A pressa de acordar para viver um novo dia me leva a dormir, mal o dia finda ou a noite começa, mas como fechar os olhos,se ainda não havia terminado de ler seu livro? À uma hora da manhã estava eu imersa na crônica "Espelho”, não examinando rugas, porém, matutando que, sem ter passado em um concurso, sequer saído de casa ou ganho a loteria (ou ganhei?), inesperadamente ficara mais rica.
O final do livro levou-me a reacomodar minha bagagem interior:
Com muito respeito afastei Saramago para o canto e apertei um pouco Ítalo Calvino; com cuidado enrolei Victor Hugo; com delicadeza comprimi Rosa Montero, Maturana e Chico Buarque; com amor superpus Pio e Luiz Ottoni e muitos outros e outras; dobrei experiências, aprendizados e alegrias; tirei melancolias, medos, mágoas e passei para uma mala de mão a música que me oxigena.
Tudo isso para abrir espaço para algo de peso que não pode ficar de fora: você, que foi convidada a vir me visitar e que me presenteou com seus livros, e a quem ofereci chá e pão de queijo, cuja receita aqui segue:
Pão de queijo
Ferva três copos de leite com uma xícara de óleo e escalde um quilo de polvilho doce.
Depois de frio, acrescente três copos de Queijo de Minas curado e ralado e oito ovos para dar ponto na massa resultante.
Faça pequenas bolas e asse ou congele.
E-book com futuras contribuições alheias e sempre com uma música de fundo.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
Quinto capítulo de "Beijos na alma"
De volta a Brasília, releio um trecho de um livro da Clarice Lispector:
"Havia em Recife as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes.
- Aquele branco é meu.
- Não, eu já disse que os brancos são meus.
- Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes."
Vem-me à lembrança a fantasia que tínhamos, minha irmã e eu, de sermos outras pessoas: Éramos Sônia e Ana, e eu, a primeira ou a segunda (não me lembro mais), por ser na realidade a número quatro entre inúmeros irmãos e suspeitar que deveria ser caro aprender balé, tinha então a fantasia não de possuir isso ou aquilo, mas sim a de ter aulas disso e daquilo. Das oito às nove era o balé; das nove às dez, patinação; das dez às onze aulas de equitação; à tarde, depois do colégio, aulas de línguas... E tudo voluntariamente, sem qualquer coerção materna.
E de fantasia em fantasia, acabei mesmo me enfronhando nas Línguas. Como prova, segue abaixo uma tradução:
“Entendemos por ‘poesia’, não apenas as palavras e as fórmulas dos poetas, mas um impulso místico, amalgamável, extático, visível ou latente em cada um de nós. Ele se manifesta através das palavras, mas também pelas emoções, paixões, sobressaltos, arrebatamentos, cantos, danças.”
Estou lutando no momento contra outro tipo de sobressalto. Aquele que me deixa apavorada, ao sentir quão frágil é a linha entre a sanidade e a insanidade. Sinto que a solução é alargar essa linha com muita emoção, paixão, arrebatamento, canto e dança.
E aí me transformei em blogueira!
Há anos que desejava transmitir as músicas de que gostava e, em minha santa ingenuidade, achava que isso demoraria muito para ser possível. Então, o segredo é desejar, e o universo nos satisfará. Daí a minha felicidade, aliás, alegria, já que é isso que importa, pois como disse John Locke: “Pergunte a si mesmo se você é feliz, e deixará de ser.”
"Havia em Recife as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes.
- Aquele branco é meu.
- Não, eu já disse que os brancos são meus.
- Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes."
Vem-me à lembrança a fantasia que tínhamos, minha irmã e eu, de sermos outras pessoas: Éramos Sônia e Ana, e eu, a primeira ou a segunda (não me lembro mais), por ser na realidade a número quatro entre inúmeros irmãos e suspeitar que deveria ser caro aprender balé, tinha então a fantasia não de possuir isso ou aquilo, mas sim a de ter aulas disso e daquilo. Das oito às nove era o balé; das nove às dez, patinação; das dez às onze aulas de equitação; à tarde, depois do colégio, aulas de línguas... E tudo voluntariamente, sem qualquer coerção materna.
E de fantasia em fantasia, acabei mesmo me enfronhando nas Línguas. Como prova, segue abaixo uma tradução:
“Entendemos por ‘poesia’, não apenas as palavras e as fórmulas dos poetas, mas um impulso místico, amalgamável, extático, visível ou latente em cada um de nós. Ele se manifesta através das palavras, mas também pelas emoções, paixões, sobressaltos, arrebatamentos, cantos, danças.”
Estou lutando no momento contra outro tipo de sobressalto. Aquele que me deixa apavorada, ao sentir quão frágil é a linha entre a sanidade e a insanidade. Sinto que a solução é alargar essa linha com muita emoção, paixão, arrebatamento, canto e dança.
E aí me transformei em blogueira!
Há anos que desejava transmitir as músicas de que gostava e, em minha santa ingenuidade, achava que isso demoraria muito para ser possível. Então, o segredo é desejar, e o universo nos satisfará. Daí a minha felicidade, aliás, alegria, já que é isso que importa, pois como disse John Locke: “Pergunte a si mesmo se você é feliz, e deixará de ser.”
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
BRASILIENSOPITECUS
Alexandra Rodrigues
O brasiliensopitecus é uma espécie capital do Planalto Central. A sua constituição resultou de um amplo processo migratório de terras distantes que o conduziu a deixar seus ancestrais e a se aventurar, no centro do território Brasilis, a um encontro com uma surpreendente diversidade de espécies.
O brasiliensopitecus típico acorda todos os dias entre o verde e o céu, separado de ambos apenas pelo concreto do seu apartamento. Falamos, entenda-se, do planopitecus, esse homo alado que voa nas asas de uma vida relativamente confortável, entre um parque ecológico, um ministério e um shopping. Nenhum outro brasiliensopitecus se desloca tão rápida e naturalmente entre os espaços abertos, verdes e ensolarados de uma natureza superabundante e os espaços fechados de luz branca, com elevadores ou escadas rolantes. Assinale-se que o lagopitecus - a variante lacustre do brasiliensopitecus - compartilha esse estilo de vida, resguardando-se as especificidades dessa variação genética.
Outra variante do brasiliensopitecus - o satelitopitecus - reside em cidades com segurança e prosperidade inversamente proporcionais à distância a que se situa do brasilensopitecus. Os satelitopitecus das mais variadas condições sócio-econômicas afluem todos os dias, em abundante escala, ao espaço dos planopitecus, assegurando o comércio, os serviços e grande parte da função pública, tornando-se como que habitantes sem habitação.
O brasiliensopitecus alado e lacustre é uma espécie de grandes simetrias geográficas, mas de escandalosas assimetrias sociais. Dentro de suas casas assentes sobre a terra ou sobrepostas em camadas de seis andares organizados em blocos, por ordem inteiramente alfabética, podem ser identificadas duas áreas peculiares, tradicionalmente denominadas de área social e área de serviço. Na primeira convivem os seres alados e os lacustres, e na segunda os seres denominados de perifericopitecus. Estes percorrem diariamente enormes distâncias para servir aos brasiliensopitecus, limpando e cozinhando, e assim angariam seu sustento, tradicionalmente denominado de salarius minimus. Aqueles periferopitecus que não acordam às 4 da manhã para percorrer dezenas de quilômetros em precários transportes superlotados, moram nos apartamentos e casas dos planopitecus, geralmente em minúsculos cubículos anexos à cozinha, onde convivem com a roupa para passar, o aspirador e outros indispensáveis utensílios dos seres alados e lacustres.
Não se entra diretamente nos apartamentos dos habitantes alados. Quando algum visitante chega aos blocos de moradia dos planopitecus, dirige-se a um periferopitecus que fica o dia inteiro dentro de um minúsculo compartimento situado na base do prédio, e é este ser quem se comunica com o planopitecus do apartamento, anunciando a chegada do visitante e solicitando autorização para a sua entrada. Só então este tem acesso a uma porta que o periferopitecus abre, por meio de um comando operado pelo dedo indicador da sua mão direita.
Geralmente os periferopitecus que guardam as entradas dos blocos de habitação dos planopitecus moram na base do prédio com suas famílias, em um espaço menor que a sala do planopitecus. A sua remuneração é diretamente proporcional ao espaço que ocupam. Porém, as suas habilidades revelam-se inversamente proporcionais ao salarius minimus e ao espaço ocupado, haja vista que os planopitecus não sabem em geral fazer tarefas básicas como consertar seus eletrodomésticos, regular a descarga de seus vasos sanitários ou até mesmo resolver problemas com suas luminárias ou seus confortáveis chuveiros. Esta realidade merece ser investigada pela ciência, visto que a escolaridade e a preparação intelectual dos planopitecus é supostamente superior à dos periferopitecus funcionários de seus lares; o que afinal não é tão certo assim, visto que os planopitecus nomeiam suas ruas apenas com letras e números, em lineares combinações de 1 a 16, na casa das centenas, repetindo sempre as letras S e Q e variando apenas os símbolos que designam os pontos cardeais.
A propósito de pontos cardeais, pode-se afirmar que o brasilensopitecus é uma espécie muito orientada: sempre informa em que ponto cardeal se encontra, para qual está se deslocando e sabe invariavelmente em que ponto cardeal se situam lojas, farmácias, escolas, hospitais. O brasiliensopitecus não é apenas orientado, mas também espaçoso e ao mesmo um tanto megalomaníaco: ele gosta de superquadras, de superempregos (para poucos, reconheça-se), de super e até de hipermercados.
O brasiliensopitecus ocupa um espaço atravessado por eixos, eixinhos e eixões que regulam seus movimentos vitais. Constituído por cabeça, tronco e rodas, não necessariamente por essa ordem, ele dirige seus modernos meios de transporte pelas amplas avenidas da cidade. As largas e longas pistas são um convite à velocidade, controlada por estranhos aparelhos com nome de pássaro. Embora geralmente mais educado no trânsito do que outras espécies tropicais, por vezes provoca acidentes que derrubam árvores, postes e vidas.
A propósito, no final de uma das asas ocupadas pelos planopitecus, uma quantidade surpreendente de hospitais, aliada à existência de um gigantesco cemitério, sugere que os seus habitantes se envolvam com frequência em conflitos bélicos. De fato, os brasiliensopitecus não raro são atacados pelos habitantes de outras cidades, e até do país inteiro, e acusados, equivocadamente, de serem os responsáveis por diversas calamidades públicas, o que acarreta ferimentos danosos à sua dignidade e reputação.
A despeito dos ataques e agressões sofridas, com projéteis disparados por todos os meios de comunicação, o planopitecus é fiel à sua cidade e consideravelmente preocupado com a realidade da periferi(d)a, embora raramente a visite. Aliás, acredita-se que tenha havido inicialmente uma massiva onda migratória de homens especialmente fortes para a construção das asas da cidade; mas há evidências de que os construtores tenham sido posteriormente expulsos para as áreas periféricas, por motivos até hoje desconhecidos. Suspeita-se de poderes ameaçadores que se infiltram e instalam, em progressão geométrica, no território nativo desta espécie, a qual originariamente reconhecia apenas três poderes estruturantes da sociedade.
É em meio a esses mistérios e contradições que se desenvolve essa espécie capital de promissor futuro, o brasiliensopitecus, com suas originais e contrastantes variações. Entretanto, pesquisadores atuais levantam pertinentes questionamentos: como evoluirá essa nova espécie que se fixou no Planalto Central do território Brasilis? Que devir terá o brasiliensopitecus, criador de uma civilização plena de contradições sociais e marcada por tão acentuadas diferenças culturais? Como será construída a síntese dessa diversidade? Ocorrerá, no futuro, um embate decisivo entre os planopitecus e os periferopitecus? Poderão os espaços verdes e ensolarados do brasiliensopitecus transformar-se em espaços fechados com luz branca e folhas verdes de outra natureza? Sobreviverá ele, como espécie, aos poderes que vorazmente se instalam no seu habitat?
Afinal, quais serão, daqui a milhares de anos, os achados arqueológicos em relação a essa civilização tão singular?
Marcadores:
Alexandra Rodrigues
sábado, 1 de janeiro de 2011
Capítulo IV
Em minha temporada carioca anual, dia ensolarado, voltando do mar, ou melhor, da beira-mar por causa da poluição, reparo que, diante da pequena inclinação da areia, dou uma corridinha - seria para tomar impulso? Do portão da minha casa até à porta da entrada, venço a ladeirinha do mesmo modo, como uma menina. Não que desgoste da criança interior, mas, vou corrigir isso, pois, uma mulher tem que ter um molejo machucado, indolente e sensual. Vinicius tinha razão. E agora, curtirei a praia, guardando caneta e óculos. Onde está o estojinho deles? Sumiu dentro da bolsa! Impressionante como as coisas desaparecem e até notas, que escrevemos como lembretes, parecem ter ojeriza às pessoas de certa idade, ou curtem a brincadeira de esconde-esconde.
Voltando da praia de ônibus, senta-se ao meu lado uma mulher, que me pergunta se o mar estava bom. Coisa de carioca que, tendo que trabalhar, quer ouvir que a água estava suja. Depois de satisfazê-la com o que queria escutar, despejei minha indignação de brasileira:
- Vou escrever para "O Globo" e perguntar como o prefeito tolera que os ônibus indiquem a direção em inglês. Não sou xenófoba, mesmo porque sou tradutora e adoro ler em outras línguas, mas protesto contra o letreiro "Sugar Loaf" nos ônibus do Rio. Não se traduz nomes próprios. Vide "Taj Mahal", "Machu Picchu" e outros. De mais a mais, não devemos subestimar a capacidade de aprendizado do turista, nem sempre americano.
A sugestão da professora de inglês, Maria Eugênia, a quem desabafei minha perplexidade, é a de que a informação do destino "Pão de Açúcar" fosse ladeada com uma foto do ponto turístico.
- Perfeito!
Já não o é o fato de um pai, estando na praia sob um calor escaldante, perguntar à filhinha se ela queria se molhar em um daqueles chuveiros na areia, em vez de simplesmente levá-la. A criaturinha nada entende de desidratação e insolação. Os pais devem ser mais afirmativos e tomar a decisão por seus pimpolhos, em inúmeras e diversas situações, como a hora de sair da praia ou a escolha do filme a ser alugado. De preferência, não violento.
- Alô, Mate limão gelado!
- Sundow, protetor, Rayto!
- Canga!
- Picolé de fruta, um real!
- Olha o Globo!
- Sorvete Itália, Kibon!
Quando passar o próximo vendedor, vou lhe sugerir apregoar as horas. Garanto que venderia mais, pois, no meio da enxurrada de vendedores, faria a diferença dando algo em troca.
Abro o jornal para ver a informação sobre o estado da água do mar, se está própria ou imprópria para banhos, já que os coliformes fecais não são visíveis a olho nu, e me deparo com um comentário à carta que saíra publicada no jornal, complementada com um desenho do Pão de Açúcar!
Pão de Açúcar
Respeito a carta de Angela de M. Delgado, mas não concordo em que Pão de Açúcar seja um nome próprio que não se possa traduzir. A residência do presidente americano, White House, tem nome português, Casa Branca. Os francófonos a chamam Maison Blanche, e em espanhol é Casa Blanca. A Torre Eiffel, em seu país é Tour Eiffel, e, para os anglo-saxônicos, Eiffel Tower. Então, é perfeitamente normal que o Pão de Açúcar tenha nome distinto em inglês (Sugar Loaf), como tem em francês (Pain de Sucre). Isso indica um claro interesse dos turistas pelo monumento: afinal, só se chama algo em nossa própria língua se nos interessa de verdade."
O susto foi passageiro, porque logo brotou em mim a resposta:
O senhor..................... em sua carta reforçou meu ponto de vista. Os americanos não dizem "Casa Branca"e sim "White House".
Publiquei três livros e neles há algumas expressões em inglês, francês, citações em espanhol e em italiano. Não sou contra esse tipo de globalização. Questiono a inversão, no Brasil, pelos próprios brasileiros, dos respectivos itinerários das linhas de ônibus. Uma cidadã brasileira, não obrigada a saber inglês, querendo ir ao Pão de Açúcar, pode esperar muito no ponto, enquanto passam ônibus para "Sugar Loaf", que não lhe diz nada. A língua aqui ainda é o português, como a Torre Eiffel, em seu país, é chamada de "Tour Eiffel".
Bem lembrado!
Voltando da praia de ônibus, senta-se ao meu lado uma mulher, que me pergunta se o mar estava bom. Coisa de carioca que, tendo que trabalhar, quer ouvir que a água estava suja. Depois de satisfazê-la com o que queria escutar, despejei minha indignação de brasileira:
- Vou escrever para "O Globo" e perguntar como o prefeito tolera que os ônibus indiquem a direção em inglês. Não sou xenófoba, mesmo porque sou tradutora e adoro ler em outras línguas, mas protesto contra o letreiro "Sugar Loaf" nos ônibus do Rio. Não se traduz nomes próprios. Vide "Taj Mahal", "Machu Picchu" e outros. De mais a mais, não devemos subestimar a capacidade de aprendizado do turista, nem sempre americano.
A sugestão da professora de inglês, Maria Eugênia, a quem desabafei minha perplexidade, é a de que a informação do destino "Pão de Açúcar" fosse ladeada com uma foto do ponto turístico.
- Perfeito!
Já não o é o fato de um pai, estando na praia sob um calor escaldante, perguntar à filhinha se ela queria se molhar em um daqueles chuveiros na areia, em vez de simplesmente levá-la. A criaturinha nada entende de desidratação e insolação. Os pais devem ser mais afirmativos e tomar a decisão por seus pimpolhos, em inúmeras e diversas situações, como a hora de sair da praia ou a escolha do filme a ser alugado. De preferência, não violento.
- Alô, Mate limão gelado!
- Sundow, protetor, Rayto!
- Canga!
- Picolé de fruta, um real!
- Olha o Globo!
- Sorvete Itália, Kibon!
Quando passar o próximo vendedor, vou lhe sugerir apregoar as horas. Garanto que venderia mais, pois, no meio da enxurrada de vendedores, faria a diferença dando algo em troca.
Abro o jornal para ver a informação sobre o estado da água do mar, se está própria ou imprópria para banhos, já que os coliformes fecais não são visíveis a olho nu, e me deparo com um comentário à carta que saíra publicada no jornal, complementada com um desenho do Pão de Açúcar!
Pão de Açúcar
Respeito a carta de Angela de M. Delgado, mas não concordo em que Pão de Açúcar seja um nome próprio que não se possa traduzir. A residência do presidente americano, White House, tem nome português, Casa Branca. Os francófonos a chamam Maison Blanche, e em espanhol é Casa Blanca. A Torre Eiffel, em seu país é Tour Eiffel, e, para os anglo-saxônicos, Eiffel Tower. Então, é perfeitamente normal que o Pão de Açúcar tenha nome distinto em inglês (Sugar Loaf), como tem em francês (Pain de Sucre). Isso indica um claro interesse dos turistas pelo monumento: afinal, só se chama algo em nossa própria língua se nos interessa de verdade."
O susto foi passageiro, porque logo brotou em mim a resposta:
O senhor..................... em sua carta reforçou meu ponto de vista. Os americanos não dizem "Casa Branca"e sim "White House".
Publiquei três livros e neles há algumas expressões em inglês, francês, citações em espanhol e em italiano. Não sou contra esse tipo de globalização. Questiono a inversão, no Brasil, pelos próprios brasileiros, dos respectivos itinerários das linhas de ônibus. Uma cidadã brasileira, não obrigada a saber inglês, querendo ir ao Pão de Açúcar, pode esperar muito no ponto, enquanto passam ônibus para "Sugar Loaf", que não lhe diz nada. A língua aqui ainda é o português, como a Torre Eiffel, em seu país, é chamada de "Tour Eiffel".
Bem lembrado!
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Terceiro capítulo
Cansada de quê, se não faz nada?
Angela Delgado
Dita de brincadeira ou não, é uma frase típicamente machista, além de ser a mais equivocada de todas, pois não há nada tão sobrecarregado quanto esse "nada" na vida das mulheres. Se ele pudesse ser "desembrulhado" seria um infindável rosário de atividades repetitivas e cansativas, pois, enquanto todos dormem, pessoas que não fazem "nada" estão a mil, e ai de todos se fôssemos fazer jus à frase ingrata. Se não tivéssemos tantas coisas a nos ocupar, poderíamos cuidar de nossos interesses, acabar de ler aquele livro interessante e, quem sabe, até escrever um?
Livro que começaria assim:
Pela habilidade de achar objetos perdidos, sou muito solicitada e embora perdendo minutos preciosos ao procurá-los, faço-o com prazer, já que costumo me sair bem em tais empreitadas.
Ou assim:
Davi, um menininho de oito anos, reclama choramingando:
- Todo dia você me manda tomar banho?
Essa ordem não foi dada por sua mãe que, para se livrar do estresse provocado pelas crianças, se ofereceu a ir à padaria, quando eu estava de saída para comprar pão. E ela já me perguntou como vou viajar e deixá-la com seus quatro filhos, justamente na época de seu TPM.
Acho que nunca tive TPM, pois essa manifestação de mau humor foi rotulada há pouco tempo. Em compensação, estou há dois anos, com dor na cervical. Fui a vários ortopedistas, fiz massagem, acumpuntura, fisioterapia e, como ninguém conseguiu debelá-la, marquei consulta com um bam-bam-bam de Brasília. O problema é que sempre a secretária desmarca. Na última vez, meu marido atendeu o telefone.
- É aquele médico que brinca de marcar consulta?
Depois, a secretária me ligou: - A senhora não retornou a ligação...
- Para que o faria, se a consulta foi desmarcada?
- Para remarcá-la!
- Obrigada, desisti desse médico.
Marquei, então, um horário com um osteopata, mas, como irei ao Rio, onde tenho um primo ortopedista, resolvi aderir ao costume da desmarcação.
Quase na hora do compromisso médico, saio do banho para telefonar e nossa secretária Adélia, a quem havia instruído a não confirmar a consulta, me conta que haviam ligado do consultório, informando que o osteopata estava doente. - Que bom! Dissera ela, logo se explicando que não era porque ele estava doente, e sim porque eu não poderia mesmo ir.
E assim foi confirmada a vontade de Deus de que o meu primo se encarregasse do problema. Sua secretária contou-me que as pacientes costumam lhe perguntar como ele é: velho, moço, bonito ou feio.
Ela, inteligentemente, não revela que se trata do seu marido e diz:
- Entre, depois a senhora me fala o que achou. E elas saem encantadas: - É um pão, vou investir nele!
E ele me disse brincando que sua mulher respondeu: - Pena que é gay!
O que não é nada engraçado é o fato de minha neta ficar vomitando no Corolla que cobiço comprar. Sim, porque o Xsara foi Filha Casada quem nos vendeu e agora, se quisesse fazer o mesmo com o carro automático com um som maravilhoso, eu me candidataria.
- Filha, a cada vômito o carro se desvaloriza em mil reais.
- Mãe, vou trocar o estofamento de couro por um novinho e ele vai se valorizar.
- Você quer dizer que ele vai parar de se desvalorizar.
Estava eu ocupada a digitar estas linhas, quando Davi veio me perguntar se havia me dito qual era sua senha do gmail.
Ah, bom, se com oito anos já se começa a esquecer senhas, o esquecimento não é apanágio da minha idade. Mas, não vou anotar mais nada mesmo e vou viver "on"line", para registrar as hilaridades diárias, como Filha Caçula que levanta, embora demore um pouco a acordar.
- Filha, fomos convidados a comer um strogonoff.
- Hein, feijoada, onde?
Ai, Jesus... Já as primeiras palavras da neta de seis anos ao acordar são:
- Cadê o laptop da mamãe?
Eu jamais empresto o meu. Filha Casada caiu nesse erro e deu no que deu: Filhos completamente viciados em telinhas. Como eles não herdaram isso de mim, minha "praia"sendo bem outra, fui ao cardiologista levar-lhe um convite para o lançamento do meu último livro:
- Vim aqui mais para entregar-lhe esse convite, porque não vou morrer tão cedo. Se Deus quisesse que eu fosse agora, teria aproveitado a oportunidade do acidente do qual fui vítima há alguns dias: Vinha eu calmamente, quando senti o impacto de uma bala de canhão atingindo o meu carro de frente, o air-bag estourando e queimando o braço. Conforme uma testemunha, o pneu do carro de um rapaz vindo em direção contrária à minha havia estourado, ele perdera o controle, o carro rodou e veio com tudo em cima de mim.
Deus, obrigada por estar viva.
Na saída do consultório, conversando enquanto esperava o elevador, depois de ter comentado que não ia ao cardiologista há três anos e que era surpreendente como o tempo estava passando rápido, uma senhora disse-me que tinha um amigo na UnB que lhe dissera que a aceleração do tempo era real e não impressão nossa.
- Um amigo na UNB? (Era o gancho que faltava) Pois, na Feira de Livros aqui pertinho, ao lado do estande da Livraria da Universidade, há o da Editora Thesaurus, onde está o meu novo livro.
- Você é escritora?
- Sou (admitindo-o pela primeira vez, pois prefiro dizer que publiquei alguns livros).
- E o livro é bom?
- Ótimo!
- Você tem autoestima. Gostei. Vou lá.
Foi? Foi nada. Não sei o que sucede com esse povo. Diz que vai, não vai. Diz que gosta de ler, mas, não compra livros...
Deixa pra lá. Enquanto isso, me divirto com a astúcia do meu neto. Quando comentei com ele que, embora o ventilador do teto não estivesse ligado, sua sombra se movimentava, comentou:
- Vó, é a luz da tv que provoca a sombra do ventilador e, quando há alguma mudança de luminosidade, ela se reflete nessa sombra.
- Ah, bom, pensei que estivesse vendo fantasmas.
–
Angela Delgado
Dita de brincadeira ou não, é uma frase típicamente machista, além de ser a mais equivocada de todas, pois não há nada tão sobrecarregado quanto esse "nada" na vida das mulheres. Se ele pudesse ser "desembrulhado" seria um infindável rosário de atividades repetitivas e cansativas, pois, enquanto todos dormem, pessoas que não fazem "nada" estão a mil, e ai de todos se fôssemos fazer jus à frase ingrata. Se não tivéssemos tantas coisas a nos ocupar, poderíamos cuidar de nossos interesses, acabar de ler aquele livro interessante e, quem sabe, até escrever um?
Livro que começaria assim:
Pela habilidade de achar objetos perdidos, sou muito solicitada e embora perdendo minutos preciosos ao procurá-los, faço-o com prazer, já que costumo me sair bem em tais empreitadas.
Ou assim:
Davi, um menininho de oito anos, reclama choramingando:
- Todo dia você me manda tomar banho?
Essa ordem não foi dada por sua mãe que, para se livrar do estresse provocado pelas crianças, se ofereceu a ir à padaria, quando eu estava de saída para comprar pão. E ela já me perguntou como vou viajar e deixá-la com seus quatro filhos, justamente na época de seu TPM.
Acho que nunca tive TPM, pois essa manifestação de mau humor foi rotulada há pouco tempo. Em compensação, estou há dois anos, com dor na cervical. Fui a vários ortopedistas, fiz massagem, acumpuntura, fisioterapia e, como ninguém conseguiu debelá-la, marquei consulta com um bam-bam-bam de Brasília. O problema é que sempre a secretária desmarca. Na última vez, meu marido atendeu o telefone.
- É aquele médico que brinca de marcar consulta?
Depois, a secretária me ligou: - A senhora não retornou a ligação...
- Para que o faria, se a consulta foi desmarcada?
- Para remarcá-la!
- Obrigada, desisti desse médico.
Marquei, então, um horário com um osteopata, mas, como irei ao Rio, onde tenho um primo ortopedista, resolvi aderir ao costume da desmarcação.
Quase na hora do compromisso médico, saio do banho para telefonar e nossa secretária Adélia, a quem havia instruído a não confirmar a consulta, me conta que haviam ligado do consultório, informando que o osteopata estava doente. - Que bom! Dissera ela, logo se explicando que não era porque ele estava doente, e sim porque eu não poderia mesmo ir.
E assim foi confirmada a vontade de Deus de que o meu primo se encarregasse do problema. Sua secretária contou-me que as pacientes costumam lhe perguntar como ele é: velho, moço, bonito ou feio.
Ela, inteligentemente, não revela que se trata do seu marido e diz:
- Entre, depois a senhora me fala o que achou. E elas saem encantadas: - É um pão, vou investir nele!
E ele me disse brincando que sua mulher respondeu: - Pena que é gay!
O que não é nada engraçado é o fato de minha neta ficar vomitando no Corolla que cobiço comprar. Sim, porque o Xsara foi Filha Casada quem nos vendeu e agora, se quisesse fazer o mesmo com o carro automático com um som maravilhoso, eu me candidataria.
- Filha, a cada vômito o carro se desvaloriza em mil reais.
- Mãe, vou trocar o estofamento de couro por um novinho e ele vai se valorizar.
- Você quer dizer que ele vai parar de se desvalorizar.
Estava eu ocupada a digitar estas linhas, quando Davi veio me perguntar se havia me dito qual era sua senha do gmail.
Ah, bom, se com oito anos já se começa a esquecer senhas, o esquecimento não é apanágio da minha idade. Mas, não vou anotar mais nada mesmo e vou viver "on"line", para registrar as hilaridades diárias, como Filha Caçula que levanta, embora demore um pouco a acordar.
- Filha, fomos convidados a comer um strogonoff.
- Hein, feijoada, onde?
Ai, Jesus... Já as primeiras palavras da neta de seis anos ao acordar são:
- Cadê o laptop da mamãe?
Eu jamais empresto o meu. Filha Casada caiu nesse erro e deu no que deu: Filhos completamente viciados em telinhas. Como eles não herdaram isso de mim, minha "praia"sendo bem outra, fui ao cardiologista levar-lhe um convite para o lançamento do meu último livro:
- Vim aqui mais para entregar-lhe esse convite, porque não vou morrer tão cedo. Se Deus quisesse que eu fosse agora, teria aproveitado a oportunidade do acidente do qual fui vítima há alguns dias: Vinha eu calmamente, quando senti o impacto de uma bala de canhão atingindo o meu carro de frente, o air-bag estourando e queimando o braço. Conforme uma testemunha, o pneu do carro de um rapaz vindo em direção contrária à minha havia estourado, ele perdera o controle, o carro rodou e veio com tudo em cima de mim.
Deus, obrigada por estar viva.
Na saída do consultório, conversando enquanto esperava o elevador, depois de ter comentado que não ia ao cardiologista há três anos e que era surpreendente como o tempo estava passando rápido, uma senhora disse-me que tinha um amigo na UnB que lhe dissera que a aceleração do tempo era real e não impressão nossa.
- Um amigo na UNB? (Era o gancho que faltava) Pois, na Feira de Livros aqui pertinho, ao lado do estande da Livraria da Universidade, há o da Editora Thesaurus, onde está o meu novo livro.
- Você é escritora?
- Sou (admitindo-o pela primeira vez, pois prefiro dizer que publiquei alguns livros).
- E o livro é bom?
- Ótimo!
- Você tem autoestima. Gostei. Vou lá.
Foi? Foi nada. Não sei o que sucede com esse povo. Diz que vai, não vai. Diz que gosta de ler, mas, não compra livros...
Deixa pra lá. Enquanto isso, me divirto com a astúcia do meu neto. Quando comentei com ele que, embora o ventilador do teto não estivesse ligado, sua sombra se movimentava, comentou:
- Vó, é a luz da tv que provoca a sombra do ventilador e, quando há alguma mudança de luminosidade, ela se reflete nessa sombra.
- Ah, bom, pensei que estivesse vendo fantasmas.
–
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Continuação de "Beijos na Alma" - Angela Delgado
“Graças a Deus a primavera chegou!
– Graças a Deus cheguei à primavera.
– E eu dizendo trivialidades! “
Mafalda
E quem não as diz é Mia Couto: “O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda basta o tempo.”
Em tempos idos, minha mãe acordava o “primeiro time”, que eram seus filhos maiores, em horários diversos e bem próximos: 7h15, 7h30 e por aí iam.
Hoje, esquecendo- me de que não havia aula, entrei no quarto dos netos. Davi, logo acorda e diz: – “É sábado, vó!” ao que João, que nos outros dias demora uma eternidade para se levantar, rápido liga a televisão.
– É sábado? Voltem a dormir!
Voltaram? Claro que não. E aprendi como fazê-los sair da cama na segunda- feira, dia em que acenderei a luz e pedirei desculpas: – Esqueci que hoje é sábado!
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Beijos na alma - Angela Delgado
Meu pai faleceu há um ano e, quando li no livro do Mia Couto, Um rio chamado tempo, sobre a ausente permanência de quem morreu, concordei inteiramente com ele: “Morto amado nunca mais para de morrer.” A beleza do livro enche meu coração. Por isso, fecho-o e vou dormir com a frase:
“... em todo o lado, mesmo no invisível, há uma porta.”
No dia seguinte, repreendo um dos meus netos por algum excesso e ele, mudando o refrão “Vovó é malvadinha!”, retruca, todo charmoso: - Você não me ama mais..
Em minha caminhada, fui colocando, de casa em casa, o convite/participação/divulgação de meu novo livro. É tão gostoso "esperar pela festa", aliás, esta é a festa: deparar-me com as pessoas saindo para o trabalho, perguntar se elas gostam de ler; ouvir um "gosto muito" ou "sou formada em Letras" e, então, entregar o convite com um sorriso; receber outro e seguir adiante com meu Ipod e minha festa interior, ouvindo Bach, Offenbach, Cesaria Evora, Louis Armstrong, Oswaldo Montenegro, Paulo Conte etc.
Espero que a pessoa pense que pelo meu esforço em subir ladeiras mereço sua presença na Feira de Livros...
“Qual o melhor filme de terror?” Essa pergunta insistente de um Jornal (!) é, para mim, tão incongruente quanto seria a enquete “A qual nazista você concederia o prêmio Nobel da paz?”. Levei realmente um susto ao ver a palavra “melhor” associada ao terror. Mas, talvez o Jornal quisesse dizer “menos pior”, porém, como diz um dos meus irmãos, a minoria não deve gastar energia lutando contra a maioria. É frustrante, mas, de consciência limpa, vou tratar de coisas mais valiosas.
Ia, porque acabo de receber um e-mail do Jornal pedindo o meu endereço para que o
protesto seja encaminhado aos editores. Ai, em que fui me meter. Tomara que não apedrejem a minha casa...
E é nela que ao ler em um prefácio, que “crônica é tudo aquilo que for manchete na alma do cronista”, chego à conclusão de que meus livros são todos de crônicas.
A de hoje começa com a constatação de que, depois do maremoto na vida de Filha Mais Velha que a trouxe para minha casa com armas e bagagens, incluindo seus quatro filhos, começo a não me incomodar mais com uma boneca no chão, um casaco jogado na cama, um sapato no meio do caminho, uma mochila no sofá, uma sandália embaixo da mesa, um lego aqui, um lego lá, roupas emboladas, um boné perdido e um ioiô na sala. Isso após seis meses abaixando, levantando, guardando e colocando no lugar tudo o que sempre teima em ficar fora dele, como brinquedos, roupas e sapatos.
Tenho ou tinha a estranha mania de deixar sapatos unidos (sou romântica até nisso?) com solas para baixo... Estou curada dessa neurose e não ligo mais se estão um aqui outro lá, virados de lado ou de sola pra cima, confirmando a teoria de que a terceira idade é a da liberação.
Afinal de contas passei anos da minha vida dormindo com tudo no lugar e todos os lápis das crianças apontados. Tudo a seu tempo e como aconselha meu guru e irmão mais velho: devo me restringir agora aos prazeres, à leitura e à música, que são beijos em minha alma.
Um sério problema na cervical talvez tenha algo a ver com essa minha recente indiferença à bagunça generalizada.
Falando em indiferença ou ingratidão ou qualquer sentimento negativo, fui levada, por psiquiatras alheios, a achar que o grande vilão da humanidade é o Adão. Sim porque a culpa é sempre dos pais. Antes, porém, de serem considerados vilões, devem ser vistos como vítimas, já que tendo um dia sido filhos, não têm culpa de nada.
Ressalvando-se casos em que pais têm culpa no cartório, como aqueles que espancam seus filhos, a maioria tem boa-vontade e faz o que pode por sua prole.
“... em todo o lado, mesmo no invisível, há uma porta.”
No dia seguinte, repreendo um dos meus netos por algum excesso e ele, mudando o refrão “Vovó é malvadinha!”, retruca, todo charmoso: - Você não me ama mais..
Em minha caminhada, fui colocando, de casa em casa, o convite/participação/divulgação de meu novo livro. É tão gostoso "esperar pela festa", aliás, esta é a festa: deparar-me com as pessoas saindo para o trabalho, perguntar se elas gostam de ler; ouvir um "gosto muito" ou "sou formada em Letras" e, então, entregar o convite com um sorriso; receber outro e seguir adiante com meu Ipod e minha festa interior, ouvindo Bach, Offenbach, Cesaria Evora, Louis Armstrong, Oswaldo Montenegro, Paulo Conte etc.
Espero que a pessoa pense que pelo meu esforço em subir ladeiras mereço sua presença na Feira de Livros...
“Qual o melhor filme de terror?” Essa pergunta insistente de um Jornal (!) é, para mim, tão incongruente quanto seria a enquete “A qual nazista você concederia o prêmio Nobel da paz?”. Levei realmente um susto ao ver a palavra “melhor” associada ao terror. Mas, talvez o Jornal quisesse dizer “menos pior”, porém, como diz um dos meus irmãos, a minoria não deve gastar energia lutando contra a maioria. É frustrante, mas, de consciência limpa, vou tratar de coisas mais valiosas.
Ia, porque acabo de receber um e-mail do Jornal pedindo o meu endereço para que o
protesto seja encaminhado aos editores. Ai, em que fui me meter. Tomara que não apedrejem a minha casa...
E é nela que ao ler em um prefácio, que “crônica é tudo aquilo que for manchete na alma do cronista”, chego à conclusão de que meus livros são todos de crônicas.
A de hoje começa com a constatação de que, depois do maremoto na vida de Filha Mais Velha que a trouxe para minha casa com armas e bagagens, incluindo seus quatro filhos, começo a não me incomodar mais com uma boneca no chão, um casaco jogado na cama, um sapato no meio do caminho, uma mochila no sofá, uma sandália embaixo da mesa, um lego aqui, um lego lá, roupas emboladas, um boné perdido e um ioiô na sala. Isso após seis meses abaixando, levantando, guardando e colocando no lugar tudo o que sempre teima em ficar fora dele, como brinquedos, roupas e sapatos.
Tenho ou tinha a estranha mania de deixar sapatos unidos (sou romântica até nisso?) com solas para baixo... Estou curada dessa neurose e não ligo mais se estão um aqui outro lá, virados de lado ou de sola pra cima, confirmando a teoria de que a terceira idade é a da liberação.
Afinal de contas passei anos da minha vida dormindo com tudo no lugar e todos os lápis das crianças apontados. Tudo a seu tempo e como aconselha meu guru e irmão mais velho: devo me restringir agora aos prazeres, à leitura e à música, que são beijos em minha alma.
Um sério problema na cervical talvez tenha algo a ver com essa minha recente indiferença à bagunça generalizada.
Falando em indiferença ou ingratidão ou qualquer sentimento negativo, fui levada, por psiquiatras alheios, a achar que o grande vilão da humanidade é o Adão. Sim porque a culpa é sempre dos pais. Antes, porém, de serem considerados vilões, devem ser vistos como vítimas, já que tendo um dia sido filhos, não têm culpa de nada.
Ressalvando-se casos em que pais têm culpa no cartório, como aqueles que espancam seus filhos, a maioria tem boa-vontade e faz o que pode por sua prole.
Assinar:
Postagens (Atom)