terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ficção ou realidade? Fique são!

Ficção ou realidade? Fique são!
Cair na real?
Decido permanecer de pé,
pé ante pé, ante tantos perigos.
Realidade é cimento, concreto,
é ciumento projeto que proíbe outras versões?
Como assim, se não abro mão nem dos pequenos versos?
Quero os verões para transpirar a saudade
e o inverno para aquecer-me na chama.
A chama da vida me chama, ávida e por isso mais viva.
Deixem-me com minhas intuições ilógicas,
com minha lógica intuitiva,
com a serenidade aflitiva
que é meu emblema.
Feito um poema
que nem preciso escrever.
Só ser.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

As Cariátidas - Anngela Delgado





Ligo o computador, dou bom-dia à minha mãe em meu plano de fundo.
Bem ao lado de seus olhinhos vivos, a Claro me informa que estou off line. Quem me dera se Steve Jobs, lá de cima mesmo, pudesse nos proporcionar a maravilha de, ao justapor a seta à imagem, pudéssemos trazê-la para um papo on line....
Ontem, fui buscar um dos meus netos no Shopping. Antes, dou uma entradinha à procura de uma bolsa e saio de lá, com um lindo dicionário de italiano, que agora está aqui ao meu lado, transfigurado em "professore", pronto a me auxiliar, como por exemplo se eu tiver uma dúvida neste parágrafo, de “Se una notte d´inverno um viaggiatore”, do Italo Calvino:
“... dona di temperamento sensibile e inquieto, che risente dell´isolamento cui la costringono la dislocazione geografica, ma è sostenuta dalla sua insaziable passione per la lettura...” (Ecco sono io!)
“La moglie del Sultano non deve mai restare sprovvista (desprovida) di libri di suo gradimento (agrado) : cè di mezzo una clausola del contratto matrimoniale, una condizione che la sposa ha posto al suo augusto pretendente prima (antes) d´acconsentire alle nozze... Dopo una placida luna de miele in cui la giovane sovrana riceveva le novità delle principali letterature occidentali nelle lingue originali che lei legge correntemente, la situazione è diventata spinosa... “ (difícil)
Gostei da mulher do sultão, e do livro então, nem se fala!
Coincidentemente, recebi hoje, um convite para ir à Grécia e à Itália! Ecco,uma compra bem oportuna a do dicionário. Começara a estudar italiano, ignorando que em breve estaria (estarei) usando palavras como: Mi fa piacere, Come se chiama, Benissimo, Lunedì, Martedì, Mercoledì, Giovedì, Venerdì,Sabato, Domenica, Domenica sera,Volentieri, Buonasera, e così via (etc.).
O plano do ano passado era ir à Hungria e à Tchecoslováquia e já estava me familiarizando com expressões bem mais difíceis, quando minha cunhada levou um tombo, e com ele caiu também por terra o passeio planejado, pois, sem nossa Locomotiva, a viagem não tinha mais sentido.
Este ano o roteiro é outro e tento decorar, além das palavras fáceis em italiano, palavras em grego...: Parakaló (por favor), Sas efaristó (obrigada), Signomi (desculpe), Póso Káni? (Quanto custa?), Kaliméra (Bom-dia) e kalinixta (boa-noite).

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Carta aberta a um poeta

Obrigada, Marcelinho, pelos belos comentários. Realmente minha mais nova descoberta é um senhor escritor, que deve ter ficado também bem impressionado com o poeta Marcelo. Passei o domingo inteiro lendo o blog dele e ontem acordei com ressaca literária, no bom sentido, claro! Mas, eu devia ter agido como você fará e lê-lo aos poucos. O que aconteceu foi que, para não ter que voltar em cada um dos duzentos posts para comentar, fui lendo e comentando, lendo e comentando. Uma vez, para voltar aos textos, tão enfeitiçada estava, um breve comentário: Ai,delícia! Deveria ter acrescentado que o Michel Teló não sabe o que é delícia... Resultado, me tornei uma potência em comentários e nem o deixei ler meu blog, por causa do "duelo de afagos", como ele disse.
Eu lia, comentava e ele respondia. Lia, comentava e ele respondia. Arre! Foi um ótimo domingo, mas agora vou dar um tempo. Para não cair na tentação de fazer o milésimo comentário, farei como faz quem quer parar de fumar, direi a mim mesma: só por hoje. Mesmo porque ele precisa acessar o seu blog, o do Luiz e trabalhar... acho que ainda no Banco do Brasil, que, insuspeitadamente, é cheio de gente da mais alta categoria...
O diabo é que meu notebook rapidamente se viciou no www.artevida. Vou deixá-lo hibernando enquanto, meio a contragosto, darei uma caminhada; pegar um pouco de sol, ouvindo música; cuidar da casa, das plantas e, como era de se esperar, voltar ao Italo Calvino, que está morto de ciúmes.
Se o viciado aqui não aguentar, te aviso e você me envia o que de novo houver e eu faço o comentário só pra você, que tal? Arrependi-me de ter tomado tanto tempo dele. Imagine, um candidato em potencial ao Nobel ficar se ocupando com uma ilustre desconhecida.
Quando disse isso a ele, ele desembainhou sua espada literária e reverteu para "desconhecida ilustre" etc e tal. Que gentil!

sábado, 11 de agosto de 2012

O fio da palavra - Tarlei Martins Ferreira

A palavra falada não passa de uma rajada acústica, de um aglomerado de sons. A palavra escrita não passa de um aglomerado de traços. Contudo, é espantoso o que pode uma palavra carregar de sentido, de significado, de sopro de vida inscrito na sua superfície. Eu fico pasmo. É o fio da palavra que nos leva a todos os lugares, a todas as pessoas, a todos os sentimentos, a nós mesmos… É no fio da palavra que me equilibro. É na palavra que me seguro. É da palavra que vem meu sustento metafísico. É pela palavra que me salvo. É com a palavra que leio o mundo. É para a palavra que peço proteção. É a palavra que compõe os silêncios de quando rumino. A palavra anda na cabeça, anda na boca de todos os homens… A palavra cura feridas. A palavra abre feridas. A palavra enlouquece. A palavra traz sanidade. A palavra lança luz. A palavra lança sombras. A palavra faz rir. A palavra faz chorar. A palavra dá esperança. A palavra tira esperança. A palavra esclarece. A palavra confunde. A palavra acalenta. A palavra desespera. Parafraseando o grande Bartolomeu Campos de Queirós, autor do belíssimo livro que dá título a esta mensagem, digo que a palavra é meu porto, minha porta, meu cais, minha rota… Sem a palavra não sou (somos) ninguém. Viva a palavra!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Botafogo

NAS RUAS DO RIO
AS CASAS SINGELAS
TORNARAM-SE CONSULTÓRIOS
EMPRESAS, LABORATÓRIOS.

DÓI-ME A ALMA
VER SUAS FACHADAS
OFUSCADAS POR LÂMPADAS PROFANAS
PLACAS INTRUSAS

AVISOS DE QUE O APREÇO
MUDOU DE ENDEREÇO
AINDA TENHO ACESAS NA LEMBRANÇA
AS LUZES AMARELADAS
QUE DAS CASAS EMANAVAM
POR ENTRE CORTINAS RENDADAS.

AINDA SINTO O CALOR DOS ABAJURES
OUÇO O SOM DOS PIANOS, VITROLAS
CONVERSAS E RISADAS
QUE VASAVAM COMO ACORDES ABAFADOS
DA SINFONIA DAS INTIMIDADES.

EMBORA VIVESSE MAIS NOS BARES
BEBIA EM SEGREDO
O ACONCHEGO DOS LARES
SILENCIOSO E FURTIVO.

CAMINHAVA PELOS BAIRROS
ALIMENTAVA-ME DE JASMINS
EMBRIAGAVA-ME COM JARDINS.

IMAGINO OS CORREDORES INVADIDOS
QUARTOS VIOLADOS
TRANSFORMADOS EM DEPARTAMENTOS
COMPUTADORES E SECRETÁRIAS
NAS SALAS DE JANTAR
COPAS ECOZINHAS
COMO DEPÓSITOS, ALMOXARIFADOS
RECANTOS DESNUDADOS
INTERIORES DESTITUIDOS
DO ENCANTO DOS ABRIGOS.

COMO É DIFÍCIL ACEITAR
AQUELE ENTRA E SAI
DE GENTE QUE NADA SABE
DO SIGNIFICADO DOS PORTÕES
E QUE POR ELES PASSAM, BOVINOS,
MASCANDO A RELVA DAS RUÍNAS
PASTANDO INOCENTES
NO TESOURO DE TANTAS LEMBRANÇAS.

NÃO É O NOVO QUE CHORO
MAS A AUSÊNCIA DO ANTIGO
A HISTÓRIA QUE MORRE COMIGO.
AGORA, JÁ NÃO RIO.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Com tradições

Há uma eternidade
Entre a vida e a morte
Há mistérios infindáveis
Que circundam a minha mente
Por quê tenho que viver uma só idade?
De manhã acordo com 50,
Mais à tarde mal tenho 5!
À noitinha deleito-me com 18!
De madrugada chego aos 90!
Que viagem mais incoerente!
Quem sabe me desenho na esquina com sorte?

domingo, 8 de julho de 2012

XLVII (último capítulo de "Beijos na Alma)"

Ao final da missa de sétimo dia parecíamos conformados com a “velinha” extinta. Fora melhor para ela – dizíamos – avançada em anos, não falava mais, quase não ouvia e totalmente dependente, até para andar.
Mas sua ausência sempre presente tornou o sofrimento elástico. Quanto mais o tempo se dilata, maior é a saudade, contrariando o ditado "longe dos olhos, longe do coração".
Ao final da missa de trigésimo dia, parecíamos contentes, abraçando irmãos, primos e amigos não vistos por muito tempo. Ficara surpreendida. Minha mãe se fora, e eu, que tinha certeza que desabaria quando isso acontecesse, estava firme como rocha!
Ignorava que a dor cravada lá no fundo, iria aflorar pouco a pouco, sempre e com toda a fúria, na mesma intensidade do punhal que,à medida que se retira,traz em sua lâmina carne viva, sangue e lágrimas.
De que adianta meu dom de achar o que se perde? Queria achar a minha mãe!
Ao que, com o intuito de me consolar, um amigo escreveu: Angela, você não vai encontrar sua mãe por um motivo muito simples: você não a perdeu.
Fiquei com os olhos cheio d'água, mas minha irmã Quérida disse que eu a tinha dentro de mim.
Realmente, no entanto não a sabia tão chorona...
E, entre lágrimas; arrumações cada vez mais esporádicas de prateleiras e gavetas (sempre que termino uma faxina, penso: agora sim, a casa estaria pronta para receber a minha irmã, que afinal não veio. O tempo passa, arrumações são novamente necessárias, no eterno trabalho doméstico nunca valorizado, mas reconhecido por quem o realizou e isso quase que basta) e o acompanhamento pelo Facebook da escalada do meu neto primogênito ao Pico da Bandeira, mergulho em "Se una notte d’inverno um viaggiatore", de Italo Calvino, em uma re-releitura, desta vez no original, para aprender uma língua nova,tentando afastar a doença de Alzheimer, de maneira pra lá de prazerosa.Delícia de livro. Acordo com todo o gás, louca para abri-lo.
Leio, agradecendo a quem me deu esse grande interesse e ocupação, mas de vez em quando, surge a vontade de emergir para compartilhar o meu fascínio. No entanto, me contenho, pois as pessoas vivem mundos diferentes e as diversas fases não coincidem. Quando estou pairando nas alturas de um enlevo literário, outras estão chegando a casa, cansadas, sem ânimo ou tempo para curtirem as páginas que me deixam feliz.
Comecei este e-book após a morte de meu pai e o termino hoje,sem ambos os pilares de minha estrutura, dia oito de julho, data em que minha mãe, muito amada, faria 96 anos,e,pela primeira vez,não podendo abraçá-la, deixo-lhe um grande beijo em sua alma, esteja ela onde estiver...