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domingo, 21 de maio de 2017

Substantivo abstrato? Imagine! - Anna Maria Assis Ribeiro


Raro dia em que não me chega uma apresentação em Power Point, escorrendo mel pela tela. E raramente as leio, mesmo por que quase sempre são correntes que me fazem ameaças terríveis caso não as envie a, no mínimo, doze pessoas. O por que deste número cabalístico nunca entendi. Mas eis que outro dia o título de uma me chamou atenção e resolvi ler: falava de saudade. E terminava me informando que saudade é o amor que fica. Bonito, né? Mais que isto verdadeiro. É quase sempre amor e vem pra ficar, sim. Me dou conta de que saudade está longe de ser um substantivo abstrato.
Saudade é pra lá de sólida. Os cinco sentidos são por ela estimulados o que não aconteceria se fosse abstrata. Saudade existe em minha vida. E me transporta para um mundo mágico, para um lugar deliciosamente bom. Uma das mais antigas é a de meu cavalo Dream Boy comendo cenoura. Sentada em cima da baia eu me fazia conviva daquele banquete tão colorido. Era incrível. Vinha-me a vontade de comer também e eu morria de inveja porque não conseguia sentir igual prazer ao mastigar uma cenoura. Conduzidos pelo incrível som da mastigação prazerosa os demais sentidos acordavam: minha mão deslizando por sua crina, meu olhar maravilhado pelo seu porte majestoso, o cheiro de serragem tomando conta da cocheira. Ficava faltando o gosto. Cenoura nunca foi para mim o que era para ele. Pena!
Dream Boy é responsável por muitas saudades. Do vento, por exemplo. Sei lá eu por que, nós (ele e eu) gostávamos de galopar no cocuruto do morro, contra a ventania que precedia a chuva. Sólido o vento, sólida nossa luta. Por que era uma luta. O vento era o inimigo e contra ele nos jogávamos intrépidos. Da casa vinham gritos: sai daí menina maluca! Os raios vão começar a cair. Ao som do primeiro raio desabalávamos morro abaixo, chegando às cocheiras encharcados e rindo muito. É... Dream ria... Sei que é difícil acreditar, mas ria. Dream era um cavalo ser humano.
E a saudade do barulho quase imperceptível das cobras no túnel de bambu, à noite? Quase sempre cabia a nós dois buscar os pães que saiam na primeira fornada da noite na padaria do então vilarejo de Estiva, hoje uma cidade: Miguel Pereira. O túnel de bambu, que hoje ainda dá acesso à casa, mesmo em noite de luar era muito, muito escuro. Dream escutava o mover das cobras bem antes de mim. Então diminuía o trote e orelhas esticavam-se para frente. Aí ele soltava o ar num resfolegar discreto para chamar minha atenção para o perigo. E eu dizia: tô escutando. É cobra, sim. Mas tudo bem! Ciente de que eu havia percebido seu alerta, sossegava e voltava ao trote. Ele sabia que juntos éramos imbatíveis.
Nesta saudade engata outra do que acontecia na seqüência da busca dos pães: a ceia das dez horas. Família reunida na mesa, o chocolate quente, às vezes gemada com vinho do porto e as conversas. Ah! As conversas! Outro engate: o sono que vinha manso como hoje não vem. E coroando tudo o cheiro da água da colônia inglesa de meu pai me dando boa noite Eu já na cama; eu já quase dormindo. No escuro, através da porta, abafadas, as vozes da sala vinham fabricando segurança. Tanta que o sentido do que diziam não importava. O som de todas elas, tão queridas, tão especiais, tão denunciadoras de seus emitentes me assegurava que o mundo era perfeito e que entre cavalos, pais, avó, tios e primos a vida era bela.
E Babá? A voz dizendo minha nega mesmo quando já “babasando” meus filhos. E eu voltava a ser aquela de então na vontade irresistível de pular para aquele colo tão confortável e protetor. Quando ela se foi eu já tinha uma neta e a vontade de pular para o colo era a mesma.
E por fim, e definitiva, a voz de meu filho mais velho, aos quatro anos, na incredulidade do que seria a morte: mas eu não posso ir agarrado na sua perninha? Não posso guardar sua cabecinha? Naquele tempo eu não soube dizer a ele que de certo modo eu ficaria presente na saudade. E como é eu podia saber que seria ele, e não eu, a ficar como saudade? Naquele tempo eu havia vivido tão pouco que saudade não tinha vez. Depois passou a ter. Não fiquei com a cabecinha dele, nem agarrei a perninha. Mas não é que ele ficou? Na voz, no cheiro, na imagem tão nítida de ter se tornado, estranhamente, meu filho mais moço. Numa saudade tão grande que tornou impossível competir com as outras.
E foi aí que tudo se juntou numa saudade só. Única. Como pode ser abstrata? Se tem tamanho, cheiro, imagem, cor, voz e presença? Se me acompanha no todo dia formada pela voz de meu filho, por Babá que me põe no colo, pelo perfume de água de colônia inglesa que traz meu pai para perto, pelo som de Dream mastigando cenouras? E desta imensidão de saudade me vem uma certeza: ainda que cobras se escondam entre os bambus da vida eu consigo ouvir Gonzaguinha se juntando a vida, Ele que sabia das coisas e da beleza de ser um eterno aprendiz. Com ele, tão sábio, aprendi que a vida devia ser bem melhor. E será? Mas isto não impede que eu repita. É bonita, é bonita, é bonita.
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sábado, 31 de dezembro de 2016

Acordemos - Anna Maria Assis Ribeiro


Dizia-se “merci”. Na verdade ela ainda diz “merci”. Escapole no sem querer, revelando o que nunca lhe afligiu revelar: está velha e só os velhos e os franceses, é claro, dizem assim. Sua mãe dizia chauffeur, ao invés de motorista; restaurant ao invés de restaurante; e Leblon, pronunciado por ela podia ser um bairro de Paris. No dia da queda da França ela, uma menina, foi levada à frente do Teatro Municipal para cantar a Marselhesa. Todos choravam e ela também chorou, chorou muito, por imitação – é verdade – mas, sobretudo, porque era aniversário de uma amiga e ela não iria.
Toda esta lembrança lhe veio ao acordar no primeiro dia do ano: nunca tinha se dado conta! Reveillon, além da ceia do dia 31 de dezembro, significa Acordemos! Para que? Para um novo ano, para novos desafios, para novas empreitadas e sabe ela mais o que. Fazem-se planos, promessas, tomam-se decisões seriíssimas como perder 10 quilos, deixar de fumar, procurar o amor perdido caindo de joelhos, pedindo desculpas, implorando por uma nova chance. O engraçado é que se está, quase sempre, em meio a muita gente e as decisões tomadas são sempre individuais. Beija-se a pessoa que está ao lado, marido, namorado ou, hoje em dia, um ficante, pensando-se: este ano “eu”....
No entanto acordar é necessário, todos os dias. Acordar mesmo. Literalmente. Tirar os pés da cama e andar em frente. Ficar parada é que não dá pé. Isto não parece ser um grande problema mas... o problema não é o “andar”. É o “em frente”, significando um rumo certo para chegar a algum lugar. Agora – ela pensa - danou-se! O “certo” pesa pra valer, tornando o problema imenso. O que é certo? Nem está pensando no “certo” com um viés moral. Não! É o certo para cada um. Aquela opção que vai nos levar adiante. A gente passa a vida escolhendo entre opções, né? E nem sempre as certas. Fica-se adulto no momento em que se percebe que ao fazê-las – as opções – ganha-se alguma coisa e perde-se outra. E fica-se velho, numa boa, quando não se culpa o mundo, a má sorte, alguém ou “alguéns”, pelo que deu errado. Fácil? Quem falou?! Não é, não. Nem um pouco. Mas faz parte do “reveillon”. Está nele embutido com todos os “fff e rrr”, embora a palavra não os tenha.
Ao pensar “fica-se velho”, surpreende-se: não “acordou” para isto antes que ocorresse! É claro que pensava, nos idos da mocidade – e põe idos nisto - em aposentadoria, por exemplo. Discutia valores e fazia projeções (bem mais otimistas do que se revelou a realidade), mas, nestas projeções, estranhamente, nunca se viu velha. E um dia - pareceu-lhe que repentinamente - ficou! E deu uma baita sorte: sem que houvesse planejado, seus maiores prazeres eram permitidos para a mais avançada idade desde que e enquanto a cabeça ajudasse: ler, ouvir música e conversar. Para o desempenho deste último verbo as substantivas leitura e música irão garantir assuntos no momento em que dificuldades de locomoção não mais permitirem colecioná-los no mundo dos seres circulantes.
Vai daí vem a certeza: no “reveillon” de todos os dias, a grande “trouvaille” (pensa em francês, imitando a mãe, mania um tanto cabotina que lhe acomete ultimamente com uma certa freqüência) é acordar para o treinamento de acumular de prazeres, garantindo uma velhice gostosa, para que um dia, sabe-se lá quando e pedindo licença ao poeta, possa “chegar humana ao mar da morte”.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Conselho ao acaso - Anna Maria Assis Ribeiro

CONSELHO AO ACASO    -  Anna Maria Assis Ribeiro
No momento em que esta crônica está sendo lida,quem sabe, já serei eu Bisavó. Nesta reta de chegada para ocupar tão honroso posto sou vítima da maior confusão: o que dizer à minha bisneta? Oitenta e um anos nos separam. É muito, não? Será que todo este tempo vivido deixou algum ensinamento que possa ajudá-la vida afora? Qualquer coisa que ela pudesse, já adulta, dizer aos filhos, iniciando com um “aprendi com a tataravó de vocês. Dá certo”. Sei que estou tentando tornar-me eterna a qualquer custo. Mas é verdadeira minha preocupação com a vidinha lá dela. Como facilitar as coisas, diminuindo os sofrimentos e frustrações que certamente virão? Tudo muda muito ao longo dos tempos e o que hoje dá certo pode não dar amanhã, e periga eu encaminhá-la para uma estrada que, no mínimo, não vai dar em nada. O falar francês, indispensável quando eu era criança, transformou-se em falar inglês. Vai daí que é mais que provável que minha Joana se veja as voltas com o chinês mandarim. Para piorar minha confusão, eis que o horóscopo do mês anuncia aos arianos como eu: em campo afetivo, evitem inúteis especificações para não comprometer a relação. Seria uma temeridade me estender em explicações e comentários, sob pena de comprometer nossa relação que apenas começa. Tem que ser curto e grosso. Nenhuma das muitas soluções que dei a problemas ocorridos neste tanto tempo de vida parece-me digna da póstuma citação. Mas eis que amigos me convidam para uma noite num bar da Lapa e fez-se a luz! Tenho especial carinho pela Lapa e seus arredores. Saudosa, lembro os almoços diários, na melhor das companhias, no Bar Brasil, no Nova Capela, no Cosmopolita (para nós do SERPRO, Porta de Bandido) e das intermináveis “a saideira e a conta” na Adega Flor de Coimbra que por ser em frente ao estacionamento onde deixávamos os carros, nos levava a prolongar o expediente que vez por outra entrava noite adentro. Tudo isto é motivo de lembranças risonhas e emocionadas para muitos de nós. Tanto que até hoje nos reunimos para lembrar. Só que agora rotulados de SERPROVECTOS, e não mais na Lapa. Ao contrário do que possam imaginar, não estou pensando em indicar a minha bisneta o caminho dos bares diurnos ou noturnos. Este ela irá encontrar sozinha no momento certo. E espero que o faça e que, como eu, guarde as melhores lembranças. Ocorre que o tal bar para onde fui convidada responde pelo nome de Bar do Acaso. É isto! É o que posso deixar de melhor, na certeza de que este ensinamento estará a salvo de qualquer efeito causado por Tempora e Mores! Ainda bem jovem descobri (com enorme ajuda de meu pai) que muito do que me acontecia de importante na vida, fosse bom ou ruim, tinha origem no acaso. Portanto dele eu não deveria fugir, ao contrário, deveria deixar que ocorresse expondo-me à vida e a tudo que esta pudesse me oferecer. O problema, o grande problema, é que o acaso é maroto como ele só: depois de propiciar o surgimento do bom e do ruim, desinteressa-se pelo assunto e não ensina o pulo do gato, para que o ruim seja eliminado e o bom desenvolvido ao máximo. Ai o oposto deve entrar com força total impedindo que se deixe o acaso ao acaso. Uma enorme carga de análises, planejamentos e ações têm que necessariamente se seguir às estripulias do acaso. Caso contrário corre-se o perigo de ativar as coisas danosas por ele ofertadas e eliminar o que deveria ser cultivado. Começa pela análise profunda da oferta do acaso: é boa coisa ou não? Parece fácil, mas não é. O Príncipe Encantado em que a moça literalmente esbarrou na rua e mostrou-se encantador, e sobretudo interessantíssimo, pode se transformar em Sapo no futuro ou tornar-se o mais companheiro dos maridos; a viagem maravilhosa e baratíssima, cujo folheto de propaganda entrou pela janela, conduzido pelo vento pode ser encantadora ou uma monumental furada; o antigo e sumido colega de trabalho que encontramos porque viramos à esquerda e não à direita e que nos saúda com: “incrível! Você é a pessoa que eu estava procurando para...” pode nos fazer uma oferta irrecusável de trabalho ou nos meter em uma enorme enrascada. E por ai vai. Mesmo depois de avaliada a obra do acaso, mesmo quando se anuncia promissora, há um enorme trabalho pela frente. O princípio da entropia entra em ação: se não cuidamos incessantemente tudo será destruído. Enfim a máxima que resulta parece ser: nunca fuja do acaso, ao contrário exponha-se a este, aceite o que lhe trouxer, depois trabalhe como um mouro para dar certo. Pobre Joana! Olha só a Bisavó que o acaso lhe deu! Como existem outros três bisavós vivos, quem sabe adoçarão a pílula que, acredite, não é tão amarga quanto parece. Porque a vida, Joana, queira-se ou não, é uma administração constante, um tratamento sem fim, do que o acaso nos oferece. Fugir do acaso para não ter que administrá-lo é uma forma de não viver. E viver, minha linda, é pra lá de bom. Esta não é uma história de fadas (sossega, também as contarei a você), mas como acontece nestas, se você atentar para esta falação da Bisa, sua vida terá uma grande possibilidade de muitos finais felizes.


sábado, 16 de maio de 2015

Manuel Bandeira na minha memória - de Anna Maria A.Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro
     Em minha bem sucedida carreira de “serial clumsy”, muitos dos episódios ocorreram em momentos trágicos e de grande sofrimento. A lembrança de um deles me vem hoje na leitura da deliciosa crônica Memória sobre Manuel Bandeira, publicada no último número do Montbläat, escrita por José Roberto Teixeira Leite (será ele parente de Dr. Edgar Teixeira Leite uma das figuras que mais me encantava nas minhas lides com Reforma Agrária?). Foi um dos episódios mais absurdos de minha capacidade de criar situações embaraçosas para mim, e muitas vezes para outros, e se deu exatamente num momento de grande tristeza para mim e para muita gente. Era dezembro de 1959, tinha eu vinte e nove e naquela época apenas dois filhos. Morava em Recife, casada com um oficial da FAB. Radiante, havia vindo passar as férias no Rio de Janeiro para participar das festividades de fim de ano que todos os anos envolvia a família numa sucessão de almoços, ceias e jantares que começavam no dia 24 de dezembro e se desenrolavam até o Dia de Reis, em janeiro. Poucos dias antes do Natal um telefonema destruiu nosso mundo familiar, tão divertido e tão unido. O choque de um avião da VASP com o de um cadete da aeronáutica havia provocado a morte de todos os envolvidos. Entre eles estavam meus tios Lucia Miguel Pereira e Octávio Tarquínio de Souza, ambos escritores. Ela, crítica literária, ensaísta e autora de extraordinárias biografias de Machado de Assis e de Gonçalves Dias; ele, historiador de fama, com quem aprendi que D. Pedro I era “femeeiro”, palavra que nunca havia escutado. Em casa de Lúcia (para mim Madinha) eu havia sido introduzida, muito cedo, num mundo de beleza, inteligência e cultura. Desfilavam por lá senhores e senhoras, criadores de personagens, poesias, quadros e desenhos que me haviam sido apresentados antes dos autores, desde muito cedo. Emocionada eu apenas assistia as conversas que me pareciam mágicas. Aquela cobertura, de onde se via o Parque Guinle, era para mim um lugar sagrado. Não eram só os tios que eu havia perdido. Uns poucos que os frequentavam eram também amigos de meu pai. Mas não todos. E eu não mais os veria em sua inteligência e brilho. O enterro no São João Batista estava um tumulto. No mesmo acidente havia morrido o repórter Luciano Carneiro. Eram três personalidades que ao mesmo tempo deixavam a vida e centenas de pessoas chocadas lotavam as capelas. Minha mãe, muito abatida, pediu-me: minha filha: cuida de Tio Frederico. Ele está muito velhinho e fez questão de vir. Tenho medo que se emocione demais. Tio Frederico era um desses tios que só se vêem em enterros. Morava fora da capital e raramente sabíamos dele. Era irmão de meu avô que eu nem havia conhecido. Corri os olhos pela multidão que lotava a capela. Lá no canto, sentado e chorando muito estava Tio Frederico. Sentei-me ao lado dele, sem coragem de dizer nada. Peguei sua mão e passei a acariciá-la tentando dar um apoio que nem seria tanto. Ele me olhava com uma expressão estranha. Era visível que não queria falar nada. Respeitei o seu silêncio e ficamos apenas chorando. Vez por outra, quando o choro recrudescia, eu o abraçava e lhe dava um beijo que parecia provocar mais estranheza ainda. Ao sairmos em direção ao túmulo eu lhe dei o braço e o amparei no andar. Lembro-me que pensei: ele anda bem para idade dele. Mas assim mesmo retardei o ritmo que ele tentava imprimir como que querendo fugir de meus cuidados. Quando tudo terminou alguém que eu não conhecia apoderou-se de tio Frederico dizendo que ia levá-lo em casa. E ele partiu sem se despedir de mim, ainda chorando muito. Livre da incumbência procurei localizar a família e dou de cara com Jorge Laclette, amigo de infância, meu e de meu irmão. Não consegui achar os outros e resolvemos ir a pé para casa de minha mãe, que era na Rua Mena Barreto e onde, certamente, todos se reuniriam naquela necessidade de se estar junto depois de um golpe desses. Foi aí que Jorge fez uma declaração que me deixou confusa: não sabia que você era tão ligada ao Manuel Bandeira. Surpresa, respondi: não sou, não, Jorge. Eu o via apenas em casa de Madinha. Ele veio? Jorge arregala os olhos e dispara: você está maluca? Passou horas de mãos dadas com ele. Abraçando, beijando, agarrada a seu braço!!!  Estarrecida me dou conta de que aquele velhinho (que na época era mais moço do que sou agora) não era Tio Frederico. Até hoje, anos passados de sua morte, o nome Manuel Bandeira me dá arrepios. Mesmo quando releio as poesias que adoro. Imagino o que deve ter pensado daquela louca que dele se apoderou impedindo que fugisse das carícias e do apoio não desejados: o olhar que eu identificara como estranho era de espanto e horror! Rezo para que ele nunca tenha identificado naquela moça a adolescente que o devorara com os olhos mais de dez anos antes. Chegando a casa mamãe me interpela: E Tio Frederico?  Covardemente informo que ele havia ido direto tomar o ônibus de volta. E passei algumas horas no terror da chegada da notícia de um velho desorientado vagando pelo São João Batista. Mas, aparentemente, Tio Frederico retornou são e salvo ao seu refúgio e morreu anos depois, sem saber que havia sido abandonado por uma sobrinha neta trapalhona.      

domingo, 26 de abril de 2015

TERROR NOTURNO – por ANNA MARIA A. RIBEIRO

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

     Por mais de uma vez estas crônicas falaram de Fräulein Grete. Até mesmo num pedido de desculpas pelo ódio infantil que lhe tinha, já que na provecta idade em que me encontro entendi que sua intenção era das melhores ao tentar me educar com rigidez militar. Tinha eu apenas quatro anos e uma de minhas queixas era a diferença que havia entre o trato dispensado a mim e aquele de que era alvo meu irmão de dois anos. Ele entregue aos exclusivos e ternos cuidados de Babá, maravilhoso ser humano de quem tenho até hoje enorme saudade. Até mesmo de Fräulein ele recebia carinhoso tratamento:meine schöne (meu lindo) enquanto eu ouvia um ríspido: richten sie (endireite-se!) destinado a garantir um futuro saudável para minha coluna. O que, diga-se de passagem, não aconteceu ou porque eu não obedecia ou porque a postura correta na infância em nada garante a higidez na velhice. Outra queixa, mais que justificada, era a confusão que se estabelecia para o ato de falar. Morávamos em São Paulo, numa chácara linda e, sei lá por que razões Mamãe decidiu que além da Governanta alemã eu deveria ir para o colégio francês L’Assomption. Isto misturado ao linguajar do choffeur italiano (não se dizia motorista naquela época) complicou muito a forma de me expressar. Eu era acordada em português por Babá, tomava café em alemão com Fräulein, ia para o colégio ouvindo Seu Anselmo cantar a plenos pulmões em italiano antes de ingressar num mundo francês! Inexplicável também era o fato de que, acordada por Babá, eu era posta para dormir por Fraulein. E é ai que entra o terror noturno. Fräulein me fazia rezar em alemão, ajoelhada ao lado da cama, uma oração que para mim tinha um significado muito desagradável. Hoje, totalmente esquecida deste idioma, sou capaz de como um papagaio repeti-la sem entender o que estou dizendo.  Ich bin kein, soll niemand drin wohnen als Jesus allein. Amen. Fui conferir no Google a grafia e se a tradução correspondia à exortação marcada para sempre em minha memória: unicamente Jesus deveria habitar meu coração! E meu irmão, e meu cachorro, e meus pais, e minha irmã recém-nascida? Que droga, eu pensava! Tudo bem que Jesus também lá estivesse, mas só Ele?! Tentei discutir isto comFräulein. De nada adiantou. Ou melhor, ela me fez alguma reprimenda pelo que julgou ser uma blasfêmia. Não deve ter usado esta palavra, mas pelo enfático tom do qual me lembro devia significar isto ou coisa pior. Mas o terror vinha depois desta afirmação de exclusiva moradia cardíaca. Já eu na cama, Fräulein sentava-se ao lado e começava a cantar! A intenção devia ser, é claro, dar-me o carinho de uma canção de ninar. Mas o fato é que a cantoria soava como uma terrível ameaça que se repetia noite após noite. E as palavras que também papagueio agora sem ter ideia do que significam (também transcritas e traduzidas com auxilio do Google) eram, naquela época, por mim compreendidas e vaticinavam algo terrível:
Guten Abend, gut’ Nacht!
Mit Rosen bedacht,
mit Näglein besteckt,
schlupf unter die Deck’!
Morgen früh, wenn Gott will,
wirst du wieder geweckt.
A última frase significa: amanhã se Deus quiser você vai acordar! E se Deus não quisesse? Eu podia morrer durante a noite! Um horror! Pior é que esta possibilidade me parecia bem provável como castigo por minha recusa de manter somente Jesus no coração teimando em povoá-lo com seres humanos!  Noite após noite esta ameaça se renovava e ao ser acordada a cada manhã por um anjo terreno (Babá) eu respirava aliviada. O mais apavorante é que esta mesma canção em português era cantada por Babá para meu irmão tendo na última frase o desejo de que uma bela musica embalasse seu sono. Ou seja, a ameaça era mesmo só a mim dirigida. Não mais podendo aguentar o horror perguntei a Papai se de fato eu poderia não acordar. Ele riu e disse que era maluquice e que eu não deveria me impressionar com isto. Estabeleceu-se então uma discussão teológica, totalmente incompreensível para mim, entre Mamãe (muito devota) e Papai (nem tanto) que longe de me esclarecer provocou duvidas muito serias. Reivindiquei então ser posta na cama por Babá. Era uma solução e me foi concedida esta benção, com uma condição: Fräulein se encarregaria do preparar para cama e Babá me garantiria bons sonhos! Vai daí que eu continuaria a ouvir a voz de comando dada sempre à mesma hora e da mesma forma: zähne putzen (escovar os dentes). Esta é uma das raras frases que ainda digo em alemão sabendo o que estou falando. E certamente a que me credenciará como idiota se algum dia me for necessário mostrar proficiência neste idioma!

domingo, 1 de junho de 2014

Me conta uma história - Anna Maria Assis Ribeiro

Ela fecha a porta de casa atrás de si e pensa: agora vai passar! A entrada em casa sempre foi o alívio para todos os males. Mas o porto seguro desta vez não está funcionando. Sabe-se lá por que. Coisa esquisita! Será que finalmente a velhice ataca? Não o ficar velha: isto ela o é, desde muito. Mas não haviam aparecido até agora os efeitos desagradáveis da coisa. Mas hoje aquela sensação de tristeza e desamparo se instalou desde cedo.
Depressão senil. Sempre ouviu falar disto. É... vai ver atacou. Quando, como um autômato, foi ao caixa eletrônico tirar dinheiro nem olhou as frutas na Cobal. Tão bonitas sempre, hoje murchas; e as verduras nem verdejavam. Vai ver é isto: na depressão as cores somem substituídas por um cinza feio e sem graça. Fica ali parada sem achar o destino certo dentro de casa. Falta alguma coisa, pensa. É isto! Falta! O que é que falta ela não sabe. Mas a sensação de não estar lá “a coisa que falta”, é verdadeira, é sólida! O que poderá ser? Se falta deve ter um buraco, um vazio em algum lugar. Seus olhos percorrem cada canto, cada objeto.
Ao passar pela foto do pai se detém e se assusta. Não é uma “coisa” que falta. É o pai. Ele mesmo. Pessoa. Mas isto não tem sentido. A falta dele existe sempre e já não dói tanto, faz tempo. Ao contrário, é bom lembrar. Mas é ele. Ela tem certeza. É ele que falta hoje. Deixa-se ficar ali, agora no sofá, olhando a foto. Que estranho! No prédio ao lado uma criança chora... ... e o Pai sorri. Aninha-se no colo dele e pede:
- Pai, conta uma história. Uma história daquelas que muda tudo.
- Muda? O que é que você quer mudar?
- Eu. Muda eu.
- Pra quê?
- Tô triste.
- Ah!
- Conta!
- Tristeza não é ruim. Sabe?
- É, sim. Muito. A história, pai. A história.
A história vem, perfumada pela loção de barba que conduz à calma e ao peso das pálpebras que não têm mais medo de fechar. A história que muda tudo invade o sono. Alça voo nos braços do Pai e faz um pouso suave nos lençóis de linho. Já está dormindo. Mas mesmo assim sente o beijo e o ajeitar das cobertas.
Percebe quando ele sai do quarto ao mesmo tempo permanecendo ao lado da cama na mágica de sua sempre onipresença. Ela ainda murmura: Pai... no prédio ao lado a criança parou de chorar. Da foto o Pai ainda sorri observando a samambaia. É para lá também que vai o olhar dela. Meu Deus! Como está verde! Tão verde! E a volta da cor, conduz o sono.

domingo, 2 de março de 2014

QUEDA DO MINISTRO EM TRÊS TEMPOS -- Anna Maria Assis Ribeiro

Episódio 1

Orgulhosa, ela escutou o convite: o Ministro queria conhecê-la. Sua solução para a automação no tratamento das informações daquele importante projeto era uma inovação, na época. Merecia elogios. Aprontou-se, o mais executiva que conseguiu com seu guarda-roupa nada ortodoxo e mandou-se para o ministério. Ali sentada, frente ao Ministro emoldurado pela Bandeira e pelo retrato do Presidente, deitou falação. Às folhas tantas o Ministro embatucou diante de uma fórmula matemática. Ela levantou-se, rodeou a mesa e colocou-se em pé, a seu lado, curvando-se para melhor explicar. Foi neste exato momento que sentiu alguma coisa roçar no peito do pé, acondicionado numa meia Dior, como pedia a ocasião (naquele tempo os Ministros eram importantíssimos! Acreditem os mais jovens). Deus! Faça com que não tenha corrido um fio! Esta meia é caríssima! Um discreto olhar revelou o horror! Uma barata instalara-se ali! O mundo desabou. Tudo escureceu! Privação de sentidos total! Ao voltar a si, percebeu-se de quatro, em cima da mesa do Ministro, aos gritos: Mata! Mata! A Bandeira e o Presidente da República ainda ladeavam o Ministro que em pé, com uma frieza glacial, ordenou: a senhora desça! Procurando manter elegância, impossível pelo quadrúpede recuo, escorregou mesa abaixo, obedecendo à ordem severa: a senhora está dispensada.
Episódio 2
Alguns meses depois. No dia 29 de dezembro duas datilógrafas batiam furiosamente uma Instrução Especial que teria efeitos tributários e que deveria para tanto, depois de assinada pelo Ministro, ser publicada no DO, antes do dia 31. Naquele tempo não existia xerox e o raio da Instrução era em 8 vias. As máquinas não eram corretivas e as cópias eram feitas com carbono, naquelas folhas fininhas, fininhas. Um trabalho cão. Terminaram já tarde. Alguém graduado tinha que ir colher a assinatura do Ministro. Infelizmente o único alguém disponível era ela. Fazer o quê? Disfarçou-se o mais que pode. Mas não surtiu efeito. Ao entrar viu o horror do reconhecimento nos olhos do Ministro. Um exame discreto para o chão garantiu a não existência de baratas por perto e ela postou-se ao lado do Ministro virando as páginas para que ele rubricasse cada uma daquelas malditas folhas de papel fino. A cada folha um sentimento de alívio. Nada iria acontecer. Foi aí que surgiu, sabe-se lá de onde, um copeiro com uma bandeja com xícaras de café. Cheias e pelando. Ao levantar o braço, alçando mais uma folha, foi-se a bandeja pelos ares. As xícaras derramaram-se sobre o Ministro e sobre a Instrução Especial, inundando-os de café. Em sua aflição ela tentou secá-lo com as próprias folhas da Instrução enquanto ele se debatia aos tapas, tentando dela se livrar. Escorraçada, ela retornou e confessou-se ao Presidente e ao Diretor que entre risos e censuras fizeram com que duas datilógrafas passassem a noite em claro (nunca mais falaram com ela, as duas).
Episódio 3
Alguns meses mais se passaram e ela foi chamada ao Gabinete do Presidente. O Diretor também estava presente. Solenes eles informaram que a Missão Francesa viria visitar a instituição, a convite do Ministro. Ela, em hipótese alguma, deveria estar presente. Que fosse a praia, ao cinema, onde bem lhe desse na telha, mas sob pretexto algum deveria aparecer nas imediações do prédio, no dia da visita. Enfim alguma coisa de bom havia resultado dos incidentes. O acúmulo de trabalho lhe tirava até os fins de semana. Uma trégua seria mais que bem vinda. No dia da visita arrebanhou os filhos: vamos à praia! Se eu vou faltar ao trabalho, vocês vão faltar colégio! Uma heresia nunca vista! Naquele tempo ela não tinha telefone. Era difícil conseguir. Era o número 1.144 da fila para obtê-lo! A campainha da porta revelou um colega e o prenúncio de tragédia: o interprete havia quebrado a perna num acidente de carro. Que conhecesse o projeto e falasse francês só mesmo ela. Tremeu! Uma hora depois se viu numa sala, sentada como um suspeito em interrogatório, acuada pelo Diretor e pelo Presidente que de pé, ferozes, gritavam: fique o mais afastada possível! Imóvel. Aja como um robô!  O olhar do Ministro, ao vê-la, revelou pânico. Ela engoliu em seco e com uma voz trêmula começou a traduzir e verter as diversas manifestações. Aos poucos foi se acalmando. É claro que nada iria acontecer. Até o momento em que um idiota qualquer sugeriu que o Ministro mostrasse ao General Francês, o CPD. Naquele tempo computadores eram raridades dignas de serem exibidas. A escada que conduzia ao CPD não tinha o espelho dos degraus. O Ministro, ao lado do General, começou a descida. Ela veio atrás, traduzindo, furiosamente. E... eis que o salto de seu sapato pisa fora do degrau e ela tomba para frente. Falta de outro apoio agarra-se às costas... do Ministro. Alguém que estava atrás impede sua queda. Mas ninguém, ninguém mesmo, impede a do Ministro que rola os felizmente poucos degraus que faltavam. Confusão total. Todos se precipitaram para ajudar o Ministro a recompor-se da queda. Ele levanta-se rubro de raiva gritando: esta mulher é uma catástrofe! Demita-se!
Epílogo
O Diretor e o Presidente não cumpriram a ordem e ela ficou escondida, impedida de participar de qualquer evento em que o Ministro pudesse estar presente. Já se passaram anos, muitos anos. O trauma causado não a abandonou, nem com seis anos de terapia. O Ministro, agora bem velhinho, às vezes vem ao Rio. Quando ela vê seu nome nos jornais recusa-se a sair de casa. Não importa o que tenha que fazer. Tranca-se no quarto enquanto ele permanece na cidade. Tem certeza que se pisar fora de casa, vai topar com ele e sabe-se lá o que poderá ocorrer! Pensa, às vezes, em se converter a alguma religião que, afirmando a existência de reencarnação, explique o que este Ministro lhe teria feito de terrível em outras vidas. Isto explicaria tudo e ela poderia se livrar, sem culpa, deste Carma.   

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Catarata - Autora convidada: Anna Maria Assis Ribeiro

   
 A frase vem firme, carregada de competência: a senhora está com catarata senil. A expressão do rapaz é absurdamente sorridente (é um médico, mas referir-se a ele como “rapaz”, lhe traz um sabor de elegante vingança). Sufoca o ímpeto de responder com um “senil é a sua avó!”. Mesmo porque ele provavelmente concordaria. Arruma o tom certo (entre frio e calmo) e pergunta: não entendo o senil... O tom da resposta é paciente, ela diria até resignado, evidenciando que, do ponto de vista do "rapaz", sua senilidade estende-se muito além da catarata: minha senhora! É este o nome! Consegue que um fino sorriso escamoteie a raiva: mas desnecessário. Qualquer pessoa sabe o que é simplesmente catarata. Ligeiramente irritado, ele esclarece: catarata senil é o nome desse tipo de catarata! E, com desprezo, acrescenta: nome científico, minha senhora! Seus olhos, que agora sabe senis, vagam pela sala e pousam num exuberante vaso de margaridas amarelas: lindas as suas Crysanthemum Coronarium. O rapaz arregala os olhos. Explica num tom doce: nome científico de suas margaridas amarelas.  Agora francamente irritado, o rapaz revida: existe uma grande variedade de cataratas. A sua... Corta brusca, já se levantando: já entendi, é senil! Mas existe também uma grande variedade de margaridas...  E lá vai ela pela rua, tropeçando e pensando (tanto os tropeços quanto os pensamentos são causados pela catarata). Já em casa, bate a censura! Afinal é o nome da coisa! Vai ao dicionário, em busca do “senil”. Não que ignore o significado, mas quem sabe a definição será mais doce do que a agressão da palavra. Senil: relativo à velhice e aos velhos, próprio da velhice, velho, idoso, decrépito. Puxa! Sente-se culpada! Exceção feita ao “decrépito”, que lhe parece um desagradável exagero, o resto se encaixava perfeitamente à sua condição, já nem tão recente.  Mas no fundo, lá no fundo, julga ainda que não precisava o senil! Já que o dicionário está em mãos, porque não olhar a palavra “velho”? Ela nunca havia feito isto. Quem não sabe o significado de velho? Mas será que... A primeira definição pareceu-lhe um tanto cretina: “que não é novo”. Uma obviedade desnecessária, mesmo num dicionário que necessariamente tem de o ser. Logo depois: “que existe há muito tempo”. As duas definições se aplicam a ela como uma luva e, num silogismo verdadeiro, denunciam: quem existe há muito tempo é velho e senil; existo há muito tempo; logo sou velha e senil. Não havia do que se ofender. O “rapaz” tinha razão. Cientificamente, é claro.

2004


domingo, 8 de dezembro de 2013

Irremediavelmente amigos

Anna Maria Assis Ribeiro


Eram amigos desde sei lá quando. Parelhos em idade, ele três anos mais velho. Um
belo homem. Ela não era uma bela mulher, mas agia como se fosse e isto
convencia a todos de que o era. Naquela época estava ela nos primeiros anos dos
cinqüenta, ainda trabalhando na mesma empresa em que durante tantos anos,
empenharam-se juntos em inúmeros projetos. Ele, não mais. A cátedra de
professor numa universidade rural havia criado uma distância complicada de se
dar jeito, já que ele resolveu morar por lá.
E como os dois detestavam falar ao telefone, a conversa de todo sempre havia
ficado difícil. Conversa infindável, esta. Falavam de tudo: da vida, do
trabalho, dos filhos, dos companheiros, e do que mais viesse. Mas,
sobretudo, era no assunto “trabalho” que mais se encontravam. Formavam um time
perfeito, azeitado, mesmo nas discordâncias que quando surgiam sempre
resultavam num avanço pelo convencimento de um ou do outro que passava a remar
junto. A ela fez uma enorme falta quando se foi para outras paragens. Eles se
entendiam pelo olhar. Entusiasmavam-se tanto que quando iniciavam um novo projeto ficavam envolvidos dias após dia, entrando noite adentro no terreno das idéias, das descobertas, de soluções novas. Por vezes, numa coincidência incrível o Eureka vinha em uníssono. Custou a engrenar com outros parceiros. Numa bela tarde de maio ele a surpreendeu aparecendo em seu  trabalho. Estava morrendo de saudades, disse.                                                         Foi uma festa. Coisa tão boa vê-lo. Tinham tanto assunto para por em dia! Em linhas gerais até que ela sabia do que andara acontecendo: o terceiro casamento dele tinha ido pro brejo. Assim como o dela. Engraçado. Era a primeira vez que ambos estavam solteiros ao mesmo tempo. Sempre havia sido uma gangorra. Ele casava; ela descasava. Ela casava; ele descasava. Em todas estas idas e vindas, haviam ficado amigos também do cônjuge do outro que com o descasamento desaparecia das vidas... dos dois. E era assim que, a seu turno, eles tomavam a posição de terceira pessoa sempre presente junto ao casal que estivesse estável no momento. No dia em que ele apareceu, assim de surpresa, ela estava sem carro. O dela tinha dado um treco (para ela, carros não davam defeitos, davam trecos). Felicitou-se. Assim poderia pegar uma carona, esticando a conversa e quem sabe até esticando a esticada, num jantar. O carro deslizava pelo aterro do Flamengo ao som de uma música que ambos curtiam. E ele falou: lembra? O pôr-do-sol estava deslumbrante. Tudo tão bom. Tão bonito. E ela comentou: quando o dia começou não se anunciava tão perfeito. Ele sorriu: perfeita é você! Puxa, mulher, que saudade! Do lado de cá também, ela declarou. Ele, por segundos, desviou os olhos e olhou para ela. Parecia emocionado. Não, não era bem isto, era outra coisa. “Outra coisa” que começou a dar nela também. Cruzes, ela pensou, não pode ser. Que absurdo! E ele respondeu a seu pensamento, como sempre fazia e perguntou: absurdo por que? Ora - ela respondeu aflita – você nunca sentiu isso... Ele interrompeu: isso que você está sentindo agora... também? Ela emudeceu numa emoção adolescente. Meu Deus! A mão direita, firme, deixa o volante e se apossa da mão dela. Mágica! Pura mágica! Ele também emudeceu. Aumentou o som e a velocidade do carro que naquele dia lindo dirigiu-se à Copacabana. Daí Ipanema e Leblon se seguiram lindos, lindos. A chegada à Barra foi uma emoção só. Até a entrada no Motel foi fantástica. E foi ai que bateu nela o nervoso! Pode isto?! Tenho que falar alguma coisa. Qualquer coisa. Este silêncio está me deixando aflita demais. Naturalidade. É isto! Tenho que ser natural. E foi assim que ao entrarem no quarto ela perguntou: você conseguiu emplacar aquele projeto? Os olhos dele brilharam: e como! Vou mostrar a você.  Abre a pasta que havia trazido consigo e dela tira um calhamaço de papeis. No início em pé, ao lado da mesa de entrada, ele começa a explanação. Ela não se lembra do momento em que se sentaram e começaram a discutir sobre um ponto sobre o qual não concordavam. Lembra-se apenas que subitamente ele disse: estou morto de fome. Vamos pedir alguma coisa para comer? Ela apenas acenou com a cabeça. Estava concentrada tentando achar argumentos que sustentassem seu ponto de vista. Jantaram ainda discutindo. Afastaram os pratos e continuaram a discussão. Muito tempo depois foram interrompidos pelo som do telefone. Ele foi atender e voltou informando espantado: perguntaram se vamos ficar a noite toda! Ambos olharam para os respectivos relógios... e foram acometidos de um riso incontrolável. Sem a música e sem o belo pôr-do-sol, o projeto falara mais alto. Já voltando, na altura de Ipanema, ele comentou: jantarzinho caro, este, né?