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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

   Vinícius (em construção)

Ao entrar no quarto, com um exemplar de “Ópera do Poeta e do Bárbaro”, para Ana dá-lo à sua chefe, Vinícius ouviu nossa conversa e o meu comentário de que seu guarda-chuva deveria ficar na bolsa. Ao ver sua mãe de saída para o trabalho, ele pegou o livro, que ela já ia esquecendo, e lho entregou. Feito isso, pegou o guarda-chuva e colocou-o em sua bolsa.     
                      Além de perspicaz, tem um sétimo sentido que o leva a sentir a presença da Ana à distância. Quando estamos fechados em um quarto, e ela mal se aproxima do portão, ele exclama: Mamãe!      
  Outro dia, estávamos, ele e eu, em um supermercado. De repente, ele a chama bem alto. Ao me virar, vejo-a através do vidro, estacionando o carro... Igualmente, se ele está dormindo e ela chega, ele senta-se na cama e diz: Mamãe "agou". O que significa “chegou” em  bebenês.
     Com apenas um ano e onze meses, é extremamente ordeiro. Deixa tudo como encontrou seja um par de sapato juntinho ou qualquer outro objeto explorado por ele, em sua infinita curiosidade.                   
     Ontem, quando cheguei com seu leite, primeiro desligou o celular de sua mãe, onde assistia a um desenho, para depois segurar a mamadeira.
     Outra qualidade dele é a persistência: brincando com um carrinho, colocou-o em um saco plástico. Ao tentar retirá-lo, não conseguia pois o plástico havia se enroscado nas rodas.                                                                 
 – Quer que eu o ajude, perguntei.                                                                                                                                        - Não, eu consigo.                    
Ficou um bom tempo tentando, fazendo força e puxando o plástico daqui e dali, até que triunfou e se abriu em um sorriso  de satisfação consigo próprio.      

      Um dos "presentes" do Natal de 2019.  Vinícius, ça va sans dire.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A manhã de hoje

                          

   Por causa de um salgadinho saboreado ao entardecer, à noite tive um pesadelo. E o culpei, porque a coincidência se repetiu, no mínimo, pela terceira vez. Mas, vamos ao que enfrentei enquanto dormia: nada mais - ou nada menos – do que Lula e Dilma. Seria possível a desgraça se alastrar em outra dimensão?
     Levei, então, a mistura de Pastor Alemão com Akita que temos aqui em casa e fomos, corajosamente, derrubar de uma vez por todas, a maldita dupla. Que me desculpem os petistas.
     Amedrontava a todos pela frente, até que contra-atacaram com um ratinho fatal. Estava eu nesse dilema, quando acordei aliviada.
     Daí me levantei disposta a recomeçar o namoro com o dia. Em frente ao espelho, constato a secura de minha pele. Chego à conclusão de que o famoso creme não está fazendo efeito. Acho que - aqui me rendo em minha batalha para usar o tempo futuro - vou apelar para a sabedoria antiga: a velha pomada “Minâncora”.
     Lendo a bula, relembro que ela combate espinhas e o efeito de picadas de insetos, mas não hidrata.Vick Vaporub igualmente combate espinhas; elimina dor de cabeça, vejam só;  alivia dores nas articulações, etc., mas só hidrata lábios... A última tentativa: Listerine, quem diria? Além de enxaguante bucal, serve para limpar vidros, pisos e, ao fim de uma longa lista de promessas, a limpeza do rosto é uma delas, mas não há menção de hidratá-lo. Como não?! Que droga de produto é esse que só resolve 37 problemas?
     Desisto e ligo o celular, onde há um apelo urgente para salvar elefantes na África, com a agravante de termos que enviar um donativo.
     Só me faltava essa. Como se não tivesse preocupações suficientes, e não me refiro à pele. Que me desculpem os ecologistas ou seriam os ambientalistas?
    Enquanto cedo a este impulso irresistível de tudo colocar no papel, na mensagem do Whatsapp me esperam, "no elevador parado e às escuras, um argentino, um brasileiro, uma gostosa e uma freira"... 
Sabe-se lá o desenlace da piada, que será lida mais tarde.
     O dia avança, e junto com ele a hora em que devo me colocar sob o sol, para a devida absorção de vitamina D,
     Lá fora, eis que me defronto com duas pequenas abelhas engalfinhadas, na luta por uma folhinha. Com tantas ao redor, elas não a largam, há mais de 20 minutos. Joguei-lhes outra folha, porém ignoraram-na. Serão os animais tão cegos quanto os humanos? Deu vontade de pisoteá-las, mas pensando no Livre Arbítrio, deixei-as ao seu bel prazer. No entanto, a dúvida de que uma delas fosse fêmea e precisasse ser salva, me fez tentar separá-las. Em vão. Finalmente, tinha mais o que fazer e que me desculpassem os biólogos.
     À toda essa avalanche de acontecimentos, somaram-se as pouco emocionantes notícias do jornal, aberto ao lado do livro, que aguardaria pacientemente na fila sua  oportunidade de me encantar.

     Ao digitar esta postagem no escritório, no andar superior e de janelas fechadas, ouvi um pedido abafado de socorro. Abri uma das janelas e chamei:
- Adélia?
     Não obtendo resposta, achei que fosse a vizinha vendo uma barata. Só que era meu marido caindo de uma escada. Bateu no chão com a testa, que logo sangrou muito, formando-se um enorme galo. O grito havia sido da faxineira e, graças a Deus, ele está bem.

Angela Delgado

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Vida - Ângela Delgado

A vida é rodízio obrigatório
de contraditório cardápio
oferecem-nos alegrias
acompanhadas de tristezas

como se fosse a conta.
ora degustamos aconchegados na cadeira
ora levamos uma rasteira

Assim seguimos vida afora.
Remoendo neste barco?
Se mime, não rumine.

sábado, 2 de setembro de 2017

Uma crônica de Jacques Prévert - Ângela Delgado

 Ontem foi uma data triste, pois fazia um ano que um irmão muito querido se fora, mas ao final do dia, lendo na cama um livro de Jacques Prévert, pude rir com sua crônica:                                                                             
                               "  O professor
Hamlet!
                       O aluno Hamlet (tendo um sobressalto)         
 ... Hein... O quê... Desculpe... O que aconteceu...  O que houve...

                           O professor (descontente)
 Você não pode responder “presente” como todo o mundo? Impossível, você ainda está nas nuvens.
                                  
                           O aluno Hamlet

 Estar ou não estar nas nuvens!
                                
                          O professor

Basta. Vamos ao ponto. Conjugue o verbo ser, como todo o mundo, é tudo o que peço.
       
                     O aluno Hamlet
 To be...
                         
                     O professor

Em francês, por favor, como todo mundo.

                    O aluno Hamlet

Está bem, professor (ele conjuga) :
Eu sou ou não sou
Você é ou não é
Ele é ou não é
Nós somos ou não somos...
                                
                         O professor
                  (bastante descontente)

Mas você não está aqui, meu pobre amigo!

                       O aluno Hamlet

É isso, professor,
Eu estou “onde” não estou.
E, no fundo, hein, pensando bem,
Estar “onde” não se está
Talvez seja também a questão."


Não sei se foi engraçado para vocês ou se eu é que estava precisando rir.
Como há um probleminha de tradução, porque, em francês, a palavra “ou” é homônima de “onde”, transcreverei o texto original:

                                    Le professeur
 Hamlet!
                                   L´élève Hamlet         
                                     (sursautant)

 ... Hein... Quoi... Pardon... Qu´est-ce qui se passe... Qu´est-ce qu´il y a... Qu´est-ce que c´est?
                            
                                     Le professeur
                                     (mécontent)

Vous ne pouvez pas répondre “présent” comme tout le monde? Pas possible, vous êtes encore dans les nuages.

                                        L´élève Hamlet

 Être ou ne pas être dans les nuages!

                                       Le professeur

  Suffit. Pas tant de manières. Et conjuguez-moi le verbe être, comme tout le monde, c´est tout ce que je vous demande.
                         ]
                                       L´élève Hamlet
To be...
                    
                                       Le professeur
                          
En français, s´il vous plaît, comme tout le monde.

                                         L´élève Hamlet
  
 Bien, monsieur. (Il conjugue:)
Je suis ou je ne suis pas
Tu es ou tu n´es pas
Il est ou il n´est pas
Nous sommes ou nous ne sommes pas...

                                     Le professeur
                              (excessivement mécontent)      
]     
Mais c´est vous qui n´y êtes pas, mon pauvre ami!

                                    L´élève Hamlet

C´est exact, monsieur le professeur,
Je suis “où” je ne suis pas
Et, dans le fond, hein, à la réflexion,
Être “où” ne pas être

C´est peut-être aussi la question.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Uma Colonoscopia - Angela Delgado

       
        - Deite-se de lado, por favor.
    - Tem um travesseirinho para os joelhos?- pergunto, em tom de brincadeira.
     - Vou buscar.
     - Uau, que mordomia, obrigada!
     Foi um travesseirão o que a enfermeira colocou sob minha cabeça.
     - Ficarei lhe devendo o dos joelhos para a próxima colonoscopia.
     - Quem disse que haverá outra? 
     Pela manhã, o preparo para o exame havia me obrigado a mudar-me para o banheiro, com dicionário, lápis, borracha e o que era permitido tomar: água, chá e suco, pois qualquer líquido que entrava, descia garganta abaixo, como em um elevador descendo do décimo segundo andar, de uma vez, sem escalas e acelerado.
     A sala da recepção esteve bem movimentada e a maioria dos pacientes ainda ostentava cabelos pretos. Só eu ali me apresentara um pouco tardiamente, e não pensava em voltar.
     Minha irmã outro dia me disse que “com a ida do nosso irmão muitíssimo mais cedo do que prevíamos - mesmo porque pensávamos que ele seria eterno, assim como nós -  descobriu que se ele foi, é bem capaz de irmos também...”
    A resolução foi tomada:
    Iremos aproveitar mais a vida, na medida do possível,  e não será em um hospital que o farei.
    Com tubo de oxigênio no nariz; agulha espetada no braço e ouvindo a enfermeira dizer que o aparelho de pressão “iria estar apertando o meu braço” (ai, de tão useiro ultimamente, isto já está deixando de ser uma “akustische Halluzinationem”), forço-me para evitar chorar, ali mesmo, a perda de meu irmão, há tão pouco tempo, em, mais ou menos, "semelhante" situação. A dele, infelizmente, era gravíssima e a minha não, mas também estou momentaneamente ligada a aparelhos.
   Quantos poemas ou crônicas engraçadas terá ele imaginado, na posição horizontal!
   Tomara que as máquinas do futuro não mais deixem passar essas valiosas inspirações e as registrem todas.            Stephen Hawking, com um toque de mão, escreve frases, selecionando palavras de uma lista delas em ordem alfabética!
   A enfermeira anuncia que o anestesista me fará algumas perguntas.
   - Que idade a senhora tem?
   - Como? Aviso que também faria perguntas.
   - O quê?
   - O senhor está ouvindo igual a mim.
   Rimos e ele prepara uma injeção.
   - Onde o senhor a aplicará?!
   - Na veia.
   - Ah, bom!
   Findo o exame indolor e já de olhos abertos, em um hospital "de primeiro mundo”, limpíssimo, moderno e ampliado, indagam-me que suco eu gostaria.
   - De caju, de...
   - Esse está ótimo – respondo logo, deixando de ouvir o resto da oferta e poupando-a de mais palavras – já que há muito tempo não tomo um dessa fruta.
    Sem pressa de sair da maca, pois deixara nas mãos do marido e acompanhante um excelente livro, que esperava o estivesse deliciando, acabo tendo que me dirigir ao vestuário para me trocar.
   Abro um, dois, três armários e não vejo a minha roupa. Será que  ainda grogue? Reabro os armários para confirmação, aproveitando para examinar, apenas com os olhos, as que ali se encontravam, na hipótese de ter que sair de roupa literalmente trocada. Decido, porém, relatar o sumiço de meus trajes à enfermeira, que levanta os olhos do seu celular, único senão desse hospital e, provavelmente, a causa do quiproquó.
   - A senhora me desculpe. Devo tê-la encaminhado antes ao vestiário masculino. Veja se estão nele.

  Hoje recebi um e-mail do Banco Central pedindo o CNPJ do prestador de serviços que fará a polipectomia, em consequência do resultado da colonoscopia.
  Ignoro o que seja isso e, muito menos - ou mais – o significado da palavra que se seguiu à série de números que o atendente me passou pelo telefone: milderré.
 - Pode repetir?
 -  Milde ré.
  Mil de ré. Esqueci de perguntar se esses números modernos vêm com retrovisores. Caso contrário, vejam o perigo, poderá haver algum mil por aí abalroando um desavisado 999!
E o que tentaram me dizer era que a informação requerida terminava em 0001.
Para facilitar, meu próximo número de telefone será codificado: 9987 6 CEM DE RÉ.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Geovanas, Jocileides e a burocracia - Angela Delgado

      
     Filha Casada, com problemas em seu telefone, colocou o meu no jornal em um anúncio à procura de uma babá.
     Foram quase 200 telefonemas em apenas dois dias, em que houve de tudo:  chamadas a cobrar; ligações em que fui tratada por gatinha; minha linda, até uma candidata que falava francês! Esta assustou-me, fazendo-me suspeitar de que fizesse parte de uma rede internacional de sequestradores. Não. Apenas trabalhara quatro anos na França, tomando conta de uma criança ou seja, na qualidade de"au pair", como dizem os franceses.
    Não podia me concentrar no computador ou fazer café, e muito menos tomá-lo.
     As Adrianas, Alines, Anízias, Catarinas, Geovanas, Jocileides, Josélias, Luísas, Marinas, Marias, Osanas, Roses, Selmas, não me deixaram sentir solidão.
     Apresentaram-se, prometeram voltar, mas não o fizeram, talvez amedrontadas pelas crianças: três mosqueteiros e uma princesa, de brinde.
     Nesse ínterim, Filha Antropóloga passara no concurso para o Ministério da Educação e precisava apresentar seus títulos que se resumiam a um, já que ainda não havia concluído o mestrado.
     Estando ela em outra cidade, coube-me telefonar para requerer a declaração atestando que ela trabalhara, durante dois anos, como professora da Fundação, o que lhe adicionaria oito pontos em seu  resultado. Declaração para amanhã? Impossível. Terei que entregar mais de quinhentas.
...............................................................
Mas, mãe, já a pedi há meses! Deve estar pronta.
     Às oito da manhã, estaciono no estacionamento ainda vazio, que bom, só que declarações eram entregues a partir das dez horas.
     Volto às dez. Em que mês sua filha fez o pedido? Vocês não arquivam por ordem alfabética? Não, pelo mês da requisição.
     Não tenho como falar com a Filha Requerente e preciso do papel para ontem. Por sorte, a funcionária, em menos de dez minutos, achara a declaração.
   Saí exultante. Agora restava apenas reconhecer firma, tirar xerox e enviá-la pelos Correios. No cartório, algum corretor, à espera de sua cliente que não chegava, trocara sua senha pela minha; ganhei mais alguns minutos em minha corrida contra o tempo. Que menina sortuda essa Filha Antropóloga. Mas aí Deus achou que já havia me concedido muito. A máquina de xerox não estava funcionando e o Sedex não poderia entregar o envelope no dia seguinte, pois era feriado. Ao lado, uma loja transportadora de cargas expressas o faria, porém mediante quantia tão exorbitante, que retruquei: Por esse preço, pego o avião e levo pessoalmente.
     Solução: Filha Antropóloga, via fax, me passou uma procuração.
     Só não entendi por que para obter a declaração, não me fora requisitada a carteira de identidade se para entregá-la, além da carteira de identidade, era preciso uma procuração.
     De curiosidade em curiosidade, finalizo com o fato de minha “maturidade” ter achado um ótimo meio de saber onde coloquei certos objetos. Por exemplo, um saquinho bem pequeno de plástico, que achei ter utilidade futura, foi guardado na letra “p” da pasta sanfonada de documentos, e me divirto comigo mesma, constatando a hilaridade da faixa etária.
     O que será que ainda vai parar nessa pasta? Celular e chaves na letra “c”, óculos no “o” e assim por diante.

sábado, 17 de maio de 2014

Gran finale - Angela Delgado

Gran finale  -  Angela Delgado
30 de abril

Nunca tive senso de direção e não seria em outro país que eu o teria.
Como era necessário pegar dois ônibus para ir ao Salão Internacional do Livro, a incerteza sempre baixava: é aqui, ali, esse, aquele? E se eu não memorizava os pontos de ônibus, muito menos diferenciaria rostos rosados pelo frio de motoristas e agentes de trânsito.

- Bonjour, s´il vous plaît, pour aller au Palexpo, l´arrêt du bus c´est ici, monsieur ?  
(Bom-dia, por favor, para se ir ao Palexpo, o ponto de ônibus é esse?)
- Oui, madame !                 

1 de maio

- Bonjour, s´il vous plaît, ce bus-ci  m´amenera-t-il  au Palexpo? 
( Bom-dia, por favor, esse ônibus me levará ao Palexpo?)
- Comme hier, madame ! respondeu sorrindo.
(Como ontem, senhora!)

O evento do Varal do Brasil na Feira Internacional de livros em Genebra só não foi melhor porque apanhei uma gripe que me deu até febre. A organizadora, muito atenciosa e os demais escritores igualmente simpáticos, música e livros interessantes.
Em Genebra, os hotéis oferecem a seus hóspedes um cartão que permite o acesso gratuito a ônibus e tramways, durante todo o período da estada.
Em Paris, entre voltar ao Louvre ou ao Quai d´Orsay, optei por estar com uma amiga, que não via há mais tempo do que os museus e que recentemente se casara com um francês. Após a curta estada parisiense, fui ao encontro de minha irmã que mora na Inglaterra. A travessia no trem-bala foi um pouco decepcionante para quem achava que vislumbraria o Canal da Mancha e, "tchum", mergulharia. Não deu nem para vê-lo. O Euro túnel, na realidade são dois: um para ir e outro para voltar. Trata-se de cinquenta e um quilômetros construídos no subsolo, a cinquenta metros abaixo do leito do mar. Na ida, não houve nenhum aviso. Por acaso, vi pela janela uma plaquinha que passou "voando": Euro Tunnel. Mas, como, sem ao menos um sonoro Welcome to England? Na volta, os franceses anunciam a proximidade do famoso túnel, para os ingleses agora banal.
Na estação de Diss, fui resgatada por minha irmã e seu marido inglês, ambos muito queridos. Fomos para Pulham St Mary, um município encantador, onde fiquei oito dias, indo passear pelos arredores. Voltamos a Diss, onde fomos a um parque e a um Pub, naturalmente; Harleston, onde jantamos em um restaurante indiano, no qual minha irmã quase morre ao mastigar uma pimenta genuína;  Norwich, a capital do condado de Norfolk; Southwold, uma pequena cidade à beira-mar no condado de Suffolk, onde a chuva nos pegou e só não foi um sufoco, porque estávamos prevenidos; Cambridge com seus Colleges seculares e alunos famosos, como Isaac Newton, "Qui genus humanum ingenio superavit" e barcos, como gôndolas de Veneza transportando turistas pelo rio Cam, que deu origem ao nome da cidade; Abingdon, cidade no condado de Oxfordshire, à beira do Tâmisa e Oxford com com seus quadros de Van Dyke e Caravaggio entre inúmeros outros e suas universidades igualmente centenárias e célebres alunos.
Enfim, sem me restringir a Londres, percorremos grande parte do vasto , verde e florido Countryside.
Isso tudo, para mim, que nunca viajara sozinha, além de um prazer, foi uma vitória pessoal e um exercício para os neurônios. Venci meus medos, tomei as inúmeras providências e tout s´est bien passé.
 Aqui me lembro de uma canção do Sacha Distel, narrando o telefonema entre Madame la Marquise e seu mordomo, que lhe assegura que tudo vai muito bem, exceto que o jumento de Madame la Marquise morrera em um incêndio em seu castelo. Daí se intensificam as pequenas desgraças, sempre intercaladas com o refrão à part ça, tout va très bien, até cumular com a notícia da morte do marido de Madame la Marquise.
Felizmente nada de tão grave aconteceu no gran finale de minha viagem, exceto que, ao chegar em Brasília, querendo poupar o marido de uma ida até ao aeroporto, peguei um taxi para casa, onde, após ter pago a corrida e o taxi ter-se ido, reparei, horrorizada, que a mala que trouxera não era a minha!
Afonso estava mesmo predestinado a ir ao aeroporto nesse dia... Retornando com a mala extraviada, encontramos logo uma mulher que veio ao meu encontro fazendo perguntas, dizendo, esclarecendo que o marido dela estava com a minha mala, a qual havia sido devidamente protegida com o celofane rosa, como a de seu marido, motivo do quiproquó. Abracei-a pedindo mil desculpas e coisa e tal. Tenho que confessar que eu é que me apossara primeiro da mala errada, pois me lembro que fora a primeira a aparecer na esteira, o que me deixara bem contente, em minha ingenuidade do que viria pela frente.
 E enquanto, inocentemente, eu me dirigia para casa com uma mala contendo, supostamente, roupas masculinas em vez dos perfumes que eu comprara, minha mala rodava solitária pela esteira, o que suscitara o interesse do segundo personagem deste drama, que dela se apoderou, certamente com um faro detetivesco a perscrutar algum nome ou endereço. 
Sorte minha ter isso acontecido em Brasília e não nos países por onde eu pervagara; sorte maior eu morar relativamente perto do aeroporto e sorte com letra maiúscula o fato de que eu não “perdera tempo” no Freeshop, o que fatalmente faria com que o personagem secundário desse drama perdesse a conexão para o Rio e sua cabeça, o que talvez fizesse com que eu tivesse o mesmo destino do marquês.     

Se algum dia eu proteger minha mala novamente, vou querer uma cor exclusiva!
                      

                                  

domingo, 20 de abril de 2014

Tecendo comentários - Angela Delgado

Muita gente está elogiando Cem anos de solidão, mas como preferi  Vivir para contarla, irei na contramão e contarei sobre o livro que acabei de ler e viver:
I Miserabili, em três volumes, de um dos meus escritores preferidos: Victor Hugo.
Li-o no original antes de 2005, época em que o reli, em sua tradução espanhola, juntamente com uma tradução portuguesa. Esta, a meu ver, malfeita, ou fui eu que estranhei o português do meu querido Portugal.... Não sei mais em que ano o li em inglês, tradução também que pula vários capítulos! Em 2013, comecei a me ensinar italiano, relendo essa mesma obra, com todas as traduções ao redor. Ontem, terminei o terceiro e último volume desse maravilhoso romance de aventura moral.
 Victor Hugo disse uma vez que se não conseguisse emocionar os leitores com Os Miseráveis pararia de escrever! Impossível não ir às lágrimas ao final, mesmo após tê-lo lido em tantas línguas.
Seu resumo se encontra nele próprio: “O livro que o leitor tem neste momento diante dos olhos é, do princípio ao fim, no todo e nos pormenores, quaisquer que sejam as intermitências, as exceções ou defeitos, o caminhar do mal para o bem, do injusto para o justo, do falso para o verdadeiro, da noite para o dia, do apetite para a consciência, da podridão para a vida, da bestialidade para o dever, do inferno para o céu, do nada para Deus. Ponto de partida: a matéria; ponto de chegada: a alma. No começo, hidra; no fim, anjo.”
Para quem quer aprender italiano, como eu, eis a tradução: “Il libro che il lettore ha sotto gli occhi in questo momento, è da cima a fondo, nel suo insieme e nei particolari, qualunque sia le intermittenze, le eccezioni o le manchevolezze, il cammino dal male al bene, dall´ingiusto al giusto, dal falso al vero, dalla notte al giorno, dall´appettito alla conscienza, dal putridume alla vita, dalla bestialità al dovere, dall´inferno al cielo, dal nulla a Dio. Punto di partenza: la materia, punto 
d´arrivo: l´anima. Al principio l´idra, alla fine l´angelo.”
Outras palavras imperdíveis:
“Se a liberdade é o cume, a igualdade é a base. A Igualdade, cidadãos, não é o nivelamento de toda a vegetação, é, civilmente, o mesmo ingresso a todas as aptidões e, religiosamente, todas as consciências com o mesmo direito. A Igualdade tem um órgão: a instrução gratuita e obrigatória. O direito ao alfabeto, é por onde se deve começar. A escola primária imposta a todos, a escola secundária oferecida a todos.”
“Si la liberté est le sommet, l´égalité est la base. L´égalité, citoyens, ce n´est pas toute la végétation à niveau, une société de grands brins d´herbes et de petits chênes; c´est, civilement, toutes les aptitudes ayant la même ouverture; religieusement, toutes les consciences ayant le même droit.
L´Égalité a un organe : l´instruction gratuite et obligatoire. Le droit à l´alphabet,
c´est par là qu´il faut commencer. L´école primaire imposée à tous, l´ecole secondaire offerte a tous.»
Repararam que a tradução portuguesa ignorou a frase, "uma sociedade de relvas crescidas e carvalhos pequenos”, que seria a consequência de um nivelamento, sem levar em conta as naturais diferenças?
Há muito mais. Só comentei esses dois trechinhos do terceiro volume, para não cansá-los.
Quem não leu Os Miseráveis, não sabe o que está perdendo.  
Boa Páscoa a todos!


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Vem e passa - Angela Delgado

     Pulverizo WD-40 no basculante do banheiro, mas nada acontece. Deixo-o por mais meia hora e tenho que arrematar o serviço com o martelo de borracha. Finalmente, consigo fechar a janela. Ganho o dia, porque o que me levara a remediar a situação fora ter visto, logo ao acordar, uma barata na parede do banheiro. O inseto veio de fora, pois a casa foi dedetizada há pouco - como dissera o marido -, então,  enquanto ele está às voltas com o bacalhau na cozinha, resolvi fechar na marra a janela, há anos impossível de ser fechada.
     Nesse dia obteria mais uma vitória: o neto, inusitadamente, não conseguira trocar a música do meu blog, e eu só dormi depois de triunfar: ufa, consegui!
     Assim, enquanto o “chef" coleciona quitutes, vou somando o que, pelo menos para mim, são pequenas vitórias gratificantes. É um baita preconceito achar que é coisa de homem tentar consertar fechadura; pegar em alicate e martelo; resolver um problema na cerca... Não que eu goste especialmente desses afazeres. Do que gosto é de consertar coisas, sejam lá o que forem. E claro que enveredei por esse lado por estar a cozinha ocupada...
     Mas por que escrevo isso? Porque também me apraz escrever e por causa do conselho de uma amiga escritora:

     “Não se preocupe com o pecado das letras e nem com a militar formação das frases. Escreva. Não busque os olhos críticos, tente encontrar os corações. Esqueça os títulos e as graduações. Escreva. Rime e brinque, crie, invente, seja poesia e faça poemas de vida. Escreva. Conte o seu dia, o momento do amigo, a saudade do pai. Escreva. Crie personagens, dê-lhes vida, conte histórias. Escreva. Mostre. O perigo não está em alguém não gostar do que escreveu, nem no estilo, nem nos erros. O perigo está em você não deixar livre sua alma, está em se preocupar com o que os outros fazem, em pensar que existe melhor ou pior. Escreva. Seja você em cada linha, seja cada palavra, viva tudo o que escrever, seja na vida ou na imaginação. Viva. Escreva...”
   

     Então, aqui estou para contar que, em minha caminhada, cumprimento com um bom-dia a mulher que cruza meu caminho, mas que não responde. Será que é surda ou, não sendo exatamente a coisa mais linda, mais cheia de graça, que vem e que passa, está se perguntando por que a “magrela” que sou está se exercitando. Esse é o ser humano invejoso. Mas, será que é apenas aérea e sua mente está alhures, e sou eu o ser humano que julga?
     No dia seguinte, indo num doce balanço, a caminho de casa, eis que à frente vem um cidadão. Como meu neto, com seu talento teatral, costuma exagerar dizendo que não paro em Posto de gasolina à noite, com medo de ser assaltada, sequestrada, violentada e morta, cogito em atravessar a rua, porém a calçada sombreada do lado de cá foi mais forte, e ouço do indivíduo um sorridente bom-dia! É o ser humano que também pode surpreender.
     Mariazinha é outro exemplo disso: Trabalhara para minha mãe, igualmente Maria, durante 40 anos e depois continuou a servir aos filhos de D.Maria, ao mesmo tempo em que plantara uma semente de amendoeira em sua casa, planejando se aposentar, quando a árvore crescesse o suficiente para que ela pudesse ler sob sua sombra!
      Um dia, não muito belo, o aviso foi dado da maneira mais pitoresca e eufemística possível: A árvore estava dando sombra...  
      Embora tenha eu sugerido, em tom de brincadeira, que ela fosse urgentemente podada, 
para que não se perdesse a Mariazinha, fiquei encantada com seu gosto pela leitura e lhe enviei alguns livros, para o seu mais do que merecido descanso.                                                     
     Lembro-me agora de outro modo de se transmitir a má notícia, bem sui generis: Seu animal de estimação morreu no telhado, no incêndio, involuntariamente provocado pelo desespero de seu marido, que, vendo-se arruinado financeiramente, se suicidou.
     E uma cronista incrível, que estava me alegrando diariamente com seus textos, anuncia, de supetão, sua derradeira postagem, sem ao menos ter proclamado a subida do "gato ao telhado"...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Está cantando o quê? - Angela Delgado


     Havia explicado que para refrear os pensamentos que não lhe davam trégua, dera para cantar mentalmente, assim resolvendo o problema do afluxo ininterrupto de ideias.
     Mais do que nunca, tinha que ouvir muita música. Agora, com o duplo objetivo: o de encantá-la como sempre, e o de ter as letras na cabeça, para enxotar pensamentos negativos, que, como é do conhecimento geral, atraem todo tipo de desgraça.            

    ♪ Salve/ Como é que vai / amigo, há quanto tempo/ um ano ou mais/ Posso sentar um pouco /  Faça o favor/ A vida é um dilema/ Nem sempre vale a pena/ Ô/ O que é que há?/ Rosa acabou comigo/ Meu Deus! Por que?/ Nem Deus sabe o motivo... ♪ Voy a guardar mi lamento para cuando yó esté sola…  ♪  Desde o dia em que te vi, Juracy / nunca mais tive alegria / meu coração ficou daquele jeito / dando pinote dentro do meu peito... ♪  Oh, Cupido , vê se deixa em paz / meu coração que já não pode amar / eu amei há muito tempo atrás / já cansei de tanto soluçar...   ♪  Il faut savoir encore sourire / quand le meilleur s'est retiré / et qu'il ne reste que le pire / dans une vie bête à pleurer...   ♪ No hables de tu marido, mujer. /Mujer de malos sentimientos,/ ay ay ay ay canta y no lhore/ porque cantando se alegran, cielito mio, / los corazones  ♪  Mas que calor, ô, ô, ô, ô,ô  or/ Ala, la, ô, ô, ô, ô, ô, or  ♪ Non, je n´ai rien oublié, je n´aurais jamais cru qu´on se rencontrerait / le hasard  est curieux, il provoque les choses/ et le destin un instant prend la pause...”

 

     Haja letras na memória para enfrentar o que teima em nos perturbar! A violência por toda a parte; a preocupação com familiares; o rumo que o país está tomando; o Ministério da Educação fazendo das suas ... ♪ Invisible tears in my eyes/ incredibe pain in my heart/ indestructable memories are passing in review ♪ Ai ai, ai ai, tá chegando a hora ♪ Eu vou pra Maracangalha, eu vou! / Eu vou de chapéu de palha, eu vou! / Se Anália não quiser ir, eu vou só/ sem Anália, mas eu vou! ♪  Pluft, plact, zum, não vou a lugar nenhum! ♪ I know I said that I was leaving/ But I just couldn't say good-bye./ It was only self-deceiving / To walk away from someone who/ means everything in life to you./ You learn from every lonely day/ I've learned and I've come back to stay./ Let me try again/ Let me try again… ♪ Se eu só lhe fizesse o bem/ talvez fosse um vício a mais/ você me teria desprezo por fim/ Porém não fui tão imprudente/e agora não há francamente/ motivo para você me injuriar assim... / Não alimentei o seu gênio ruim/ por isso meu bem, não entendo por que anda agora falando de mim... ♪ Dó ré mi fá, fá fá/ dó re dó ré, ré ré, dó sol fá mi, mi mi/ dó ré mi fá (vale "tudo" para aquietar a mente) ♪ ... I've loved, I've laughed and cried/ I've had my fill, my share of losing / And now as tears subside / I find it all so amusing / To think I did all that/ And may I say, not in a shy way / Oh no, oh no, not me / I did it my way... ♪ O cara que pensa em você toda hora / que conta os segundos se você demora/ que está todo o tempo querendo te ver/ porque já não sabe ficar sem você... Esse cara sou eu / ♪ Detalhes tão pequenos de nós dois/ são coisas muito grandes pra esquecer/ e a toda hora vão estar presentes/ você vai ver ... ♪ Se chorei ou se sorri/ o importante é que emoções eu vivi ♪ One, Two, Three O'clock, Four O'clock rock / Five, Six, Seven O'clock, Eight O'clock rock  ...   ♪ Let´s twist again ♪  Fui ao Tororó/ beber água e não achei/ achei bela morena/ que no Tororó deixei/ aproveite, minha gente que uma noite não é nada / se não dormir agora/ dormirá de madrugada...  ♪
     E assim fui cantando madrugada adentro... ♪  Amanhã de manhã/ vou pedir o café pra nós dois/ te fazer um carinho/ e depois te envolver em meus braços... ♪ Funiculí funiculá  ♪ Là-bas, Zorba / dans son pays/ s´élance / il danse le sirtaki / déjà, la joie conduit ses pas... / si tu veux que disparaissent / tes soucis et tes tracas/ vient danser avec Zorba... ♪ E quem não quer a alegria/ e quem não quer felicidade... / é claro que eu quero tudo isso/ e muito mais ... ♪ Era uma casa muito engraçada / não tinha teto/ não tinha nada/ ninguém podia dormir na rede/ porque na casa não tinha parede/ mas era feita com muito esmero/ na rua dos bobos/ número zero !  ♪ Help, I need somebody/ help, not just anybody/ help! 
       ♪ Champagne/ per brindare un incontro/ ricordi c´era stato um invito:/ ´stasera si va tutti a casa mia.../ Cosi cominciava la festa/ e già ti girava la testa.../ Per me non contavano gli altri/ seguivo con lo sguardo solo te/ se vuoi ti acompagno, se vuoi; / la scusa più banale/ per rimanere soli, io e te/ Ma io, io devo festeggiare/ la fine di un amore/ Cameriere, champagne! 
      ♪ Cidade maravilhosa/ cheia de encantos mil / cidade maravilhosa/ coração do meu Brasil! ♪
      Quem quiser aumentar o conto é só entrar na roda.





quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O voto decisivo e traiçoeiro - Angela Delgado



Contrariamente à esperança de milhares de brasileiros, Celso de Mello, a quem jamais nos referiremos como o “saudoso ministro”, começou seu pronunciamento tentando, mas não conseguindo, justificar seu voto. Retroagiu aos idos de 1603, 1909, 1980, 1990, porém não chegou ao “aqui e agora”, botando a perder o momento histórico que seria a sua, e apenas sua, grande chance de restaurar a credibilidade do povo na justiça brasileira.
                Tudo se perdeu em artigos, parágrafos, incisos, alíneas, comentados com sorrisos destoantes com o nosso luto.

                Os embargos infringentes tão descabíveis na última e derradeira instância foram quase abolidos há algum tempo, conforme confessou Celso de Mello, acrescentando uma frase proferida pelo jurista Pontes de Miranda: “Muita injustiça se tem afastado com os embargos infringentes, onde o interesse não é individual e sim público.”
              A quem o ministro quer enganar? A injustiça que se fez hoje no STF terá tristes consequências. O Ministro Celso de Mello também foi incongruente ao afirmar que se manifestara contra os embargos infringentes, mas agora ao que demonstrou, involuiu. Se não cabe Habeas Corpus no Supremo, por que cabem embargos infringentes?

O ministro do veto de Minerva concluiu, espichando sua longa fala com referências à competência da corte interamericana, já prevendo o próximo passo de Zé Dirceu.
            Pedindo vênia aos bandidos que estão presos, que se abram as cadeias no país da impunidade!

Sabia que encontraria nas manchetes dos jornais do dia seguinte a palavra "pizza", bastante desgastada, que não expressa com veemência a indignação de um povo. Será que uma expressão mais forte como "Holocausto" ou "Canalhas" seria censurada pelo jornal? Celso de Mello perdeu uma oportunidade de ouro de afastar pessoas nefastas à sociedade. Com a frase "... ministros não podem deixar-se contaminar por juízos paralelos, resultantes de manifestações da opinião popular" se traiu. Ratos nos contaminam, enquanto raios de luz, de sol e o justo clamor da massa nos contagiam. Mas, teremos que esperar só mais um pouco. Eles não escaparão da condenação e se Joaquim Barbosa não entregou a Toga ontem, é porque faz questão de consolidar a merecida condenação.
Detalhe: o livro de  "1968, o que fizemos nós", de Zuenir Ventura, de 2008,  fala que José Dirceu e Celso de Mello dividiram um quarto, ou seja, são amigos de longa data. Daí, a  desculpa jurídica para inocentar o amigo.
O que explica, mas não justifica tamanho antipatriotismo.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Um desabafo - Angela Delgado



     A coluna de Merval Pereira de "O Globo" de ante-ontem destacou que:

"... a filósofa Marilene Chauí, uma das intelectuais do petismo, disse com todas as letras em evento comemorativo dos 10 anos do PT no poder:

"A classe média é o atraso de vida, é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista..."

Só isso, Sra. Palestrante?
Ela estava se olhando no espelho e se retratando, em vez de olhar para a estupenda classe média que está aí nas ruas corajosa, lutando por um Brasil melhor e clamando por um basta na corrupção; na roubalheira; no mau uso do dinheiro público e na impunidade, além de exigir a saída de Renan Calheiros, o repúdio à PEC 37; a melhoria da educação, da segurança, da saúde (Ronaldo, sem saúde ninguém vai a lugar nenhum, muito menos assiste a jogos).

     Parte do vandalismo, já se sabe (pela publicação da "Veja" Edição histórica de junho"), foi encomendado por um grupo de petistas, que desembolsou 30.000 reais pela farsa. O motorista do caminhão, que levou os pneus para serem queimados em frente ao estádio, confessou que recebeu 250,00 reais. Seria a bolsa-vandalismo?

     E é a classe média, segundo Chauí, que é terrorista...

     Disse também essa senhora, na frente do Lula (não sei se para puxar o saco), que ela odeia a classe média!

      Que os judeus odeiem os alemães ou que odiemos um político que desiludiu um povo inteiro, que mentiu, roubou e acobertou criminosos como ele, é completamente compreensível. Mas odiar generalizadamente milhares de pessoas que ela nem conhece, cujas lutas, esforços e qualidades ela desconhece! Nem os japoneses odeiam assim os americanos...

      No desdobramento de sua palestra, Chauí foi mais adiante: "A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e uma abominação cognitiva, porque é ignorante."

     Coitado do povo, que o governo faz questão de manter na ignorância, agora virou uma "abominação cognitiva"...

     E a que categoria de classe pertence M.Chauí? Uma filósofa conhecida não pode ser da classe C. É improvável que  quem passe fome e precise trocar seu voto por bolsas-esmolas consiga se formar em filosofia e ainda adquirir alguma notoriedade.

     À classe média  tampouco a petista pertence, visto ter vociferado contra ela e a caluniado.

     Classe alta, com toda essa grosseria? Pouquíssima probabilidade.

     Deve pairar em uma nova classe, ainda não muito conhecida e, para usar seu vocabulário, certamente abominável, por estar a léguas de qualquer ternura ("Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás").

     "Eu odeio a classe média."

     Essas palavras foram cuspidas para uma plateia justamente de classe média, pois os trabalhadores não podem se dar ao luxo de faltar ao trabalho para assistir a uma palestra. Nem é o seu perfil.

    A classe alta, sem contar  com os novos milionários oriundos do governo, feitos da noite para o dia, agrega muitas pessoas que estudaram e labutaram muito para lá chegar, mas provavelmente ninguém dessa classe iria marcar presença em uma sala onde falaria um membro do PT.

     Portanto, por exclusão, foi a classe média que recebeu no rosto uma declaração de ódio e reagiu boçalmente, rindo e aplaudindo!?
      Estava me esquecendo de que muitos trabalhadores, satisfeitos com tanta bolsa-esmola, não trabalham mais e, quem sabe, não teriam sido levados de caminhão para a claque?

   Tem gente que odeia pobre (já ouvi isso até da boca de uma faxineira, sendo ela mesmo o sujeito do verbo).  
   Tem gente que odeia o esnobismo e a demonstração de riqueza, muitíssimas vezes acumulada, no Brasil de hoje, desonestamente.
   Tem gente que odeia jiló.
   Mas odiar o meio termo?
   No entanto, ela odeia. Como consegue suportar tamanha carga de ódio?