E-book com futuras contribuições alheias e sempre com uma música de fundo.
sábado, 10 de novembro de 2018
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
É conversando que a gente se desentende - Rubem Alves
É de madrugada, naquele intervalo confuso entre o sono e o estar acordado,
que os deuses me fazem suas revelações. Acontece, então, que as coisas mais
banais aparecem à minha frente pelo avesso, o que muito me surpreende porque,
pelo avesso, as coisas são o oposto do que parecem ser pelo direito.
Hoje, por exemplo, os deuses revelaram-me que a separação vem da
compreensão. Para se ficar junto é melhor não entender. Isso é o oposto do que
pensam os casais que vivem brigando. Acham que suas brigas devem-se ao fato
de não se entenderem e pedem então socorro aos terapeutas, quem sabe a
terapia fará com que se entendam melhor, o que é fato, mas a conclusão não
segue a premissa. Não é certo que, depois de se entenderem melhor, vão ficar
juntos.
Frequentemente é no exato momento da compreensão que a separação
torna-se inevitável. Nada garante que o compreendido seja gostado. Prova disso
é o que aconteceu com o meu sogro, que odiava miolo. Convidado para jantar,
deliciou-se, repetiu e fartou-se com uma maravilhosa couve-flor empanada.
Ao final do banquete, cumprimentou a anfitriã pelo prato divino. Mas ela logo
explicou: “Não é couve-flor, é miolo empanado...” E ele entendeu, entendimento
que o catapultou na direção do banheiro mais próximo, onde o jantar foi vomitado.
explicou: “Não é couve-flor, é miolo empanado...” E ele entendeu, entendimento
que o catapultou na direção do banheiro mais próximo, onde o jantar foi vomitado.
É assim. Às vezes, quando a gente não entende, come e gosta. Quando entende, desgosta e vomita.
Afirmação assim avessa, tão contrária ao senso comum, exige uma explicação
– e é o que passo a fazer.
– e é o que passo a fazer.
Abri, no meu micro, um arquivo com o nome de “Encíclicas”. Coloco ali o texto
das encíclicas que vou promulgar quando for eleito Papa. Como se sabe, o papa
Leão XIII, em 1891, promulgou a encíclica De Rerum Novarum que quer dizer
“Sobre as coisas novas”. De repente, a Igreja, que até então acreditava que tudo
o que merece ser conhecido estava guardado no seu baú milenar de doutrinas,
o que merece ser conhecido estava guardado no seu baú milenar de doutrinas,
percebeu, com um susto, que coisas novas, interessantíssimas, aconteciam no
mundo.
E o bom Papa apressou-se a passar essa informação adiante. Esse foi o início
de um enorme esforço de modernização da Igreja que não deu certo, pois não se
coloca remendo de pano novo em pano velho. O pano velho começou a rasgar...
Desejoso de reparar o mal que a encíclica De Rerum Novarum causou, escrevi
a sua antítese, a encíclica De Rerum Vetustarum, ou seja, “Sobre as coisas velhas”.
a sua antítese, a encíclica De Rerum Vetustarum, ou seja, “Sobre as coisas velhas”.
E a sua substância é extraordinariamente simples. Reza a encíclica que, do
momento de sua publicação para frente, tudo, absolutamente tudo o que ocorrer
na Igreja, as fórmulas litúrgicas, as bênçãos sacerdotais, batizados, crismas,
casamentos, funerais, hinos, leituras dos Textos Sagrados, sermões, encíclicas,
e mesmo as falas do padre ao confessionário, tudo deverá ser feito em latim.
Ah! Como é belo o latim! Soa como uma “liturgia de cristal”, música pura
Se os padres falassem em latim, a gente não entenderia nada e amaria tudo.
A linguagem clara e distinta mata a fantasia. Dentro do que ninguém entende
cabe tudo: miolo vira couve-flor e o corpo e a cabeça aprovam.
A compreensão sempre dá briga. Imagino, mesmo, que foi por isso que
Deus confundiu as línguas da humanidade na construção da Torre de Babel.
As pessoas falavam a mesma língua. Falando, entendiam-se. Entendendo-se,
compreendiam as opiniões uns dos outros. Compreendendo as opiniões uns
dos outros não gostavam delas. E daí passavam às vias de fato.
Deus Todo-Poderoso compreendeu, então, que a única forma de evitar pancadaria
era fazer com que eles não se entendessem.
Deus confundiu as línguas da humanidade na construção da Torre de Babel.
As pessoas falavam a mesma língua. Falando, entendiam-se. Entendendo-se,
compreendiam as opiniões uns dos outros. Compreendendo as opiniões uns
dos outros não gostavam delas. E daí passavam às vias de fato.
Deus Todo-Poderoso compreendeu, então, que a única forma de evitar pancadaria
era fazer com que eles não se entendessem.
Fica o conselho aos casais que estão brigando. Cuidado com a conversa.
Da conversa pode nascer a compreensão, da compreensão pode surgir a separação.
A compreensão pode ser tão fatal para o casamento quanto ela foi para o jantar do meu sogro.
É conversando que a gente se desentende.
É conversando que a gente se desentende.
Previnam-se contra a terapia de casal. Ela pode produzir compreensões insuportáveis.
Adotem a sabedoria milenar da Igreja: adotem o latim como língua da casa. E
dediquem-se à música, dando preferência aos instrumentos de sopro, pois
enquanto se sopra não se fala e, assim, a compreensão e a separação são evitadas.
quinta-feira, 14 de junho de 2018
A manhã de hoje
Por causa de um salgadinho saboreado ao
entardecer, à noite tive um pesadelo. E o culpei, porque a coincidência se
repetiu, no mínimo, pela terceira vez. Mas, vamos ao que enfrentei enquanto
dormia: nada mais - ou nada menos – do que Lula e Dilma. Seria possível a desgraça
se alastrar em outra dimensão?
Levei, então, a mistura de Pastor Alemão
com Akita que temos aqui em casa e fomos, corajosamente, derrubar de uma vez
por todas, a maldita dupla. Que me desculpem os petistas.
Amedrontava a todos pela frente, até que contra-atacaram com um ratinho fatal. Estava eu
nesse dilema, quando acordei aliviada.
Daí me levantei disposta a recomeçar o
namoro com o dia. Em frente ao espelho, constato a secura de minha pele. Chego
à conclusão de que o famoso creme não está fazendo efeito. Acho que - aqui me rendo em minha batalha para usar o tempo futuro - vou apelar para a sabedoria antiga: a velha pomada “Minâncora”.
Lendo a bula, relembro que ela combate
espinhas e o efeito de picadas de insetos, mas não hidrata.Vick Vaporub igualmente combate espinhas;
elimina dor de cabeça, vejam só; alivia
dores nas articulações, etc., mas só hidrata lábios... A última tentativa:
Listerine, quem diria? Além de enxaguante bucal, serve para limpar vidros,
pisos e, ao fim de uma longa lista de promessas, a limpeza do rosto é uma
delas, mas não há menção de hidratá-lo. Como não?! Que droga de produto é esse
que só resolve 37 problemas?
Desisto e ligo o celular, onde há um apelo
urgente para salvar elefantes na África, com a agravante de termos que enviar
um donativo.
Só me faltava essa. Como se não
tivesse preocupações suficientes, e não me refiro à pele. Que me desculpem os
ecologistas ou seriam os ambientalistas?
Enquanto cedo a este impulso
irresistível de tudo colocar no papel, na mensagem do Whatsapp me esperam, "no
elevador parado e às escuras, um argentino, um brasileiro, uma gostosa e uma
freira"...
Sabe-se lá o desenlace da piada, que será lida mais tarde.
O dia avança, e junto com ele a hora em que devo me colocar sob o sol, para a devida absorção de vitamina D,
Sabe-se lá o desenlace da piada, que será lida mais tarde.
O dia avança, e junto com ele a hora em que devo me colocar sob o sol, para a devida absorção de vitamina D,
Lá fora, eis que me defronto com duas pequenas
abelhas engalfinhadas, na luta por uma folhinha. Com tantas ao redor, elas não
a largam, há mais de 20 minutos. Joguei-lhes outra folha, porém ignoraram-na.
Serão os animais tão cegos quanto os humanos? Deu vontade de pisoteá-las, mas pensando no Livre Arbítrio, deixei-as ao seu bel prazer. No entanto, a dúvida de que uma delas fosse fêmea e precisasse ser salva, me fez tentar separá-las. Em vão. Finalmente, tinha mais o que fazer e que me desculpassem os biólogos.
À toda essa avalanche de acontecimentos,
somaram-se as pouco emocionantes notícias do jornal, aberto ao lado do livro, que
aguardaria pacientemente na fila sua oportunidade de me
encantar.
Ao digitar esta postagem no escritório, no andar
superior e de janelas fechadas, ouvi um pedido abafado de socorro. Abri uma das
janelas e chamei:
- Adélia?
Não obtendo resposta, achei que fosse a vizinha vendo uma barata. Só que era meu marido caindo de uma escada. Bateu no chão com a testa, que logo sangrou muito, formando-se um enorme galo. O grito havia sido da faxineira e, graças a Deus, ele está bem.
- Adélia?
Não obtendo resposta, achei que fosse a vizinha vendo uma barata. Só que era meu marido caindo de uma escada. Bateu no chão com a testa, que logo sangrou muito, formando-se um enorme galo. O grito havia sido da faxineira e, graças a Deus, ele está bem.
Angela Delgado
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Angela Delgado
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
As rãs, o pintassilgo e a coruja - Rubem Alves
Era uma vez um bando de rãs – embora sua
aparência sugira o contrário – são seres poéticos. Sobre uma rãzinha, Matsuo
Bashô (1644-1694) escreveu o seu haicai: “Ah, o velho lago./De repente a rã no
ar/e o tchibum na água...” As rãs da nossa história não saltavam em lagos, porque
viviam presas no fundo de um poço. Só que elas não sabiam que estavam presas no poço, por pensar que o universo era daquele jeito. (Muitas pessoas
vivem também presas no fundo de poços, sem se dar conta disso...)
Tudo começara muito tempo antes, num
momento de enlevo amoroso. Um casal de rãs apaixonadas ia saltando numa noite
de lua cheia em busca de um ninho onde fazer amor. Olhavam para a lua romântica
e não viram o buraco à sua frente (isso acontece frequentemente com os
apaixonados...). O pulo seguinte os levou da luz romântica da lua ao escuro do
fundo do poço. Pularam muito, o mais que podiam, para sair do poço.
Inutilmente. O poço era muito fundo.
Resolveram, então, transformar sua desdita
em felicidade. Como naqueles filmes em que um lindo jovem e uma linda jovem
naufragam e vão parar numa ilha paradisíaca de onde não podem sair. Lembro até
do nome do filme: Numa ilha com você...
Como não havia o que fazer no fundo do poço, puseram-se freneticamente a fazer
amor, não por luxúria, mas para matar o tempo. Frequentemente, na vida dos
casais, acontece o mesmo: faz-se amor não por amor, mas para combater o tédio.
O resultado foi o esperado: rãzinhas e mais rãzinhas. O poço se encheu
de rãs e o casal solitário se transformou numa grande sociedade de rãs.
Como acontece com todos os seres vivos, o
casal original, o Adão e a Eva das rãs, ficou velho e morreu. Com isso,
morreram os únicos que tinham memória do mundo de fora. As rãs-filhas, sem
memória da beleza do mundo, pensavam que o poço era tudo o que havia no
universo. E o que havia lá dentro era lama, lesmas, mau cheiro, moscas,
minhocas, lacraias e escorpiões... Assim, suas cabeças só pensavam lama,
lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e escorpiões.
Aconteceu que, numa manhã ensolarada, voava
por aqueles campos um pintassilgo que, passando perto do poço, ouviu a
orquestra de rãs coaxando lá no fundo. Curioso, ele baixou o seu voo e entrou. Foi um grande susto para as rãs, que pensavam ser elas os
únicos habitantes do universo. Algumas rãs disseram que se tratava de um extrapoço (pois não há
extraterrestres?). Outras, que era alma do outro mundo. Umas poucas, de
índole mística, pensaram tratar-se de um anjo. E outras havia que, tendo lido
Freud, afirmavam que o pintassilgo era uma alucinação coletiva.
O pintassilgo, penalizado da triste
condição das rãs (triste para ele, que conhecia as belezas do mundo; mas as
rãs, elas mesmas, que só conheciam o fundo do poço, estavam muito felizes...),
começou a cantar: cantou flores, cantou rios, cantou nuvens, cantou pássaros,
cantou borboletas. O que mais fascinou as rãs foi pensar que havia animais que
não pulavam como elas: animais que voavam como o pintassilgo. As rãs se
dividiram. Os sociólogos fizeram uma pesquisa. O resultado foi: 45% das rãs
achavam que o passarinho era doido, pois falava sobre coisas que todas as rãs
em juízo perfeito sabiam ser fantasia; 50% concordavam com os teóricos da
psicanálise – o dito passarinho, que se sabe não existir, por não existirem
coisas com asas, não passava de uma alucinação; somente 5% das rãs acreditaram
no pintassilgo. E uma coisa curiosa aconteceu com estas: começaram a nascer
asas em suas costas, asas como as do pintassilgo. E elas viraram pássaros –
meio desajeitados, é bem verdade. Mas não importa. O fato é que se puseram a
voar e saíram do poço. O pintassilgo, sentindo-se rejeitado por 95% da
população de rãs, achou prudente ir embora para nunca mais voltar. E assim
ficaram as rãs, pelo resto de suas vidas, sem o canto do pintassilgo.
Corujas, como se sabe, são aves noturnas
de rapina. Caçam animais no escuro. Pois o pintassilgo estava doido para contar
sobre as rãs no fundo do poço. Viu uma coruja num galho de árvore. Chegou perto
dela e lhe contou sobre as rãs. Rãs, como se sabe, são um deleite para o
paladar. Até os humanos as apreciam, especialmente fritas. Ouvindo falar de um
punhado de rãs, a coruja abriu os olhos, prestou atenção e pensou: “tenho
comida garantida para a próxima estação”.
Caída a noite, bateu suas asas e entrou
dentro do poço. Noite ou dia, não fazia diferença: no poço era sempre escuro.
Chegando lá, foi outro susto para as rãs. E a coruja, que não era boba, nada
falou sobre as belezas do mundo de fora. Se as rãs acreditassem num mundo cheio de coisas bonitas, era possível que começassem a ter esperança. E é
a esperança que faz crescer asas nas costas não só das rãs, como também de
todos os bichos, inclusive dos homens. Com asas nas costas, as rãs se
transformariam em pássaros, voariam, sairiam do poço e iriam fazer tchibum na
lagoa. E na lagoa estariam a salvo do seu bico. “Esqueçam as bobagens que o
pintassilgo cantou”, disse a coruja. “O pintassilgo é um poeta e fala sobre
coisas que não existem. O que realmente importa é que vocês compreendam os seus
próprios pensamentos. Podem acreditar em mim. As corujas, na literatura, são
símbolos da sabedoria. Eu sou sábia.”
A coruja iniciou, então, um detalhado
processo de análise das ideias das rãs. Mas, como elas só conheciam lama,
lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e escorpiões, o resultado da
análise era sempre lama, lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e
escorpiões – reelaborados, é bem verdade. E assim aconteceu. As rãs, através
dos anos de análise, foram ficando cada vez mais “resolvidas” quanto a lama,
lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e escorpiões. E se esqueceram
das belezas cantadas pelo pintassilgo poeta. A coruja, por sua vez, foi ficando
cada vez mais gorda, enquanto, a intervalos regulares, uma rã desaparecia...
As histórias – coisas que nunca
aconteceram – têm o poder de nos ajudar a compreender as coisas que acontecem.
Esta história, pura brincadeira, é sobre nós mesmos. Somos rãs no fundo do
poço. Poços podem ser a casa, o casamento, o emprego, a bolsa de valores, a
religião, as superstições, as memórias... O fundo do poço pode também ser a
própria alma. Para entender a alma, Platão inventou uma estória parecida com a
das rãs. Ele nos descreveu como prisioneiros acorrentados no fundo de uma
caverna, com as costas voltadas para a entrada. Nessa posição, não vemos o
mundo lá fora (como as rãs), mas apenas as sombras deste mundo, projetadas na
parede à nossa frente.
De que forma podemos quebrar a corrente
que só nos permite ver as sombras? Qual o poder que dá asas às rãs, para que
elas saiam do poço e vejam o mundo de fora?
Disse Bernardo Soares que não vemos o que
vemos. Vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo aqueles que têm belezas
dentro de si. Com o que concordaria Ângelus Silésius, místico e poeta que viveu
no século XVII, que dizia que, a menos que tenhamos o paraíso dentro de nós,
não há forma de encontrá-lo fora de nós mesmos.
Essa é a questão central da terapia: abrir
os olhos aos cegos.
Bachelard – maravilhoso pintassilgo –
dizia que um psicanalista é uma pessoa que, ao receber do seu cliente uma rosa,
volta-se para ele e lhe pergunta: “E o esterco, onde está?”. Como se o abismo
da alma, fosse um esgoto! Essa visão terapêutica tem suas origens na
psicologia do inquisidor que pressupunha que aquele que estava sendo
interrogado mentia sempre. Assim, tudo o que ele dissesse de bondade e beleza
não passava de máscara, disfarce para o pecado escondido. Sua tarefa era
sistematicamente destruir a bela máscara para chegar ao rosto horrível: da rosa
para o esterco.
A essa visão sinistra do inconsciente,
Bachelard contrapõe “um inconsciente tranquilo, sem pesadelos...”. Bachelard, se psicanalista fosse, ao receber esterco
do seu paciente, perguntaria, com um sorriso: “E a rosa, onde está?”. A tarefa
do terapeuta, então, não pode ser compreendida como uma infinita análise de
esterco, mas como um alegre cultivo de flores. Há, de fato, no fundo do poço,
lama de cujas profundezas sobem bolhas malcheirosas. Mas nesse poço floresce o
lótus imaculadamente branco...
O que salva não é a análise da lama. O que
salva é a contemplação do lótus.
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Rubem Alves
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
Vida - Ângela Delgado
A vida é rodízio obrigatório
de contraditório cardápio
de contraditório cardápio
oferecem-nos alegrias
acompanhadas de tristezas
acompanhadas de tristezas
como se fosse a conta.
ora degustamos aconchegados na cadeira
ora degustamos aconchegados na cadeira
ora levamos uma rasteira
Assim seguimos vida afora.
Remoendo neste barco?
Se mime, não rumine.
Se mime, não rumine.
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Angela Delgado
sábado, 2 de setembro de 2017
Uma crônica de Jacques Prévert - Ângela Delgado
Ontem foi uma data triste, pois fazia um ano
que um irmão muito querido se fora, mas ao final do dia, lendo na cama um livro
de Jacques Prévert, pude rir com sua crônica:
" O
professor
Hamlet!
O
aluno Hamlet (tendo um sobressalto)
... Hein... O quê... Desculpe... O que
aconteceu... O que houve...
O professor
(descontente)
Você não pode responder “presente” como todo o
mundo? Impossível, você ainda está nas nuvens.
O aluno
Hamlet
Estar ou não estar nas nuvens!
O professor
Basta. Vamos ao ponto. Conjugue o verbo ser, como todo o mundo, é tudo o que peço.
O aluno
Hamlet
To be...
O professor
Em francês,
por favor, como todo mundo.
O aluno Hamlet
Está bem, professor
(ele conjuga) :
Eu sou ou
não sou
Você é ou
não é
Ele é ou não
é
Nós somos ou
não somos...
O professor
(bastante
descontente)
Mas você não está aqui, meu pobre amigo!
O aluno Hamlet
É isso,
professor,
Eu estou
“onde” não estou.
E, no fundo,
hein, pensando bem,
Estar “onde”
não se está
Talvez seja
também a questão."
Não sei se
foi engraçado para vocês ou se eu é que estava precisando rir.
Como há um
probleminha de tradução, porque, em francês, a palavra “ou” é homônima de
“onde”, transcreverei o texto original:
Le professeur
Hamlet!
L´élève
Hamlet
(sursautant)
... Hein... Quoi... Pardon... Qu´est-ce qui se
passe... Qu´est-ce qu´il y a... Qu´est-ce que c´est?
Le professeur
(mécontent)
Vous ne
pouvez pas répondre “présent” comme tout le monde? Pas possible, vous êtes
encore dans les nuages.
L´élève Hamlet
Être ou ne pas être dans les nuages!
Le professeur
Suffit. Pas tant de manières. Et
conjuguez-moi le verbe être, comme tout le monde, c´est tout ce que je vous
demande.
]
L´élève Hamlet
To be...
Le professeur
En français,
s´il vous plaît, comme tout le monde.
L´élève Hamlet
Bien,
monsieur. (Il conjugue:)
Je suis ou
je ne suis pas
Tu es ou tu
n´es pas
Il est ou il
n´est pas
Nous sommes
ou nous ne sommes pas...
Le professeur
(excessivement mécontent)
]
Mais c´est
vous qui n´y êtes pas, mon pauvre ami!
L´élève Hamlet
C´est exact,
monsieur le professeur,
Je suis “où”
je ne suis pas
Et, dans le
fond, hein, à la réflexion,
Être “où” ne
pas être
C´est
peut-être aussi la question.
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Angela Delgado
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Carta aberta à Unb - Ângela Delgado
Imagine a emoção de
um estudante, após grande esforço e muita ansiedade, ser aprovado a uma vaga na
Faculdade.
O dia D chega. Consegue carona, mas, como tantos outros, poderia ter ido em pé ou apertado em um ônibus. Está intimamente emocionado, tenso talvez. E com certeza, cheio de expectativas pelo "desembarque" ou aula inaugural, momento em que se inicia nova etapa em sua vida.
A realidade, porém, raramente é o show que deveria ser. Ela nos envergonha cada vez mais.
Tal um anfitrião, é dever do educador receber bem o futuro professor, matemático, médico, engenheiro, arquiteto, administrador, ou seja lá qual a pretensão do calouro - alicerce de um país - como igualmente auxiliá-lo, motivando-o a estudar, pesquisar, progredir até à sua formação. É essa a missão e o mais nobre dever do docente. A propósito, para isso é pago. Em uma empresa aérea, o "no-show" ocasiona multa, mas a professora, descumprindo sua parte, que consiste em dar uma bela aula, fica imune. Foi operada. Ao que parece, não de emergência, pois o funcionário informara que ela está de atestado. Será que, em um mês de férias, faltou tempo e sensibilidade para a comunicação prévia à secretaria de seu impedimento para se apresentar, em tão importante dia; esta prover um substituto; adiar o início das aulas ou, pelo menos, avisar aos alunos? O mínimo que se espera de uma autoridade é o bom exemplo. Do contrário, como exigir respeito, se é a primeira a desrespeitar? A meu ver, dependendo das desculpas, esse descaso seria caso de séria advertência, suspensão ou, havendo reincidência, demissão por justíssima causa. Só que não estão nem aí. A agravante é ter isso já ocorrido outras vezes.
Por isso, não podemos nos omitir e continuar a "aceitar" o inaceitável.
O dia D chega. Consegue carona, mas, como tantos outros, poderia ter ido em pé ou apertado em um ônibus. Está intimamente emocionado, tenso talvez. E com certeza, cheio de expectativas pelo "desembarque" ou aula inaugural, momento em que se inicia nova etapa em sua vida.
A realidade, porém, raramente é o show que deveria ser. Ela nos envergonha cada vez mais.
Tal um anfitrião, é dever do educador receber bem o futuro professor, matemático, médico, engenheiro, arquiteto, administrador, ou seja lá qual a pretensão do calouro - alicerce de um país - como igualmente auxiliá-lo, motivando-o a estudar, pesquisar, progredir até à sua formação. É essa a missão e o mais nobre dever do docente. A propósito, para isso é pago. Em uma empresa aérea, o "no-show" ocasiona multa, mas a professora, descumprindo sua parte, que consiste em dar uma bela aula, fica imune. Foi operada. Ao que parece, não de emergência, pois o funcionário informara que ela está de atestado. Será que, em um mês de férias, faltou tempo e sensibilidade para a comunicação prévia à secretaria de seu impedimento para se apresentar, em tão importante dia; esta prover um substituto; adiar o início das aulas ou, pelo menos, avisar aos alunos? O mínimo que se espera de uma autoridade é o bom exemplo. Do contrário, como exigir respeito, se é a primeira a desrespeitar? A meu ver, dependendo das desculpas, esse descaso seria caso de séria advertência, suspensão ou, havendo reincidência, demissão por justíssima causa. Só que não estão nem aí. A agravante é ter isso já ocorrido outras vezes.
Por isso, não podemos nos omitir e continuar a "aceitar" o inaceitável.
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