terça-feira, 29 de maio de 2012

XLV


Comparando a mente de antigamente com a de hoje, e ressalvando-se as exceções, a humanidade em geral sofreu um terrível down-grade. Sem entrar no mérito dos valores morais que foram para a cucuia, penso nos médicos de família, que cuidavam de todos os achaques, do dedão do pé às enxaquecas, de velhos e crianças. Hoje, sentindo uma dor no polegar me desanimo em consultar um especialista desse dedo da mão esquerda. E reparem que esse minimalismo não foi devido à falta de tempo de médicos que não mais precisam subir em carruagens e se deixarem transportar, com certo vagar, por bons cavalinhos, para atender a um chamado distante.

Pelo contrário, carros velozes levam-nos aos seus consultórios e lá ficam eles a examinar apenas o quadril de um, ou outros a coluna de terceiros. Sei que a população cresceu uma barbaridade e haja quadris, mãos e outros membros para cuidar! Mas, mesmo assim...

                Outra novidade começou com a dentisteria pediátrica e continuou com o dentista geriatra. Irá isso nos levar à especialidade da arcada dentária superior?

                Valha-me Deus!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um dia refeito no coração - Angela Delgado

 
          Estou inocentemente voltando do cabeleireiro, com tempo a meu ver de me arrumar com esmero para a missa de trigésimo dia do falecimento de minha mãe, onde me encontraria com pessoas queridas e há muito não vistas, após pegar o ônibus, que em minutos nos deixaria em frente à igreja.
        Encontro-a esbaforida segurando minha saia para que a vestisse incontinenti e fossemos embora, pois o táxi que a trouxera do Flamengo estava à nossa espera, com o taxímetro ligado,
sabe Deus desde quando!
        Claro que não deu tempo nem de me olhar no espelho, mas em vez de ter deixado mais nervosa ainda aquela que já estava bem apreensiva e ansiosa, pois iria ler em público palavras do evangelho, magoei-a e contribuí irrisoriamente ao pagamento do táxi, sem nem mesmo ter-lhe antes perguntado a quantia devida.
     Faz de conta que peguei minha saia, rindo como sempre quando estamos (estávamos?) juntas, vesti-a do lado do avesso mesmo, entrei no táxi, sem meias, sem pentear o cabelo e segurando um sapato na mão, fazendo-a rir e não se importar com a minha bolsa esquecida lá em cima...
     Afinal de contas, era a nossa última saída dessa temporada e precisava ser perfeita. Mas, quem estava pensando nisso naquela hora, embaixo da chuva? Nenhuma das duas. E mamãe nos vendo lá de cima, deve ter balançado a cabeça... Essas duas, uma tendo já completado "quinze primaveras depois de meio século", a outra prestes a perpetrá-lo, e ainda, às vezes, como naqueles momentos, sem a lucidez necessária, quase que se engalfinham com palavras, para a surpresa do taxista!
      Faz de conta que paguei o táxi, e saímos dele, abraçadas e emocionadas pelo motivo que ali nos levaram, e porque era a derradeira saída de duas irmãs que se querem muito e precisam uma da outra, como toda mulher necessita de amigas verdadeiras.   
     Como é mesmo aquela história... O primeiro  a pedir desculpas é o mais corajoso, o primeiro a perdoar é o mais forte e o primeiro a esquecer é o mais feliz.

domingo, 6 de maio de 2012

Ordinários ou Extraordinários? - Roseli Ferraz Arruda

No livro Crime e Castigo, publicado em 1866, considerado o grande romance de todos os tempos e um clássico universal escrito pelo russo Fiódor Dostoievski, o autor relata o sofrimento vivido por Raskólnikov, um jovem estudante de direito que se vê condenado a suportar uma irremediável miséria. Raskólnikov, atormentado por pensamentos sombrios, divide os indivíduos em ordinários, que são aqueles que aprendem a disciplina de obedecer sem questionar e os extraordinários, que são os detentores do PODER. Como não quer ser incluido na vergonhosa lista dos ordinários, constrói a obsessão de que, cometendo um crime (qualquer crime), prova para si mesmo e para a sociedade que é um homem extraordinário. Para concretizar o seu plano, mata uma senhora indefesa com golpes de machado e, em seguida, a irmã da vítima, testemunha ocular do crime. Está feito: agora ele é UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO.
No dia 24 de janeiro de 2010, a cidade de São José do Rio Preto, Estado de São Paulo, Brasil, amanhece com a notícia de um horripilante desfecho familiar: Nilson de Andrade Justino mata a mulher e as duas filhas menores com golpes de marreta, decapitando-as em seguida. Segundo as palavras da mãe do autor do crime, a mulher e as filhas eram pessoas boníssimas que amavam Nilson, incondicionalmente, e como há algum tempo ele apresentava distúrbios emocionais e mentais, cuidavam dele como se cuidassem de um bebê. “O que deu na tua cabeça, meu filho?” pergunta a mãe (do criminoso) tão triste como uma pétala depois da flor, e ele responde com olhos desérticos e a docilidade dos anjos caídos: “Não deu nada mãe”.
Nilson, assim como Raskólnikov, jamais conseguirá explicar porque alguns sonhos enlouquecem ou em qual ponto minúsculo da vida perdeu o controle da própria mente e a razão, cedendo lugar a uma solitária doença da psique, gerou em seu íntimo uma pessoa estranha, que foi chegando mansamente sem ser notada e que estava adormecida em algum lugar da sua personalidade.
Na realidade, há muitos seres dentro de um mesmo ser, todos querendo ser extraordinários, todos querendo pensar nossos pensamentos, todos querendo poder.
Apesar da roda dinâmica da vida ter girado 144 anos de 1866 a 2010, apesar da passagem de Einstein pelos corredores do mundo quântico, da história ter gerado duas grandes guerras, do progresso ter levado o homem a obter o conhecimento do universo e das células tronco; a FOME das almas não mudou. Os nossos instintos inferiores sustentam séculos e o homem, criado à semelhança do Inefável, enfrenta e luta constantemente contra emoções perturbadoras. Os indivíduos ORDINÁRIOS, mesmo com as suas terras espirituais saqueadas ou inteiramente queimadas quer seja pelas relações de trabalho, pelo convívio social ou familiar, são capazes, num momento de loucura (ou lucidez?), de erguer machados ou marretas provando para o mundo o quanto são EXTRAORDINÁRIOS.
Assim, de tempos em tempos, a cada nova tragédia pública, a sociedade brasileira questiona horrorizada: “O que deu na tua cabeça, meu filho?”. ” Não deu nada mãe.”
A mitologia dos povos, as religiões, a ciência, a política, a justiça, o Estado, etc, procuram desvendar a razão das irracionalidades, e as respostas, a partir do ponto de vista de cada um, são portadoras de verdades incontestáveis, mas NADA consegue revelar COMO INFLAMAM AS CHAMAS DOS NOSSOS POTENTADOS INTERNOS.
Inseridos neste contexto paradoxal entre o bem e o mal, nossas mentes custam a CRESCER e passamos grande período da vida como inocentes, jovens e brincalhões Ícaros, com necessidade de voar cada vez mais alto, de amar e ser amados. Frágeis crianças de passagem por este planeta, esquecemos que as COISAS MAIS INSIGNIFICANTES e pequeninas têm às vezes maior importância e geralmente por minúcias, nossas asas de cera derretem.
Nilsons e Raskólnikovs estão inseridos em nossos lares, dormem em nossas camas, são nossos amigos, cônjuges e filhos, mas acima de tudo, habitam sorrateiramente nossas mentes e estão adormecidos nas camadas delicadas do espírito.
Sim, a agressividade mora nos subterrâneos de cada um de nós, faz parte do nosso íntimo, mesmo assim, NÃO É A FORÇA DOMINANTE da alma humana.
Talvez por possuirmos dentes miúdos e frágeis, preparados para sorrisos e boca pequena, talhada para o beijo, não tenhamos aparelhagem suficiente para agirmos como feras e sim como irmãos, pois, dentre todos os INSTINTOS humanos, o soberano, tanto para ordinários quanto extraordinários, indiscutivelmente, é o amor.
Roseli Arruda

quinta-feira, 26 de abril de 2012

XLIV


     Na dúvida se vocês, Luci Afonso, Alexandra, Arli, Aninha, Ana Helena, Quérida, Fafá, Nathália, Anna, Roseli Arruda, Edilene, Lúcia Enout, Claudinha, Beth, Adriana e demais mulheres que correm com os lobos, teriam tempo de acatar a minha sugestão de “subir à cobertura para apreciar a beleza do nascer da aurora” ou, em outras palavras, acessar o blog www.palavrasabracadas.blogspot.com , entreguei já na bandeja duas crônicas da Cinthia Kriemler, para driblar o esquecimento; a real falta de tempo de minhas queridas atarefadas ou suas prioridades inadiáveis. Mas, agora, acho que agucei suficientemente a curiosidade intelectual de vocês, que poderão beber diretamente na fonte...
         É que há dias em que acordamos totalmente inocentes, sem a menor ideia do que está vindo em nossa direção. De repente, André, uma criança de quatro anos guarda todos os brinquedos na casa da vovó, deixando-a encantada com a arrumação do ambiente (existe sempre uma primeira vez); um adolescente correndo em um pátio de colégio te dá um violento encontrão, te derruba e você, que é magra, cai de costas no chão de concreto, no maior tombo de sua vida; você que plantou flores, colhe alguns abacaxis, que, podendo ser doces, tem também sua parte espinhenta; na tela do computador, uma escritora abre a cortina de sua linda alma, e, também de bandeja, com certeza de prata, ali se revela. Nem só bandeja é. É uma baixela inteira. Quando se pensava que tudo já fora dito brotam palavras e mais palavras pela frente, e sai de baixo (ou pelo contrário), que uma enxurrada de poesia, de sensibilidade e fascínio nos é dada de presente, a nós que estávamos tristes.
         “Benditos os que semeiam” lembrou-me o Canto “Glória aos que cantaram” inserido em “Ópera do Poeta e do Bárbaro”:

“Poetas,
 jamais vos caleis,
porque um artista mudo
é um Jeová triste que resolveu nada criar.
Não vos caleis, porque os séculos são bandos de                                                                                           mastodontes,

que galopam pelo universo, esmigalhando pátrias e                                                                                                   impérios,
fulminando raças e continentes, estraçalhando as                                                                                                  civilizações.

Na carnificina universal do Tempo, só vós ficais de pé.
A cavalgada dos milênios é a reversão ao nada,
Mas vós sois, e somente vós, a vacina contra o nada!”

 E o que se segue é o canto “Mas quantos não puderam cantar”:
 ... “Dante escreveu porque pôde,
 mas a Terra está repleta de artistas,
 dos quais só um milhão consegue cantar,
 pois os problemas da vida trancam os caminhos à Arte.
           
 Por isso,
 muitos não puderam cantar:
 sentiram fome desde a primeira infância,
 a vida lhes solicitou os braços e não a inspiração.
 apresentou-lhes balcões, vassouras e caminhões, não pianos.
 suas mãos se calejaram à enxada, não sabem manobrar a pena.

 Suas almas se crestaram em disciplinas, não sabem ter caminhos seus.
Ou muitas vezes, suas vozes se embruteceram demais,
nas ruas, pregoando loterias e jornais.  
            
Não cantaram:
A vida lhes impõe roteiros,
suas almas nasceram harpas, nasceram pincéis,
mas a vida lhes ensinou mil coisas e não lhes ensinou
onde dorme, num piano ou violino, o acorde em dó maior,
e lhes negou um imponderável qualquer, que lhes dissesse
que pincéis e tintas não são Hebraico
ou equações irracionais.”

E por aí vai, querida Cinthia, gentileza gera gentileza e eu tentei-lhe retribuir com um pouco da beleza de um livro.
         Um beijo e um muito obrigada por toda a sua criação artística. Aproveito para estender o agradecimento pela beleza que sai da pena e do coração de Alexandra Rodrigues, de Roseli Arruda e de tantas outras, que, certamente, está vindo em minha direção.




















segunda-feira, 16 de abril de 2012

Benditos os que semeiam - Cinthia Kriemler



No princípio, era só uma terra árdua, de serventia alguma. Uma terra sem promessas, que se negava ao ofício de fazer-se berço.

Havia, no horizonte, um cinza intenso igualando chão e céu. Uma conformação, um abandono, uma sina cansada de abortar vontades. Uma esperança esterilizada a pontapés e tapas, para que não se atrevesse a vingar pela gota de um esperma traiçoeiro.

E nem semeadura, nem germinação, nem colheita aconteciam àquela terra árdua. Era tudo... um nada.

Mas, um dia, aquela terra seca contorceu-se.

Alguém a penetrava em sussurros, em cócegas dedilhadas. Alguém a revolvia, e a umedecia, e a obrigava a raízes que se agarravam às suas fendas grossas e fundas, e a conduzia a um gozo morno e aconchegante. Alguém não desistia dela.

E veio, enfim, o verde, tímido tapete exposto à superfície para sentir o vento. E veio, enfim, a chuva, que atraída por tanta cor de primavera deitou-se em dengos com aquele mato cheiroso.  E a dor da ceifa verteu-se em descanso, e depois em novo coito, e em seguida em novo arranque, alimentando ciclos que só se rompem pela colheita da morte.

Seria assim também com os homens — esse solo árido que ora se acomoda às alienações do fácil, ora segue prisioneiro de dominações não consentidas —, criaturas impedidas da fertilidade pelos que não compartilham claridade.

Seria exatamente assim com os homens, não fossem os que insistem em semear pensamentos, não fossem os que persistem em aguar reflexões, não fossem os que não abrem mão de colher fruto, flor ou mato verde.

Seria assim...

Não fossem esses que, benditos, semeiam a palavra. Que, benditos, regam a luz. Que, benditos, comungam crescimento.

Cinthia Kriemler

domingo, 15 de abril de 2012

O mato dos cachorros

 
Não sou acostumada a caminhadas. Deveria, porque sou gorda. Mas desde que era magra (once upon a time...) nunca gostei de caminhar. Bom, houve uma época em que eu, subitamente, me animei a dar um passo atrás do outro, durante uma hora ou mais. Fiz isso por quase um ano, mas descobri, mais tarde, que havia um motivo para tanta animação. Um motivo que tinha nome, endereço e uma careca charmosíssima. Perdeu a graça. Detesto quando tomo consciência de que estou fazendo as coisas por motivação externa. Acho o cúmulo querer emagrecer, ou cortar o cabelo, ou fazer as unhas, ou me matar na massagem para agradar alguém que não seja eu mesma.
Mas essa rebeldia custou-me a silhueta. Virei gorda por vários motivos e, dentre eles, pelo fato de não aceitar imposições pessoais, sociais, ou seja lá de que “ais”. Quando eu “tenho” que fazer, não faço. Faço quando quero, quando gosto e porque tenho vontade. Mesmo que, no caso do exercício, essa vontade seja rara, rara.
No entanto, um mês atrás, adotei um cachorrinho. Eu tinha dois, mas o mais velho morreu e o mais novo entrou em depressão. Nunca pensei que cachorro tivesse depressão, mas tem. Igual à de gente. Resultado? Adotei o Lucas. Já veio com nome, dois anos e meio e... e com o hábito bem arraigado de só fazer as suas necessidades no matinho. Resultado? É preciso descer com ele três vezes por dia e caminhar — sim, caminhar! — até que ele encontre o mato perfeito, o tufo de grama que pisca pra ele e diz: “Oi, fique à vontade!”.
Uma das três vezes por dia sou eu que desço com ele. Aliás, que desço com os dois, Lucas e Dude, porque aonde vai um rabo-abanante, vai o outro. E não adianta tentar ficar parada no lugar, ao lado do gramado. Eles me puxam e correm e lá vou atrás deles, parecendo uma pipa sem rabiola. Enfim, pelo menos por 15 ou 20 minutos eu agora ando, todos os dias. E ainda tem o “abaixa e cata” com o saquinho, a única parte da brincadeira que me causa dor, porque a hérnia de disco e a artrose beliscam na mesma hora (que assunto, hein?). O fato é que, mesmo sem querer, acabo por obrigar meu corpo a esse exercício engraçado.
Toda essa história comprida pra falar das árvores que descobri ao lado do meu prédio. Por causa do Lucas. E do Dude.
São árvores de tamanho médio, que formam uma espécie de círculo, abraçando um pequeno jardim improvisado por um morador. É que, sendo um dos lugares prediletos dos cachorros, para lá eles me puxaram, uns dias atrás, fazendo com que eu me deparasse com uma paisagem inusitada.
Visto de fora, o grupo de poucas árvores passa despercebido ao olhar rotineiro. Mas, por dentro, a gente parece estar num daqueles jardins particulares cheios de vento cheiroso, de vozes sussurradas, de segredos invisíveis. A cor do céu, que passa entremeio às árvores, é diferente. O ruído externo chega mais abafado aos ouvidos e o cheiro de Dama da Noite começando a se abrir em início de noite ainda não é forte demais. Ali, a gente se torna invisível, isolado, e tudo é possível. Possível enxergar os ninhos de quatro ou cinco passarinhos de cauda comprida que voam rasteiros perguntando: ”Ei, quem é você?”; descobrir as pequenas frutas que amadurecem na impassibilidade de alguns galhos; observar os raios que se infiltram por entre as árvores, ora de sol, ora de lua (quando o passeio é noturno), ou mesmo sentir os pingos de chuva mais grossos que se empenham em atravessar a barreira de folhas.
Nada que eu tivesse visto antes. Nada que eu soubesse estar ali, apesar do tanto de anos que moro neste mesmo lugar. Nada que existisse no meu dia antes da chegada do Lucas, cão, dois anos e meio, que me obriga a caminhar ao menos uma vez por dia e que me puxa, feliz, para o centro desse agora "nosso" pequeno mundo secreto.
É só mais um mato, que sempre esteve ali, ao lado da janela da minha sala, virando cotidiano a cada amanhecer. O mato dos cachorros. Meu mato.

sábado, 14 de abril de 2012


Poesia Matemática

Às folhas tantas 
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia 
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide, 
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida 
paralela à dela
até que se encontraram 
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação 
traçando 
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas senoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. 
E enfim resolveram se casar
constituir um lar, 
mais que um lar, 
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade 
integral e diferencial. 
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes 
até aquele dia 
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu 
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos. 
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade. 
Era o triângulo, 
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, 
a mais ordinária. 
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser 
moralidade
como aliás em qualquer 
sociedade.

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