domingo, 1 de maio de 2016

Rosalinda - Mia Couto

(Conto abreviado)

     ... Rosalinda comprava flores quando viu chegar uma moça bela que se abeirou da campa de Jacinto e ali se prostrou, em mostrada tristeza. Rosalinda estranhou. Aquela era uma jovem muito concreta, suprametida.
     - Essa dever ser Dorinha, a outra última dele.
     A viúva chegou-se mais perto mas sem se fazer ver.. Parou em campa vizinha, ficou espreitando. A outra exibia um punhado de lágrimas. Rosalinda se decidiu. Dirigiu-se ao Serviço Funerário e solicitou que mudassem o lugar do caixão, trocassem o "Aqui jaz".
      - A senhora pretende transladar os restos mortais?
     E, logo o funcionário lhe mostrou os longos papeis que a superavam. A viúva insistiu. Era só uma mudançazita, uns metritos. O empregado explicou, havia as competências, os deferimentos. A viúva desistiu. Mas apenas se fingiu vencida. Voltou à noitinha, trazendo Salomão, o sobrinho. Às vistas da intenção, o miúdo se assustou.
     - Mas, tia, é para fazer o quê? Desenterrar o tio Jacinto?
     Não, sossegou ela. Era só para trocarmos as inscrições dos vizinhos túmulos.
Salomão tremia e a viúva tomou a dianteira;
      - Eu sempre disse: Lume pedido nunca acende.
     Jacinto, translapidado, devia se admirar daquelas andanças. Agora, só eu sei qual é a sua verdadeira tabuleta, malandro. Rosalinda sacudiu as mortais poeiras, se administrou o devido perdão. A paraviúva que dedicasse seus ranhos ao vizinho, o de morte anexa.
     Aconteceu como ela previra. No dia seguinte, a intrusa compareceu e entregou seu sentimento à campa errada. Rosalinda nutria-se de risos, enquanto espiava o equívoco.
     - Em vida me enganaram. Agora é o meu troco...

domingo, 10 de abril de 2016

O MENINO E OS SANTOS REIS - RAQUEL DE QUEIROZ

De todos os personagens do presépio, os prediletos do menino são os santos Reis Magos, que ele aliás chama de Reis Magros. E entre os três, acha que o mais bonzinho é Baltazar, o negro, porque só ele se ajoelha e tem na mão a caixinha mais bonita.
     Entretanto, reclama porque, com aquelas vestes flutuantes, os santos Reis não parecem tão magros que justifiquem o nome. Só se eles comeram tanto peru, rabanada, coquinho de Natal, que ficaram gordos. Peru engorda, só engorda menos do que leite, porque leite é feito para bezerrinho e bezerrinho tem que ser gordo. Também, o que engorda muito é banana e faz ficar forte, porque tem vitamina do a-bê-cê, e a pessoa por isso mesmo aprende a ler mais depressa. Depois dos Reis, a coisa mais bonita do presépio é a Estrela Guia, que ele de começo chamava estrela-de-rabo. Advertido pela mãe, passou a chamá-la de "cometa". A avó procurou insistir em Estrela Guia, mas ele anda muito entusiasmado com esse negócio de cometa e adora mostrar erudição.
     Mas implica com os camelos. Não há quem o convença de que o camelo é uma nobre besta, afeita milenarmente ao transporte de riquezas e homens pelos caminhos mais antigos da terra. No fundo, ele gostaria de substituir os camelos dos Magos por três bons caminhões - pensando que ficaria dono dos caminhões quando se desmontasse o presépio. Como meio termo, põe ao lado dos Reis uns cavalinhos de plástico. Cavalo sim, é a flor dos animais, companheiro dos caubóis e vencedor do faroeste, Se camelo é bom de sela, por que caubói não monta em camelo? Responda a esta! E o espetáculo que lhe proporcionou o camelo do Jardim Zoológico o confirmou nessa descrença. Aquele bicho desengonçado, de pêlo a despegar pelas costelas, feio de corpo, antipático de cara, estúpido de expressão, nunca, mas nunquinha, podia chegar nem perto da manjedoura de Belém.
     A propósito, essa expressão manjedoura tem suscitado muitas discussões. Não vê que na escola maternal onde ele "estuda" lhe disseram que o Menino nasceu numa estrebaria? Parece que a mãe achou feio estrebaria e ensinou manjedoura. A avó, ignorante dos debates anteriores, falou em gruta de Belém. Aí complicou tudo. Afinal tudo não queria dizer a mesma coisa? Então para que tanta palavra diferente? Acabou por se descobrirem uma quarta fórmula: presépio. Ele optou por presépio depois de verificar que ninguém sabia direito o que era. E palavra que a gente não sabe o que é, é mais bonita.
     Vencida essa etapa estrebaria-manjedoura-gruta-presépio, entrou-se em outra, igualmente delicada: as ofertas ao Menino. O ouro, o incenso, a mirra. Por estranho que pareça, o que ele entendeu melhor foi o incenso. Não vê que no apartamento vizinho mora um senhor meio excêntrico que tem o hábito de queimar incenso a certas horas da tarde ou da noite, e o garoto, muito atento a impressões sensoriais, gosta do cheiro? Incenso, pois, ele aprova. Mas a mirra? Verifica-se que mesmo os grandes não sabem explicar com a devida clareza o que é mirra. Há debates, vai-se ao dicionário. Mirra é uma essência vegetal muito apreciada no Oriente, com a qual se faz um unguento. Passando rapidamente pelas questões suscitadas pela palavra Oriente (lugar onde o sol nasce; lugar onde o sol se põe; porque não nasce em outras partes, ao  norte ou ao sul; se o sol nasce o sol morre? Como é que ele nasce todo o dia, tem gente que que pode nascer todo o dia? E morrer, só morre quem fica velho, mas menino às vezes também morre sem precisar de ficar velho, quando é atropelado, automóvel também atropela velho; ele tem cinco anos mas faz muito tempo que conhece sinal verde, vermelho e até amarelo), o que é UNGUENTO?
     Unguento? Bem, é uma pomada. Pomada! Então o Rei Magro vai passar pomada no Menino Jesus? Coitadinho! Será que ele está doente, tem ferida, tem coceira, perebinha? Pomada é a coisa pior de todas as coisas ruins! Não, unguento de mirra  é só para cheirar, não é remédio, é perfume. Ora, não convence. Muito parecido com quando lhe querem impingir pomada de tubinho para as coceiras alérgicas. Não, neste Menino Jesus que é meu, ninguém passa pomada.
     A conversa caía em crise e então se apelou para a terceira dádiva, o ouro. Que ele também estranhava. Ouro como? Colar? Anel? Mas criancinha pequena não usa essas coisas. Menina pode ser, assim mesmo quando já é maior. Menino nunca. Para que o menino quer ouro?  Alguém sugere que talvez para dar esmola. Mas ele sabe que esmola a gente dá é com dinheiro. Pobre é como criança, não usa relógio nem anel nem pulseira nem... Se dá é nota de cinco ou então comida ou leite ou roupa ou cobertor. Nunca ninguém viu dar coisa de ouro de esmola! Admiro esse Rei Magro!
     Para o desviar do ouro e seus problemas, a mãe pela centésima vez diz que não é magro, é Mago. Mas por que Mago? Mago quem diz é criança que não sabe falar - diz mago, pato, for, em lugar de magro, prato, flor. Hein, por que é Mago? Q que é mesmo Mago? Bem - Mago é assim uma espécie de feiticeiro... Mas, feiticeiro não é ruim? E os Reis Magos são ruins? Este problema de ética está sempre presente nas suas conversas: elefante é bicho ruim ou bicho bom? A Rainha da Inglaterra é rainha boa ou má? Baleia é boa ou ruim? Como é que a gente sabe que um cachorro é ruim? Mocinho é bom, bandido é ruim. Se os magos são feiticeiros bons, quem é ruim?
     - Bem, ruim era Herodes.
     - Herodes? Esse eu nunca ouvi falar. (Quem lhe contou a história do Natal, expurgou-a da matança dos inocentes.) Por que Herodes era mau? Ah, mandou matar as crianças... puxa, era mauzinho, hein?
Mas você sabe quem era mau, mas muito mau mesmo? É aquele dragão de S.Jorge, que bota fogo e fumaça pelas ventas. Quando eu tenho raiva de uma pessoa, tenho vontade de botar fogo pelas ventas também!
     Mas se os Reis Magros - oh, Magos - eram feiticeiros, por que é que eles andavam nesses camelos tão mixurucas? Por que não arranjaram um gênio para carregá-los como o da lâmpada do Aladim? E por falar no Aladim...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Lygia Fagundes Telles - Ângela Delgado

     Na rede, lendo a recém indicada pelo Brasil ao prêmio Nobel. Atenção, pronuncia-se como dúplex e tríplex.
    O primeiro dela eu amei.
    O segundo tem frases ótimas e engraçadas, em meio a uma e outra página relatando delírios de drogados tão deprimentes, que, se o livro não fosse de quem é, eu o teria fechado.
     Dei as instruções básicas à nova faxineira e agora ia me levantar, para lhe falar isso ou aquilo,
mas quer saber? Ela achará tudo. Lygia está me puxando, me detendo.
     Voltemos à leitura:
     "Ouço duzentos e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo a alegria está instalada em mim."
     Parece alguém que está se enxergando cada vez mais.
     Um pouquinho mais adiante:
     "Lembro da ampulheta quebrada, entrei no escritório do pai pra pegar o lápis vermelho e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico vendo o tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e os cacos. Passado e futuro. E eu? Onde ficava eu agora que o era e o será se despedaçaram? Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em trânsito sem se comprometer com os extremos."
     "A volúpia com que os homens criam e descriam a fatalidade. E depois atribuem a responsabilidade aos deuses."
      "Apenas um terço de nós é visível. O resto não se vê. O avesso.
Deve ter ficado satisfeita com sua alta porcentagem de mistério."
      Está explicada a invisibilidade. Quem mandou ser tão misteriosa?
       "Tacto com c para impedir a precipitação, certas palavras devem ter seu degrau, medida contra afobados."
       "Todo aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar seu prejuízo. Não cumprindo a obrigação, responde o devedor por perdas e danos." ' Isto é uma norma. Norma jurídica. Por negligência sua perdi a alegria.' - falou a personagem estudante de Direito.
     "Um telefonema hoje, um encontro rápido amanhã, uma esperança para Deus sabe quando."
     E perco a esperança de achar o trecho em que ela fala da filosofia do ser ou estar...
Resumindo, o estilo é sumamente magnético.
     O terceiro, em breve.
    Ouvindo Aznavour, vou tão feliz dirigindo rumo à Biblioteca, para pegar outros livros dessa grande escritora, que digo a mim mesma: Menos, menos! Você sabe como a vida cobra cada alegria, sabe do círculo vicioso, alegria, tristeza, alegria, tristeza, per omnia saecula saeculorum...
   "Dominus vobiscum. Et cum spirito tuo. Ite, missa est."
   

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Quod erat demonstrandum - Ângela Delgado

    Apenas inaugurado o consultório, ela se apossou do divã e nele se instalou qual posseira (?), provando sem dúvida, que a vida era parecida com moedas! Era o óbvio mostrando a cara ou sua coroa.
   - E o que ela disse?
   - Como em um confessionário, a ética não permite indiscrições, mas só para o histórico, foi mencionado que ela constantemente entra na roda de seus personagens, a quem dá as mãos no girar do ritmo. Eureca! Personagens de livros, embora sem carne, osso e alma, também fazem parte da vida, graças a Deus; são linhas que cortam nó górdio, encantando, e compensando carências.
     Por hoje, seu tempo terminou. Veremos em que dará o desenrolar deste coração. Esperemos que, ao ter alta, você se conscientize de que as músicas arrebatadoras e os personagens que a encantam são o fermento de seu mundo. Mundo este que se revela um banquete, onde cogumelos venenosos e alimentos indigestos devem ser evitados. Quod erat demonstrandum é que se o inferno são os outros, o céu também são os demais.                                                                                                                 
      A vida nesse ponto já adquiriu novo sabor para ambos, "médico e paciente". No entanto, ele terá que refletir sobre o que ela declarou: apaixonada por si própria ela não se machuca. Autoestima levada ao extremo? O melhor é de fato dar por encerrada a consulta, como acima foi decretado. Não é emocionante saber que amanhã teremos ou escreveremos outro capítulo, no qual seremos leitores e personagens, a um só tempo? E como é bom virar a página! Desperdiçar a vida... Eu, hein? Aproveito até um pedaço de pão ou água pra chuchu, vou lá jogar fora uma vida?!   
     - Que diabo significa isso de água pra chuchu, se ele não se cozinha com água , pois ficariaaguado e sem graça? Tem que ser só refogado.    
     - É que adoro usar expressões da era dos Beatles. Você não sabe que chuchu se propaga com a maior facilidade? Daí a metáfora da abundancia, capisci?
     Interrompidas as sessões de "análise",  não conseguindo largar "Ciranda de pedra" de Lygia Fagundes Telles, ele foi comigo à padaria, Alguém disse que a gente não morre, enquanto não acaba de ler o que se está lendo. Sendo assim, não morrerei nunca, pois eles se sucedem e, de encantamento em encantamento, me viciei. span style="font-family: "calibri" , sans-serif; font-size: 18.6667px; line-height: 19.9733px;">     "

quarta-feira, 14 de outubro de 2015







            Aos  aniversariantes do mês de outubro, os meus calorosos parabéns!

sábado, 16 de maio de 2015

Manuel Bandeira na minha memória - de Anna Maria A.Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro
     Em minha bem sucedida carreira de “serial clumsy”, muitos dos episódios ocorreram em momentos trágicos e de grande sofrimento. A lembrança de um deles me vem hoje na leitura da deliciosa crônica Memória sobre Manuel Bandeira, publicada no último número do Montbläat, escrita por José Roberto Teixeira Leite (será ele parente de Dr. Edgar Teixeira Leite uma das figuras que mais me encantava nas minhas lides com Reforma Agrária?). Foi um dos episódios mais absurdos de minha capacidade de criar situações embaraçosas para mim, e muitas vezes para outros, e se deu exatamente num momento de grande tristeza para mim e para muita gente. Era dezembro de 1959, tinha eu vinte e nove e naquela época apenas dois filhos. Morava em Recife, casada com um oficial da FAB. Radiante, havia vindo passar as férias no Rio de Janeiro para participar das festividades de fim de ano que todos os anos envolvia a família numa sucessão de almoços, ceias e jantares que começavam no dia 24 de dezembro e se desenrolavam até o Dia de Reis, em janeiro. Poucos dias antes do Natal um telefonema destruiu nosso mundo familiar, tão divertido e tão unido. O choque de um avião da VASP com o de um cadete da aeronáutica havia provocado a morte de todos os envolvidos. Entre eles estavam meus tios Lucia Miguel Pereira e Octávio Tarquínio de Souza, ambos escritores. Ela, crítica literária, ensaísta e autora de extraordinárias biografias de Machado de Assis e de Gonçalves Dias; ele, historiador de fama, com quem aprendi que D. Pedro I era “femeeiro”, palavra que nunca havia escutado. Em casa de Lúcia (para mim Madinha) eu havia sido introduzida, muito cedo, num mundo de beleza, inteligência e cultura. Desfilavam por lá senhores e senhoras, criadores de personagens, poesias, quadros e desenhos que me haviam sido apresentados antes dos autores, desde muito cedo. Emocionada eu apenas assistia as conversas que me pareciam mágicas. Aquela cobertura, de onde se via o Parque Guinle, era para mim um lugar sagrado. Não eram só os tios que eu havia perdido. Uns poucos que os frequentavam eram também amigos de meu pai. Mas não todos. E eu não mais os veria em sua inteligência e brilho. O enterro no São João Batista estava um tumulto. No mesmo acidente havia morrido o repórter Luciano Carneiro. Eram três personalidades que ao mesmo tempo deixavam a vida e centenas de pessoas chocadas lotavam as capelas. Minha mãe, muito abatida, pediu-me: minha filha: cuida de Tio Frederico. Ele está muito velhinho e fez questão de vir. Tenho medo que se emocione demais. Tio Frederico era um desses tios que só se vêem em enterros. Morava fora da capital e raramente sabíamos dele. Era irmão de meu avô que eu nem havia conhecido. Corri os olhos pela multidão que lotava a capela. Lá no canto, sentado e chorando muito estava Tio Frederico. Sentei-me ao lado dele, sem coragem de dizer nada. Peguei sua mão e passei a acariciá-la tentando dar um apoio que nem seria tanto. Ele me olhava com uma expressão estranha. Era visível que não queria falar nada. Respeitei o seu silêncio e ficamos apenas chorando. Vez por outra, quando o choro recrudescia, eu o abraçava e lhe dava um beijo que parecia provocar mais estranheza ainda. Ao sairmos em direção ao túmulo eu lhe dei o braço e o amparei no andar. Lembro-me que pensei: ele anda bem para idade dele. Mas assim mesmo retardei o ritmo que ele tentava imprimir como que querendo fugir de meus cuidados. Quando tudo terminou alguém que eu não conhecia apoderou-se de tio Frederico dizendo que ia levá-lo em casa. E ele partiu sem se despedir de mim, ainda chorando muito. Livre da incumbência procurei localizar a família e dou de cara com Jorge Laclette, amigo de infância, meu e de meu irmão. Não consegui achar os outros e resolvemos ir a pé para casa de minha mãe, que era na Rua Mena Barreto e onde, certamente, todos se reuniriam naquela necessidade de se estar junto depois de um golpe desses. Foi aí que Jorge fez uma declaração que me deixou confusa: não sabia que você era tão ligada ao Manuel Bandeira. Surpresa, respondi: não sou, não, Jorge. Eu o via apenas em casa de Madinha. Ele veio? Jorge arregala os olhos e dispara: você está maluca? Passou horas de mãos dadas com ele. Abraçando, beijando, agarrada a seu braço!!!  Estarrecida me dou conta de que aquele velhinho (que na época era mais moço do que sou agora) não era Tio Frederico. Até hoje, anos passados de sua morte, o nome Manuel Bandeira me dá arrepios. Mesmo quando releio as poesias que adoro. Imagino o que deve ter pensado daquela louca que dele se apoderou impedindo que fugisse das carícias e do apoio não desejados: o olhar que eu identificara como estranho era de espanto e horror! Rezo para que ele nunca tenha identificado naquela moça a adolescente que o devorara com os olhos mais de dez anos antes. Chegando a casa mamãe me interpela: E Tio Frederico?  Covardemente informo que ele havia ido direto tomar o ônibus de volta. E passei algumas horas no terror da chegada da notícia de um velho desorientado vagando pelo São João Batista. Mas, aparentemente, Tio Frederico retornou são e salvo ao seu refúgio e morreu anos depois, sem saber que havia sido abandonado por uma sobrinha neta trapalhona.      

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A PIPOCA - por Rubem Alves


A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo - porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.
Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do candomblé...
A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista do tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
E o que é que isso tem a ver com o candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosas. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. "Morre e transforma-te!" - dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perde-la-á." A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...