domingo, 26 de abril de 2015

TERROR NOTURNO – por ANNA MARIA A. RIBEIRO

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

     Por mais de uma vez estas crônicas falaram de Fräulein Grete. Até mesmo num pedido de desculpas pelo ódio infantil que lhe tinha, já que na provecta idade em que me encontro entendi que sua intenção era das melhores ao tentar me educar com rigidez militar. Tinha eu apenas quatro anos e uma de minhas queixas era a diferença que havia entre o trato dispensado a mim e aquele de que era alvo meu irmão de dois anos. Ele entregue aos exclusivos e ternos cuidados de Babá, maravilhoso ser humano de quem tenho até hoje enorme saudade. Até mesmo de Fräulein ele recebia carinhoso tratamento:meine schöne (meu lindo) enquanto eu ouvia um ríspido: richten sie (endireite-se!destinado a garantir um futuro saudável para minha coluna. O que, diga-se de passagem, não aconteceu ou porque eu não obedecia ou porque a postura correta na infância em nada garante a higidez na velhice. Outra queixa, mais que justificada, era a confusão que se estabelecia para o ato de falar. Morávamos em São Paulo, numa chácara linda e, sei lá por que razões Mamãe decidiu que além da Governanta alemã eu deveria ir para o colégio francês L’Assomption. Isto misturado ao linguajar do choffeur italiano (não se dizia motorista naquela época) complicou muito a forma de me expressar. Eu era acordada em português por Babá, tomava café em alemão com Fräulein, ia para o colégio ouvindo Seu Anselmo cantar a plenos pulmões em italiano antes de ingressar num mundo francês! Inexplicável também era o fato de que, acordada por Babá, eu era posta para dormir por Fraulein. E é ai que entra o terror noturno. Fräulein me fazia rezar em alemão, ajoelhada ao lado da cama, uma oração que para mim tinha um significado muito desagradável. Hoje, totalmente esquecida deste idioma, sou capaz de como um papagaio repeti-la sem entender o que estou dizendo.  Ich bin kein, soll niemand drin wohnen als Jesus allein. Amen. Fui conferir no Google a grafia e se a tradução correspondia à exortação marcada para sempre em minha memória: unicamente Jesus deveria habitar meu coração! E meu irmão, e meu cachorro, e meus pais, e minha irmã recém-nascida? Que droga, eu pensava! Tudo bem que Jesus também lá estivesse, mas só Ele?! Tentei discutir isto comFräulein. De nada adiantou. Ou melhor, ela me fez alguma reprimenda pelo que julgou ser uma blasfêmia. Não deve ter usado esta palavra, mas pelo enfático tom do qual me lembro devia significar isto ou coisa pior. Mas o terror vinha depois desta afirmação de exclusiva moradia cardíaca. Já eu na cama, Fräulein sentava-se ao lado e começava a cantar! A intenção devia ser, é claro, dar-me o carinho de uma canção de ninar. Mas o fato é que a cantoria soava como uma terrível ameaça que se repetia noite após noite. E as palavras que também papagueio agora sem ter ideia do que significam (também transcritas e traduzidas com auxilio do Google) eram, naquela época, por mim compreendidas e vaticinavam algo terrível:
Guten Abend, gut’ Nacht!
Mit Rosen bedacht,
mit Näglein besteckt,
schlupf unter die Deck’!
Morgen früh, wenn Gott will,
wirst du wieder geweckt.
A última frase significa: amanhã se Deus quiser você vai acordar! E se Deus não quisesse? Eu podia morrer durante a noite! Um horror! Pior é que esta possibilidade me parecia bem provável como castigo por minha recusa de manter somente Jesus no coração teimando em povoá-lo com seres humanos!  Noite após noite esta ameaça se renovava e ao ser acordada a cada manhã por um anjo terreno (Babá) eu respirava aliviada. O mais apavorante é que esta mesma canção em português era cantada por Babá para meu irmão tendo na última frase o desejo de que uma bela musica embalasse seu sono. Ou seja, a ameaça era mesmo só a mim dirigida. Não mais podendo aguentar o horror perguntei a Papai se de fato eu poderia não acordar. Ele riu e disse que era maluquice e que eu não deveria me impressionar com isto. Estabeleceu-se então uma discussão teológica, totalmente incompreensível para mim, entre Mamãe (muito devota) e Papai (nem tanto) que longe de me esclarecer provocou duvidas muito serias. Reivindiquei então ser posta na cama por Babá. Era uma solução e me foi concedida esta benção, com uma condição: Fräulein se encarregaria do preparar para cama e Babá me garantiria bons sonhos! Vai daí que eu continuaria a ouvir a voz de comando dada sempre à mesma hora e da mesma forma: zähne putzen (escovar os dentes). Esta é uma das raras frases que ainda digo em alemão sabendo o que estou falando. E certamente a que me credenciará como idiota se algum dia me for necessário mostrar proficiência neste idioma!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Algumas lembranças da minha infância, na casa da rua Bambina - por Cecília Ottoni de Menezes



            Quando nasci, saindo da maternidade, no bairro do Humaitá no Rio de Janeiro, fui com meus pais para a nossa casa e de meus irmãos, que era também a de primos, amigos e empregadas queridas que lá passaram muito tempo. Era em Botafogo, à Rua Bambina número 160.
            No dia em que fiz seis anos, me lembro bem. Ganhei dois presentes bem importantes para mim, um dos quais a boneca Soneca. Eu pulava pela casa, toda feliz com ela e com Mariazinha, a nova arrumadeira, que era sensacional e que ficou conosco muitos e muitos anos, sendo um anjo na minha vida.
            Falando um pouco da casa. Era grande, com várias salas: a de visitas, a de jantar, a saleta e o bolário. A primeira, com portas de vidro e reservada às visitas de mais cerimônia, guardava objetos que meu pai trouxera de alguns países que visitara, como por exemplo um biombo chinês. Havia, igualmente, uma varanda na frente. A saleta recebeu o nome de Sala do Cascateio, dado por nosso irmão Cristiano. Um dia a inauguramos e foi ótimo! Juntou-se ali um monte de gente, primos, amigos, irmãos. Ele propôs que todos falassem juntos o que quisessem. E o amigo Ceará picou um monte de papeizinhos que foram jogados para o alto. Engraçado foi que cheguei nessa hora e, sem saber o que estava acontecendo, fiquei bastante admirada.
             Do bolário, onde se guardava bolas de vôlei; de futebol, novas e murchas, e suas respectivas bombas, tínhamos acesso ao campo de futebol, onde havia uma bela Mangueira. Quando as frutas amadureciam, meu irmão Álvaro, acordava cedinho e catava as dele, mas, quando eu lhe pedia, ele me dava uma com um largo sorriso.
           Até que um dia, como ele mesmo conta, acordou com um sapato novo Vulcabrás ao lado, preto, brilhante e a história de que, com ele, iria para um colégio interno.
           Puxa vida! Eu me lembro quando íamos visitá-lo, no colégio em Lorena, meus pais, meus irmãos Marcelo e Tereza, e eu. Voltávamos com o coração apertado, e chorávamos de saudades. Depois as cartas nos consolavam um pouco, porque, para nos alegrar, ele sempre contava algo pitoresco de lá, com carinho, arte e seu jeito característico com as palavras. E no campo de futebol da Bambina, ele era o mais craque.


 Bebé e Tereza


            Atrás do campo havia uma área com a casinha da Bebé, que tinha sido babá da minha mãe, tendo vindo morar conosco, acho que quando mamãe se casou. Ela era proprietária de um ovo de Madeira e cerzia meias com ele. Era boníssima, mas gostava de controlar as empregadas quanto ao desperdício das coisas. Um dia, pedi um suco de laranja para a Vanda, a cozinheira, e Bebé disse que era ela quem iria fazê-lo, pois ela é que sabia espremer até o fim, sem desperdiçar laranjas. Eu lhe respondi que queria que Vanda o fizesse, pois ela fazia mais rápido e eu estava com pressa. Discutimos. E ela começou a ficar brava. Veio atrás de mim,e eu subi a escada correndo com Bebé furiosa atrás de mim. O problema era que ela sofria do coração, e, às vezes tinha ataques, precisando-se chamar uma ambulância. Esse dia foi um deles e ela foi para o hospital.
           Fiquei preocupada, me sentindo culpada, até podermos nos abraçar de novo e vermos que estava tudo bem.
            Passando agora ao terraço do terceiro andar, "vemos" mesa de pingue-pongue, totó, sinuca e tevê; local aonde minha babá Petita, que também era uma querida, me levava para ver o repórter Esso, porque era gamada pelo apresentador. Lá havia também um som e minhas irmãs Tereza e Angela ficavam ouvindo as músicas românticas que curtiam. Às vezes, assistíamos de lá de cima a campeonatos de vôlei e futebol, que aconteciam no campo.
            De vez em quando, Angela fazia uma fogueira nesse campo. E também passava filmes em uma tela grande, lá colocada para a sua turma.
            Cada quarto abrigava dois irmãos. Tereza e eu gostávamos de curtir os sapatos e bolsas no quarto de Regina e Angela. Quando queriam conversar algum segredo, começavam a falar em Inglês. Nós não entendíamos e ficávamos furiosas. Regina gostava de ajudar a mamãe a nos educar. Matriculou-nos, a mim e a Tereza, no tênis no Clube Naval Piraquê da Lagoa, assim como no balé. Contratou uma empregada, a Lucimar, só para arrumar nosso quarto e nos levar aonde precisávamos ir. Regina gostava também de trazer novas modas de cabelos e roupas para nós, Angela também gostava de fazer penteados nos nossos cabelos. O problema era que Regina queria sempre que vestíssemos o que ela queria, mesmo quando nosso gosto era contrário. Quando Regina foi para os Estados Unidos, sofremos muito de saudades. Ela mandava muitas cartinhas, lindas e cheirosas, que eu amava, e quando voltou trouxe uma mala, grande, cheia de roupas e chicletes. Foi uma festa a Regina de volta e aqueles presentes maravilhosos.
            Uma vez, eu devia ter ainda seis anos, uma amiga do colégio Jacobina levou uma boneca que andava. Foi um sucesso na escola. Naquela época era uma novidade boneca que andava.
            Regina nos mandara revistas dos
Estados Unidos e um dia eu estava folheando-as, e que vejo! Uma propaganda da boneca igualzinha aquela!! Recortei-a e lha enviei, comentando que gostaria muito de tê-la. A boneca andava com pilhas e vinha com patim vermelho, bochechas rosinhas, e era lourinha, linda e cheirosa!
            No dia da chegada da Regina, meus pais, meus irmãos e eu fomos buscá-la no aeroporto. Estávamos esperando-a e olhando através de um vidro. De repente, ela apareceu, logo colocando, a seu lado, a boneca para andar! Igualzinha a que eu queria!! Foi muita alegria para mim! E ela contou que a pusera para andar no corredor do avião e havia sido um sucesso.
           Regina costumava fazer um resumo do Jornal do dia e falava para Tereza e eu o estudarmos e depois nos tomava a lição. A cada resposta certa, ela nos dava, digamos, o equivalente a um real, para que ficássemos mais cultas.
           O quarto do Cristiano emendava com o do Jorge. O deste tinha uma janela que dava para uma escada que vinha desde o primeiro andar e seguia até o terraço.
           Eu gostava de me sentar na escada em frente à janela do Jorge, que geralmente estava estudando física ou geometria. E pedia para ele fazer pra mim uns bonequinhos de papel que ficavam em pé. Geralmente ele fazia. E eram esplêndidos!
           Meu quarto, dividido com Tereza, tinha uma janela que dava para aquela escada. E, lendo gibi, eu via Álvaro e Marcelo subirem contentes com suas caixinhas de botões, para jogar futebol de botão no terraço. O que me afligia, pois quase sempre, dali a uns quarenta minutos, desciam os dois brigando, xingando cobras e lagartos. Foi gol! Não foi! Eu que ganhei! Foi falta! Não foi! E demorava pra essa briga acabar.
           No jantar, tudo parecia bem com todos, mas eu ficava igualmente tensa, pois geralmente havia discussões sobre política. Um dia saiu uma briga tremenda e Bento, o noivo da Regina, puxou a Tereza e a mim da mesa e nos levou para cima, pra não assistirmos a briga.
           Eu gostava de inúmeras coisas daquela casa, como o fato de haver vários quartos com diversos ambientes e nove irmãos que, embora às vezes bravos e tal, eram carinhosos e sensíveis em muitas situações. Sentia-me, porém, às vezes invadida e carente de um ambiente mais simples, com mais atenção dos meus pais, que tinham que se dividir entre seus dez filhos. Papai passava a semana toda em Brasília, onde trabalhou como Deputado Federal por 20 anos consecutivos, só indo para casa aos fins de semana.
            Mamãe costumava ir ao centro fazer compras ou ir ao dentista. E eu,frequentemente, ficava esperando-a na sacada que havia em seu quarto e que dava para a rua. Ficava ali horas naquela varandinha, morrendo de saudades. Muitas vezes me sentia perdida naquela casa grande sem a mamãe. Quando esta chegava eu a abraçava e ficava atrás dela pela casa. Gostava de chamar sua atenção, às vezes de forma meio lúdica, colocando debaixo de seu travesseiro, um bonequinho de borracha, desses que a gente apertava e fazia um barulhinho, finh fuinh. Assim, ao deitar a cabeça para dormir, ela ouviria o apito, e se lembraria de mim.
            A atenção da mamãe era muito disputada na casa. Tinha a hora do aeiou. Às vezes queríamos falar com ela e ela estava ao telefone. Geralmente demorava demais pra acabar! Ficava num eterno aeiou! 

          - Ah!! EH?! Ih! Oh, Ulh!
            Se estivéssemos com pressa era um tormento.
            O quarto dos dois irmãos mais velhos, Vianney e Luiz, era interessante. Em cima da mesa deles geralmente havia um avião em construção, um aeromodelo, que faziam com ripas de madeira e papel vegetal, e o colocavam para planar no Vale Florido, em Petrópolis, onde alugávamos uma casa de campo.





            Eram muito habilidosos, grandes engenheiros! No quarto deles havia uma janela que dava para um corredor, e, ao fim deste, situava-se o banheiro deles, e o escritório do papai.
            Que quando estava em casa, quase sempre era ali que ficava, concentrado, escrevendo suas palestras. Trabalho que amava fazer. Fez um programa na rádio Nacional durante quarenta anos, programa este irradiado por cinco minutos todos os dias da semana, de manhã e, depois, pela manhã e à tarde. Eram palestras sobre variados assuntos, como curiosidades científicas ou algo que ele tirava do cotidiano, com algum alento construtivo e espirituoso. Lembro-me de uma que falava sobre uma descoberta de que na nossa lágrima havia um efeito de antibiótico, algo assim, mas não era de qualquer lagrima, só daquelas do cantinho do olho, naquela mais profundamente sentida. Que interessante. Ele tinha muito talento para escrever; tinha poder de síntese, fina e espirituosa sensibilidade. Uma grande e linda alma, o meu pai Eurípides.
            De vez em quando, estando ele no escritório, compenetrado em seu trabalho, eu ia visitá-lo um pouquinho, e ele me dava atenção. Depois, falava que precisava voltar ao trabalho, mas, sem deixar de expressar um suave e verdadeiro carinho. Outras vezes, eu estava chateada com alguma coisa, e chegava lá reclamando, e ele pedia:- Dê um sorriso!

            Muitas vezes eu não estava com vontade de sorrir. Ele insistia. Eu dava  um sorriso sem graça, forçado, e acabávamos achando graça de verdade do fato.
            Há tantas coisas interessantes para serem lembradas daquela casa, durante a minha infância!               O "Alguém!" do Vianney, por exemplo, era assim: De repente, ele chamava, bem alto:                        - ALGUÉEM! 
            E poderia ser para nos dar algo interessante, que ele não queria mais ou para nos pedir algum favor. Então, nos arriscávamos para ganhar algo, ou para ter que lhe fazer um favor..


                                                             A família











domingo, 22 de fevereiro de 2015

Um trechinho de "Dicionário do brasileiro de bolso" - Teixeira Coelho


Alguns verbetes deste excelente dicionário:

LEVANTAR UM DADO

Os dados provavelmente estão sempre no chão ou, em todo caso, em algum nível inferior ao daquele que por eles procura, caso contrário seria impossível levantá-los. Os dados não são mais simplesmente obtidos ou conseguidos. Agora tudo é mais difícil. O conhecimento é um poço profundo e o pesquisador um halterofilista.

LEVANTAR UMA DÚVIDA

A ninguém ocorre "abaixar uma certeza". Dúvidas devem ser levantadas sem que se saiba se será possível, em seguida, abatê-las. O despencar de uma dúvida não equivale ao soerguimento de uma certeza. É raro aquele que tem uma dúvida. Parece menos auto-incriminador levantá-la.
De onde e para onde essa dúvida é levantada?


ONDE

(De dirigente "classista" na TV)
"Falei com o ministro ontem, onde ninguém me disse que essa medida seria tomada."

Não é mero erro ocasional; é clara a tendência de recurso ao "onde" para substituir outros advérbios - o "quando" em particular. É um processo de destemporização dos acontecimentos e dos sujeitos e sua consequente espacialização ou territorialização. Curiosamente, teóricos da pós-modernidade já apontaram para a decadência de categoria moderna do tempo e a ascensão da categoria pós-moderna do espaço. Até o início da modernidade o tempo era apenas um dado, componente inevitável do cenário da existência. Quando, na era moderna, o tempo passa a ser, além de medido, também fracionado, equacionado, construído, dilatado, comprimido e finalmente equiparado ao ou traduzido em dinheiro (tempo é dinheiro), tornou-se referente central da vida. Agora, na idade pós-moderna, é como se o tempo estivesse, na hipótese mais nobre, sendo abolido ou diminuído, encurralado, desbastado, pulverizado (pelo desenvolvimento de técnicas de locomoção, como no avião; pelo aprimoramento daquelas outras que permitem a superação imaginária das distâncias, como na TV) ou, na alternativa menos nobre, confundido, mascarado, apagado, eliminado da memória e da consciência das pessoas (o desejo de uma juventude o mais duradoura possível, a vontade de recuar ou ignorar a velhice parecem indícios desse fenômeno). Tenta-se agarrar o espaço por não ser mais possível viver o tempo, tenta-se apreender o espaço para através dele fruir imaginariamente um tempo ilusório...


PERFIL

"Vamos encontrar a pessoa com o perfil adequado para o cargo." (De um governador na TV.)

Muito atual. Antes, procurava-se a pessoa com a experiência adequada, com o currículo apropriado, com a competência exigida.
Hoje, basta reparar em sua silhueta.

PLATAFORMA

Os candidatos a cargos públicos comstumavam subir em plataformas para dali anunciar seus programas de governo. Por um claro processo metonímico, a palavra passou a significar, ela sozinha, programa de governo.

POSTURA

O que era uma característica típica dos galináceos, hoje tomou de assalto as páginas dos jornais, dos livros e as falas de todo mundo. Tudo é postura, não há mais decisões, atitudes, manifestações, inclinações. Seu uso é considerado sinal de erudição.

E por aí vai... Recomendo a leitura.

sábado, 6 de dezembro de 2014

A Fita métrica do amor - Martha medeiros

Como se mede uma pessoa?
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.
Ele é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri, destravado.
É pequena pra você quando só pensa em si mesma, quando se comporta de maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.
Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto.
É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições?
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Geovanas, Jocileides e a burocracia - Angela Delgado

      
     Filha Casada, com problemas em seu telefone, colocou o meu no jornal em um anúncio à procura de uma babá.
     Foram quase 200 telefonemas em apenas dois dias, em que houve de tudo:  chamadas a cobrar; ligações em que fui tratada por gatinha; minha linda, até uma candidata que falava francês! Esta assustou-me, fazendo-me suspeitar de que fizesse parte de uma rede internacional de sequestradores. Não. Apenas trabalhara quatro anos na França, tomando conta de uma criança ou seja, na qualidade de"au pair", como dizem os franceses.
    Não podia me concentrar no computador ou fazer café, e muito menos tomá-lo.
     As Adrianas, Alines, Anízias, Catarinas, Geovanas, Jocileides, Josélias, Luísas, Marinas, Marias, Osanas, Roses, Selmas, não me deixaram sentir solidão.
     Apresentaram-se, prometeram voltar, mas não o fizeram, talvez amedrontadas pelas crianças: três mosqueteiros e uma princesa, de brinde.
     Nesse ínterim, Filha Antropóloga passara no concurso para o Ministério da Educação e precisava apresentar seus títulos que se resumiam a um, já que ainda não havia concluído o mestrado.
     Estando ela em outra cidade, coube-me telefonar para requerer a declaração atestando que ela trabalhara, durante dois anos, como professora da Fundação, o que lhe adicionaria oito pontos em seu  resultado. Declaração para amanhã? Impossível. Terei que entregar mais de quinhentas.
...............................................................
Mas, mãe, já a pedi há meses! Deve estar pronta.
     Às oito da manhã, estaciono no estacionamento ainda vazio, que bom, só que declarações eram entregues a partir das dez horas.
     Volto às dez. Em que mês sua filha fez o pedido? Vocês não arquivam por ordem alfabética? Não, pelo mês da requisição.
     Não tenho como falar com a Filha Requerente e preciso do papel para ontem. Por sorte, a funcionária, em menos de dez minutos, achara a declaração.
   Saí exultante. Agora restava apenas reconhecer firma, tirar xerox e enviá-la pelos Correios. No cartório, algum corretor, à espera de sua cliente que não chegava, trocara sua senha pela minha; ganhei mais alguns minutos em minha corrida contra o tempo. Que menina sortuda essa Filha Antropóloga. Mas aí Deus achou que já havia me concedido muito. A máquina de xerox não estava funcionando e o Sedex não poderia entregar o envelope no dia seguinte, pois era feriado. Ao lado, uma loja transportadora de cargas expressas o faria, porém mediante quantia tão exorbitante, que retruquei: Por esse preço, pego o avião e levo pessoalmente.
     Solução: Filha Antropóloga, via fax, me passou uma procuração.
     Só não entendi por que para obter a declaração, não me fora requisitada a carteira de identidade se para entregá-la, além da carteira de identidade, era preciso uma procuração.
     De curiosidade em curiosidade, finalizo com o fato de minha “maturidade” ter achado um ótimo meio de saber onde coloquei certos objetos. Por exemplo, um saquinho bem pequeno de plástico, que achei ter utilidade futura, foi guardado na letra “p” da pasta sanfonada de documentos, e me divirto comigo mesma, constatando a hilaridade da faixa etária.
     O que será que ainda vai parar nessa pasta? Celular e chaves na letra “c”, óculos no “o” e assim por diante.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O caso da senhora Santiago - Gustavo Bernardo Krause


Bom-dia, minha senhora. Dormiu bem? Trataram-na bem? Com certeza que sim. Nosso estabelecimento é famoso pelo acolhimento que dispensa a seus hóspedes. Diga-me, por favor, seus aposentos estão a seu gosto? Não se preocupe, providenciaremos roupas de cama mais condizentes com a sua pessoa. Algo mais? Sinto muito, mas infelizmente não podemos retirar as grades da janela. Quando voltar a seus aposentos observe com atenção, por favor, esticando só um pouco o pescoço, e verá que todas as janelas de todos os aposentos têm as mesmas grades. Não seria estético retirarmos as grades apenas da sua janela, não lhe parece? Os outros hóspedes decerto não apreciariam a exceção. A cor da janela também a deprime? Eis algo que se me mostra improvável, senhora Santiago: a cor verde foi cuidadosamente escolhida para as janelas por lembrar a natureza, portanto por suas óbvias características calmantes. Essa cor, ao contrário da cor amarela, nesse caso a senhora teria toda a razão, não é de nenhuma maneira depressiva. Além do mais, retornamos ao problema anterior: se todas as janelas são verdes então não podemos modificar apenas uma, sob pena de desobedecermos à estética do prédio e assim desagradarmos a todos os demais hóspedes, digamos assim. Sim, estética é algo a que se pode desobedecer e a que na verdade não se deve desobedecer, sob pena de perdermos as referências de harmonia que nos ajudam a trabalhar e a viver. Tudo isso por causa da cor verde e das grades, estas completam aquela e emprestam a segurança, inclusive visual, de que os senhores e as senhoras tanto precisam. Ah, a senhora quer voltar para casa, onde não há grades nem janelas verdes? Compreendo. É natural. É bastante natural, de fato. Prometo, falaremos sobre o seu desejo mais à frente. Isso, sobre sua volta para casa. Hoje mesmo, não se preocupe. Por ora, preciso apenas confirmar algumas informações suas para preencher a nossa ficha. Nome? Capitolina Santiago, perfeitamente. Claro que eu já sabia o seu nome, minha cara. Todavia, é necessário confirmá-lo, quer para que não pairem dúvidas, quer para que eu a escute falar sobre a senhora mesma. Sim, isso é absolutamente fundamental. Sua idade, por favor? Sei que não é pergunta que se faça a uma dama, mas os funcionários que elaboraram a ficha, tempos atrás, não tiveram a elegância de abrir essa exceção, que se há de fazer. Idade, por favor? Não diz? Recusa-se a dizê-la? Tudo bem, não é um grande problema: por ora posso deixar esse campo em branco. Nome da mãe? Dona Fortunata, interessante. Expressivo. Pai? Senhor Pádua, confere. Filhos? Ah, um menino, ótimo. Seu nome, por favor? Luís, foi o que disse? Mas não é Ezequiel? Se eu sei, por que pergunto. Já lhe disse, porque preciso perguntar, precisamos ambos, a senhora e eu, ter certeza do que falamos e sobre o que falamos. Perfeito, Ezequiel. Moradia, por favor?... Muito obrigado. Por enquanto, é suficiente. Podemos voltar à sua pergunta anterior. Qual pergunta? Ora, se a senhora pode voltar à sua casa ainda hoje, já não o deseja mais? Ah, não era uma pergunta, a senhora quer e vai voltar para casa ainda hoje. Pois é, mas não pode, não assim, logo logo. Isso mesmo, não pode. Porque o senhor Bento Santiago, seu marido, certo?, nos procurou para nos solicitar que a internássemos no nosso estabelecimento. Agora a senhora entendeu, de fato não se encontra hospedada em um hotel, mas sim internada em um nosocômio. Exatamente, um nosocômio, uma espécie de hospital destinado ao tratamento de pessoas, digamos, mentalmente perturbadas. A senhora não se sente mentalmente perturbada, folgo em sabê-lo. No entanto, uma pessoa mentalmente perturbada não é a mais indicada para julgar a si mesma, se o está ou não. Como os bêbados, que sempre dizem que não estão bêbados. Sei perfeitamente, a senhora não se encontra alcoolizada, não é essa a nossa questão. Falamos de determinado tipo de doença mental: a senhora sente que está bem, perfeito, mas esse sentimento faz parte dos sintomas da sua doença, é muito comum que o doente negue a sua doença. Que bom que perguntou qual é a sua doença, assim nós todos evoluímos na direção da cura que desejamos, sem dúvida. Provisoriamente, já que ainda precisamos proceder a alguns exames, testes e provas, eu diria que a sua doença é uma manifestação secundária, nem por isso menos elaborada, de Confiance Affective Peu Fiable. Não conhece a expressão nem a língua, compreendo. O sr. Pádua não pôde lhe pagar cursos de francês, ora, isso não é vergonha nenhuma. Eu traduzo a expressão para a senhora: digamos que a sua doença é uma manifestação secundária de Confiança Afetiva Não-Confiável. O que isso quer dizer, afinal? Bem, retraduzindo os termos técnicos para uma linguagem que compreenda com mais facilidade, eles querem dizer que a senhora é afetiva e compulsivamente não-confiável, isto é, ao mesmo tempo que atrai as pessoas não lhes desperta a mínima confiança necessária para uma convivência saudável e civilizada. Como posso dizer uma barbaridade dessas sem conhecê-la? Primeiro, não é uma barbaridade, mas sim uma doença, como lhe falei. Segundo, na verdade eu a conheço bem, ou melhor, conheço bastante bem casos crônicos como o seu. As particularidades do seu caso em particular me foram transmitidas pelo seu marido de maneira extremamente detalhada, quando a trouxe aqui. Depois que a enfermeira Leonela a levou para o seu quarto, ele fez questão de me entregar um dossiê volumoso a seu respeito, dossiê este a que ele curiosamente não deu o seu nome ou apelido, como seria de se esperar, mas sim o próprio apelido pelo qual ficou conhecido: Dom Casmurro. Trata-se de um apelido muito revelador, temos de convir. Naturalmente, na hora me lembrei de outro Dom, aquele que enlouqueceu de tanta leitura de romances de cavalaria e saiu pelo mundo montado num pangaré com uma bacia de barbeiro na cabeça. Um caso clássico, citado em todos os anais da ciência, Juntando esse título que ele deu para o dossiê com a circunstância inusitada de tê-lo escrito como um romance, não pude deixar de considerá-lo um outro caso interessantíssimo. Poderíamos chamá-lo, elaborando quiçá uma nova teoria a respeito, de Fobia de Ficção. A Fobia de Ficção se associa, reconhecemo-la, a uma insegurança patológica específica, fazendo com que se combine a sua própria doença, sra. Capitolina, com a doença do seu marido, e de uma maneira esteticamente muito interessante, também devo reconhecer. A senhora sabia que no seu romance, digo, no seu dossiê, o sr. Santiago é capaz de levantar tantos argumentos contra a senhora, isto é, a favor de que a senhora o tenha traído com o seu melhor amigo, quanto argumentos a favor da senhora, isto é, contra a hipótese de que o tenha traído com esse melhor amigo ou com qualquer outro homem? Impressionante, não acha? Não? E quer falar com ele para desfazer de uma vez por todas o que chama de mal-entendido? Creio que não será possível, pelo menos ainda não. Por que? Ora, porque eu não podia deixá-lo à solta na cidade, Eu o internei imediatamente depois da senhora, ele nem chegou a ultrapassar o portal. Preciso estudar os dois casos cuidadosamente, eles são tão significativos que me ajudarão a dar mais alguns passos importantes no domínio do oceano da loucura. É isso, o seu marido também se encontra internado aqui conosco, em outra ala. Curioso é que ele tenha igualmente reclamado das grades e da cor verde nas janelas, o que me empresta mais uma conexão que pode ser importante. Fora o fato de vocês dois – perdão pela intimidade momentânea, mas o estudo dos seus casos me torna como que um pouco íntimo tanto de você quanto de seu marido, se me permite -, portanto, fora o fato de vocês dois serem muito ligados um ao outro desde muito jovens, o que seria uma outra motivação para explicar as preocupações semelhantes, devemos acrescentar a reação negativa ao ambiente como um outro sintoma secundário, e novamente, nem por isso menos importante. A relação interna entre vocês me leva a formular uma espécie de diagnóstico duplo e complementar deveras interessante. Por que é interessante? Bem, porque sugere que o seu casamento com o seu marido seria não apenas um casamento entre duas pessoas, entre duas personalidades, entre duas almas, digamos assim, mas igualmente um casamento entre duas doenças que desse modo se reforçam uma à outra em uma espiral contínua e viciosa muito difícil de interromper. Não, não estou dizendo que cada um de vocês é em si uma doença, o que estou dizendo é que foram as duas doenças, a sua e a do seu marido, que os aproximaram e os casaram e, depois, os separaram, percebe? Não percebe? Compreendo, a teoria não é simples sequer para os meus ilustres colegas, que dirá para leigos no assunto, mas posso lhe assegurar que, apesar da sua ousadia e do seu ineditismo, ela se encontra muito bem, na verdade muitíssimo bem fundamentada. Quem gosta de falar assim? Assim como? Ah, cheio de superlativos: o sr.José Dias, perfeitamente, li sobre ele no dossiê-romance. Outro caso interessantíssimo, talvez o chame aqui um dia desses. Mas por ora nos concentremos em você, minha cara, e no seu ilustre marido e autor. Não, ele não é necessariamente o seu autor, mas sim autor do dossiê-romance sobre você.Todavia, talvez possamos pensá-lo, em algum nível, como seu autor sim: como se a manifestação enviesada do ciúme masculino fortalecesse a doença feminina em questão, a saber, a nossa conhecida Confiance Affective Peu Fiable. Que seja. Mas voltemos à minha teoria. O casal que Bento e Capitolina Santiago ainda formam, mesmo que no momento em aposentos separados, se tornará o corolário dessa teoria, fornecendo-me a demonstração que faltava no brilhante edifício que, modéstia à parte,
venho construindo pouco a pouco. Compreendo, compreendo, você não entende de edifícios e teorias, logo também não entende de metáforas. Como? Prefere que eu volte a tratá-la por senhora? Perfeitamente, seu desejo é uma ordem, mas somente aqueles a que eu possa atender, como o de tratá-la mais cerimoniosamente. Dizia então que a senhora não entende de edifícios e teorias, logo também não entende de metáforas. Todavia, a despeito dessa dificuldade natural a seu sexo, sempre me sinto na obrigação moral e científica de explicar a meus pacientes e demais hóspedes do estabelecimento todos os aspectos envolvidos no tratamento. Trata-se de uma atitude pedagógica que, em algum nível subterrâneo, talvez a ajude a se curar mais à frente, além de auxiliar a mim mesmo a organizar os meus procedimentos e, portanto, o meu pensamento. Ah sim, a senhora quer saber o que acho não do seu caso clínico mas sim da acusação do seu marido, a saber, que a senhora o teria traído com o sr.Ezequiel. Calma, eu não quis dizer que o seu marido disse que a senhora o teria traído com o seu próprio filho, nesse caso teríamos de chamar um outro tipo de profissional, que aliás pouco me agrada. O que eu quis dizer foi que o seu marido disse que a senhora o teria traído com o seu melhor amigo, o sr.Ezequiel Escobar. Ah, bom. Mesmo assim não está bom, compreendo. Mas respondo à sua interrogação. Deixando à parte, para consideração posterior, o fato de a senhora não afirmar explicitamente, pelo menos até o presente momento, que não traiu de modo algum o seu marido, nem com o sr.Ezequiel Escobar nem com ninguém mais, minha intuição e minha experiência me dizem que a senhora não deve ter traído o seu marido. Então por que está aqui?!, a senhora me pergunta com a devida ênfase, percebi. Eu lhe respondo que não me cabe julgá-la e muito menos condená-la por infidelidade e adultério, tais atos não competem à medicina que professo, mas sim cuidar adequadamente da sua doença e, se possível, curá-la. E se não for possível?!, eu escutei bem, não precisa gritar, por favor, se controle. Não me agradaria chamar a srta.Leonela antes do término dessa nossa sessão. Controlou-se? Muito bom, esse é um bom sinal. Afirmo-lhe então que é possível curá-la e que sou o profissional mais indicado para fazê-lo, não se preocupe, a expressão “se possível” é apenas modéstia científica preventiva. Qual é a sua doença, então? Já lhe disse de maneira sumária, mas passo a lhe explicar um pouco mais detalhadamente, me agrada bastante o seu interesse. Bem, continuando a relevar o fato, para  aquela consideração posterior, de a senhora persistir não afirmando explicitamente que não traiu de modo algum o sr.Bento Santiago, mesmo depois de eu lhe fazer notar isso, passo a comentar a sua doença e o seu caso particular. Contudo, para melhor definir o conteúdo da doença precisamos definir o seu continente, isto é, a pessoa que porta a doença. Então, precisamos perguntar: quem é a senhora? Quem é Capitolina Santiago? Em última instância, mais íntima e mais próxima: quem é Capitu? Vejamos. Há uma expressão, no dossiê-romance do seu marido, que tenta descrevê-la: “olhos de ressaca”. A expressão é precedida daquela outra, proferida pelo sr.José Dias: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Não conhecia esta última? Interessante. Ambas as expressões são fortes, mas a segunda, que parece ter sido pensada primeiro, é um pouco ofensiva, reconheço, enquanto a primeira constitui-se a partir de uma metáfora muito bonita que também me serve. A partir dos seus olhos, as portas da alma!, conforme diziam os antigos, olhos cuja cor vejo agora que oscilam do verde-claro ao azul-escuro como se seguindo a luminosidade do ambiente, a partir desses olhos o sr.Santiago pretendeu que eles lembram e sugerem a ressaca no mar, a saber, a revolta das ondas movidas pela maré e por ventos muito fortes. Interessante notar, de passagem – sim, gosto da palavra “interessante” – mas, interessante notar que o amigo dos dois, supostamente seu amante segundo o sr.Bento, tenha justamente morrido afogado no mar e num dia de ressaca, apesar de nadar muito bem. Bem, normalmente são os melhores nadadores aqueles que morrem afogados, porque lhes falta o medo que garante a sobrevivência cotidiana. Ou seu amante, digo, o sr.Escobar teria preferido morrer no mar, afogado que já se encontrava na ressaca dos olhos de uma certa senhora carioca? Oh, desculpe-me a menção desagradável, compreendo que o estimava, de um jeito ou de outro. Naturalmente que compreendo, a minha função é compreender. Tome, use o meu lenço. Por nada, não se preocupe. Voltemos então a seus olhos de ressaca, neste momento ainda salgados e molhados como as águas da baía de Guanabara, me perdoe a licença poética. A senhora gosta de licenças poéticas? Que bom. Pois são esses seus olhos que mostram a senhora como uma força da natureza, indubitavelmente bela mas igualmente inconstante e, portanto, perigosa. Sim, eu disse perigosa. Seu marido parecia vê-la de ambas as maneiras, sintetizando sua percepção na bela imagem dos olhos de ressaca. Creio que ele se encontrava próximo da verdade, mas não atinou com a verdade mesma. Não creio, tanto pelo dossiê-romance quanto pela minha observação in loco e in pectore, que a senhora mesma seja uma ressaca ambulante, prestes a invadir e afogar as terras e as pessoas. Não. Não me parece que a senhora seja mesmo inconstante. Aliás, se o seu problema fosse esse, o tratamento seria muito fácil e muito mais curto. Não. A senhora é na verdade muito calma e controlada; o que faz é provocar nos outros, jamais em si mesma, as mais terríveis ressacas, afogando as pessoas que a cercam e a amam em incerteza, insegurança e ansiedade, em suma: em desespero. Por isso o sr.Escobar, por conta de sua própria doença em combinação com a da senhora, talvez tenha precisado se afogar em uma ressaca de verdade. Oh, desculpe-me novamente, mas simplesmente não posso censurar as minhas próprias palavras em benefício da precisão do diagnóstico, espero que me entenda. Aqui tem outro lenço pode usá-lo. Dizia eu que a senhora provoca ressacas nos que a cercam. Claro que não se trata apenas da cor dos seus olhos. Ela tão somente espelha e expressa o seu interior, paradoxalmente intenso e plácido ao mesmo tempo. É essa intensidade da senhora e do seu desejo, não importa o objeto desse desejo, que, associada a uma placidez interna impressionante, desequilibra as pessoas à sua volta e em particular os homens, como que devolvendo-nos à nossa lama primitiva. Eu disse nossa? A senhora quer dizer, como se me incluísse entre os homens que você, perdão, que a senhora perturba? Deve ter sido apenas um lapso: a ciência me protege e à senhora, os meus interesses são e só podem ser científicos. Voltemos a seus olhos, mas para sair deles. Há obviamente aspectos psicológicos fundamentais na constituição da sua doença, mas desejo comentar antes os aspectos propriamente físicos...
Talvez por ser tão bela, o sr.Machado de Assis tenha desejado tê-la construído ele mesmo como a personagem feminina mais forte da literatura brasileira... Como? Quem é esse sr. Machado de Assis? Ora, apenas um funcionário público que chegou aqui na Casa Verde contando que escrevera uma história que explicava o amor e todas as suas sombras, com dois personagens chamados Bentinho e Capitu. A coincidência é impressionante, admito, o que só torna o caso de vocês três extremamente interessante. Digo o caso de vocês três porque, antes mesmo do sr.Bento e da senhora, eu já havia internado o sr.Machado de Assis, considerando-o acometido de uma variante mais sofisticada ainda da Fobia de Ficção. Não contente em afirmar que os inventara, à senhora, a seu marido e ao sr.Escobar, que Deus o tenha, ainda afirmou que inventou a mim mesmo, a mim, o dr.Simão Bacamarte que tem à sua frente, e que tinha vindo aqui apenas para tirar uns dedos de prosa com sua própria criação, imagine só. Passarei a me dedicar agora a essa combinação impressionante de doenças mentais, a partir da qual, sem sombra de dúvida, terei todas as condições de compreender e curar a loucura humana...



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Pessoa - Cristiano Menezes

                                                  São tão diversos
                                            os seres que me habitam
                                                  Conheço alguns
                                                  outros nem tanto

                                                 Os que se gostam
                                                  quando juntos
                                                      é festa

                                                 Os que se detestam
                                                  não me habitam
                                                     infestam

                                               Para evitar desconfortos
                                                      já combinei
                                     
                                                 Cada um de uma vez

                                                 Por isso sou assim
                                                 de repente assado
                                                    gosto de rock
                                              mas posso cantar um fado

                                                 Às vezes dou choque
                                                  sou fio desencapado
                                                       até que surge
                                                o que mais gosto em mim

                                               
                                                         O palhaço
                                                 que me faz rir, enfim