segunda-feira, 29 de março de 2021

Você sabe de onde eu venho?

 Há tempos, meu filho me disse que a vida nunca mais seria a mesma.

Quão certo ele estava e está!

Mas, você sabe de onde eu venho?

A vida é instável, muda com o vento. Cada época tem suas doçuras e barbáries.

Vim de um lar de três andares, onde em uma de suas duas escadas era afixado e lido o Jornal da Casa. O terceiro piso consistia em um grande salão de jogos, com mesa de totó e ping-pong, onde se divertiam dez irmãos e seus amigos. Lá de cima descortinava-se o campo de futebol, onde também fogueiras foram acesas.

Havia a copeira e arrumadeira, a lavadeira e passadeira, a cozinheira, a babá e a Bebé, provinda da casa de nossa mãe, onde igualmente trabalhara. Enquanto mamãe secretariava meu pai e zelava pela prole, Bebé, que ficou conosco até o fim de sua vida, ensinava o serviço doméstico às, por ventura, novas ajudantes, e sempre subia a escada levando a roupa passada.

Ela dormia em um quarto espaçoso, onde havia um grande rádio e sempre foi por nós estimada.

Duas outras dormiam na cama-beliche de outro quarto.

Havia ainda o faxineiro e a costureira, que dormiam em suas casas.

A vida nunca foi nem será a mesma. Diferentes pessoas vêm de lugares e costumes diferentes.

Crianças são em sua maioria todas iguais, porém, à medida que crescem, evidenciam que vieram de ambientes diversos.

O filho do nosso irmão/ editor do jornal aludido acima e número cinco na fileira de filhos, ainda pequenino, após ter visto hipopótamo, tigres e macacos no Zoológico, descansava em um banco, quando seu pai lhe perguntou de qual bicho gostara mais.

- Das formigas!

Havia sido seu primeiro contato com elas e ficara fascinado com o trabalho intenso da sociedade das formigas, carregando folhinhas e entrando em frestas.

Nossos netos terão sempre em seus corações os ambientes de onde vieram.

Passamos por período difícil, mas, pelo menos ao final desta pandemia originária da China, não haverá os mutilados de uma guerra não biológica.

Ficaremos marcados, a exemplo dos combatentes brasileiros que, em plena guerra contra os nazistas em Monte Castello na Itália, se perguntaram:

 "- Você sabe de onde eu venho?

- Eu vim da Bahia.

- Nunca fui à Bahia.

- Pois devia."

E foi da vontade de voltar para o Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Santa Catarina, Mato Grosso e pra onde mais vieram, que tiraram a força necessária para prosseguirem e vencerem.

Que esta pandemia não nos roube a recordação de onde viemos, que sejamos gratos pela vida  passada, pela que nos é ofertada diariamente e que esta praga no mínimo una irmãos confinados, comungando da mesma tristeza e preocupação com suas vidas autoritariamente tolhidas.

 

Angela de Menezes Delgado

 

27/3/2021

sexta-feira, 27 de março de 2020


Vejam o talento dela :

https://www.youtube.com/watch?v=vxaYbQz_RJU


domingo, 22 de março de 2020

  • (Uma tentativa de fazê-los rir, em tempos de coronavírus.)


  • De mel a pior - Fernando Sabbino

  •  - Qual é a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo adequar?
  • - pergunta-me ele ao telefone.
  • - Nós adequamos - respondo com segurança.
  • - Primeira do singular - insiste ele.
  • - Espera lá, deixe ver. Com essa você me pegou.
Arrisco, vacilante:
  • - Eu adéquo?
  • - Não, senhor.
  • - Eu adeqúo? Não pode ser.
  • - E não é mesmo.
  • - Então, como é que é?
  • - Quer dizer que você não sabe?
  • - Deixe de suspense. Diga logo.
  • - Não tem. É verbo defectivo.
  • - E você me telefonou para isso? Verbo defectivo. Tudo bem. Eu não teria
  • mesmo oportunidade de usar esse verbo na primeira pessoa do singular do presente
  • do indicativo. Nunca me adéquo a questões como esta.
  • - Presente do indicativo ou indicativo presente? - é a minha vez de perguntar.
  • No nosso tempo era indicativo presente.
E é a vez dele não saber. Desculpa-se dizendo que andaram mudando
tanto a nomenclatura gramatical, que a gente acaba não sabendo mais nada.
  • - E o verbo delinquir? - torna ele.
  • - Que é que tem o verbo delinquir - quero saber, cauteloso.
  • - A primeira do singular?
  • - Não tem. Também é defectivo.
          Mas ele é teimoso:
  • - E se um criminoso quiser dizer que não delinque mais?
  • - Se usar esse verbo, já delinquiu.
  • - Então me diga uma coisa: você sabe qual é a primeira do singular do verbo parir no
  • indicativo?
  • - Ninguém pare no indicativo.
  • - Pare, e em todos os tempos, meu velho.
  • - Esse, quem não corre o risco de usar sou eu.
  • - Pois então fique sabendo: é simplesmente igual à primeira pessoa do singular do
  • verbo pairar.
  • - Eu pairo?
  • - É isso aí. Uma senhora que tem muitos filhos pode perfeitamente dizer:
  • eu pairo um filho por ano.
  • É a vez dele:
  • - Você sabe qual é o plural de mel?
  • - Já vem você. Mel não tem plural.
  • - Como não tem? Tem até dois.
- E me conta que outro dia um entendido em mel fazia uma preleção
sobre o assunto na televisão. No que saiu do singular para se meter no plural,
quebrou a cara: Acabou falando que existem muitos mels diferentes.
  • - E não existem?
  • - Existem. Mas não mels. Com essa ele se deu mal.
  • - Se deu mel, então.
Era a asa da imbecilidade começando a ruflar aos meus ouvidos:
  • - Ou você vai me dizer que mel também é defectivo?
  • - Perguntei à uma amiga que entende.
  • - De mel?
  • - Não: de plural. Ela confirmou: tanto pode ser méis como meles.
  • Mels é que jamais.
     A esta altura o mentecapto fala mais alto dentro de minha cabeça:
  • - Dos meles, o menor.
  • Como ele não responde, acrescento:
  • - Até logo. Melou o assunto.
E desligo o telefone.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

   Vinícius (em construção)

Ao entrar no quarto, com um exemplar de “Ópera do Poeta e do Bárbaro”, para Ana dá-lo à sua chefe, Vinícius ouviu nossa conversa e o meu comentário de que seu guarda-chuva deveria ficar na bolsa. Ao ver sua mãe de saída para o trabalho, ele pegou o livro, que ela já ia esquecendo, e lho entregou. Feito isso, pegou o guarda-chuva e colocou-o em sua bolsa.     
                      Além de perspicaz, tem um sétimo sentido que o leva a sentir a presença da Ana à distância. Quando estamos fechados em um quarto, e ela mal se aproxima do portão, ele exclama: Mamãe!      
  Outro dia, estávamos, ele e eu, em um supermercado. De repente, ele a chama bem alto. Ao me virar, vejo-a através do vidro, estacionando o carro... Igualmente, se ele está dormindo e ela chega, ele senta-se na cama e diz: Mamãe "agou". O que significa “chegou” em  bebenês.
     Com apenas um ano e onze meses, é extremamente ordeiro. Deixa tudo como encontrou seja um par de sapato juntinho ou qualquer outro objeto explorado por ele, em sua infinita curiosidade.                   
     Ontem, quando cheguei com seu leite, primeiro desligou o celular de sua mãe, onde assistia a um desenho, para depois segurar a mamadeira.
     Outra qualidade dele é a persistência: brincando com um carrinho, colocou-o em um saco plástico. Ao tentar retirá-lo, não conseguia pois o plástico havia se enroscado nas rodas.                                                                 
 – Quer que eu o ajude, perguntei.                                                                                                                                        - Não, eu consigo.                    
Ficou um bom tempo tentando, fazendo força e puxando o plástico daqui e dali, até que triunfou e se abriu em um sorriso  de satisfação consigo próprio.      

      Um dos "presentes" do Natal de 2019.  Vinícius, ça va sans dire.

sábado, 10 de novembro de 2018




Este será o melhor presidente que o Brasil já teve. Que os perdedores juntem-se ao nosso barco,
em proveito do país e de todos os brasileiros.
Boa sorte, Capitão, parabéns por toda a sua bravura, coragem, honestidade, simplicidade e patriotismo. Que Deus o proteja!

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

É conversando que a gente se desentende - Rubem Alves


    É de madrugada, naquele intervalo confuso entre o sono e o estar acordado,
que os deuses me fazem suas revelações. Acontece, então, que as coisas mais
banais aparecem à minha frente pelo avesso, o que muito me surpreende porque,
pelo avesso, as coisas são o oposto do que parecem ser pelo direito.
    Hoje, por exemplo, os deuses revelaram-me que a separação vem da
compreensão. Para se ficar junto é melhor não entender. Isso é o oposto do que
pensam os casais que vivem brigando. Acham que suas brigas devem-se ao fato
de não se entenderem e pedem então socorro aos terapeutas, quem sabe a
terapia fará com que se entendam melhor, o que é fato, mas a conclusão não
segue a premissa. Não é certo que, depois de se entenderem melhor, vão ficar
juntos.
    Frequentemente é no exato momento da compreensão que a separação
torna-se inevitável. Nada garante que o compreendido seja gostado. Prova disso
é o que aconteceu com o meu sogro, que odiava miolo. Convidado para jantar,
deliciou-se, repetiu e fartou-se com uma maravilhosa couve-flor empanada.
Ao final do banquete, cumprimentou a anfitriã pelo prato divino. Mas ela logo
explicou: “Não é couve-flor, é miolo empanado...” E ele entendeu, entendimento
que o catapultou na direção do banheiro mais próximo, onde o jantar foi vomitado.
É assim. Às vezes, quando a gente não entende, come e gosta. Quando entende, desgosta e vomita.
    Afirmação assim avessa, tão contrária ao senso comum, exige uma explicação
e é o que passo a fazer.
    Abri, no meu micro, um arquivo com o nome de “Encíclicas”. Coloco ali o texto
das encíclicas que vou promulgar quando for eleito Papa. Como se sabe, o papa
Leão XIII, em 1891, promulgou a encíclica De Rerum Novarum que quer dizer
“Sobre as coisas novas”. De repente, a Igreja, que até então acreditava que tudo
o que merece ser conhecido estava guardado no seu baú milenar de doutrinas,
percebeu, com um susto, que coisas novas, interessantíssimas, aconteciam no
mundo.
    E o bom Papa apressou-se a passar essa informação adiante. Esse foi o início
de um enorme esforço de modernização da Igreja que não deu certo, pois não se
coloca remendo de pano novo em pano velho. O pano velho começou a rasgar...
Desejoso de reparar o mal que a encíclica De Rerum Novarum causou, escrevi
a sua antítese, a encíclica De Rerum Vetustarum, ou seja, “Sobre as coisas velhas”.
    E a sua substância é extraordinariamente simples. Reza a encíclica que, do
momento de sua publicação para frente, tudo, absolutamente tudo o que ocorrer
na Igreja, as fórmulas litúrgicas, as bênçãos sacerdotais, batizados, crismas,
casamentos, funerais, hinos, leituras dos Textos Sagrados, sermões, encíclicas,
e mesmo as falas do padre ao confessionário, tudo deverá ser feito em latim.
Ah! Como é belo o latim! Soa como uma “liturgia de cristal”, música pura
    Se os padres falassem em latim, a gente não entenderia nada e amaria tudo.
A linguagem clara e distinta mata a fantasia. Dentro do que ninguém entende
cabe tudo: miolo vira couve-flor e o corpo e a cabeça aprovam.
     A compreensão sempre dá briga. Imagino, mesmo, que foi por isso que
Deus confundiu as línguas da humanidade na construção da Torre de Babel.
As pessoas falavam a mesma língua. Falando, entendiam-se. Entendendo-se,
compreendiam as opiniões uns dos outros. Compreendendo as opiniões uns
dos outros não gostavam delas. E daí passavam às vias de fato.
Deus Todo-Poderoso compreendeu, então, que a única forma de evitar pancadaria
era fazer com que eles não se entendessem.
   Fica o conselho aos casais que estão brigando. Cuidado com a conversa.
Da conversa pode nascer a compreensão, da compreensão pode surgir a separação.
A compreensão pode ser tão fatal para o casamento quanto ela foi para o jantar do meu sogro.
É conversando que a gente se desentende.
  Previnam-se contra a terapia de casal. Ela pode produzir compreensões insuportáveis.
Adotem a sabedoria milenar da Igreja: adotem o latim como língua da casa. E
dediquem-se à música, dando preferência aos instrumentos de sopro, pois
enquanto se sopra não se fala e, assim, a compreensão e a separação são evitadas.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A manhã de hoje

                          

   Por causa de um salgadinho saboreado ao entardecer, à noite tive um pesadelo. E o culpei, porque a coincidência se repetiu, no mínimo, pela terceira vez. Mas, vamos ao que enfrentei enquanto dormia: nada mais - ou nada menos – do que Lula e Dilma. Seria possível a desgraça se alastrar em outra dimensão?
     Levei, então, a mistura de Pastor Alemão com Akita que temos aqui em casa e fomos, corajosamente, derrubar de uma vez por todas, a maldita dupla. Que me desculpem os petistas.
     Amedrontava a todos pela frente, até que contra-atacaram com um ratinho fatal. Estava eu nesse dilema, quando acordei aliviada.
     Daí me levantei disposta a recomeçar o namoro com o dia. Em frente ao espelho, constato a secura de minha pele. Chego à conclusão de que o famoso creme não está fazendo efeito. Acho que - aqui me rendo em minha batalha para usar o tempo futuro - vou apelar para a sabedoria antiga: a velha pomada “Minâncora”.
     Lendo a bula, relembro que ela combate espinhas e o efeito de picadas de insetos, mas não hidrata.Vick Vaporub igualmente combate espinhas; elimina dor de cabeça, vejam só;  alivia dores nas articulações, etc., mas só hidrata lábios... A última tentativa: Listerine, quem diria? Além de enxaguante bucal, serve para limpar vidros, pisos e, ao fim de uma longa lista de promessas, a limpeza do rosto é uma delas, mas não há menção de hidratá-lo. Como não?! Que droga de produto é esse que só resolve 37 problemas?
     Desisto e ligo o celular, onde há um apelo urgente para salvar elefantes na África, com a agravante de termos que enviar um donativo.
     Só me faltava essa. Como se não tivesse preocupações suficientes, e não me refiro à pele. Que me desculpem os ecologistas ou seriam os ambientalistas?
    Enquanto cedo a este impulso irresistível de tudo colocar no papel, na mensagem do Whatsapp me esperam, "no elevador parado e às escuras, um argentino, um brasileiro, uma gostosa e uma freira"... 
Sabe-se lá o desenlace da piada, que será lida mais tarde.
     O dia avança, e junto com ele a hora em que devo me colocar sob o sol, para a devida absorção de vitamina D,
     Lá fora, eis que me defronto com duas pequenas abelhas engalfinhadas, na luta por uma folhinha. Com tantas ao redor, elas não a largam, há mais de 20 minutos. Joguei-lhes outra folha, porém ignoraram-na. Serão os animais tão cegos quanto os humanos? Deu vontade de pisoteá-las, mas pensando no Livre Arbítrio, deixei-as ao seu bel prazer. No entanto, a dúvida de que uma delas fosse fêmea e precisasse ser salva, me fez tentar separá-las. Em vão. Finalmente, tinha mais o que fazer e que me desculpassem os biólogos.
     À toda essa avalanche de acontecimentos, somaram-se as pouco emocionantes notícias do jornal, aberto ao lado do livro, que aguardaria pacientemente na fila sua  oportunidade de me encantar.

     Ao digitar esta postagem no escritório, no andar superior e de janelas fechadas, ouvi um pedido abafado de socorro. Abri uma das janelas e chamei:
- Adélia?
     Não obtendo resposta, achei que fosse a vizinha vendo uma barata. Só que era meu marido caindo de uma escada. Bateu no chão com a testa, que logo sangrou muito, formando-se um enorme galo. O grito havia sido da faxineira e, graças a Deus, ele está bem.

Angela Delgado