quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O Massacre dos Quirópteros - Luci Afonso



— Mãe, olha o passarinho preto!
— Quieto, meu amor, já vai começar!
O auditório estava lotado. O diretor dava as boas-vindas ao público e
anunciava o primeiro item do programa.

O menino só conseguia prestar atenção no bicho esquisito que
surgira de repente do teto. Parecia um passarinho, mas tinha cara feia
e asas sem penas. Apareceram mais dois e começaram a sobrevoar o palco.

— Mãe, olha! – Desta vez, ela enxergou as pequenas criaturas,
mas não conseguiu identificá-las. — Fique quietinho, meu bem,
é parte do cenário, - mentiu. Estava concentrada no recital.

À medida que transcorria a apresentação, outros saíram do telhado e
passaram a voar também sobre a platéia. O salão estava muito quente
e as portas, fechadas. Algumas pessoas notaram a estranha movimentação,
até que um sussurro percorreu o recinto:
— Morcegos!





A partir daí, o público passou a observar os mamíferos voadores.
Seu número parecia aumentar a cada salva de palmas.
Um casal na última fileira tentou, discretamente, deixar o auditório,
mas a porta principal estava trancada — por medida de segurança,
o zelador só a abriria às 22 horas, quando terminasse o evento.
Ainda eram 20h30min. As portas laterais, por sua vez,
estavam obstruídas pelo equipamento de som.
O casal voltou ao seu lugar em silêncio.

A esta altura, todos acompanhavam o voo das criaturas,
agora mais numerosas. O diretor, ao perceber a apreensão geral,
 tentou relaxar os presentes:
— Estamos com sorte! Para os chineses, os morcegos trazem muita felicidade.
– Como ninguém ali era chinês, não funcionou.
Todos estavam visivelmente tensos,
e alguns já se levantavam para ir embora, sem saber que ainda não poderiam sair.

Para segurar a plateia, o diretor pulou alguns pontos do programa
e anunciou a última atração, o cantor Fred Jr.,
que executaria algumas músicas da Bossa Nova.
Em seguida, passariam ao coquetel.
As pessoas voltaram a se sentar, contrariadas.

Fred Jr., muito conhecido na cidade, sofrera recentemente de síndrome do pânico
e há muito tempo não se apresentava em público. Hoje seria sua volta ao palco.
Não conseguira decorar as letras e ensaiou o tempo todo nos bastidores,
sem perceber o que se passava lá fora. Surpreso,
foi chamado antes da hora combinada.

Entrou, decidido, e já começava a dedilhar o violão
quando notou que algo estava errado. As pessoas olhavam para o alto,
nervosas, e pareciam não notar a presença dele.
Olhou também e sentiu um arrepio. Tinha medo de tudo que voasse,
de mosquito a avião, mas tinha pavor irracional e incontrolável das criaturas
horripilantes que agora enchiam a sala.

Respirou fundo e tentou distrair o público e a si mesmo com uma brincadeira:
— Acho que estão promovendo o filme do Batman! – Ninguém riu. Ele começou a cantar, mas a voz saiu fraca e desafinada. Os morcegos se agitaram, e um deles fez voo rasante na cabeça de Fred Jr. Aterrorizado,
ele largou o microfone e saiu correndo para a porta.
Muitos o seguiram.

— Está trancada! – avisou o casal que tentara escapar.
As mulheres se desesperaram, as crianças começaram a gritar.
Os morcegos se inquietaram ainda mais.
Os homens fingiram controlar o medo.

Um ambientalista argentino subiu numa cadeira
e gritou em portunhol:
— Calma, pessoal, ellos son pacíficos!

Um senhor careca, de óculos minúsculos, pediu a palavra.
Além de apreciador de poesia, era biólogo e
doutor em quirópteros (nome científico dos morcegos).
Para tranquilizar os presentes, explicou que 90% da ordem Chiroptera
eram sementívoros e apenas 10%, hematófagos, ou seja,
era mínima a probabilidade de alguém ali ser mordido.
Além disso, argumentou, os morcegos vampiros, ou Desmodus rotundus,
só atacavam em zonas rurais para se alimentar ou se defender — 
como, aliás, havia acontecido, há poucos dias, num condomínio do Distrito Federal.

A explicação teve efeito oposto: os homens se juntaram,
pegaram a mesa de madeira maciça e
tentaram derrubar a porta.
Aumentaram os gritos e o choro.
O frenesi se instalou entre bichos e humanos.
Os celulares foram acionados para chamar a Polícia, o Corpo de Bombeiros
e o IBAMA.

O auditório se transformou em campo de batalha.
O ambientalista, contrariando seus princípios,
abateu com sua pasta alguns morcegos, para defender as damas em perigo.
Uma poetisa que sempre se apresentava com um cachecol,
aproveitou-o para enforcar uns três.
As mulheres mais valentes usavam seus chales para capturar
e matar os nojentos animais. Os homens recorriam aos paletós.
O menino que os vira primeiro pegou um filhotinho e guardou-o para dissecação,
um de seus hobbies.






Fred Jr. se escondeu atrás do palco,
mas um morcego havia chegado ali antes
e estava à espreita — um Desmodus rotundus, o único na sala.
O cantor, desesperado ao ver tão próxima a repugnante criatura,
tentou atingi-la com o violão, acertando, sem querer, a cabeça do diretor,
escondido no mesmo local. Ambos desmaiaram, um, pelo golpe,
outro, pelo pavor, e o vampiro pôde se alimentar à vontade.

Todos os quirópteros foram abatidos, exceto o Desmodus,
que depois de satisfeito se refugiou novamente no telhado,
à espera de nova vítima.
A porta foi arrombada, e descobriu-se o zelador
em sono profundo no subsolo do prédio. A Polícia e os Bombeiros chegaram
e atenderam prontamente aos dois homens inconscientes,
que tinham dois grandes furos no pescoço.
Eles despertaram, desmaiaram de novo, ao saber que haviam sido mordidos,
e receberam dose preventiva de vacina anti-rábica.
O IBAMA não foi encontrado.

A sindicância instaurada pelos proprietários do auditório
não concluiu de quem foi a culpa pelo incidente.
Muitos a atribuíram ao zelador; outros, a Fred Jr.,
enquanto os estudiosos apontavam causas naturais,
como a baixa umidade e o período de acasalamento,
o que tornaria os quirópteros mais irritadiços.

Não se chegou a laudo conclusivo, mas o evento
ocupou o noticiário nacional por várias semanas
e ficou registrado no imaginário brasiliense como
o mais aterrorizante sarau literário-musical
realizado na Capital da República.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Catarata - Autora convidada: Anna Maria Assis Ribeiro

   
 A frase vem firme, carregada de competência: a senhora está com catarata senil. A expressão do rapaz é absurdamente sorridente (é um médico, mas referir-se a ele como “rapaz”, lhe traz um sabor de elegante vingança). Sufoca o ímpeto de responder com um “senil é a sua avó!”. Mesmo porque ele provavelmente concordaria. Arruma o tom certo (entre frio e calmo) e pergunta: não entendo o senil... O tom da resposta é paciente, ela diria até resignado, evidenciando que, do ponto de vista do "rapaz", sua senilidade estende-se muito além da catarata: minha senhora! É este o nome! Consegue que um fino sorriso escamoteie a raiva: mas desnecessário. Qualquer pessoa sabe o que é simplesmente catarata. Ligeiramente irritado, ele esclarece: catarata senil é o nome desse tipo de catarata! E, com desprezo, acrescenta: nome científico, minha senhora! Seus olhos, que agora sabe senis, vagam pela sala e pousam num exuberante vaso de margaridas amarelas: lindas as suas Crysanthemum Coronarium. O rapaz arregala os olhos. Explica num tom doce: nome científico de suas margaridas amarelas.  Agora francamente irritado, o rapaz revida: existe uma grande variedade de cataratas. A sua... Corta brusca, já se levantando: já entendi, é senil! Mas existe também uma grande variedade de margaridas...  E lá vai ela pela rua, tropeçando e pensando (tanto os tropeços quanto os pensamentos são causados pela catarata). Já em casa, bate a censura! Afinal é o nome da coisa! Vai ao dicionário, em busca do “senil”. Não que ignore o significado, mas quem sabe a definição será mais doce do que a agressão da palavra. Senil: relativo à velhice e aos velhos, próprio da velhice, velho, idoso, decrépito. Puxa! Sente-se culpada! Exceção feita ao “decrépito”, que lhe parece um desagradável exagero, o resto se encaixava perfeitamente à sua condição, já nem tão recente.  Mas no fundo, lá no fundo, julga ainda que não precisava o senil! Já que o dicionário está em mãos, porque não olhar a palavra “velho”? Ela nunca havia feito isto. Quem não sabe o significado de velho? Mas será que... A primeira definição pareceu-lhe um tanto cretina: “que não é novo”. Uma obviedade desnecessária, mesmo num dicionário que necessariamente tem de o ser. Logo depois: “que existe há muito tempo”. As duas definições se aplicam a ela como uma luva e, num silogismo verdadeiro, denunciam: quem existe há muito tempo é velho e senil; existo há muito tempo; logo sou velha e senil. Não havia do que se ofender. O “rapaz” tinha razão. Cientificamente, é claro.

2004


domingo, 8 de dezembro de 2013

Irremediavelmente amigos

Anna Maria Assis Ribeiro


Eram amigos desde sei lá quando. Parelhos em idade, ele três anos mais velho. Um
belo homem. Ela não era uma bela mulher, mas agia como se fosse e isto
convencia a todos de que o era. Naquela época estava ela nos primeiros anos dos
cinqüenta, ainda trabalhando na mesma empresa em que durante tantos anos,
empenharam-se juntos em inúmeros projetos. Ele, não mais. A cátedra de
professor numa universidade rural havia criado uma distância complicada de se
dar jeito, já que ele resolveu morar por lá.
E como os dois detestavam falar ao telefone, a conversa de todo sempre havia
ficado difícil. Conversa infindável, esta. Falavam de tudo: da vida, do
trabalho, dos filhos, dos companheiros, e do que mais viesse. Mas,
sobretudo, era no assunto “trabalho” que mais se encontravam. Formavam um time
perfeito, azeitado, mesmo nas discordâncias que quando surgiam sempre
resultavam num avanço pelo convencimento de um ou do outro que passava a remar
junto. A ela fez uma enorme falta quando se foi para outras paragens. Eles se
entendiam pelo olhar. Entusiasmavam-se tanto que quando iniciavam um novo projeto ficavam envolvidos dias após dia, entrando noite adentro no terreno das idéias, das descobertas, de soluções novas. Por vezes, numa coincidência incrível o Eureka vinha em uníssono. Custou a engrenar com outros parceiros. Numa bela tarde de maio ele a surpreendeu aparecendo em seu  trabalho. Estava morrendo de saudades, disse.                                                         Foi uma festa. Coisa tão boa vê-lo. Tinham tanto assunto para por em dia! Em linhas gerais até que ela sabia do que andara acontecendo: o terceiro casamento dele tinha ido pro brejo. Assim como o dela. Engraçado. Era a primeira vez que ambos estavam solteiros ao mesmo tempo. Sempre havia sido uma gangorra. Ele casava; ela descasava. Ela casava; ele descasava. Em todas estas idas e vindas, haviam ficado amigos também do cônjuge do outro que com o descasamento desaparecia das vidas... dos dois. E era assim que, a seu turno, eles tomavam a posição de terceira pessoa sempre presente junto ao casal que estivesse estável no momento. No dia em que ele apareceu, assim de surpresa, ela estava sem carro. O dela tinha dado um treco (para ela, carros não davam defeitos, davam trecos). Felicitou-se. Assim poderia pegar uma carona, esticando a conversa e quem sabe até esticando a esticada, num jantar. O carro deslizava pelo aterro do Flamengo ao som de uma música que ambos curtiam. E ele falou: lembra? O pôr-do-sol estava deslumbrante. Tudo tão bom. Tão bonito. E ela comentou: quando o dia começou não se anunciava tão perfeito. Ele sorriu: perfeita é você! Puxa, mulher, que saudade! Do lado de cá também, ela declarou. Ele, por segundos, desviou os olhos e olhou para ela. Parecia emocionado. Não, não era bem isto, era outra coisa. “Outra coisa” que começou a dar nela também. Cruzes, ela pensou, não pode ser. Que absurdo! E ele respondeu a seu pensamento, como sempre fazia e perguntou: absurdo por que? Ora - ela respondeu aflita – você nunca sentiu isso... Ele interrompeu: isso que você está sentindo agora... também? Ela emudeceu numa emoção adolescente. Meu Deus! A mão direita, firme, deixa o volante e se apossa da mão dela. Mágica! Pura mágica! Ele também emudeceu. Aumentou o som e a velocidade do carro que naquele dia lindo dirigiu-se à Copacabana. Daí Ipanema e Leblon se seguiram lindos, lindos. A chegada à Barra foi uma emoção só. Até a entrada no Motel foi fantástica. E foi ai que bateu nela o nervoso! Pode isto?! Tenho que falar alguma coisa. Qualquer coisa. Este silêncio está me deixando aflita demais. Naturalidade. É isto! Tenho que ser natural. E foi assim que ao entrarem no quarto ela perguntou: você conseguiu emplacar aquele projeto? Os olhos dele brilharam: e como! Vou mostrar a você.  Abre a pasta que havia trazido consigo e dela tira um calhamaço de papeis. No início em pé, ao lado da mesa de entrada, ele começa a explanação. Ela não se lembra do momento em que se sentaram e começaram a discutir sobre um ponto sobre o qual não concordavam. Lembra-se apenas que subitamente ele disse: estou morto de fome. Vamos pedir alguma coisa para comer? Ela apenas acenou com a cabeça. Estava concentrada tentando achar argumentos que sustentassem seu ponto de vista. Jantaram ainda discutindo. Afastaram os pratos e continuaram a discussão. Muito tempo depois foram interrompidos pelo som do telefone. Ele foi atender e voltou informando espantado: perguntaram se vamos ficar a noite toda! Ambos olharam para os respectivos relógios... e foram acometidos de um riso incontrolável. Sem a música e sem o belo pôr-do-sol, o projeto falara mais alto. Já voltando, na altura de Ipanema, ele comentou: jantarzinho caro, este, né?  

sábado, 30 de novembro de 2013

Auto-aprendizagem poética - Guido Heleno


AUTO-APRENDIZAGEM POÉTICA




A despeito de tudo 

continuo do mesmo jeito 

o chão abriu-se a meus pés descalços 

caí na armadilha como Alice em seu precipício mágico 

sabendo que todo final é a ponta de um novo início 

Malgré tout                                                                                                    
je suis comme toujours                                                                                   
la terre s´étant ouverte sous mes pieds déchaussés                                          
je suis tombé dans la trappe comme Alice dans son gouffre magique                                              tout en sachant que chaque fin est la pointe d´un nouveau début


A despeito de tudo 
tenho sobrevivido às tempestades 

mantido a dignidade das aparências 

enquanto a alma se esfarrapa em manchadas tiras 

este coração se tritura em sustos e frituras 

correndo à risca o que o destino dita 

ou o que indicam as cartas de tarot 

Malgré tout                                                                                                      
j´ai survecu à des tempêtes                                                                             
j´ai tenu la dignité des dehors                                                                           
tandis  que l´âme se déchire en lambeaux ternis                                               
ce cœur à moi se triture en sursauts et brûlures                              
laissant littéralement aller ce qu´impose le destin                               
ou ce que désignent les cartes de tarots

Aprender é uma questão de acreditar-se vivo 
ser barro ou cobre nos dedos artesanais dos minutos 

com toda a dignidade de um pintassilgo 

que mesmo preso no visgo 

canta seu código ao mundo 

desacreditando-se de gaiola e viveiros 

Apprendre c´est une affaire de se crôire vivant                                            
d´être de l´argile ou du cuivre                                                                
sous les doigts artisanales des  minutes                                              
et toute la dignité d´un chardonneret                                                        
qui même pris dans la glu                                                                    
chante son code au monde                                                                          
se décriant de cages et de volières


É a vida, camarada, 
bate o anjo suas leves mãos em meus ombros cansados 

sopra-me palavras nos ouvidos 

atira-me estrelas nos olhos 

estar atento aos indícios 

às configurações dos farelos sobre a mesa. 

sei das bulas e regulamentos 

conheço os perigos e corro os riscos 

peixe no anzol, mas dentro d’água ainda 

feliz por nadar tão rápido em direção contrária 

C´est la vie, mon ami,                                                                                    
 l´ange bat ses mains légères sur mes épaules fatiguées                          
souffle-moi des mots aux oreilles                                             
me jette des étoiles sur mes yeux                                               
question d´être attentif aux signes                                                    
aux configurations des sons sur la table.                                                  
 je sais les bulles et les règlements                                                             
je connais les dangers et je cours leurs risques.                
Un poisson à l´hameçon, pourtant encore dans l´eau                     
heureux de nager si vite à contre-courant


Em tudo se aprende 
não há como se livrar das limalhas sendo um potente ímã 

juntam-se folhas e poemas, fungos e rascunhos 

uma frase de Ferlinghetti, a imitação de Renoir na parede 

esta rede de fios eternos 

onde me deito para morrer e renascer a cada noite 

de cada dia.

Partout on apprend 
pas moyen d´échapper les limailles                                                       
si l´on est un aimant puissant .                                                           
Des feuilles et des poèmes,                                                                   
des fungus et des brouillons s´entassent.                                        
Une phrase de Ferlingueti, la copie de Renoir sur le mur,              
ce réseau de fils éternels                                                                      
où je me couche pour mourir et rennaître à chaque nuit                 
de chaque jour.





quinta-feira, 24 de outubro de 2013

E se só me restasse este dia - Angela Delgado

    

     O marido está almoçando na cozinha com a tevê ligada. Como hoje é um dia muito especial, faço o prato e, sem reclamações, vou almoçar, como mereço, ao ar livre  ao som de um coro de mil e uma cigarras. Disso, em Brasília no mês de outubro, não há como escapar, nem em meu apocalipse particular. Diga-se de passagem, isso é segredo, pois não quis melindrar ninguém, passando-o com uns em detrimento de outros. Como a Parca não me avisou com antecedência sobre esta minha ida brusca e prematura, não posso pegar um avião e ir despedir-me de minha querida irmã que mora na Inglaterra. Aliás, neste meu derradeiro dia, passando ela com a filha, genro e duas netas, quinze dias, nas Canárias.
    Fazer o quê, então? Deixar aqui o meu amor incondicional por toda a minha família e amigos é uma despedida. Fajuta, mas não posso nem sair à francesa e nem espalhar o pânico: último dia?! Mas, como? E a nossa viagem marcada para o ano que vem? É realmente uma pena, mas, quem sabe, poderei me juntar a vocês? Estarei lá em espírito, serve?

     A caçula tão amada, embora independente diria: - Mãe, o que vai ser de mim sem você? 
     É por esse e outros diálogos que tive que me calar e viver este dia mais ou menos normalmente. No momento, há dois netos aqui. Penso em, como última lembrança e contribuição, apresentar o livro Onde está Wally aos netinhos mais novos, grudados na telinha, vendo desenho. Tentarei mesmo assim. Não é que deu certo? Ele, com cinco anos de idade e sua irmã de oito, se encantaram ao ver Wally, aquela figurinha de camisa vermelha listrada incorporada ao cenário asteca de 200.000 anos, com suas cordas e cavalos assustados. Virando a página, ei-lo no mundo das pirâmides em meio a centenas de pessoinhas e sarcófagos, há 4.500 anos atrás. Em seguida, Wally se mistura aos romanos em um feriado no Coliseu, onde cristãos eram atirados aos leões (disso meus netinhos não ficaram sabendo). Depois viaja com os vikings e seus chapéus de chifre, em um mergulho de mais de mil anos. Continuando sua trajetória, o desafio agora é encontrar o bonequinho de camisa listrada, que está perdido no meio de catapultas e de uma multidão ao fim de uma das Cruzadas, há mais de 800 anos. Daí para cair entre camponeses, malabaristas, trovadores e bobos da corte na Idade Média é só um virar de folha. Mais uma, e, com certa dificuldade, o encontramos, fugindo das espadas e flechadas dos samurais no Japão de 400 anos atrás; nos barcos dos piratas com tapa-olhos há 250 anos; com um livro na mão, na Corrida do Ouro dos americanos, no final do século XIX; ainda concentrado em seu livro - esse é dos meus - em um baile em Paris há 100 anos, quando os homens usavam perucas e as mulheres dançavam Cancã; e, finalmente, no futuro, ao lado de naves, extraterrestres, robôs e mísseis.
     Assim, meu último dia vai se escoando. Eu, aqui, escrevendo, imagine, quando sou despertada pela campainha do telefone. É meu neto primogênito avisando que não vem almoçar e eu lembro-lhe da aula de dança de salão, daqui a pouco, quando em vez de eu ir dançar, neste que seria meu último dia, vou bem-humorada, como “votorista”, como bem lembrou uma “mãetorista”, que conheci outro dia.
     (Claro que se fossem realmente minhas últimas horas eu dançaria, mas como era só faz-de-conta, assisti à aula do sofá.)
     Voltamos, ouvindo pelo som do carro músicas deliciosas e entre elas, algumas que eu costumava ouvir nas festinhas da época de meus 15 anos, como "La mer" e "Unchained melody" com Ray Conniff, quando praticamente minha vida começava e, fechando seu ciclo, encerra-se com as mesmas músicas.
     Se tudo não passou de um pesadelo, pelo menos caprichei neste dia a mais vivido. Não saí muito da rotina, porém ficou mais do que provado de que gosto dela.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O Jogador de xadrez - Stefan Zweig

     Tenho vários irmãos que gostam muito de xadrez. Como somos dez, em meus tempos de solteira, havia épocas em que se passando pelo corredor, em cada quarto se vislumbravam dois jogadores debruçados sobre um tabuleiro de xadrez. Por isso, fiz uma espécie de resenha do livro acima, "Le Joueur d´échecs":
     Nele um dos personagens, austríaco, é preso pela Gestapo e confinado em um quarto hermeticamente fechado para o mundo exterior, contendo apenas uma porta, uma cama, uma cadeira, uma bacia e uma janela gradeada. A porta permanecia trancada noite e dia, sem que ele tivesse acesso a um livro, a um jornal, papel ou lápis. Ele estava imerso no nada. Tiraram-lhe seu relógio, para que  não mensurasse mais o tempo; sua caneta para que não mais escrevesse; seu canivete para que não cortasse suas veias; e cigarro, era coisa proibida. A única figura humana que via era a do carcereiro, que tinha ordem de não lhe dirigir a palavra e de jamais responder-lhe a qualquer pergunta. Ele nunca ouvia uma voz humana. Dia em noite, seus olhos, orelhas e demais sentidos não encontravam o menor alimento. Ele ficava só, desesperadamente só, frente a si mesmo, com seu corpo e quatro ou cinco objetos mudos: a mesa, a cama, a janela, a bacia. Vivia como um mergulhador sob seu aparelho de mergulho, nesse negro oceano de silêncio, mas, como um mergulhador pressentindo já que a corda que o ligava ao mundo se rompera, e que ele nunca seria içado dessas profundezas mudas. Não havia nada a fazer, nada a ouvir, em volta de si reinava o nada vertiginoso, um vazio sem dimensões no espaço e no tempo. Ia e vinha em seu quarto, com pensamentos que surgiam em sua mente, sem trégua, seguindo o mesmo movimento. Mas, por mais desprovidos de matéria que pareçam, os pensamentos necessitam também de um ponto de apoio, sem o qual giram em voltam de si mesmos em um louco redemoinho. Eles também não suportam o vazio. De manhã à noite, esperava por alguma coisa que nunca acontecia. Esperava, recomeçava a esperar e nada. Os pensamentos giravam em sua cabeça até suas têmporas doerem.
     “Isso durou quinze dias nos quais vivi fora do tempo, fora do mundo. Para mim, este consistia em uma mesa, uma porta, uma cama, uma bacia, uma janela e quatro paredes. Enfim começaram os interrogatórios. Eu era chamado bruscamente sem saber se era noite ou dia. Era conduzido por corredores para lugar ignorado...”
     Resumindo, para esses interrogatórios, esperar fazia parte do método. Começava-se por abalar os nervos do acusado indo buscá-lo no meio da noite. Depois, quando ele havia se recobrado, reunindo todas as suas energias para a audiência, faziam-no, para domá-lo no corpo e na alma, esperar durante uma hora, duas horas, três horas antes de interrogá-lo.
    Apesar da ansiedade e do cansaço decorrente, era, contudo, um alívio estar em outro cômodo. Seus olhos bebiam detalhes estúpidos e insignificantes, e ... de repente eles se fixaram. Havia descoberto alguma coisa protuberante no bolso de um dos casacos dos guardas, dependurados em um cabide. Aproximou-se e acreditou reconhecer, através do tecido o formato retangular de um livro. Um livro!
     Com habilidade, dissimulou e se apoderou do volume. De volta ao quarto, após passar por várias peripécias, como a ter que simular um acesso de tosse, para recolocar em sua cintura o livro que escorregava pela perna, qual não foi seu espanto ao deparar com representações tais como: a2-a3, Sf1-g3 (estou estranhando esses movimentos e como o manual de xadrez foi emprestado há séculos, vou perguntar ao irmão campeão o que um S estaria fazendo ali.)
      A princípio, essa espécie de álgebra era incompreensível para o nosso personagem. Mas pouco a pouco, vendo que se tratava de um manual de xadrez, compreendera que as letras a, b, c designavam as linhas longitudinais e os números de 1 a 8 as transversais. Encurtando a história, ele, com o lençol fez um tabuleiro de xadrez e com migalhas de pão as peças, sendo as pretas as que tinham mais quantidade de poeira (!). Durou três meses seu cativeiro e, quando foi libertado, lógico que venceu o campeão mundial de xadrez...

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O voto decisivo e traiçoeiro - Angela Delgado



Contrariamente à esperança de milhares de brasileiros, Celso de Mello, a quem jamais nos referiremos como o “saudoso ministro”, começou seu pronunciamento tentando, mas não conseguindo, justificar seu voto. Retroagiu aos idos de 1603, 1909, 1980, 1990, porém não chegou ao “aqui e agora”, botando a perder o momento histórico que seria a sua, e apenas sua, grande chance de restaurar a credibilidade do povo na justiça brasileira.
                Tudo se perdeu em artigos, parágrafos, incisos, alíneas, comentados com sorrisos destoantes com o nosso luto.

                Os embargos infringentes tão descabíveis na última e derradeira instância foram quase abolidos há algum tempo, conforme confessou Celso de Mello, acrescentando uma frase proferida pelo jurista Pontes de Miranda: “Muita injustiça se tem afastado com os embargos infringentes, onde o interesse não é individual e sim público.”
              A quem o ministro quer enganar? A injustiça que se fez hoje no STF terá tristes consequências. O Ministro Celso de Mello também foi incongruente ao afirmar que se manifestara contra os embargos infringentes, mas agora ao que demonstrou, involuiu. Se não cabe Habeas Corpus no Supremo, por que cabem embargos infringentes?

O ministro do veto de Minerva concluiu, espichando sua longa fala com referências à competência da corte interamericana, já prevendo o próximo passo de Zé Dirceu.
            Pedindo vênia aos bandidos que estão presos, que se abram as cadeias no país da impunidade!

Sabia que encontraria nas manchetes dos jornais do dia seguinte a palavra "pizza", bastante desgastada, que não expressa com veemência a indignação de um povo. Será que uma expressão mais forte como "Holocausto" ou "Canalhas" seria censurada pelo jornal? Celso de Mello perdeu uma oportunidade de ouro de afastar pessoas nefastas à sociedade. Com a frase "... ministros não podem deixar-se contaminar por juízos paralelos, resultantes de manifestações da opinião popular" se traiu. Ratos nos contaminam, enquanto raios de luz, de sol e o justo clamor da massa nos contagiam. Mas, teremos que esperar só mais um pouco. Eles não escaparão da condenação e se Joaquim Barbosa não entregou a Toga ontem, é porque faz questão de consolidar a merecida condenação.
Detalhe: o livro de  "1968, o que fizemos nós", de Zuenir Ventura, de 2008,  fala que José Dirceu e Celso de Mello dividiram um quarto, ou seja, são amigos de longa data. Daí, a  desculpa jurídica para inocentar o amigo.
O que explica, mas não justifica tamanho antipatriotismo.