domingo, 22 de fevereiro de 2015

Um trechinho de "Dicionário do brasileiro de bolso" - Teixeira Coelho


Alguns verbetes deste excelente dicionário:

LEVANTAR UM DADO

Os dados provavelmente estão sempre no chão ou, em todo caso, em algum nível inferior ao daquele que por eles procura, caso contrário seria impossível levantá-los. Os dados não são mais simplesmente obtidos ou conseguidos. Agora tudo é mais difícil. O conhecimento é um poço profundo e o pesquisador um halterofilista.

LEVANTAR UMA DÚVIDA

A ninguém ocorre "abaixar uma certeza". Dúvidas devem ser levantadas sem que se saiba se será possível, em seguida, abatê-las. O despencar de uma dúvida não equivale ao soerguimento de uma certeza. É raro aquele que tem uma dúvida. Parece menos auto-incriminador levantá-la.
De onde e para onde essa dúvida é levantada?


ONDE

(De dirigente "classista" na TV)
"Falei com o ministro ontem, onde ninguém me disse que essa medida seria tomada."

Não é mero erro ocasional; é clara a tendência de recurso ao "onde" para substituir outros advérbios - o "quando" em particular. É um processo de destemporização dos acontecimentos e dos sujeitos e sua consequente espacialização ou territorialização. Curiosamente, teóricos da pós-modernidade já apontaram para a decadência de categoria moderna do tempo e a ascensão da categoria pós-moderna do espaço. Até o início da modernidade o tempo era apenas um dado, componente inevitável do cenário da existência. Quando, na era moderna, o tempo passa a ser, além de medido, também fracionado, equacionado, construído, dilatado, comprimido e finalmente equiparado ao ou traduzido em dinheiro (tempo é dinheiro), tornou-se referente central da vida. Agora, na idade pós-moderna, é como se o tempo estivesse, na hipótese mais nobre, sendo abolido ou diminuído, encurralado, desbastado, pulverizado (pelo desenvolvimento de técnicas de locomoção, como no avião; pelo aprimoramento daquelas outras que permitem a superação imaginária das distâncias, como na TV) ou, na alternativa menos nobre, confundido, mascarado, apagado, eliminado da memória e da consciência das pessoas (o desejo de uma juventude o mais duradoura possível, a vontade de recuar ou ignorar a velhice parecem indícios desse fenômeno). Tenta-se agarrar o espaço por não ser mais possível viver o tempo, tenta-se apreender o espaço para através dele fruir imaginariamente um tempo ilusório...


PERFIL

"Vamos encontrar a pessoa com o perfil adequado para o cargo." (De um governador na TV.)

Muito atual. Antes, procurava-se a pessoa com a experiência adequada, com o currículo apropriado, com a competência exigida.
Hoje, basta reparar em sua silhueta.

PLATAFORMA

Os candidatos a cargos públicos comstumavam subir em plataformas para dali anunciar seus programas de governo. Por um claro processo metonímico, a palavra passou a significar, ela sozinha, programa de governo.

POSTURA

O que era uma característica típica dos galináceos, hoje tomou de assalto as páginas dos jornais, dos livros e as falas de todo mundo. Tudo é postura, não há mais decisões, atitudes, manifestações, inclinações. Seu uso é considerado sinal de erudição.

E por aí vai... Recomendo a leitura.

sábado, 6 de dezembro de 2014

A Fita métrica do amor - Martha medeiros

Como se mede uma pessoa?
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.
Ele é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri, destravado.
É pequena pra você quando só pensa em si mesma, quando se comporta de maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.
Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto.
É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições?
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Geovanas, Jocileides e a burocracia - Angela Delgado

      
     Filha Casada, com problemas em seu telefone, colocou o meu no jornal em um anúncio à procura de uma babá.
     Foram quase 200 telefonemas em apenas dois dias, em que houve de tudo:  chamadas a cobrar; ligações em que fui tratada por gatinha; minha linda, até uma candidata que falava francês! Esta assustou-me, fazendo-me suspeitar de que fizesse parte de uma rede internacional de sequestradores. Não. Apenas trabalhara quatro anos na França, tomando conta de uma criança ou seja, na qualidade de"au pair", como dizem os franceses.
    Não podia me concentrar no computador ou fazer café, e muito menos tomá-lo.
     As Adrianas, Alines, Anízias, Catarinas, Geovanas, Jocileides, Josélias, Luísas, Marinas, Marias, Osanas, Roses, Selmas, não me deixaram sentir solidão.
     Apresentaram-se, prometeram voltar, mas não o fizeram, talvez amedrontadas pelas crianças: três mosqueteiros e uma princesa, de brinde.
     Nesse ínterim, Filha Antropóloga passara no concurso para o Ministério da Educação e precisava apresentar seus títulos que se resumiam a um, já que ainda não havia concluído o mestrado.
     Estando ela em outra cidade, coube-me telefonar para requerer a declaração atestando que ela trabalhara, durante dois anos, como professora da Fundação, o que lhe adicionaria oito pontos em seu  resultado. Declaração para amanhã? Impossível. Terei que entregar mais de quinhentas.
...............................................................
Mas, mãe, já a pedi há meses! Deve estar pronta.
     Às oito da manhã, estaciono no estacionamento ainda vazio, que bom, só que declarações eram entregues a partir das dez horas.
     Volto às dez. Em que mês sua filha fez o pedido? Vocês não arquivam por ordem alfabética? Não, pelo mês da requisição.
     Não tenho como falar com a Filha Requerente e preciso do papel para ontem. Por sorte, a funcionária, em menos de dez minutos, achara a declaração.
   Saí exultante. Agora restava apenas reconhecer firma, tirar xerox e enviá-la pelos Correios. No cartório, algum corretor, à espera de sua cliente que não chegava, trocara sua senha pela minha; ganhei mais alguns minutos em minha corrida contra o tempo. Que menina sortuda essa Filha Antropóloga. Mas aí Deus achou que já havia me concedido muito. A máquina de xerox não estava funcionando e o Sedex não poderia entregar o envelope no dia seguinte, pois era feriado. Ao lado, uma loja transportadora de cargas expressas o faria, porém mediante quantia tão exorbitante, que retruquei: Por esse preço, pego o avião e levo pessoalmente.
     Solução: Filha Antropóloga, via fax, me passou uma procuração.
     Só não entendi por que para obter a declaração, não me fora requisitada a carteira de identidade se para entregá-la, além da carteira de identidade, era preciso uma procuração.
     De curiosidade em curiosidade, finalizo com o fato de minha “maturidade” ter achado um ótimo meio de saber onde coloquei certos objetos. Por exemplo, um saquinho bem pequeno de plástico, que achei ter utilidade futura, foi guardado na letra “p” da pasta sanfonada de documentos, e me divirto comigo mesma, constatando a hilaridade da faixa etária.
     O que será que ainda vai parar nessa pasta? Celular e chaves na letra “c”, óculos no “o” e assim por diante.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O caso da senhora Santiago - Gustavo Bernardo Krause


Bom-dia, minha senhora. Dormiu bem? Trataram-na bem? Com certeza que sim. Nosso estabelecimento é famoso pelo acolhimento que dispensa a seus hóspedes. Diga-me, por favor, seus aposentos estão a seu gosto? Não se preocupe, providenciaremos roupas de cama mais condizentes com a sua pessoa. Algo mais? Sinto muito, mas infelizmente não podemos retirar as grades da janela. Quando voltar a seus aposentos observe com atenção, por favor, esticando só um pouco o pescoço, e verá que todas as janelas de todos os aposentos têm as mesmas grades. Não seria estético retirarmos as grades apenas da sua janela, não lhe parece? Os outros hóspedes decerto não apreciariam a exceção. A cor da janela também a deprime? Eis algo que se me mostra improvável, senhora Santiago: a cor verde foi cuidadosamente escolhida para as janelas por lembrar a natureza, portanto por suas óbvias características calmantes. Essa cor, ao contrário da cor amarela, nesse caso a senhora teria toda a razão, não é de nenhuma maneira depressiva. Além do mais, retornamos ao problema anterior: se todas as janelas são verdes então não podemos modificar apenas uma, sob pena de desobedecermos à estética do prédio e assim desagradarmos a todos os demais hóspedes, digamos assim. Sim, estética é algo a que se pode desobedecer e a que na verdade não se deve desobedecer, sob pena de perdermos as referências de harmonia que nos ajudam a trabalhar e a viver. Tudo isso por causa da cor verde e das grades, estas completam aquela e emprestam a segurança, inclusive visual, de que os senhores e as senhoras tanto precisam. Ah, a senhora quer voltar para casa, onde não há grades nem janelas verdes? Compreendo. É natural. É bastante natural, de fato. Prometo, falaremos sobre o seu desejo mais à frente. Isso, sobre sua volta para casa. Hoje mesmo, não se preocupe. Por ora, preciso apenas confirmar algumas informações suas para preencher a nossa ficha. Nome? Capitolina Santiago, perfeitamente. Claro que eu já sabia o seu nome, minha cara. Todavia, é necessário confirmá-lo, quer para que não pairem dúvidas, quer para que eu a escute falar sobre a senhora mesma. Sim, isso é absolutamente fundamental. Sua idade, por favor? Sei que não é pergunta que se faça a uma dama, mas os funcionários que elaboraram a ficha, tempos atrás, não tiveram a elegância de abrir essa exceção, que se há de fazer. Idade, por favor? Não diz? Recusa-se a dizê-la? Tudo bem, não é um grande problema: por ora posso deixar esse campo em branco. Nome da mãe? Dona Fortunata, interessante. Expressivo. Pai? Senhor Pádua, confere. Filhos? Ah, um menino, ótimo. Seu nome, por favor? Luís, foi o que disse? Mas não é Ezequiel? Se eu sei, por que pergunto. Já lhe disse, porque preciso perguntar, precisamos ambos, a senhora e eu, ter certeza do que falamos e sobre o que falamos. Perfeito, Ezequiel. Moradia, por favor?... Muito obrigado. Por enquanto, é suficiente. Podemos voltar à sua pergunta anterior. Qual pergunta? Ora, se a senhora pode voltar à sua casa ainda hoje, já não o deseja mais? Ah, não era uma pergunta, a senhora quer e vai voltar para casa ainda hoje. Pois é, mas não pode, não assim, logo logo. Isso mesmo, não pode. Porque o senhor Bento Santiago, seu marido, certo?, nos procurou para nos solicitar que a internássemos no nosso estabelecimento. Agora a senhora entendeu, de fato não se encontra hospedada em um hotel, mas sim internada em um nosocômio. Exatamente, um nosocômio, uma espécie de hospital destinado ao tratamento de pessoas, digamos, mentalmente perturbadas. A senhora não se sente mentalmente perturbada, folgo em sabê-lo. No entanto, uma pessoa mentalmente perturbada não é a mais indicada para julgar a si mesma, se o está ou não. Como os bêbados, que sempre dizem que não estão bêbados. Sei perfeitamente, a senhora não se encontra alcoolizada, não é essa a nossa questão. Falamos de determinado tipo de doença mental: a senhora sente que está bem, perfeito, mas esse sentimento faz parte dos sintomas da sua doença, é muito comum que o doente negue a sua doença. Que bom que perguntou qual é a sua doença, assim nós todos evoluímos na direção da cura que desejamos, sem dúvida. Provisoriamente, já que ainda precisamos proceder a alguns exames, testes e provas, eu diria que a sua doença é uma manifestação secundária, nem por isso menos elaborada, de Confiance Affective Peu Fiable. Não conhece a expressão nem a língua, compreendo. O sr. Pádua não pôde lhe pagar cursos de francês, ora, isso não é vergonha nenhuma. Eu traduzo a expressão para a senhora: digamos que a sua doença é uma manifestação secundária de Confiança Afetiva Não-Confiável. O que isso quer dizer, afinal? Bem, retraduzindo os termos técnicos para uma linguagem que compreenda com mais facilidade, eles querem dizer que a senhora é afetiva e compulsivamente não-confiável, isto é, ao mesmo tempo que atrai as pessoas não lhes desperta a mínima confiança necessária para uma convivência saudável e civilizada. Como posso dizer uma barbaridade dessas sem conhecê-la? Primeiro, não é uma barbaridade, mas sim uma doença, como lhe falei. Segundo, na verdade eu a conheço bem, ou melhor, conheço bastante bem casos crônicos como o seu. As particularidades do seu caso em particular me foram transmitidas pelo seu marido de maneira extremamente detalhada, quando a trouxe aqui. Depois que a enfermeira Leonela a levou para o seu quarto, ele fez questão de me entregar um dossiê volumoso a seu respeito, dossiê este a que ele curiosamente não deu o seu nome ou apelido, como seria de se esperar, mas sim o próprio apelido pelo qual ficou conhecido: Dom Casmurro. Trata-se de um apelido muito revelador, temos de convir. Naturalmente, na hora me lembrei de outro Dom, aquele que enlouqueceu de tanta leitura de romances de cavalaria e saiu pelo mundo montado num pangaré com uma bacia de barbeiro na cabeça. Um caso clássico, citado em todos os anais da ciência, Juntando esse título que ele deu para o dossiê com a circunstância inusitada de tê-lo escrito como um romance, não pude deixar de considerá-lo um outro caso interessantíssimo. Poderíamos chamá-lo, elaborando quiçá uma nova teoria a respeito, de Fobia de Ficção. A Fobia de Ficção se associa, reconhecemo-la, a uma insegurança patológica específica, fazendo com que se combine a sua própria doença, sra. Capitolina, com a doença do seu marido, e de uma maneira esteticamente muito interessante, também devo reconhecer. A senhora sabia que no seu romance, digo, no seu dossiê, o sr. Santiago é capaz de levantar tantos argumentos contra a senhora, isto é, a favor de que a senhora o tenha traído com o seu melhor amigo, quanto argumentos a favor da senhora, isto é, contra a hipótese de que o tenha traído com esse melhor amigo ou com qualquer outro homem? Impressionante, não acha? Não? E quer falar com ele para desfazer de uma vez por todas o que chama de mal-entendido? Creio que não será possível, pelo menos ainda não. Por que? Ora, porque eu não podia deixá-lo à solta na cidade, Eu o internei imediatamente depois da senhora, ele nem chegou a ultrapassar o portal. Preciso estudar os dois casos cuidadosamente, eles são tão significativos que me ajudarão a dar mais alguns passos importantes no domínio do oceano da loucura. É isso, o seu marido também se encontra internado aqui conosco, em outra ala. Curioso é que ele tenha igualmente reclamado das grades e da cor verde nas janelas, o que me empresta mais uma conexão que pode ser importante. Fora o fato de vocês dois – perdão pela intimidade momentânea, mas o estudo dos seus casos me torna como que um pouco íntimo tanto de você quanto de seu marido, se me permite -, portanto, fora o fato de vocês dois serem muito ligados um ao outro desde muito jovens, o que seria uma outra motivação para explicar as preocupações semelhantes, devemos acrescentar a reação negativa ao ambiente como um outro sintoma secundário, e novamente, nem por isso menos importante. A relação interna entre vocês me leva a formular uma espécie de diagnóstico duplo e complementar deveras interessante. Por que é interessante? Bem, porque sugere que o seu casamento com o seu marido seria não apenas um casamento entre duas pessoas, entre duas personalidades, entre duas almas, digamos assim, mas igualmente um casamento entre duas doenças que desse modo se reforçam uma à outra em uma espiral contínua e viciosa muito difícil de interromper. Não, não estou dizendo que cada um de vocês é em si uma doença, o que estou dizendo é que foram as duas doenças, a sua e a do seu marido, que os aproximaram e os casaram e, depois, os separaram, percebe? Não percebe? Compreendo, a teoria não é simples sequer para os meus ilustres colegas, que dirá para leigos no assunto, mas posso lhe assegurar que, apesar da sua ousadia e do seu ineditismo, ela se encontra muito bem, na verdade muitíssimo bem fundamentada. Quem gosta de falar assim? Assim como? Ah, cheio de superlativos: o sr.José Dias, perfeitamente, li sobre ele no dossiê-romance. Outro caso interessantíssimo, talvez o chame aqui um dia desses. Mas por ora nos concentremos em você, minha cara, e no seu ilustre marido e autor. Não, ele não é necessariamente o seu autor, mas sim autor do dossiê-romance sobre você.Todavia, talvez possamos pensá-lo, em algum nível, como seu autor sim: como se a manifestação enviesada do ciúme masculino fortalecesse a doença feminina em questão, a saber, a nossa conhecida Confiance Affective Peu Fiable. Que seja. Mas voltemos à minha teoria. O casal que Bento e Capitolina Santiago ainda formam, mesmo que no momento em aposentos separados, se tornará o corolário dessa teoria, fornecendo-me a demonstração que faltava no brilhante edifício que, modéstia à parte,
venho construindo pouco a pouco. Compreendo, compreendo, você não entende de edifícios e teorias, logo também não entende de metáforas. Como? Prefere que eu volte a tratá-la por senhora? Perfeitamente, seu desejo é uma ordem, mas somente aqueles a que eu possa atender, como o de tratá-la mais cerimoniosamente. Dizia então que a senhora não entende de edifícios e teorias, logo também não entende de metáforas. Todavia, a despeito dessa dificuldade natural a seu sexo, sempre me sinto na obrigação moral e científica de explicar a meus pacientes e demais hóspedes do estabelecimento todos os aspectos envolvidos no tratamento. Trata-se de uma atitude pedagógica que, em algum nível subterrâneo, talvez a ajude a se curar mais à frente, além de auxiliar a mim mesmo a organizar os meus procedimentos e, portanto, o meu pensamento. Ah sim, a senhora quer saber o que acho não do seu caso clínico mas sim da acusação do seu marido, a saber, que a senhora o teria traído com o sr.Ezequiel. Calma, eu não quis dizer que o seu marido disse que a senhora o teria traído com o seu próprio filho, nesse caso teríamos de chamar um outro tipo de profissional, que aliás pouco me agrada. O que eu quis dizer foi que o seu marido disse que a senhora o teria traído com o seu melhor amigo, o sr.Ezequiel Escobar. Ah, bom. Mesmo assim não está bom, compreendo. Mas respondo à sua interrogação. Deixando à parte, para consideração posterior, o fato de a senhora não afirmar explicitamente, pelo menos até o presente momento, que não traiu de modo algum o seu marido, nem com o sr.Ezequiel Escobar nem com ninguém mais, minha intuição e minha experiência me dizem que a senhora não deve ter traído o seu marido. Então por que está aqui?!, a senhora me pergunta com a devida ênfase, percebi. Eu lhe respondo que não me cabe julgá-la e muito menos condená-la por infidelidade e adultério, tais atos não competem à medicina que professo, mas sim cuidar adequadamente da sua doença e, se possível, curá-la. E se não for possível?!, eu escutei bem, não precisa gritar, por favor, se controle. Não me agradaria chamar a srta.Leonela antes do término dessa nossa sessão. Controlou-se? Muito bom, esse é um bom sinal. Afirmo-lhe então que é possível curá-la e que sou o profissional mais indicado para fazê-lo, não se preocupe, a expressão “se possível” é apenas modéstia científica preventiva. Qual é a sua doença, então? Já lhe disse de maneira sumária, mas passo a lhe explicar um pouco mais detalhadamente, me agrada bastante o seu interesse. Bem, continuando a relevar o fato, para  aquela consideração posterior, de a senhora persistir não afirmando explicitamente que não traiu de modo algum o sr.Bento Santiago, mesmo depois de eu lhe fazer notar isso, passo a comentar a sua doença e o seu caso particular. Contudo, para melhor definir o conteúdo da doença precisamos definir o seu continente, isto é, a pessoa que porta a doença. Então, precisamos perguntar: quem é a senhora? Quem é Capitolina Santiago? Em última instância, mais íntima e mais próxima: quem é Capitu? Vejamos. Há uma expressão, no dossiê-romance do seu marido, que tenta descrevê-la: “olhos de ressaca”. A expressão é precedida daquela outra, proferida pelo sr.José Dias: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Não conhecia esta última? Interessante. Ambas as expressões são fortes, mas a segunda, que parece ter sido pensada primeiro, é um pouco ofensiva, reconheço, enquanto a primeira constitui-se a partir de uma metáfora muito bonita que também me serve. A partir dos seus olhos, as portas da alma!, conforme diziam os antigos, olhos cuja cor vejo agora que oscilam do verde-claro ao azul-escuro como se seguindo a luminosidade do ambiente, a partir desses olhos o sr.Santiago pretendeu que eles lembram e sugerem a ressaca no mar, a saber, a revolta das ondas movidas pela maré e por ventos muito fortes. Interessante notar, de passagem – sim, gosto da palavra “interessante” – mas, interessante notar que o amigo dos dois, supostamente seu amante segundo o sr.Bento, tenha justamente morrido afogado no mar e num dia de ressaca, apesar de nadar muito bem. Bem, normalmente são os melhores nadadores aqueles que morrem afogados, porque lhes falta o medo que garante a sobrevivência cotidiana. Ou seu amante, digo, o sr.Escobar teria preferido morrer no mar, afogado que já se encontrava na ressaca dos olhos de uma certa senhora carioca? Oh, desculpe-me a menção desagradável, compreendo que o estimava, de um jeito ou de outro. Naturalmente que compreendo, a minha função é compreender. Tome, use o meu lenço. Por nada, não se preocupe. Voltemos então a seus olhos de ressaca, neste momento ainda salgados e molhados como as águas da baía de Guanabara, me perdoe a licença poética. A senhora gosta de licenças poéticas? Que bom. Pois são esses seus olhos que mostram a senhora como uma força da natureza, indubitavelmente bela mas igualmente inconstante e, portanto, perigosa. Sim, eu disse perigosa. Seu marido parecia vê-la de ambas as maneiras, sintetizando sua percepção na bela imagem dos olhos de ressaca. Creio que ele se encontrava próximo da verdade, mas não atinou com a verdade mesma. Não creio, tanto pelo dossiê-romance quanto pela minha observação in loco e in pectore, que a senhora mesma seja uma ressaca ambulante, prestes a invadir e afogar as terras e as pessoas. Não. Não me parece que a senhora seja mesmo inconstante. Aliás, se o seu problema fosse esse, o tratamento seria muito fácil e muito mais curto. Não. A senhora é na verdade muito calma e controlada; o que faz é provocar nos outros, jamais em si mesma, as mais terríveis ressacas, afogando as pessoas que a cercam e a amam em incerteza, insegurança e ansiedade, em suma: em desespero. Por isso o sr.Escobar, por conta de sua própria doença em combinação com a da senhora, talvez tenha precisado se afogar em uma ressaca de verdade. Oh, desculpe-me novamente, mas simplesmente não posso censurar as minhas próprias palavras em benefício da precisão do diagnóstico, espero que me entenda. Aqui tem outro lenço pode usá-lo. Dizia eu que a senhora provoca ressacas nos que a cercam. Claro que não se trata apenas da cor dos seus olhos. Ela tão somente espelha e expressa o seu interior, paradoxalmente intenso e plácido ao mesmo tempo. É essa intensidade da senhora e do seu desejo, não importa o objeto desse desejo, que, associada a uma placidez interna impressionante, desequilibra as pessoas à sua volta e em particular os homens, como que devolvendo-nos à nossa lama primitiva. Eu disse nossa? A senhora quer dizer, como se me incluísse entre os homens que você, perdão, que a senhora perturba? Deve ter sido apenas um lapso: a ciência me protege e à senhora, os meus interesses são e só podem ser científicos. Voltemos a seus olhos, mas para sair deles. Há obviamente aspectos psicológicos fundamentais na constituição da sua doença, mas desejo comentar antes os aspectos propriamente físicos...
Talvez por ser tão bela, o sr.Machado de Assis tenha desejado tê-la construído ele mesmo como a personagem feminina mais forte da literatura brasileira... Como? Quem é esse sr. Machado de Assis? Ora, apenas um funcionário público que chegou aqui na Casa Verde contando que escrevera uma história que explicava o amor e todas as suas sombras, com dois personagens chamados Bentinho e Capitu. A coincidência é impressionante, admito, o que só torna o caso de vocês três extremamente interessante. Digo o caso de vocês três porque, antes mesmo do sr.Bento e da senhora, eu já havia internado o sr.Machado de Assis, considerando-o acometido de uma variante mais sofisticada ainda da Fobia de Ficção. Não contente em afirmar que os inventara, à senhora, a seu marido e ao sr.Escobar, que Deus o tenha, ainda afirmou que inventou a mim mesmo, a mim, o dr.Simão Bacamarte que tem à sua frente, e que tinha vindo aqui apenas para tirar uns dedos de prosa com sua própria criação, imagine só. Passarei a me dedicar agora a essa combinação impressionante de doenças mentais, a partir da qual, sem sombra de dúvida, terei todas as condições de compreender e curar a loucura humana...



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Pessoa - Cristiano Menezes

                                                  São tão diversos
                                            os seres que me habitam
                                                  Conheço alguns
                                                  outros nem tanto

                                                 Os que se gostam
                                                  quando juntos
                                                      é festa

                                                 Os que se detestam
                                                  não me habitam
                                                     infestam

                                               Para evitar desconfortos
                                                      já combinei
                                     
                                                 Cada um de uma vez

                                                 Por isso sou assim
                                                 de repente assado
                                                    gosto de rock
                                              mas posso cantar um fado

                                                 Às vezes dou choque
                                                  sou fio desencapado
                                                       até que surge
                                                o que mais gosto em mim

                                               
                                                         O palhaço
                                                 que me faz rir, enfim


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A morte como consolo - Martha Medeiros


Assim como qualquer mortal, eu também esquento a cabeça com questões de difícil praticidade. Teorizar é moleza, mas como agir do mesmo modo que essas supermulheres que a gente vê nas revistas e jornais, sempre bem resolvidas? Você acha que eu sei? Sei nada.
            Também me desgasto com assuntos mundanos, aqueles que nos atormentam dia e noite: sinto ciúmes, me constranjo ao negar convites, às vezes acho que sou severa demais com minhas filhas, às vezes severa de menos, não consigo ser tão solícita quanto gostaria, me sinto desatualizada em relação a tanta coisa, não sei direito a direção para a qual conduzir minha vida, enfim, coisinhas que nos roubam algumas horas preciosas de sono.
            Como não faço terapia e não posso perder nem um minuto precioso de sono, já que normalmente durmo pouco, resolvi procurar um método pessoal para relativizar meus pequenos grilos cotidianos. E encontrei um que pode parecer macabro, mas está funcionando. Quando estou muito preocupada com alguma coisa, penso: eu vou morrer.
            Óbvio que vou morrer, todo mundo sabe que vai morrer um dia, mas a gente evita pensar nesse assunto desagradável. No entanto, tenho pensado na morte não como uma tragédia, mas como um recurso para desencanar dos problemas, e então a morte se torna um ulalá, um paliativo: daqui a quarenta anos, mais ou menos, eu não vou estar mais aqui. O que são quarenta anos? Um flash. Todas as minhas preocupações desaparecerão. Nada do que sinto ou penso permanecerá, ao menos para mim mesmo – o que as pessoas lembrarem de mim será de responsabilidade delas. Eu vou evaporar. Sumir. Escafeder-me. Então pra que me preocupar com bobagem?
            Diante da morte, tudo é bobagem. Recapitulando os exemplos dados no segundo paragrafo: ciúmes? Ouvi bem: ciúmes? De quem, para quê, se todos irão pra baixo da terra e ninguém sobreviverá para cantar vitória? Aproveite os momentos que você tem hoje – hoje! – para desfrutar seus prazeres e não pense em perdas e ganhos, isso não existe, é pura ilusão.
            Os filhos nos amam, mas fatalmente reclamarão de nós um dia, não importa o quão bacana fomos com eles. Ser 100% solícita é coisa para Madre Teresa. Atualização pode ser importante para o trabalho, mas nem sempre para nosso bem- estar. E, finalmente, seja qual for a direção que você der à sua vida, o que importa é que ela seja satisfatória hoje (repito a palavra mágica – hoje!) porque daqui a pouco você e suas preocupações virarão poeira. Até Ivete Sangalo vai virar poeira.
           Importantíssimo (me descuidei, deveria ter colocado esse último parágrafo lá no início, mas já que vou morrer, dane-se): se você tem menos de quarenta anos, desconsidere todas as linhas dessa crônica. Leve seu nascimento a sério. Antes dos quarenta, ninguém vai morrer. Essa é a ordem natural do pensamento humano. Pague seus impostos, preocupe-se com a direção que sua vida está tomando, morra de ciúmes, dê-se o direito de todas as cenas passionais que incrementam seu script: mão se entregue ao fatalismo. Honre o primeiro ato dessa encenação chamada vida.
            Porém, depois dos quarenta, apenas divirta-se e não perca tempo se preocupando com bobagens. Vai dar em nada.



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Porta do lado -- Martha Medeiros



Li uma ótima entrevista dada pelo médico Dráuzio Varella à revista Marie Claire, não lembro exatamente em que edição. Disse ele na entrevista que a gente tem um nível de exigência absurdo em relação à vida, que queremos que absolutamente tudo dê certo, e que às vezes, por aborrecimentos mínimos, somos capazes de passar um dia inteiro de cara amarrada. E aí ele deu um exemplo trivial, que acontece todo dia na vida da gente. É quando um vizinho estaciona o carro muito encostado ao seu na garagem (ou pode ser na vaga do estacionamento do shopping). Em vez de simplesmente entrar pela outra porta, sair com o carro e tratar de sua vida, você bufa, pragueja, esperneia e estraga o que resta do seu dia.
                Acho que essa história de dois carros alinhados, impedindo a abertura da porta do motorista, é um bom exemplo do que torna a vida de algumas pessoas melhor, e a de outra, pior. Tem gente que tem a vida muito parecida com a de seus amigos, mas não entende por que eles parecem ser mais felizes. Será que nada dá errado pra eles? Dá aos montes. Só que, para eles, entrar pela porta do lado, uma vez ou outra, não faz a menor diferença.
                O que não falta neste mundo é gente que se acha o último biscoito do pacote. Que audácia contrariá-los! São aqueles que nunca ouviram falar em saídas de emergência: fincam o pé, compram briga e não deixam barato. Alguém aí falou em complexo de perseguição? Justamente. O mundo versus eles.

                Eu entro muito pela outra porta, e às vezes saio por ela também. É incômodo, tem um freio de mão no meio do caminho, mas é um problema solúvel. E como este, a maioria dos nossos problemões podem ser resolvidos assim, rapidinho. Basta um telefonema, um e-mail, um pedido de desculpas. Um deixar barato. Eu ando deixando de graça, pra ser sincera. 24 horas têm sido pouco pra tudo o que eu tenho que fazer, então não vou perder ainda mais tempo ficando mal-humorada, Se eu procurar, vou encontrar dezenas de situações irritantes e gente idem, pilhas de pessoas que vão atrasar meu dia. Então eu uso a porta do lado e vou tratar do que é importante de fato. Eis a chave do mistério, a fórmula da felicidade, o elixir do bom humor, a razão por que parece que tão pouca coisa na vida dos outros dá errada.