quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Uma Colonoscopia - Angela Delgado

       
        - Deite-se de lado, por favor.
    - Tem um travesseirinho para os joelhos?- pergunto, em tom de brincadeira.
     - Vou buscar.
     - Uau, que mordomia, obrigada!
     Foi um travesseirão o que a enfermeira colocou sob minha cabeça.
     - Ficarei lhe devendo o dos joelhos para a próxima colonoscopia.
     - Quem disse que haverá outra? 
     Pela manhã, o preparo para o exame havia me obrigado a mudar-me para o banheiro, com dicionário, lápis, borracha e o que era permitido tomar: água, chá e suco, pois qualquer líquido que entrava, descia garganta abaixo, como em um elevador descendo do décimo segundo andar, de uma vez, sem escalas e acelerado.
     A sala da recepção esteve bem movimentada e a maioria dos pacientes ainda ostentava cabelos pretos. Só eu ali me apresentara um pouco tardiamente, e não pensava em voltar.
     Minha irmã outro dia me disse que “com a ida do nosso irmão muitíssimo mais cedo do que prevíamos - mesmo porque pensávamos que ele seria eterno, assim como nós -  descobriu que se ele foi, é bem capaz de irmos também...”
    A resolução foi tomada:
    Iremos aproveitar mais a vida, na medida do possível,  e não será em um hospital que o farei.
    Com tubo de oxigênio no nariz; agulha espetada no braço e ouvindo a enfermeira dizer que o aparelho de pressão “iria estar apertando o meu braço” (ai, de tão useiro ultimamente, isto já está deixando de ser uma “akustische Halluzinationem”), forço-me para evitar chorar, ali mesmo, a perda de meu irmão, há tão pouco tempo, em, mais ou menos, "semelhante" situação. A dele, infelizmente, era gravíssima e a minha não, mas também estou momentaneamente ligada a aparelhos.
   Quantos poemas ou crônicas engraçadas terá ele imaginado, na posição horizontal!
   Tomara que as máquinas do futuro não mais deixem passar essas valiosas inspirações e as registrem todas.            Stephen Hawking, com um toque de mão, escreve frases, selecionando palavras de uma lista delas em ordem alfabética!
   A enfermeira anuncia que o anestesista me fará algumas perguntas.
   - Que idade a senhora tem?
   - Como? Aviso que também faria perguntas.
   - O quê?
   - O senhor está ouvindo igual a mim.
   Rimos e ele prepara uma injeção.
   - Onde o senhor a aplicará?!
   - Na veia.
   - Ah, bom!
   Findo o exame indolor e já de olhos abertos, em um hospital "de primeiro mundo”, limpíssimo, moderno e ampliado, indagam-me que suco eu gostaria.
   - De caju, de...
   - Esse está ótimo – respondo logo, deixando de ouvir o resto da oferta e poupando-a de mais palavras – já que há muito tempo não tomo um dessa fruta.
    Sem pressa de sair da maca, pois deixara nas mãos do marido e acompanhante um excelente livro, que esperava o estivesse deliciando, acabo tendo que me dirigir ao vestuário para me trocar.
   Abro um, dois, três armários e não vejo a minha roupa. Será que  ainda grogue? Reabro os armários para confirmação, aproveitando para examinar, apenas com os olhos, as que ali se encontravam, na hipótese de ter que sair de roupa literalmente trocada. Decido, porém, relatar o sumiço de meus trajes à enfermeira, que levanta os olhos do seu celular, único senão desse hospital e, provavelmente, a causa do quiproquó.
   - A senhora me desculpe. Devo tê-la encaminhado antes ao vestiário masculino. Veja se estão nele.

  Hoje recebi um e-mail do Banco Central pedindo o CNPJ do prestador de serviços que fará a polipectomia, em consequência do resultado da colonoscopia.
  Ignoro o que seja isso e, muito menos - ou mais – o significado da palavra que se seguiu à série de números que o atendente me passou pelo telefone: milderré.
 - Pode repetir?
 -  Milde ré.
  Mil de ré. Esqueci de perguntar se esses números modernos vêm com retrovisores. Caso contrário, vejam o perigo, poderá haver algum mil por aí abalroando um desavisado 999!
E o que tentaram me dizer era que a informação requerida terminava em 0001.
Para facilitar, meu próximo número de telefone será codificado: 9987 6 CEM DE RÉ.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

terça-feira, 20 de setembro de 2016

CALA-TE, BOCA ! - por Luiz E. Ottoni de Menezes


Desta vez estava no alto de uma escada, na área de serviço, fazendo um furo no teto, quando percebi uma senhora no andar de cima me acenando.  Desliguei a máquina barulhenta e ouvi:
– Moço, depois que o senhor acabar aí, pode dar um pulinho aqui, no 401?
Perplexo, minha única reação foi acenar de volta, sem saber o que dizer.  Fiquei mergulhado num turbilhão de pensamentos.  “E agora?  Acho que ela entendeu meu gesto como um sinal de concordância e deve estar esperando que eu vá lá em cima daqui a pouco.  Há quanto tempo eu era observado?  Em que encrenca fui me meter?”  Cogitei até em ligar pelo interfone e pedir desculpas por não poder ir.  Liguei novamente a máquina e tentei esquecer do assunto.  Meia hora depois, beijei minha mãe e fui embora.
No hall, entretanto, parei por um segundo.
Subi.  A curiosidade havia me vencido.
Toquei a campainha.  Abriu-se a janelinha da porta.
– Bom dia.  A senhora me chamou?
– Ah, sim, o senhor poderia ir lá pela outra porta, por favor?
E lá vou eu para a porta dos fundos.  Isso está ficando interessante…
Era também um problema no secador de roupa.
– O meu marido, que é médico, colocou a rodinha lá em cima, mas acho que alguma coisa está errada, não está funcionando bem.
– Vamos dar uma olhada.  A senhora teria uma escada?
E fui me desincumbindo da tarefa, sob os olhares atentos do distinto casal e de uma empregada que assistia a tudo de longe, em silêncio, passando roupa.  Expliquei os motivos pelos quais eu estava corrigindo o que o marido havia feito.  Tive a certeza de que meu trabalho estava agradando quando, já no final, a senhora perguntou, toda gentil:
– Que outros serviços o senhor faz?
– Bem, na realidade (segue-se uma longa pausa), faço projetos de loteamentos, cálculo estrutural, também escrevo, quando tenho tempo, já fiz cerâmica…
Sou interrompido com uma expressão de perplexidade total:
– Oh, meu Deus!  Me desculpe!  Eu vi o senhor lá embaixo …
– Ora, não se preocupe …
Ela não sabia o que dizer.  O médico, paralisado, anestesiado.  A empregada, lá atrás, rindo…
– Eu vi o senhor lá, em cima da escada e pensei que …
– Sim, eu estava consertando o secador de roupas …
– Que mancada!  O senhor é ligado à família?
– Sim, meus pais moram no 301.
Seu rosto fica pálido.
– O senhor é filho da D. Maria?  Oh, meu Deus!  Me desculpe!  Que mancada!
– Não se preocupe, eu gosto de consertar essas coisas.
– Oh, meu Deus !
E o Santo Nome continuou sendo invocado muitas vezes.  Recusei água, cafezinho e suco:
– Não, obrigado, acabei de tomar um copo d’água ao sair de lá.  Só preciso lavar as mãos.
Fui levado para a área social da casa.
– Aqui, por favor.  Use este sabonete, que é melhor.  Veja a reforma que fizemos na casa, tiramos esta parede, fechamos aquela, incorporamos a varanda ao quarto, que tal, não acha que ficou boa?  Agora pretendemos fazer isto e aquilo, o senhor me desculpe!
O médico, recuperado, já se divertia com o episódio.  Mas a senhora, com certeza, não iria dormir naquela noite, de tão preocupada.
E continuava tentando se desculpar:
– É tão perigoso, hoje em dia, chamar uma pessoa em casa para fazer algum serviço, eu vi o senhor lá, imaginei que seria uma pessoa…
– de confiança.
– Sim, é claro!  Oh, meu Deus!  Que vexame!  Me desculpe!  O senhor não quer sentar-se, não quer conversar um pouquinho?
– Não, muito obrigado, me desculpe a pressa, mas estou com um projeto meio atrasado, tenho que entregá-lo depois de amanhã, preciso ir correndo …
– Oh, meu Deus, que mancada!
Saí pela porta da frente e desci as escadas lamentando:  “Mancada minha!  Por que não fiquei de boca fechada?  Poderia ter ganho umas vinte pratas!”

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Precisão - Hélcio Maia

Precisa-se
de marceneiros,
que produzam almas móveis.
Precisa-se
de engenheiros,
que construam esperanças.
Precisa-se
de advogados,
que defendam a utopia.
Precisa-se
de obstetras,
que façam o parto da luz.
Precisa-se
de odontólogos,
que extraiam a maldade.
Precisa-se
de mágicos,
que distraiam o pessimismo.
Precisa-se
de chefs,
que tenham a receita do perdão.
Precisa-se
de faxineiros,
que limpem as mentes poluídas.
Precisa-se
de adultos,
que saibam brincar.
Precisa-se
de tempo,
para poder perdê-lo, sem culpa.
Precisa-se
de silêncio,
para ouvir a voz do coração.
Precisa-se
de muito pouco,
para entender que tudo o mais é supérfluo.

domingo, 18 de setembro de 2016

Mudando de tecla - Hélcio Maia


A vida é uma sina.
Ela ensina, se você deixar.
Reclamar, reclamar... libere a tecla recl.
Há mar para todo peixe, por mais que você se queixe.
Trocar de penteado ou o guarda-roupa... mudança pouca.
Trancar-se numa espécie de convento?
Experimente entregar-se ao vento.
Repetir para que?
Remoer, ressentir?.
Há tantas vilas que você nunca viu.
Tantos vales.
Um deles valerá a pena.
Resvale no inusitado.
E depois me conte o resultado.

sábado, 17 de setembro de 2016

Campeão olímpico - Luiz E. Ottoni de Menezes


Depois do intenso futebol de muitos anos atrás, fui desacelerando para um joguinho de vôlei, diminuí para corridas no calçadão, passei a apenas caminhar na praia, até que atingi a imobilidade total. Ao perceber a mumificação se aproximando, resolvo reagir e tomo a decisão heroica: vou aprender a nadar. É o esporte completo. E sem impactos. O que mais eu poderia querer?
Instruções recebidas, parto para o obrigatório circuito médico: dermatologista, cardiologista, ecodopplercardiograma e teste ergométrico. Passo com boas notas em coisas de nomes pomposos, tais como respostas cronotrópica e inotrópica, parâmetros hemodinâmicos e metabólicos. Acho que dá até para colocar no currículo!
E bato, então, à porta do Botafogo:
- Sim, claro que pode. Até recomendamos que o candidato faça um teste para se convencer, para ter a certeza de que é esta a modalidade que ele quer praticar. Venha depois de amanhã, que é um dia mais calmo.
Bela acolhida! Reforçou a simpatia que nutro por este clube, que sempre foi meu segundo time.
E no dia D, transbordando de otimismo e cheio de moral, saio de casa já imaginando um possível diálogo alguns meses à frente:
- Mas como ele está bem-disposto! O que é que você anda fazendo, não sai da praia?
- Estou nadando no Botafogo!
Chego lá a caráter: sunga preta e pele branca, não escondendo minha ascendência de países frios. Dia de sol radiante, nenhuma nuvem à vista, um calor infernal. Uma voz interna, sensata, sussurra discretamente: “Isto não vai dar certo”.
Com infinita paciência, o professor alerta aos novatos:
Tudo o que vocês fizeram de esporte até hoje não vale nada dentro d´água. Nada. Começaremos do zero. Atenção com a respiração: inspirar pela boca, expirar pelo nariz. Com ritmo. Vamos primeiro dar uma nadada daqui até lá, só para ver como é que vocês estão.
- Até o outro lado?
- Sim, mas de quatro em quatro braçadas. Podem ir parando para descansar. Se precisar, apoiem na borda.
São, realmente, concessões muito bem-vindas, mas descubro que a raia, para um calouro, parece ter uns dois quilômetros. E, naturalmente, não dá pé. Afinal, estamos numa piscina olímpica! Com os óculos encharcados e embaçados, nem consigo ver a outra borda. Torço para que todos continuem bem ocupados com suas tarefas, sem prestar atenção aos náufragos. Depois de muito esforço, obtenho minha primeira marca: cinquenta metros em quinze minutos, com direito a paradas e a instruções. Deve ser um recorde mundial ao contrário. E reparo que há pessoas na arquibancada. Que estão vendo esses vexames todos!
Ao final de uma hora, exausto e pagando todos os micos possíveis, já começo a duvidar de que seja isto, realmente, o que estou procurando.
Mas em vez de tomar uma decisão sensata, que seria il logo direto para casa, fico rondando por ali e acabo descobrindo que uma aula de hidroginástica começaria em poucos minutos. Talvez isso seja mais interessante ou, confessemos, mais leve. Apresento-me à professora como um possível futuro aluno e peço licença para assistir à aula. Mas sou convidado a participar! Por uma fração de segundo tenho a chance de recusar o convite ou mesmo de sair correndo de lá. Mas, irresponsavelmente, topo e no instante seguinte já estou novamente dentro d´água. Desta vez, amarrado a um flutuador, uma espécie de salva-vidas. Meu entusiasmo ressurge, pois agora não preciso me preocupar nem com respiração nem com a possibilidade de afogamento. Que moleza!
Engano total! Durante aquela interminável hora não degustamos um único segundo de folga. O grupo de ofegantes recebe ordens sem interrupção: - Façam este movimento, agora assim, com o outro braço, prestem atenção, tocando a ponta do pé, o outro pé, mais rápido! Sete, oito, nove, setenta, e um, e dois...
Nos últimos dois minutos de aula um corpo boiando vai se aproximando furtivamente da escada. Os últimos sons me parecem vir de muito, muito longe:
- ... três, dois, um, acabou!
Viva! Sou o primeiro a voltar à terra firme. Sobrevivente. Semisubmerso há duas horas, sob aquele sol inclemente, já havia até adquirido alguma cor: rosa-gringo. Naturalmente, só do peito para cima!
Na falta de macas, resta-me a alternativa de cambalear até o ponto de ônibus. Almoço e apago. Dois dias de cama. Insolação, dor de cabeça, cérebro inundado pela água que entrou pelo nariz, boca e ouvidos, dor no peito, febre, problemas de estômago e intestino. Apenas as pernas escaparam ilesas do massacre. Tentam mover-se, mas ouvem o protesto uníssono de todas as outras partes do corpo:
- Querem andar, vão sozinhas, que nós só levantaremos depois de amanhã!
Oscilando naquela fronteira entre acordado e desmaiado, embaralhava lembranças e pesadelos. Os pensamentos colidiam e se provocavam:
- As olimpíadas estão chegando. Já atingiu os índices? O Cielo está batendo recordes mundiais. Vai encarar?
- Me aguardem!



domingo, 12 de junho de 2016

Um Périplo com Alegria - Ângela Delgado


                                 
Com o invariável início das falas do historiador português que nos acompanhou na viagem, começo:
Ora bom,  o português de cá, fala “difrente”, e, assim, em cada dez palavras, diz apenas seis, como constatou Marcos Linhares, poeta e jornalista hilário que nos fazia rir e chorar.
Portanto, e essa foi a expressão que mais ouvimos em Portugal, os portugueses, como se o bacalhau não lhes bastasse, comem muitas sílabas.
- Ai é?
- É verdad.
Lisboa (Hotel Sana Malhoa) ; Porto (Hotel Nova Galé); Vila Nova de Gaia; Sintra; Viana do Castelo; Batalha; Arouca (Hotel São Pedro), no distrito de Viseu; Aldeia do Espinheiro e seu escondido restaurante “Casa no Campo”, de onde quase voltamos de barriga vazia, se não fosse a esperteza de Mena Filomena em descobrir a entrada; Braga; Alcobaça no distrito de Leiria; Valença; Ponte Vedra, Rianxo e Santiago de Compostela (Hotel Husa Santiago Apostol), estas três já na Galícia, estado autônomo da Espanha (que acredito ser como nossos filhos, que ao atingirem a maioridade, não deixam de ser nossa prole) são encantadoras, assim como nossos novos amigos Concha, Otília e Xurxo, o poeta gatinho que me pagou um delicioso café con leche, além de ter me dado dicas de músicas da Galícia, de Portugal e de Angola, de onde, acidentalmente, descobri mais tarde, Garda, uma cantora/compositora fenomenal. Se a viagem não tivesse valido por tantas outras coisas, só por essa pérola, já teria valido a pena. Tanto é assim que me consolo de ter perdido a máquina fotográfica na viagem , o que me fez ir à Fnac, para outra comprar e, de quebra, adquirir o seu CD. Falando na máquina, como todos sabem, nada se cria e ela se transformou em uma máquina de fazer café, que ganhei em um sorteio na Academia do Bacalhau, não necessariamente nessa ordem. Moral da história: não se regozije muito ao ganhar alguma coisa, pois, logo depois poderá perder algo valioso. Se bem que, no meu caso, a perda resultou em outro achado.

O grupo com o qual viajei “endoideceu meu coração, e agora o que é que eu faço”, cantarolava o português do CD do motorista, o bem humorado e sarado Nelson (tive que lhe traduzir essa expressão), que, por sua vez, teve que explicar aos desantenados brasileiros o significado de “vusviu” (ele vos viu). Além disso, ofereceu-nos, imagine, Champagne e um bolo enorme e divino, em comemoração ao aniversário do Rivera e da “Cília” (Cecília, no português de lá). Não digo que queria ter a receita, pois assim os portugueses pensam que não a quero mais. Digo então que “gostava” de tê-la, mas aí nós é que pensamos se tratar de coisa do passado. Ora bom, estamos, mais do que nunca, precisando do dicionário Lá & Cá, do Roldão Simas Filho, marido da “Cília”, geminiana como eu, e que me fez ótima companhia, na ausência de Filomena Caixeta de Abreu, que na cidade do Porto ficou. Uma pena, e cruel seria lhe contar o que perdeu.
       Como por exemplo, as sessões de terapia em nossos trajetos por Portugal afora. As paisagens se sucediam enquanto nos revezávamos ao microfone. Alguns extrovertidos e de excelente memória, recitavam versos, contavam fatos pitorescos e abriam seus corações. O resultado foi uma torrente de risos e lágrimas, inesquecível para o Comendador Alegria a bordo, e para todos nós que vivenciamos esta viagem.  
Carlos Magno, o médico, levou um de seus dez livros Canção da Água e seu charmoso chapéu e me fará outro igual comprar, para dele me lembrar. Como se eu pudesse, um dia, me esquecer de seus olhos tão azuis, ai Jesus! Impressionou a "guitarrista"(no Brasil, violonista) e, quiçá, a baiana que, dizem, não nasce, mas estréia, e não sei se arretada é.
João Alfredo Sinício, nos divertiu com inúmeros trocadilhos: Qual a “difrença” entre o padre e o bule. O primeiro tem muita fé, e o bule é pra “pô” café. Qual é o tour mais caro do mundo? O turbilhão. Completo, então, que o tour “Viagem às Nascentes Portuguesas” foi bem caro, pois foi um turbilhão de emoções. Aqui me lembro de Rui Rasquillo, em seu maravilhoso almoço que nos foi "ofrecido" em Aljubarrota, questionando sua mulher, a perfeita anfitriã Maria Manuel, sobre saudades, preferindo ele as memórias. Mas, estas as temos de coisas boas e más, enquanto que saudades são só de bons momentos, como a viagem em solidariedade a Portugal. 



José Jerônimo Ribeiro Rivera, que, para alguns, anônimo era, mudou de domicílio: mora agora em nossos corações. Levou na viagem sua tradução Poesia Francesa - Pequena Antologia Bilíngue, e já, já, vou ao Google copiar a linda “Balada da neve” de Augusto Gil, recitada por ele de cor.
Não sei se, como disse Fernando Pessoa, também citado de cor, pelo Rivera, “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente", Santiago Naud, nosso Google ambulante de risonha fisionomia, querido por todos, além de ter levado na bagagem seus 47 poemas lusitanos, proferia consistentes depoimentos, enquanto pervagávamos por belas paisagens.
 Roseli F. de Arruda sorri com olhos rasgados e falou, em Portugal como em São José do Rio Preto, com uma das vozes mais maviosas que já ouvi, de seu livro Mathyê, o senhor das quatro direções.
O jornalista e historiador Manuel Mendes e sua terna Lúcia, uma gracinha de casal. Ele, do alto de seus 86 anos, com receio de se fazer esperar, era um dos primeiros a chegar. Levou em sua bagagem Meu Testemunho de Brasília.
Carlos Jorge Mota, o culto historiador, prestimoso inda por cima, que as costas, um dia, nos deu, acho que magoado. Esses brasileiros não têm jeito. Antes de lhe agradecer por tudo o que fez por nós, quero lhe reafirmar que as piadas sobre portugueses e a imitação de seu falar não são feitos por maldade, mas pela graça da coisa. Nada temos contra nossos antepassados. Apenas contra os argentinos. Todo brasileiro que pisar o solo lusitano sairá dele amando Portugal e quererá a ele retornar. Como meu pai que, estando um dia na cidade do Porto, escreveu: 
"Jamais se me apagará da memória o espetáculo que tive diante dos olhos, quando pude mitigar aquela estranha saudade de uma cidade que visitava pela primeira vez..."
;Last but not least" , Victor Alegria, nosso impagável comandante-em-chefe, de quem sorvemos as palavras, a figura mais incrível e divertida que todos profundamente amamos, a quem agradeço imensamente por esta inesquecível viagem, a melhor de todas de minha vida. Marcos Linhares, por outras palavras, disse que após ter convivido com Victor Alegria, compreendeu a razão de ser da grandiosidade de seu filho Tagore. Faço minhas suas palavras, pois o meu querido Tagore é de ouro. Tem também a quem puxar. Como sua mãe Dona Ísis é igualmente competente, sua herança e legado sanguíneo e espiritual é dos melhores.
Tive que terminar esse relato, pois já passava da meia noite e cedo era preciso acordar, do contrário, o culto e prestativo professor e historiador Armando Cristóvão Ribeiro, com sua pele lisinha notada por  Mena Filomena, armaria um fuzuê, mandando tudo para os “Ares e Mares”, revista que juntamente com Roseli e Edilene, será literalmente lançada aos ares e mares e  distribuída em oito países, ou seja, para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP, da qual fazem parte Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste.
Mas, preciso contar ainda sobre nosso encontro em Lisboa com o simpático Diretor-Geral da Biblioteca Nacional de Portugal, Dr.Jorge Couto, que nos recebeu na imensa mesa oval do salão nobre, onde cada um falou dos livros que ali deixaríamos, sobre o prazer de ter ouvido um violonista português, que nos encantou com suas músicas na UNICEPE, e sobre o privilégio de assistir a um concerto de órgão, dado exclusivamente para nós, em um convento em Arouca, cujo único convidado alheio ao grupo fora um cantor lírico, com recital agendado em Barcelona, vindo expressamente de Lisboa, para assistir ao evento. Após a alimentação espiritual, ainda no convento serviram-nos um magnífico jantar disposto em uma enorme mesa de pedra, com direito a lareira acesa.






Quando, no rodízio da vida, esta nos ofertar, em sua bandeja de tristezas e alegrias ou na montanha russa de altos e baixos, de vacas gordas e magras, arouquesas ou não, façam o que farei, fechem seus olhos e transportem-se para um certo ônibus recheado de poetas.
Termino, dizendo que, por lutar contra a tendência do tempo, cada vez mais veloz, em que se decretou, e muita gente crê nisto, que a véspera já caducou, a antevéspera é história e imemorial o ocorrido no ano passado, resolvi retirar da estante o livro que levei em minha bagagem, Ópera do Poeta e do Bárbaro, vertido para o francês, em uma tentativa de torná-lo atraente aos francófonos. Afinal, 1976, data de sua primeira e restrita publicação, embora pertença ao século passado, não está tão longe assim, justamente pela velocidade do tempo. Foi outro dia mesmo...