quinta-feira, 5 de maio de 2011

XXII

                                                        Irritações

Pra começar, a irritação do dia primeiro de maio, com Obama anunciando a morte de Osama Bin Laden. Infelizmente, são raros os seres humanos confiáveis. O incentivo à paz foi dado, prematuramente e em vão, ao ex-simpático Obama, através do prêmio Nobel. Deveriam ter esperado pelo fim do mandato para lhe outorgarem, ou não, algum prêmio, principalmente o da Paz!
Depois, claro que em escala bem menor, comprando um presente para o marido, ouço a seguinte aberração, muito comum, aliás:
- Esta será a estampa de 2012.
Dá até vontade de rir. Se a vendedora soubesse como acho ridícula a ditadura da moda... Jamais alguém, principalmente que não conheço, decretará o que vou comprar. Pode até ser que em 2012, de tanto ver a tal estampa, venha a gostar e comprar, mas, em hipótese alguma a compraria agora pelo motivo insano acima. É a mesma coisa quando ouço da manicure que tal cor de esmalte está sendo muito usada. Uso diversas cores, porque gosto delas. Não me interessa se está ou não na moda. E em matéria de roupas e calçados, uso o que é confortável, me caia bem e não me deixe com cara de matrona. As pessoas estão virando robôs, que falam e agem sem pensar, de acordo com os ditames da era do consumo.
A vendedora poderia apenas indagar a tez do aniversariante e a cor de seu cabelo.
Simples assim.

E a última: o lançamento da nova edição, bilíngue, de Ópera do Poeta e do Bárbaro aproxima-se e recebi flores de uma pessoa muito especial, desculpando-se por não poder comparecer, por estar com caxumba. É a primeira grande baixa de uma pessoa querida, que outro dia mesmo, ao constatar aqui a minha irritação com a mulher que não gosta de ler, insinuou que poderia se tratar de uma disléxica, que pensa que não gosta de ler por causa de suas dificuldades ao fazê-lo.
Fui, então, ao encontro da massagista de minha filha, para deixar uns convites para as suas clientes e, conversando um pouquinho na porta, perguntei-lhe se quem estava lá no momento gostava de ler. Ouço-a responder negativamente.
Outra disléxica, que pensa que a vida se resume a massagens e cabeleireiros! Eu mereço?
Não disse nada, mas a próxima vai ouvir que ela não gosta de ler, por não ter lido os livros certos.
                                      

terça-feira, 3 de maio de 2011

XXI

                                                                  Febris Consultas 


            Tudo começou quando, por causa de uma dúvida em uma palavra em inglês, entreguei um dicionário ao meu neto de 10 anos. Daí, uma palavra levando a outra, logo estávamos rodeados de dicionários.
            - Vó, vou ler esse “Ruais”, mas só as palavras, não os significados, porque é muito grande. A letra “B”começa na página 368! Nas férias (daqui a três meses), eu  devolvo.
            O neto de onze anos depois de ler a palavra bufar no dicionário português/francês, pegou um dicionário de português para saber o que era “bufar”. Depois se empolgou e disse que iria fazer uma pesquisa com todos aqueles dicionários de inglês/espanhol, alemão/português, inglês/francês, italiano/português... Foi então que a neta de sete anos, com o de português/italiano na mão, pulou, porque assim não tinha graça: estava procurando palavras como “burro”, “tolo” e “maluco” para adjetivar os irmãos e não queria que eles entendessem. Não era para eu dar o de italiano para eles, falou quase chorando.
-  Clara, é para vocês aprenderem palavras em outras línguas. Não é para xingar. Tive uma idéia. Vamos lá para dentro que te ensino a língua do “P”. Aliás, há duas maneiras de se falar essa língua: colocando-se a sílaba “Pê” antes, ou depois de cada sílaba, declinando a vogal após o “p”, conforme a sílaba tenha um “a”, um “e”, um “el”, um “ãe”, “ão” etc.
Ela gostou e logo estaria escrevendo em uma ficha: Pe-jo-pe-ão  pe-bo-pe-bo.
Achei que a segunda versão da língua do Pê, Mi-pi-guel-pel; mãe-pãe era mais difícil para ela. 
           Enquanto isso, o de onze anos se empolgava também com os dicionários: de francês/português, de espanhol/francês e de francês/italiano, o de dez se aventurava pelo de latim e a torre de dicionários ameaçava desabar no tampo de vidro da mesa!
            - Alguns estão bem manuseados, por favor, cuidado com eles e não briguem por dicionários. Esperem, o de francês/francês (Larousse) não vai adiantar pra vocês.
            - Vai sim, vó, retruca o de onze anos. Foi lá que achei “Momie. Cadavre conservé...”
            Que ótimo, vai tudo pro blog.
            - E, disseram os meninos, nós vamos aprender a língua do Pê, por ele!
            - Não, vó (!), retruca Clara preocupada. Eles vão entender tudo...

Hoje, após o café da manhã, foram, voluntariamente, direto para os dicionários, e eu ganhei meu dia!

Em contraponto a essa alegria e a de ouvir de pessoas estranhas recebendo meu convite para o próximo lançamento, que gostam, sim, muito de ler, fiquei com pena de uma mulher, de uns 25, 30 anos que respondeu não gostar muito não.
            Ser estranho, coitada, não sabe o que perde... Pra mim, soou como se ela tivesse dito que não, não gostava muito de respirar, de viver...
            Falando em viver, acrescento mais uma personagem feminina à galeria deste e-book: uma maravilhosa escritora, cognominada aqui Executiva, que chega com seu  Tablet.
            Viajaremos todas juntas a Portugal: Mena Filomena, a Executiva e eu entre outras e outros. Veremos no que vai dar.


sábado, 23 de abril de 2011

XX


Como mencionei estar lendo, L’Homme qui rit tenho que admitir estar pulando partes, coisa que raramente faço, por não entender porque Victor Hugo se alongou em tantas minúcias sobre a detestável aristocracia inglesa do século XVII e por não aguentar tanta maldade humana, tantos horrores perpetrados em nome de “Sa majesté”. Mas, é um livro difícil de ser interrompido.  
Victor Hugo escreveu que "uma excelente maneira de pronunciar os nomes ingleses, é não pronunciá-los. Assim, Southampton, se diz: Stpntn (?). Isso no tempo em que “Chatham” se pronunciava ‘Je t’aime’ ”.
O livro é muito bom e o personagem mais interessante é um médico pobre, misantropo, filósofo e ventríloquo, Ursus, que tinha um lobo chamado Homo, e era proprietário de uma lanterna, de várias perucas, uns poucos utensílios pendurados em pregos, alguns instrumentos musicais e uma pele de urso. Sua casa móvel pertencia a ele e ao lobo Homo.
Ursus "preferia ter um lobo como animal de carga, pois considerava muito o jumento para isso. Além disso, havia notado que o jumento, pensador de quatro patas pouco compreendido pelos homens, tinha às vezes um inquietante arquear das orelhas, quando os filósofos diziam bobagens."

"... Somos todos cegos. O avaro é um cego; vê o ouro e não vê a riqueza. O pródigo é um cego; vê o começo e não vê o fim. O homem honesto é cego; não vê o canalha. O canalha é cego; não vê Deus. Deus é cego; no dia em que criou o mundo, não viu que o diabo se meteu dentro. Eu sou um cego; falo e não vejo que vocês são surdos."

Parece que ele era mais curandeiro do que médico, pois um dia foi advertido por uma comissão de médicos:
- Se um doente tratado por você falecer, você será punido com a morte.
Ursus arriscou uma pergunta.
- Se eu curá-lo?
- Nesse caso, suavizando a voz, respondeu o médico, você será punido de morte.
- "C'est peu varié", disse Ursus.
O doutor respondeu:
- Se houver morte, punimos a burrice. Se houver cura, punimos a presunção. Nos dois casos,  a forca.
- Ignorava esse detalhe, murmurou Ursus. Agradeço por me informarem. Não se conhece "toutes les beautés" da legislação.
- Tome cuidado.
- Escrupulosamente, disse Ursus.
- Sabemos o que você faz.
- Eu, pensou Ursus, nem sempre o sei.

domingo, 3 de abril de 2011

XVIII

Quando vejo que mesmo em fins de semana, ainda há uma grande quantidade de carros daqui pra lá e de lá pra cá, lastimo-os, pois não sabendo parar em casa, como pretendem ler livros e blogs? Saem, são assaltados, seqüestrados, levam batidas e o pior, como li no jornal de hoje, acidentados, tendo que amputar uma perna! Claro que não devemos nos furtar ao contacto humano, a um bom filme, às viagens etc., mas há um limite. Excetuando-se os que saem por ofício do cargo, os que saem para se encontrar com o amor, as que vão se embelezar para ele, comprar um livro, os que vão estudar na casa de um amigo... sair por sair, só para ser vista, é demonstração de infelicidade, a não ser que sua felicidade consista justamente em badalar e ainda tenha dentro de si a adolescente que se desespera com a falta de programa para o final de semana. Javier Marías que quando bebê fora vizinho do Nabokov, e que deve ter, por “osmose”, se imbuído da competência russa, ‘estranha a urgência do jovem que se impacienta e tem pressa e medo de não viver o suficiente; de não desfrutar de experiências variadas e ricas, e acaba acelerando os acontecimentos e somando cicatrizes.’ Como se não houvesse tantos livros a serem lidos! E eu, que acabei de sair, não para sair por sair, mas para me exercitar, levei um tombo. Não havendo ninguém por perto, me senti como um dos Capitães da Areia: completamente só no mundo. Mas, logo pensei nos japoneses e segui em frente. Além da curva, uma andarilha me desejou um bom dia. Retribuí o sorriso com vontade de chorar. Sem suspeitar que mais tarde essa vontade seria bem maior.
Com quatro dias de antecedência, fui comprar ingresso para assistir “Carmen”. Era o “programa” do dia de hoje e se tristeza matasse, cairia fulminada em frente à bilheteria, ao ouvir que a sessão se esgotara... Para não me debulhar, só brincando: Não quero muito, só meia entrada! E voltei a pensar nos japoneses, em especial no olhar da que saiu hoje na primeira página do jornal, olhar que deveria ser mais retratado do que o da Mona Lisa.
Lili, vulgo Sussu, está poeticamente certa, ao dizer o quanto é bom termos onde alojar nossa vida. E agora é que Mena Filomena, querendo ser também personagem deste e-book e com ciúmes da Psiu, vai chiar com o aparecimento da Sussu.
 - E eu, quando é que entro, perguntara Mena Filomena.
- Darling, você acabou de entrar...

quarta-feira, 23 de março de 2011

XVII

                                                   Esquecimentos
Tendo aderido à idéia do site http://www.livrolivre.art.br, comecei a libertar alguns dos meus livros. O primeiro deles foi “esquecido” em uma confeitaria. 
No dia seguinte, lá voltando e estando na fila do pão, uma das caixas saiu de seu posto e veio ao meu encontro dizendo ter me reconhecido pela foto e que adorara o livro que havia encontrado em uma das mesinhas externas da padaria. Logo, um senhor à ela se juntou,  querendo também um livro.
O que ando “esquecendo” propositadamente leva a seguinte etiqueta:
"Leia este livro, envie um comentário à angelaottoni@gmail.com e “esqueça-o” em algum lugar movimentado para que outros façam o mesmo.
Obrigada e bom divertimento!"
Acomodada no avião com destino ao Rio, vejo que ao meu lado está uma senhora folheando a revista de bordo. Achei que, pela idade avançada, não seria leitora contumaz. Suspeitei que a outra no assento junto ao corredor, também não e, para eu deixar de ser preconceituosa, ela sacou um livro da bolsa e leu o tempo inteiro da viagem. Com a esperança de que também folheasse a revista da Gol, coloquei, dissimuladamente, meu livro atrás da bendita revista, em frente ao seu assento. Infelizmente, ela não interrompeu a sua leitura. Lembrei-me dos escritores, um produtivo, outro, atormentado, de um livro do Calvino, onde o atormentado observa com binóculo uma leitora compenetrada e pensando que ela talvez estivesse lendo algo do escritor produtivo, a quem inveja um pouco, resolve escrever o próximo como este o faria, para deixá-la hipnotizada, como a vê agora. Um pouco mais tarde, o produtivo igualmente observa a leitora concentrada e, imaginando que estivesse lendo um livro do atormentado, a quem admira, e, cobiçando o mesmo interesse, resolve escrever no estilo deste...
Desculpe-me, mas o resto da história vocês a encontram em Se um viajante em uma noite de inverno.
No restaurante, “esqueço” (como tenho andado esquecida ultimamente!) outro livro e saímos apressadamente, antes que alguém nos alcançasse para devolvê-lo.
Quando íamos entrando no táxi, aparece a solícita atendente do restaurante com o livro na mão...  A Musa, a par do meu estratagema, retruca que era para ela...
Atinjo o meu objetivo e nos divertimos. 
“Eu fiz tudo pra você gostar de mim, Menina vai, com jeito vai, se não um dia a casa cai, Alalaô, oooô, ooô, Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”
Essa é, às vésperas do carnaval, a música ambiente do Posto 6, em Copacabana, de onde saio agora.
E chega o momento de deixar a cidade.
À espera da chamada final, ouvi pelo alto falante um pedido para que a Senhora Angela Delgado se dirigisse ao portão de embarque. Logo entendi que iria reaver o “esquecimento” no balcão do check-in, recupero-o e pouco depois o deposito em frente ao assento junto ao corredor, onde se instalaria um cavalheiro e seu netbook...
Saudades da leitora da ida! Enquanto o meu vizinho ao fechar o computador folheia a revista da Gol, saco caneta e folha de papel, para registrar seus movimentos, tal qual uma detetive. Meu livro permanece invisível e com a aproximação de Brasília, percebo o erro: o título do livro não ficara à mostra.
A exemplo de Joãozinho marcando o caminho com pedrinhas, serei uma Mariazinha deixando livros em meu rastro.

domingo, 13 de março de 2011

XVI

    Quando antecipei em minha mente o momento do “Eis o livro’, sobre o qual uma de minhas amigas dissera: chega de revisões, deixe-o nascer!”, achava que não conseguiria me segurar de tanta emoção. Mas, chegada a hora “h”, foi como uma chaleira de água fria no previsto júbilo. Depois de tantas revisões, havia um erro na folha de rosto. Não na primeira página, mas na folha de rosto da parte francesa! Folha inserida, a bem da verdade, um pouco antes de o livro ser autorizado para publicação, e que só o esgotamento explica a névoa em meus olhos. Se bem que, hoje em dia, muitas coisas estão adquirindo total invisibilidade.
Não devemos sofrer antes da hora, mas é sábio se alegrar por antecipação. Em vez de lágrimas e abraços (cogitei até em uma taça de vinho), “bilangue” no lugar de “bilingue”, apesar de a pronúncia ser “bilangue” mesmo. Havia corrigido a falha, porém, só no meu computador, não no da editora!  Em francês, a + a = i, ou seja, língua em francês = langue, mas se são duas as línguas, ilogicamente, grafa-se “bilingue”, quase como em português e só me restava sentar e fazer a correção em mil páginas impressas, em vez de ficar exclamando: Não acredito!
O que foi feito.

quinta-feira, 3 de março de 2011

XV

  São duas horas da manhã, já ganhei meu presente cotidiano - mais um dia embrulhadinho - mas está muito cedo para desembrulhá-lo. Tenho que relaxar, tentar dormir um pouco e, para isso, parar de pensar. Desde menina, esse verbo constava da minha listinha de “afazeres”, Psiu, você ignora, mas quando eu nem sabia escrever direito, registrei, duas vezes, “pensar”, em um papelzinho, entre o “fazer a cama”, “rezar”, “brincar” e outras tarefas cotidianas a cumprir.
Mas, nem desembrulho o meu presente, nem lanço mão de comprimidos para dormir. Em vez disso, escrevo este e-book.
Ontem, Psiu, sentindo dores lombares, fui à minha médica, que achou graça, quando perguntei se precisava mesmo fazer aquela batelada de exames:
- Você não vem aqui há duzentos anos e ainda me pergunta se é preciso fazer estes exames?

  Fiz os que ela pediu e mais ainda. Dias depois, chegando cedo ao consultório de um dos “istas”, resolvo “fazer” uma horinha na ”Yogofresh”, em Ipanema, e comentei com a simpática atendente que nunca havia provado um daqueles “frozen yogurt”. Ela deve ter pensado que eu era uma extraterrestre ou um daqueles anjos que dizem estar entre nós…