     - Você veio por mim, Berna.
     E antes que eu consiga retrucar, seu corpo magro se aninha com suavidade no meu.
     Num canto do quarto, vejo a silhueta de Tonha, apertando fortemente as mãos.
     - Minha menina descansou, finalmente!
     Quero alcançá-la para enxugar suas lagrimas grossas, mas ela não sabe mais que estou ali.
     De pé ao meu lado, sorridente, Joana me desafia:
     - Aposto com você que chego primeiro ao balanço!
     - Calma, mana. Desta vez, vamos chegar juntas – digo, tomando a sua mão na minha.
     Pouco depois, as correntes do balanço de madeira voltam a ranger, agora num vaivém incessante.

  

        

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Cheiro de paixão - Cinthia Kriemler



Paixão boa tem que estalar de repente. Eu me apaixonei num susto, um desses momentos perfeitos em que o objeto da paixão é que nos encontra e nos possui. Mas uma história só é história se permitir que a conte a narrativa. E o início de tudo ainda é o melhor começo.
     Moreno tinha me arrastado para morar ali havia pouco tempo, repetindo uma mania irritante de mudar de casa quase todo ano. “Se a gente não muda de ares não faz diferença no mundo”, insiste ele, “Criou raiz, se acomodou.” Grande coisa! E o afeto pelo lugar, o cheiro das coisas, as trilhas... Não contam? O mentiroso não criava raiz por motivo bem menos filosófico: o preço dos aluguéis.
     Nem com os gritos de “Anda, Fred!” nem com a dose extra de ração, nem com a promessa de uns dois ou três bifinhos de carne prensada eu levantei minha barriga do chão para deixar a casa antiga. Mas, como disse, fui arrastado até o carro, e do carro até um portão branquinho bobo, e do portão... huum... do portão às possibilidades! Duas batidas com as patas e aquele empecilho branco e bobo desabrochava numa rota de fuga.
     Pronto, eu já gostava do ali; um vira-casaca de primeira! Principalmente depois das seis da tarde, quando Moreno montava no jipe para ir dar aulas e me deixava de presente o rebuliço das ruas além do portão. No segundo dia de redondezas exploradas é que me deparei, de repente, com aquela paixão que lhes revelei antes da hora.
     Um cheiro delicioso de... de... de coisas deliciosas me impediu de virar à esquerda na esquina. Segui em frente enfeitiçado, captado pela mistura de aromas que ora me pareciam frango, ora porco. Podia jurar que até mesmo um carneiro ao molho de hortelã me passou pelas narinas arreganhadas. Fosse o que fosse, eu já despejara arabescos de baba e fungados pela calçada. Depois de um pouco mais de chão, no entanto, foram os cheiros que me abraçaram todos de uma vez, e eu sabia que tinha alcançado o paraíso!
     Quatro mesas descascadas de metal azul, rodeadas por cadeiras cambetas, cochilavam inabitadas na calçada. Um único degrau as separava da parte interior do boteco, cujo balcão reluzente contrastava com a cor duvidosa do piso de cerâmica. E lá de dentro, de depois do balcão, me corrompiam aqueles cheiros apaixonantes que os primeiros glutões iriam abocanhar dentro de dois ou três quartos de hora.
     Mais tarde, quando Moreno começou a frequentar o local às quintas-feiras, noite da sua fuga na universidade, eu aprendi com ele que o nome do meu paraíso era Fecha Nunca. O boteco abria as portas durante os sete dias da semana e nem madrugada de chuva assustava os clientes, que corriam com as mesas para dentro, se espremendo entre o degrau e o balcão dos cheiros. Só que Moreno é um passante em minha história.
     Voltemos, portanto, ao nosso primeiro encontro, meu e do estimado Fecha Nunca. A primeira estratégia era saber como seriam recebidos os cachorros por ali. Memórias prudentes e doloridas me trouxeram de volta alguns pontapés e baldes de água que meu couro enfrentou em estabelecimentos semelhantes. Cautela, Fred, cautela! Um latidinho baixo, espremido, e duas abanadas de rabo. Contato feito, é preciso esperar para saber como vai reagir o gorducho com cara de dono. Só há duas saídas: ou gosta de mim, ou me põe para correr.
     O primeiro afago veio na orelha. Ai, ui, que gostoso, meu ponto predileto! Depois no papo, e no dorso e novamente na orelha, só que na outra. Em seguida, um naco suculento de carne foi parar entre as minhas patas. Um cavalheiro, um verdadeiro cavalheiro! Pensando bem, quem é gorducho aqui? Um pesinho de nada acima e eu, maldoso, apelidando o sujeito de gordo! Que falha imperdoável com um amigo já tão querido!
     A primeira noite no Fecha Nunca foi inesquecível. Assim como a segunda, a quinta e a vigésima primeira. Não tinha noite sem carnes ou afagos. Depois de duas semanas, Seu Claudionor – meu amigo e proprietário do estabelecimento – colocou até uma vasilha de água pra mim, num cantinho do chão. Todo o mundo me passava a mão e eu, vadio e escancarado, dava e sobrava a barriga para quem quisesse apalpar, como fruta de tabuleiro.
     Seu Claudionor ficava intrigado porque eu sempre aparecia no início da noite e ia embora à mesma hora, um pouco depois das dez e meia. E como me tratava feito gente, insistia sobre isso, cismado. Tentei explicar, mas apesar da nossa tanta afinidade, não entendeu: não é cachorro. Ele só compreendeu a precisão dos meus horários depois que Moreno, já então cliente habitual do Fecha Nunca não só às quintas feiras, mas também aos sábados e feriados, lhe descreveu sua rotina de professor universitário. Meu amigo nunca entregou as minhas fugas, nem Moreno pareceu perceber a intimidade com que me cercavam os fregueses. Seu Claudionor aprendeu, daquela data em diante, que meu nome era Fred.
     Confesso que no começo dessas farras noturnas me senti um desonrado. Não tinha ninguém ali que não me achasse um vira-lata, um largado. Tenho certeza de que a comida e os afagos eram dirigidos ao cão que eu não era: um desvalido de rua. Sou um cão tratado, tenho casa, comida, quintal e um dono que não troco por nada no mundo, apesar de doido, doido. Mas como resistir à tentação das carnes? Como virar as costas para tantas mãos, tantos assovios? Quanto ia com Moreno, me deitava um pouco longe dele, fingindo nos conhecermos apenas da vizinhança. Afinal, ele sabia meu nome e o “Vem cá, Fred” era sempre um risco ao meu disfarce de coitado. Mas um boteco tem regras que ninguém viola, e a principal delas é o ´viva e deixe viver.´
     Não me envergonho mais da omissão de identidade. Respondem por meu fingimento as delícias que Seu Claudionor prepara no pecado do cheiro e do sabor. Respondem em parte, no entanto. De verdade mesmo, devo mais culpa às tais mãos e assovios que me adulam.
     Por expiação, preciso lhes revelar que uivo e morro por um carinho, por qualquer carinho! Corpo esparramado no chão, patas encolhidas sob a cabeça, olhos virados para cima, os cantos caídos como amêndoas: eis meu segredo infalível de entrega. Sou um mendigo de afetos incorrigível, um chantagista reles! Confesso que sou. E por mais essa confissão me obrigo ainda a outra: larguei para trás os escrúpulos e nada, nada do que puderem pensar de mim me fará desistir de lamber pés cansados, ou de esfregar a cabeça nas coxas macias que me admitem por perto.
  Um cão não aguenta a solidão causada. E essa doença de ausência só tem cura pelo agrado. Pode ser um amor meio sem jeito, uma amizade breve, uma companhia calada, uma fidelidade incerta: aceita-se, incondicionalmente, qualquer um desses remédios! Sou um cão, sou carente.

     Moreno me faz favores quando me muda de casa; me desconforma e me joga em novas empreitadas. Como o Fecha Nunca, onde meu focinho cheira e meu coração se entrega.

domingo, 3 de março de 2013

Acontece sempre aos personagens - Cinthia Kriemler



     Um dragão exausto. Isso sou eu sentada aqui neste começo de noite gelada, soltando neblina pela boca e pelas ventas. Já aqueci os dedos murchos e a garganta com duas xícaras de chocolate quente com chantilly, raspinha de casca de limão e uma pingada leve de licor, Aceita uma xícara?
     Estou escutando músicas antigas, enquanto decido se vou ao cinema ou se abro um vinho mais tarde, e assisto a um filme em casa mesmo.
     Eu vejo o futuro repetir o passado... O tempo não para, não, não para...
     Que coisa! O tempo não para é de vender essa imagem de inesgotável. Bobagem. É um grande ilusionista, isso sim; um fanfarrão elegante esse tal de tempo! O que ele faz, e bem, é aplicar recursos. Mas não resiste a um olhar mais de perto, a uma avaliação mais detalhada. De perto, é fácil ver que os acontecimentos, as histórias e as vontades são sempre os mesmos, ciclicamente. Guerras, amores, terremotos, mortes, tudo se repete. Modernizam-se os instrumentos, as palavras e os atores. As tramas, nunca. Uma mesmice.
     Pois saiba você que o tempo sobrevive mesmo é das percepções, como num truque houdiniano. O que eu vejo não é o que você vê. Não vemos na mesma hora. Não nos importamos do mesmo modo a respeito do que vemos. O truque é este: impedir que a gente tenha consciência de que de inesgotável só as desigualdades das nossas percepções.
     Uma vez ou outra, é claro, passeamos, sem querer, pela mesma sintonia, por uma fração de segundos. Déjà vu ! – gritamos. – Que déjà vu que nada! É o tempo escorregando na gestão. Mera digressão.
     Costumo pensar em cada um de nós como um grande globo de metal, igual ao que se usa nos bingos ou nos sorteios de prêmios. No início de nós, o tempo nos recheou de uma vez com todas as datas e fatos e sentimentos que iríamos precisar para termos uma vida. Mas se tocou que um bom planejamento estende-se a um futuro, e aí decidiu que era melhor liberar uma pedra por vez. Acrescentou o mexe e remexe aleatório do globo para assegurar transparência e criar um pouco de frisson na plateia.
     Por isso, o meu bingo nunca é, foi ou será igual ao seu. Eu recebo o amor aos 20; você, aos 35; ele, nunca. Você aprende os sofrimentos aos 10; nós, aos 38; eles ainda sofrem. Tudo culpa do mexe e remexe.
     Não me importo com o estratagema. Do tempo, só registro uma queixa: para si mesmo, nunca traz velhice; para nós, rugas dolorosas no corpo e na alma. Injustiça!
     Ah, não? Você não acha? Deixe ver se entendi... Experiência. É assim mesmo que você desculpa o reumatismo que proíbe às suas juntas subir escadas? Segurança é o nome mais interessante que você encontra para o seu platô de conformismos? Está bem. Entrego os pontos. Eu mesma apelidei de “maturidade” o assassinato dos meus sonhos. Aliás, melhor dizer: massacre, porque os exterminei em conjunto para não ouvir mais suas vozes insensatas.
     O tal do amor maduro, então, é o pior dos disfarces. Preciso forçar mais a memória, um dia desses, e me lembrar quando foi que aprendi a gritar “Bingo!” na pedra da desistência. Logo eu que nunca dispensei um amor maldito, uma paixão inconsequente, me conformar com um amorzinho morno, centrado, sem tempero?
     Pois me escute: o mal é que a gente aceita qualquer coisa depois das rugas. E não adianta reclamar, tipo: Hei! Eu quero aquele olhar que vi na mocinha de ontem, na fila do supermercado. Quero aquela roupa sensual da vitrine do shopping. Quero atravessar a piscina sem perder fôlego. Reclamar só traz mais rugas.
     O que foi? Apavorou-se? Descobriu que lhe furtaram as possibilidades? Finalmente você começou a entender como o tempo é ladrão? Como eu lhe disse, um ilusionista. E você aí pensando que eram seus o amor, a alegria, as gargalhadas e os sonhos! Sei como é isso, portanto, não se preocupe, você não é bobo sozinho. Acontece sempre aos personagens.
     Ainda dá tempo de me acompanhar numa xícara de chocolate. Mas, se preferir, venha tomar um vinho mais tarde. Afinal, ainda não falamos sobre a melhor parte disso tudo. Aquela onde eu lhe conto que insônia, depressão e amor despedaçado também te abandonam, mudam de corpos.
     É o tempo, redistribuindo recursos. Acontece sempre aos personagens!

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Transportador - Cinthia Kriemler

 
    Por profissão me foi dada a travessia. Quando pirralho, fazia o transporte de pequenas coisas. Levava os ovos para a vó preparar seus quitutes, depois equilibrava doces e salgados num carrinho de mão e saía para entregar as guloseimas fresquinhas no armazém da cidade. Ia num pé, voltava noutro, trazendo farinha, arroz, feijão e batata, aconchegados no mesmo carrinho rangedor.
    Nessa época, também ajudava o pai a entregar latões de leite na feirinha, encarregava-me de fazer chegar a merenda dos manos no pastinho, levava o milho das galinhas antes que elas se unissem num cocoricó histérico, e buscava os remédios da vó toda semana. Quando as suas pernas melhoravam das dores, dava pra aviar a receita só por quinzena, mas eu não me importava com a andança e nem sabia ainda que essa lida constante era ensinamento para as viagens de mais tarde.
   Logo que me aprumei um pouco mais, lá pelos 14 anos, passei a entregar bilhetes dos manos e de gente mais velha para as mocinhas das redondezas. Às vezes, transportava as palavras na boca ou na cabeça, jorrando os versos e os recadinhos com a ajuda da voz imberbe e da memória. De vez em quando, se a frase era de fazer corar, ou se era para desmanchar compromisso, a entrega era dentro do ouvido. Nesses casos, ficava por minha conta transportar de volta os tapas, os olhares furiosos e os choramingos.
   Assim, atravessei os anos verdes e, adulto, dei ao ir e vir uma serventia de maior monta: firmei-me na profissão de Transportador de Existências.
  Um Transportador de Existências não carrega móveis, nem malas, nem quaisquer objetos. Só o vivente e seu quinhão de problemas, alegrias, emoções, vazios… Saúde e doença; sonho e pesadelo; ganho e perda.
  Animais são permitidos. A morte, também. No entanto, para que o Transportador não seja enganado sobre carga tão funesta, é imperioso à Ceifadora declarar-se antecipadamente: se de corpos, a conduzir para a morte o vivente; se de almas, a matar em vida, sem levar o corpo. A conversa precisa se dar durante a travessia, para orientar o Transportador.
  No começo, eu lotava com famílias inteiras a carroça que o pai me deixou. Mas a confusão tumultuava a viagem. Alhos e bugalhos misturados, sacudindo aqui e acolá? Briga! O sonho da moça que buscava a capital, a tristeza da outra que se fazia acompanhar pela desonra, a imaginação sem freio das crianças, o lamento do velho, o desengano do desempregado, a luxúria do amante. Tudo engalfinhado num chãozinho de carroça!
  A coisa ficou mesmo feia quando um moribundo e uma prenha se encontraram. A Ceifadora de Corpos que viajava com ele resolveu disputar importância com a Parição que acompanhava a moça.
 — O Transportador vai rumar primeiro para o meu destino! Eu preciso entregar o velho ao seu repouso final! — decidiu a Ceifadora.
 — Uma ova que vai! Tem mais pressa o chegar do que o ir-se! — replicou a Parição.
     E a baderna só cessou quando a mulher gemeu tão alto que ao meu susto se somaram o júbilo da Parição e a rendição da Ceifadora: a iminência do parto tinha decidido a querela.
    Depois desse apuro, passei a transportar uma existência por vez. Apesar de o tempo encurtar com a decisão, não era mais possível permitir que certos destinos se cruzassem. Carregar um a um era mais justo e mais prudente.
  Da carroça passei para uma motoneta usada. Desastre! As pilhas de resmungos e de suspiros e de gargalhadas iam penduradas nas laterais do banco do passageiro, batendo no pneu recauchutado e vaticinando um acidente que, felizmente, nunca ocorreu porque a lentidão da maquineta impedia grandes riscos.
  Tentei ainda um barco, mas o rio e a travessia pertenciam à Ceifadora de Corpos, e não me apetecia pelejar por território tão sagrado. Ainda mais com quem!
  O veículo chegou-me via fatalidade, por meio de um viajante cujas pernas doentes e arroxeadas me lembraram, no instante em que bati os olhos nelas, as pernas da vó. No hospital, quando parei para despejar suas dores, gemidos e febres, pensei que nunca mais o veria. Mas, dias depois, recebi de presente do sujeito nada mais nada menos que uma caminhonete confortável, com o seguinte bilhete:
 “Minhas pernas se foram, mas eu sobrevivi. Segundo os médicos, porque o Transportador me conduziu a tempo. Em agradecimento, envio minha caminhonete, a quem chamo de ‘veículo’. É sua, agora, porque para mim não tem mais uso”.
   Não me fiz de rogado. O veículo era grande, cabia de um tudo. Eu não ia mais precisar carregar só a metade da bagagem dos viventes, nem me aborrecer convencendo-os a deixar para trás um meio fardo. Deitar fora as piores emoções, como medos e angústias, e subir a bordo as sensações mais frugais ou divertidas nem sempre era visto com bons olhos pelo proprietário da existência, por demais acostumado à companhia dos martírios.
  Mas mesmo grande, o veículo enfrentou seus percalços. Certa feita, acomodei uma mulher recém-separada que fugia da própria sina. Suas memórias, a dor da separação, a depressão aplacada por pílulas, o coração partido e um cachorrinho irritado — que insistia em ficar aos pés da dona — não eram nada se comparados aos mais de cinco mil relatos de um diário que ela havia escrito durante os 15 anos de casamento. Acomodar lembranças feitas de letras é um deus nos acuda para qualquer Transportador de Existências!
  Vez ou outra, era apenas uma carta ou um bilhete que me faziam companhia na estrada. Eu tinha que abrir e ler antes de fazer a entrega. Esse combinado me recordava os dias de menino em que eu levava recados cochichados e trazia de volta os tapas das moças coradas. Apanhei um bocado ao longo dos anos…
  O ofício me desgostou de verdade em duas transportações: os viventes eram meu pai e minha mãe, se retirando deste mundo. Nessas duas despedidas, retardei a entrega. Contudo, não me cabia impedir as viagens, somente cumprir, sem burlas, o transporte. Essa lição aprendi cedo, ainda nas primeiras travessias. Com dó de um jovem a quem a Ceifadora de Corpos acompanhava, decidi reconduzi-lo para casa. Subi os olhos até o espelho retrovisor para preparar o retorno. Foi quando, estarrecido, vi que a estrada atrás de mim tinha sumido, dando lugar a um deserto de crateras e troncos retorcidos! E quanto mais eu prosseguia, tendo à frente um pavimento firme e preservado, mais meus olhos encontravam um rastro de destruição em tudo o que ficava para trás. Percebi, depois de poucas vezes, que só acontecia da estrada apodrecer atrás de mim quando a única bagagem do vivente era uma das Ceifadoras, a de corpos ou a de almas.
                                                                              ***
  Hoje, não me procurou passageiro. Tenho só uma encomenda, um recado a entregar. A claridade me faz companhia e o caminho está vazio. Enquanto prossigo, abro a folha dobrada sobre o banco ao lado. No papel desmesurado, um imperativo irreplicável sela o meu destino: “Transporta-te!”.
  Meus olhos buscam correndo o espelho interno. Não há esperança. No reflexo retrovertido, cumprimentam-me a estrada desolada e a Ceifadora que veio por mim.
  Mas qual delas veio…? Qual delas?!

domingo, 15 de abril de 2012

O mato dos cachorros

 
Não sou acostumada a caminhadas. Deveria, porque sou gorda. Mas desde que era magra (once upon a time...) nunca gostei de caminhar. Bom, houve uma época em que eu, subitamente, me animei a dar um passo atrás do outro, durante uma hora ou mais. Fiz isso por quase um ano, mas descobri, mais tarde, que havia um motivo para tanta animação. Um motivo que tinha nome, endereço e uma careca charmosíssima. Perdeu a graça. Detesto quando tomo consciência de que estou fazendo as coisas por motivação externa. Acho o cúmulo querer emagrecer, ou cortar o cabelo, ou fazer as unhas, ou me matar na massagem para agradar alguém que não seja eu mesma.
Mas essa rebeldia custou-me a silhueta. Virei gorda por vários motivos e, dentre eles, pelo fato de não aceitar imposições pessoais, sociais, ou seja lá de que “ais”. Quando eu “tenho” que fazer, não faço. Faço quando quero, quando gosto e porque tenho vontade. Mesmo que, no caso do exercício, essa vontade seja rara, rara.
No entanto, um mês atrás, adotei um cachorrinho. Eu tinha dois, mas o mais velho morreu e o mais novo entrou em depressão. Nunca pensei que cachorro tivesse depressão, mas tem. Igual à de gente. Resultado? Adotei o Lucas. Já veio com nome, dois anos e meio e... e com o hábito bem arraigado de só fazer as suas necessidades no matinho. Resultado? É preciso descer com ele três vezes por dia e caminhar — sim, caminhar! — até que ele encontre o mato perfeito, o tufo de grama que pisca pra ele e diz: “Oi, fique à vontade!”.
Uma das três vezes por dia sou eu que desço com ele. Aliás, que desço com os dois, Lucas e Dude, porque aonde vai um rabo-abanante, vai o outro. E não adianta tentar ficar parada no lugar, ao lado do gramado. Eles me puxam e correm e lá vou atrás deles, parecendo uma pipa sem rabiola. Enfim, pelo menos por 15 ou 20 minutos eu agora ando, todos os dias. E ainda tem o “abaixa e cata” com o saquinho, a única parte da brincadeira que me causa dor, porque a hérnia de disco e a artrose beliscam na mesma hora (que assunto, hein?). O fato é que, mesmo sem querer, acabo por obrigar meu corpo a esse exercício engraçado.
Toda essa história comprida pra falar das árvores que descobri ao lado do meu prédio. Por causa do Lucas. E do Dude.
São árvores de tamanho médio, que formam uma espécie de círculo, abraçando um pequeno jardim improvisado por um morador. É que, sendo um dos lugares prediletos dos cachorros, para lá eles me puxaram, uns dias atrás, fazendo com que eu me deparasse com uma paisagem inusitada.
Visto de fora, o grupo de poucas árvores passa despercebido ao olhar rotineiro. Mas, por dentro, a gente parece estar num daqueles jardins particulares cheios de vento cheiroso, de vozes sussurradas, de segredos invisíveis. A cor do céu, que passa entremeio às árvores, é diferente. O ruído externo chega mais abafado aos ouvidos e o cheiro de Dama da Noite começando a se abrir em início de noite ainda não é forte demais. Ali, a gente se torna invisível, isolado, e tudo é possível. Possível enxergar os ninhos de quatro ou cinco passarinhos de cauda comprida que voam rasteiros perguntando: ”Ei, quem é você?”; descobrir as pequenas frutas que amadurecem na impassibilidade de alguns galhos; observar os raios que se infiltram por entre as árvores, ora de sol, ora de lua (quando o passeio é noturno), ou mesmo sentir os pingos de chuva mais grossos que se empenham em atravessar a barreira de folhas.
Nada que eu tivesse visto antes. Nada que eu soubesse estar ali, apesar do tanto de anos que moro neste mesmo lugar. Nada que existisse no meu dia antes da chegada do Lucas, cão, dois anos e meio, que me obriga a caminhar ao menos uma vez por dia e que me puxa, feliz, para o centro desse agora "nosso" pequeno mundo secreto.
É só mais um mato, que sempre esteve ali, ao lado da janela da minha sala, virando cotidiano a cada amanhecer. O mato dos cachorros. Meu mato.