quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Caixa de Pandora - Genserico Júnior

Adaptação de um mito grego Prossegue a temporada jornalegórica dos mitos metafóricos, de sentido parabólico, incorporando estilos hiperbólico, onírico, telúrico, lúdico, idílico, etílico, elíptico, poético, caótico e diabólico, com sutil olhar político. Esse palavrório inicial serve tão somente para impressionar e confundir o pobre leitor. Exatamente para isso: não está aqui para esclarecer, mas para obnubilar ainda mais o panorama visto da ponte. Quem quiser que destrinche as chacrinhas, digo, as charadas. Não estamos em época de falar às claras, diante do respeito, e mesmo temor que tenho pelo dito senso comum, que atende também pelo nome de opinião pública, de um público mesmerizado pela não dita e maldita, porque parcial, opinião publicada da grande mídia nacional. Eis a nova história: Brasiliano mantinha no fundo dos seus guardados uma caixinha com aplicações de marchetaria, de estilo árabe, que lhe foi presenteada por um gênio mesopotâmico, quando naquela região babilônica esteve, no início da década dos anos setenta do já saudoso século passado. Caixa que foi bem preservada durante todo esse tempo, mas que lhe reservou incontáveis surpresas, como a seguir contarei, tal como um emocionante e aterrorizante jogo de futebol do meu time no brasileirão deste ano, perigando cair no caldeirão do mundo inferior da segundona. Desde que recebeu a caixinha, ela fora displicentemente colocada no chão, num canto esquecido do seu escritório, sob uma coluna de pastas contendo papéis antigos, e nunca foi aberta. A experiência o aconselhava a não abri-la jamais, dada a sua origem misteriosa. Ninguém sabe o que ali estaria guardado, principalmente por ser um regalo de um gênio (gênio mesmo, daqueles que saem das lâmpadas maravilhosas). Aliás, esse maravilhoso ser o advertira nesse sentido, pois em tal interior teriam sido depositados segredos milenares da oriental sabedoria. Foi a sua arrumadeira, a Jefinha, quem bisbilhotou o misterioso objeto, possivelmente em busca de alguma coisa valiosa: dinheiro, jóias, dólares, euros, para compensar a parca remuneração que recebia do seu patrão, um pensador politicamente correto, mas um mão de vaca dos mais renhidos, coitado, por ter-se transformado em um aposentado senil, desamparado também pela sociedade, especialmente pelo INSS e pelo SUS. Assim posto, era incompatível seu estado de penúria com as grandes expectativas de Jefinha quanto ao conteúdo do receptáculo (para não ficar repetindo caixinha, caixinha...). O fato é que o recipiente (sempre evitando a repetição) enfim foi violentado. De lá saiu o pecado que gera todos os males do mundo: corrupção em todas as suas formas e nuances, e, ainda, todas essas imundícies humanas que fazem parte do jogo dos viventes em seu exercício de convivência, de competição e de poder. Saiu muito mais do que um simples reforço na mesada que tanto interessava a faxineira. Foi então que essa vetusta e rotunda senhora, frustrada com a aparição de tantas desgraças, na esperança de encontrar o perdão ou se vingar do pão-duro de seu patrão, pegou o seu celular, ligou para o 190 e delatou os males que estavam ocorrendo na vizinhança que, segundo ela, teriam origem na abertura daquela caixa misteriosa. Instaurado, o devido inquérito superou em todos os sentidos o que foi denunciado. O assunto foi levado à consideração suprema de uma corte de sábios que analisou a fundo a procedência do acontecido, julgou e condenou Brasiliano e Jefinha às miasmas do cativeiro por um longo período de tempo. Eles ainda penam por lá, não se sabe quando sairão. Mas a desgraça era tanta que transbordou da culpa do Brasiliano e de sua serviçal. A população atônita viu-se surpreendida com tanta sorte de torpeza e impureza que dali continuou saindo. Se possível voltar atrás, talvez fosse melhor nunca ter dado à luz tamanha porcariada, estancando a fonte de todas essas mazelas, pensou Jefinha. Manteria tudo por baixo da tapeçaria. Mas não se pode voltar no tempo. É para frente que se anda. O julgamento das imundícies foi exemplar. Espera-se que os ânimos delituosos se arrefeçam daqui para frente. Contudo, como deveria ser, o exemplo repercutiu para além (ou seria aquém?), do que foi julgado pelos zeuses. A caça às bruxas retrocedeu no tempo e foram julgados, culpados e condenados todos os responsáveis por terríveis delitos cometidos pratrasmente. E assim aconteceu: foi uma enxurrada de desgraças que assomou à superfície do pântano, o que deixou ainda, por muito tempo, a população estupefata, principalmente pelo cheiro que exalava. Mas assim é que deve ser, desde a prática da medicina antiga, quando se recorria às sangrias para extirpar o mal de certas doenças do organismo infectado, até o ápice da psicanálise freudiana que procura o afloramento e a consequente conscientização daquilo que está guardado nos escaninhos escabrosos da mente humana, para se chegar à saúde plena. Se não tanto, minimizar os males das doenças. Assim é também a vida das pessoas, que só melhora quando se perscruta o que vai além das aparências. Muitos são de opinião que se deve tampar a caixa tenebrosa de Pandora do Brasiliano, para se evitarem maiores tumultos. Outros, como eu, consideram ser bem melhor mantê-la aberta, deixando escorrer o sangue ruim ou, alternativamente, deitarmo-nos todos no divã do mestre austríaco. Para tornar exemplar o julgamento, faz-se mister deixar sair toda a podridão contida e chegar às últimas consequências da exumação, porque, caso contrário estaríamos vivendo no vergonhoso reino da indignação seletiva. No dia a dia da convivência entre as pessoas em nossas sociedades atuais, já não se pode mais apelar para a justiça de Zeus, no seu Olimpo, há muito alheio às nossas vicissitudes, para que nos livre de nossos males, amém. Só com a abertura da realidade, evitando-se os exibicionismos gratuitos e distorções mal intencionadas, se consegue um mínimo de correção dessas nossas distorcidas alminhas humanas que, pela observação milenar da espécie, se encontra em pleno processo de transformação, mas ainda muito longe do dia em que iremos galgar o Olimpo, e nos transformarmos também em semideuses, substituindo os zeuses decaídos. Isso jamais acontecerá. Palavra de contador de causos mitológicos revisitados. Afinal, os mitos originais foram criados há milhares de anos e ainda se prestam a adaptações atualizadíssimas. Nada de muito novo acontece que não tenha acontecido desde que o mundo é mundo. O conteúdo é sempre o mesmo, a forma é que muda. Itapoã, Vila Velha (ES). jornalego@terra.com.br www.ecen.com/jornalego

sábado, 27 de outubro de 2012

O vendedor de palavras - Fábio Reynol

Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical". Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico — apenas R$ 0,50!". Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse. — O que o senhor está vendendo? — Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa. — O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos. — O senhor sabe o significado de histriônico? — Não. — Então o senhor não a tem, não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem. — Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário. — O senhor tem dicionário em casa? — Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um. — O senhor estava indo à biblioteca? — Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado. — Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real! — Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la? — Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha. — O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras? — O senhor conhece Nélida Piñon? — Não. — É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui. — E por que o senhor não vende livros? — Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo. — E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga. — A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho. — O senhor não acha muita pretensão? Pegar um... — Jactância. — Pegar um livro velho... — Alfarrábio. — Está me enrolando, não é? — Tergiversando. — Quanta lenga-lenga... — Ambages. — Ambages? — Pode ser também evasivas. — Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você! — Pusilânime. — O senhor é engraçadinho, não? — Finalmente chegamos: histriônico! — Adeus. — Ei! Vai embora sem pagar? — Tome seus cinqüenta centavos. — São três reais e cinqüenta. — Como é? — Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço. — Mas oito palavras seriam quatro reais, certo? — É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende? — Tem troco para cinco?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Era una vez (em portunhol, quiça espanhol, por termos ouvido tanto as guias falarem em espanhol) - Angela Delgado


     Era una vez un templo de Zeus destruido por los romanos, cuando um terremoto lo acabó de ponerlo abajo. En el siglo vinte y dos después de Cristo, un arquitecto ve-ne-zi-ano, contratado para erguir un estadio paralimpico, descubrió en sus escavaciones, sob los escombros de una columna dórica, unas gafas (óculos) de procedencia, a lo mejor, de un taller (ateliê) brasileño. Fue la prueba que hacia falta para la confirmación de la estada, en el siglo anterior, en solo griego, de un grupo de jovenes brasileños, formado por un excepcional artista, que como Leonardo da Vinci, tenia muchas habilidades: además de hacer fotos, el era también ingeniero, productor de cerámica, escritor e lo esposo de la diosa Arligrant, mui estimada y alegre. Junto con ellos, iba la Chica de Copacabana, también mui querida, elegante y animada. Sin embargo, no le gustava la cerámica. Lo que fue ampliamente demostrado en su embestida contra los caballitos, cascos (capacetes), estatuíllas e vasitos, todos puestos abajo por la peligrosa Chica de Copacabana de ojos verdes. Last, but not least, la pareja de oftalmológos que prescribió la receta de las gafas desaparecidas. El escalava lo Kilimanjaro todos los años, e, por supuesto, en Grecia, queria subir la Acropolis todos los dias, para concretar su proyecto de edificar su infierninho cerca del cielo, donde su simpática e entusiasmada mujer Ester, pensava en bailar y se esbaldar. Mientras tanto, ésta sacó el móvil y leió la mensaje de la diosa Regina, narrando haber visto las gafas en el Museo Británico, junto a las estatuas griegas que los británicos llevaron de Grecia...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Eu, Tu e Ela (Réplica a uma crônica em que fui mencionada como Ela) - Angela Delgado

Com cuidado para não acordar a companheira de quarto, acende a lanterna por debaixo do lençol e, em uma atividade fantasmagórica, escreve não sobre Ti, mas sobre Itu e seu ledo engano. É em Atenas que tudo é monumental: copos, guardanapos e vistas. Foi onde também teve a maior ilusão de ótica de sua vida: Tendo ouvido de um dos seguranças de que, sem que ele sentisse absolutamente nada e apesar de nossa iminente partida, não poderíamos dar uma olhada no interior do teatro, afastou-se, então. Depois de alguns instantes, virou-se e vendo o segurança acenar, achou que ele havia mudado de ideia e reconsiderado o pedido negado pouco antes. Ato contínuo, mergulhou por debaixo do cordão isolante, fazendo sinal ao grupo, querendo significar que o caminho estava liberado. Foi o que bastou para que um terceiro segurança acorresse, com receio, talvez, de um bando com bombas e a intimasse a sair dali. Havia sido um ledo engano, mas, em seu desenlace, ninguém saiu ferido. Em tempos de superlativos, porém, foi a noite mais curta de sua vida, pois tendo que acordar às seis horas, pagou por todos os seus pecados, escrevendo até às três horas da madrugada, enquanto os demais se entregavam aos braços de Morfeu. Felizmente o episódio dramático-policial ocorreu com Ela e não com sua companheira Euclídia, sua mochila e seu casacão nos braços, com os quais, numa curva em seu percurso, varreu uma das estantes de uma loja de bibelôs, fazendo com que seu proprietário bradasse por "voitiha" (socorro), gritando haver uma vândala por aquelas paragens! Moral da história: todo cuidado é pouco com viajantes maiores de vinte anos, mais vinte, mais vinte, sob o risco de serem presos por um ledo engano. E agora Ela espera que Tu voltes a chamá-la, carinhosamente, de Angelita.

sábado, 13 de outubro de 2012

... Tenham uma boa viagem! - Angela Delgado

Primeiramente, temi não acordar às quatro da manhã. De fato, o alarme do meu delicado celular soou tão baixinho que se não estivesse de pé, desde às três e quarenta e cinco, talvez ele não tivesse me despertado. Depois, o avião estava tão vazio, que, para equilibrar seu peso, os passageiros das primeiras poltronas, onde eu me encontrava, tiveram que se espalhar ao longo da aeronave e, aí, foi só eu fechar o livro para derramar lágrimas copiosas (por sorte, não havia ninguém em um raio de sete fileiras), lembrando do meu pai que aniversariava exatamente em um dia vinte e três de setembro, dia de minha viagem. Agradeci-lhe mentalmente por mais esse presente, ou seja, a viagem proporcionada pelo que ele me deixara. Para não ir chorando de Brasília ao Rio, achei melhor escrever. O périplo pela Grécia e Itália prometia, já que meus companheiros eram hilários e bem-humorados, além de possuírem outras qualidades. Uma das primeiras risadas acontecera ao saber que uma determinada cidadã costuma levar em sua bagagem roupas velhas, inclusive a camuflada sob um casacão, e vai largando-as pelos hotéis. A princípio me empolguei. Desfazer-me de calças e blusas já com seus quilômetros rodados seria uma boa ideia.Sobraria espaço nas malas. Mas, talvez eu prescindisse disso. Afinal, o que um amigo me dissera era que eu teria excesso de bagagem existencial. De qualquer modo, não teria desapego para abandonar junto às ruínas gregas e romanas uma camisola com sua história. Mas, lá deixaria meus óculos de grau, em seguida, o recém adquirido que o substituíra; o Fon (travesseirinho de viagem, que também quis ficar pelo caminho; o leque grego que se recusou a deixar seu país e, por fim, quase que eu mesma ia ficando por lá, ao pegar a última lancha que me levaria de volta, de Mykonos ao navio, quando ela estava prestes a zarpar. Aproximando-me pela primeira vez de uma terra onde já não tinha mais nem pai nem mãe (minha primeira escala nesse périplo) voltaram as lágrimas. Melhor seria negligenciar a paisagem.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Surfando a onda - Genserico Júnor



Lanço uma nova bossa: uma crônica com vários títulos. Estava para escolher um entre os três que aí estão; na dúvida, eles foram ficando, ficando e enfim ficaram. Apraz-me cometer ligeira subversão dos costumes já que não tenho coragem para maiores transgressões.

Como corre o tempo! Nesta data o JORNALEGO completa seis anos de idade. O selo “ANO VII” já encabeça o presente texto, mostrando que o periódico decendial entra no sétimo ano de sua existência. No próximo número, também a dezena que se segue ao nome do redator, ao final de cada exemplar, pulará mais uma unidade. E como isso se reflete no viver, no pensar, no escrever! É por essa razão que as marcas do tempo vão sendo registradas por aqui. Esse expediente serve para o leitor considerar a passagem do tempo e aquilatar como ela afeta a cabeça do autor. Nos primórdios desta invenção jornalístico-literária, não expunha a minha idade escancaradamente. No entanto, compreendi que é importante para o leitor saber que quem escreve já rodou bastante, e que o que ele escreve está intimamente ligado ao seu DNA (data de nascimento antiga). Vejam, por exemplo, esta crônica, cujo tema já está ficando crônico.

Para começar introduzamos algumas máximas de celebridades intelectuais ao texto. Marx já dizia que a história só se repete sob a forma de farsa. Norberto Bobbio, sobre a senectude, chamou-a de tempo da memória. De minha lavra, mas sem a pretensão de me ombrear com os já citados: o passado só se recupera sob a forma de recordações, e essas, geralmente são ficcionais.

O que acontece nestes tempos pós-modernos, pós-industriais em que vivemos é que o hoje parece não ter relação alguma com o passado, não é a sua continuação. O futuro nunca foi a simples projeção do passado, ele contém o seu próprio germe. Mas o descolamento do que já foi com o que é e será, nos tempos que correm, é muito mais pronunciado do que fora antes.

O século passado, o estonteante início do atual – a que chamarei de tempo presente – e o que nos aguarda no futuro deixam-me pensativo e preocupado.

O novo século traz em seu bojo, novamente, depois que o fantasma de uma hecatombe nuclear parece superado, a possibilidade de extinção da humanidade, ou de grande parte dela, pela deterioração ambiental do planeta. Produto da estressante atividade econômica capitalística e da superpopulação mundial. Essa situação colabora para o embrutecimento dos costumes e das relações sociais, e daí, o perigo da decadência global.

As bases daquela atividade, as fontes primárias de energia, cuja maioria é ainda jurássica, vêm sendo disputadas a ferro e a fogo e seu consumo gera danos irreparáveis ao meio ambiente (inclusive a energia de geração hidráulica com a construção das grandes barragens). Se, por exemplo, a China vier a ter, com a sua enorme população, os mesmos índices per-capita de consumo energético registrados pelos americanos, o planeta possivelmente não suportará. Está sendo anunciada uma crise mundial de alimentos, devido às enormes populações da Índia, da China e, em menor grau, do Brasil, que estão se alimentando mais e melhor. Um fenômeno mais novo ainda é a possibilidade de a nova geração de energia, a partir dos biocombustíveis, vir a concorrer com a produção de alimentos, ocupando-lhe os seus espaços agricultáveis.

Há poucos dias assisti a três filmes que me deixaram inquieto, a provocar curtos circuitos nos meus neurônios ainda ativos, muito depois que a poeira das tramas cinematográficas se assentasse. O primeiro foi Onde Os Fracos Não Têm Vez (atentem para o título original em inglês: No Country For Old Men, que eu traduziria livremente como “não há lugar para os homens velhos”, muito mais contundente do que o título em português). Seguiu-lhe o Sangue Negro, uma história sobre as origens da exploração do petróleo (com o título original em inglês: There Will Be Blood, acredito que essa seja uma máxima bíblica, apocalíptica, que eu traduziria livremente por “choverá sangue”). Esses filmes são americanos e concorreram ao Oscar. Existe, portanto, vida inteligente no planeta Bush! O primeiro ganhou a estatueta do melhor filme e do melhor coadjuvante; o outro, o de melhor ator. Finalmente, assistido mais recentemente, Em Busca da Vida, um filme chinês (Hong Kong) com o título original inglês: Still Life (expressão idiomática que significa Natureza Morta).

São filmes que ultrapassaram a barreira prosaica do cinema, a de apenas contar uma boa história, com boas imagens e belas interpretações. Ao transpor os limites do entretenimento, esses filmes deixaram em mim um rastro de inquietação intelectual. Afinal, estamos falando da Sétima Arte. Portanto reverenciemo-la.

Pois bem, esses filmes me fizeram pensar que o novo século vem derrubando tudo o que era válido no passado e que a linguagem atual é a da força, da violência, do progresso a qualquer custo, do dinheiro, e que tudo mais vá para o inferno. Se é que o inferno já não é esse que os novos tempos trouxeram.

Onde os Fracos Não Têm Vez mostra a violência insensível utilizada para se apoderar de um punhado de dinheiro, produto de atividade criminosa. Patética é a impotência do velho xerife, demonstrada pela impossibilidade de compreender o que estava se passando ou pela tentativa frustrada de fazer justiça. Sangue Negro, por sua vez, associa a violência à atividade petroleira desde as suas origens, agora magnificada com a violência institucionalizada dos impérios contra os povos produtores. Em Busca da Vida, a implacabilidade do progresso sobre as populações carentes, criando-lhes dificuldades e situações pessoais desumanas. No caso específico, tratava da construção de barragens para geração de hidreletricidade.

Vejam o que acabo de ler na imprensa local: um pronunciamento da candidata à indicação dos democratas à Presidência dos Estados Unidos, depois de sua vitória nas prévias da Pensilvânia: “Se eu for eleita presidente, aviso que nós vamos atacar o Irã e destruí-lo.” [A acreditar no que publicou A Gazeta (ES), em 24-04-2008].

Não há mais espaço para o passado ou idéias passadistas. O velho já morreu, e o novo nasceu natimorto. O espaço do passado é a memória ficcional. São tempos duros!

Por mais que queira evitar ser saudosista, corro o risco de ser considerado como tal e sê-lo, efetivamente. Vivíamos um tempo de esperança. Agora prevalece o desespero. O fim dos grandes discursos ideológicos deixou o ser humano (principalmente o jovem) egoísta, hedonista e místico.

Esta é a crônica dos tempos que correm. Vejo o ser humano se equilibrar numa prancha de surfe, na descendente de uma onda de dimensões havaianas. O que o aguarda? Uma capotagem na descida da grande vaga provocando um fatal acidente de percurso ou uma chegada triunfante, suave, nas franjas espumantes e tranqüilas que a mesma onda faz chegar à praia?

Deu para entender? Meio confuso, meio embolado, não? Samba do branquelo doido. Livre pensar, tão-somente. Pessimista, sim. Esta, por acaso, seria a melhor maneira, a mais correta, de se comemorarem datas natalícias? Parece que bebi! Mas ainda não. No próximo dia 8 vou tomar um porre com o oportuníssimo, sintomático e também velho uísque VAT 69. Estou indo. Fui.

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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sábado, 8 de setembro de 2012

De alma leve (O que o vento não levou)


O mantra da maioria é: eu quero é mais. O meu é: eu quero é menos. Claro que o sentido desse “mais/menos” repousa no “ter”. Quando se trata dos domínios do “ser”, aí, sim, quero mais. No mais, quero menos. Em matéria de “ter”, vale lembrar a sábia observação do Millôr Fernandes: “O importante é ter sem que o ter te tenha”. Em matéria de querer menos, caminho na direção desses versos do poeta José Paulo Paes: “Para quem pediu sempre tão pouco / o nada positivamente é um exagero”. E se eu chegar a esse nível de desapego, poderei, enfim, subscrever estas palavras do José Saramago: “Talvez por nunca ter querido nada, tenho tudo”. A prática do desapego é um caminho seguro para a felicidade, felicidade que, segundo uma máxima latina, “é desejar o que se pode, e poder o que se deseja”. Tudo o que desejo é poder viver de alma leve, sempre aferindo se na bagagem não há pesos inúteis que podem ser eliminados. O budismo fala em caminho do meio como medida de equilíbrio. Eu proponho o caminho do menos. Acredito que na vida, tal como na matemática, menos com menos dá mais. Exemplos: menos gula com menos caloria dá mais saúde; menos ambição com menos competição dá mais leveza; menos apego com menos desejo dá mais contentamento; menos trabalho com menos pressa dá mais ócio etc. Ter mais com menos é tudo que quero. E esse tudo virá de eu nada querer, o que me lembra esta frase: “Eu não tenho nada e nada me falta”. Melhor que isso, só estes versos do Fernando Pessoa/Ricardo Reis: “Quer pouco: terás tudo. Quer nada: serás livre”. Hoje não quero nada além de um excelente fim de semana para mim e para todos! Isso é querer muito?