domingo, 1 de junho de 2014

Me conta uma história - Anna Maria Assis Ribeiro

Ela fecha a porta de casa atrás de si e pensa: agora vai passar! A entrada em casa sempre foi o alívio para todos os males. Mas o porto seguro desta vez não está funcionando. Sabe-se lá por que. Coisa esquisita! Será que finalmente a velhice ataca? Não o ficar velha: isto ela o é, desde muito. Mas não haviam aparecido até agora os efeitos desagradáveis da coisa. Mas hoje aquela sensação de tristeza e desamparo se instalou desde cedo.
Depressão senil. Sempre ouviu falar disto. É... vai ver atacou. Quando, como um autômato, foi ao caixa eletrônico tirar dinheiro nem olhou as frutas na Cobal. Tão bonitas sempre, hoje murchas; e as verduras nem verdejavam. Vai ver é isto: na depressão as cores somem substituídas por um cinza feio e sem graça. Fica ali parada sem achar o destino certo dentro de casa. Falta alguma coisa, pensa. É isto! Falta! O que é que falta ela não sabe. Mas a sensação de não estar lá “a coisa que falta”, é verdadeira, é sólida! O que poderá ser? Se falta deve ter um buraco, um vazio em algum lugar. Seus olhos percorrem cada canto, cada objeto.
Ao passar pela foto do pai se detém e se assusta. Não é uma “coisa” que falta. É o pai. Ele mesmo. Pessoa. Mas isto não tem sentido. A falta dele existe sempre e já não dói tanto, faz tempo. Ao contrário, é bom lembrar. Mas é ele. Ela tem certeza. É ele que falta hoje. Deixa-se ficar ali, agora no sofá, olhando a foto. Que estranho! No prédio ao lado uma criança chora... ... e o Pai sorri. Aninha-se no colo dele e pede:
- Pai, conta uma história. Uma história daquelas que muda tudo.
- Muda? O que é que você quer mudar?
- Eu. Muda eu.
- Pra quê?
- Tô triste.
- Ah!
- Conta!
- Tristeza não é ruim. Sabe?
- É, sim. Muito. A história, pai. A história.
A história vem, perfumada pela loção de barba que conduz à calma e ao peso das pálpebras que não têm mais medo de fechar. A história que muda tudo invade o sono. Alça voo nos braços do Pai e faz um pouso suave nos lençóis de linho. Já está dormindo. Mas mesmo assim sente o beijo e o ajeitar das cobertas.
Percebe quando ele sai do quarto ao mesmo tempo permanecendo ao lado da cama na mágica de sua sempre onipresença. Ela ainda murmura: Pai... no prédio ao lado a criança parou de chorar. Da foto o Pai ainda sorri observando a samambaia. É para lá também que vai o olhar dela. Meu Deus! Como está verde! Tão verde! E a volta da cor, conduz o sono.

sábado, 17 de maio de 2014

Gran finale - Angela Delgado

Gran finale  -  Angela Delgado
30 de abril

Nunca tive senso de direção e não seria em outro país que eu o teria.
Como era necessário pegar dois ônibus para ir ao Salão Internacional do Livro, a incerteza sempre baixava: é aqui, ali, esse, aquele? E se eu não memorizava os pontos de ônibus, muito menos diferenciaria rostos rosados pelo frio de motoristas e agentes de trânsito.

- Bonjour, s´il vous plaît, pour aller au Palexpo, l´arrêt du bus c´est ici, monsieur ?  
(Bom-dia, por favor, para se ir ao Palexpo, o ponto de ônibus é esse?)
- Oui, madame !                 

1 de maio

- Bonjour, s´il vous plaît, ce bus-ci  m´amenera-t-il  au Palexpo? 
( Bom-dia, por favor, esse ônibus me levará ao Palexpo?)
- Comme hier, madame ! respondeu sorrindo.
(Como ontem, senhora!)

O evento do Varal do Brasil na Feira Internacional de livros em Genebra só não foi melhor porque apanhei uma gripe que me deu até febre. A organizadora, muito atenciosa e os demais escritores igualmente simpáticos, música e livros interessantes.
Em Genebra, os hotéis oferecem a seus hóspedes um cartão que permite o acesso gratuito a ônibus e tramways, durante todo o período da estada.
Em Paris, entre voltar ao Louvre ou ao Quai d´Orsay, optei por estar com uma amiga, que não via há mais tempo do que os museus e que recentemente se casara com um francês. Após a curta estada parisiense, fui ao encontro de minha irmã que mora na Inglaterra. A travessia no trem-bala foi um pouco decepcionante para quem achava que vislumbraria o Canal da Mancha e, "tchum", mergulharia. Não deu nem para vê-lo. O Euro túnel, na realidade são dois: um para ir e outro para voltar. Trata-se de cinquenta e um quilômetros construídos no subsolo, a cinquenta metros abaixo do leito do mar. Na ida, não houve nenhum aviso. Por acaso, vi pela janela uma plaquinha que passou "voando": Euro Tunnel. Mas, como, sem ao menos um sonoro Welcome to England? Na volta, os franceses anunciam a proximidade do famoso túnel, para os ingleses agora banal.
Na estação de Diss, fui resgatada por minha irmã e seu marido inglês, ambos muito queridos. Fomos para Pulham St Mary, um município encantador, onde fiquei oito dias, indo passear pelos arredores. Voltamos a Diss, onde fomos a um parque e a um Pub, naturalmente; Harleston, onde jantamos em um restaurante indiano, no qual minha irmã quase morre ao mastigar uma pimenta genuína;  Norwich, a capital do condado de Norfolk; Southwold, uma pequena cidade à beira-mar no condado de Suffolk, onde a chuva nos pegou e só não foi um sufoco, porque estávamos prevenidos; Cambridge com seus Colleges seculares e alunos famosos, como Isaac Newton, "Qui genus humanum ingenio superavit" e barcos, como gôndolas de Veneza transportando turistas pelo rio Cam, que deu origem ao nome da cidade; Abingdon, cidade no condado de Oxfordshire, à beira do Tâmisa e Oxford com com seus quadros de Van Dyke e Caravaggio entre inúmeros outros e suas universidades igualmente centenárias e célebres alunos.
Enfim, sem me restringir a Londres, percorremos grande parte do vasto , verde e florido Countryside.
Isso tudo, para mim, que nunca viajara sozinha, além de um prazer, foi uma vitória pessoal e um exercício para os neurônios. Venci meus medos, tomei as inúmeras providências e tout s´est bien passé.
 Aqui me lembro de uma canção do Sacha Distel, narrando o telefonema entre Madame la Marquise e seu mordomo, que lhe assegura que tudo vai muito bem, exceto que o jumento de Madame la Marquise morrera em um incêndio em seu castelo. Daí se intensificam as pequenas desgraças, sempre intercaladas com o refrão à part ça, tout va très bien, até cumular com a notícia da morte do marido de Madame la Marquise.
Felizmente nada de tão grave aconteceu no gran finale de minha viagem, exceto que, ao chegar em Brasília, querendo poupar o marido de uma ida até ao aeroporto, peguei um taxi para casa, onde, após ter pago a corrida e o taxi ter-se ido, reparei, horrorizada, que a mala que trouxera não era a minha!
Afonso estava mesmo predestinado a ir ao aeroporto nesse dia... Retornando com a mala extraviada, encontramos logo uma mulher que veio ao meu encontro fazendo perguntas, dizendo, esclarecendo que o marido dela estava com a minha mala, a qual havia sido devidamente protegida com o celofane rosa, como a de seu marido, motivo do quiproquó. Abracei-a pedindo mil desculpas e coisa e tal. Tenho que confessar que eu é que me apossara primeiro da mala errada, pois me lembro que fora a primeira a aparecer na esteira, o que me deixara bem contente, em minha ingenuidade do que viria pela frente.
 E enquanto, inocentemente, eu me dirigia para casa com uma mala contendo, supostamente, roupas masculinas em vez dos perfumes que eu comprara, minha mala rodava solitária pela esteira, o que suscitara o interesse do segundo personagem deste drama, que dela se apoderou, certamente com um faro detetivesco a perscrutar algum nome ou endereço. 
Sorte minha ter isso acontecido em Brasília e não nos países por onde eu pervagara; sorte maior eu morar relativamente perto do aeroporto e sorte com letra maiúscula o fato de que eu não “perdera tempo” no Freeshop, o que fatalmente faria com que o personagem secundário desse drama perdesse a conexão para o Rio e sua cabeça, o que talvez fizesse com que eu tivesse o mesmo destino do marquês.     

Se algum dia eu proteger minha mala novamente, vou querer uma cor exclusiva!
                      

                                  

domingo, 20 de abril de 2014

Tecendo comentários - Angela Delgado

Muita gente está elogiando Cem anos de solidão, mas como preferi  Vivir para contarla, irei na contramão e contarei sobre o livro que acabei de ler e viver:
I Miserabili, em três volumes, de um dos meus escritores preferidos: Victor Hugo.
Li-o no original antes de 2005, época em que o reli, em sua tradução espanhola, juntamente com uma tradução portuguesa. Esta, a meu ver, malfeita, ou fui eu que estranhei o português do meu querido Portugal.... Não sei mais em que ano o li em inglês, tradução também que pula vários capítulos! Em 2013, comecei a me ensinar italiano, relendo essa mesma obra, com todas as traduções ao redor. Ontem, terminei o terceiro e último volume desse maravilhoso romance de aventura moral.
 Victor Hugo disse uma vez que se não conseguisse emocionar os leitores com Os Miseráveis pararia de escrever! Impossível não ir às lágrimas ao final, mesmo após tê-lo lido em tantas línguas.
Seu resumo se encontra nele próprio: “O livro que o leitor tem neste momento diante dos olhos é, do princípio ao fim, no todo e nos pormenores, quaisquer que sejam as intermitências, as exceções ou defeitos, o caminhar do mal para o bem, do injusto para o justo, do falso para o verdadeiro, da noite para o dia, do apetite para a consciência, da podridão para a vida, da bestialidade para o dever, do inferno para o céu, do nada para Deus. Ponto de partida: a matéria; ponto de chegada: a alma. No começo, hidra; no fim, anjo.”
Para quem quer aprender italiano, como eu, eis a tradução: “Il libro che il lettore ha sotto gli occhi in questo momento, è da cima a fondo, nel suo insieme e nei particolari, qualunque sia le intermittenze, le eccezioni o le manchevolezze, il cammino dal male al bene, dall´ingiusto al giusto, dal falso al vero, dalla notte al giorno, dall´appettito alla conscienza, dal putridume alla vita, dalla bestialità al dovere, dall´inferno al cielo, dal nulla a Dio. Punto di partenza: la materia, punto 
d´arrivo: l´anima. Al principio l´idra, alla fine l´angelo.”
Outras palavras imperdíveis:
“Se a liberdade é o cume, a igualdade é a base. A Igualdade, cidadãos, não é o nivelamento de toda a vegetação, é, civilmente, o mesmo ingresso a todas as aptidões e, religiosamente, todas as consciências com o mesmo direito. A Igualdade tem um órgão: a instrução gratuita e obrigatória. O direito ao alfabeto, é por onde se deve começar. A escola primária imposta a todos, a escola secundária oferecida a todos.”
“Si la liberté est le sommet, l´égalité est la base. L´égalité, citoyens, ce n´est pas toute la végétation à niveau, une société de grands brins d´herbes et de petits chênes; c´est, civilement, toutes les aptitudes ayant la même ouverture; religieusement, toutes les consciences ayant le même droit.
L´Égalité a un organe : l´instruction gratuite et obligatoire. Le droit à l´alphabet,
c´est par là qu´il faut commencer. L´école primaire imposée à tous, l´ecole secondaire offerte a tous.»
Repararam que a tradução portuguesa ignorou a frase, "uma sociedade de relvas crescidas e carvalhos pequenos”, que seria a consequência de um nivelamento, sem levar em conta as naturais diferenças?
Há muito mais. Só comentei esses dois trechinhos do terceiro volume, para não cansá-los.
Quem não leu Os Miseráveis, não sabe o que está perdendo.  
Boa Páscoa a todos!


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Frases de Clarice Lispector (Obrigada, Geo, pelo empréstimo do livro!)

"... Cercas delimitando cantos que não seriam cantos se não houvesse as cercas arbitrárias."
 (Já vejo por outro ângulo: Graças às cercas, a infinitude cansativa se torna um cantinho aconchegante.)

"Com uma sabedoria instintiva, Ermelinda não demonstrou que notara o seu passo para ela,
 assim como não se dá um grito de alegria quando uma criança começa a andar, para que
 esta não pare assustada por meses."

"Se uma pessoa fizesse apenas o que entende, jamais avançaria um passo."

"Um pouco vivida, sabia que na hora as coisas pareciam certas e depois não pareciam mais."

"Quando tomo um calmante, não ouço meu grito, sei que estou gritando, mas não ouço."

"De repente pareceu a Martin que ele andara em caminhos superpostos. E que sua verdadeira 
e invisível jornada se fizera na realidade embaixo do caminho que ele julgara palmilhar.
 E que a verdadeira jornada estava agora saindo subitamente à luz como de um túnel."

"... aquela iminência para a qual tudo pareceu debruçado."

“- E a senhora, por que veio para cá?
  - Que pergunta estúpida. É como se eu lhe perguntasse: por que é que o senhor vive!
  - Porque tenho certo instante em vista, disse ele."

"Deus sabe que há pessoas que não podem viver com a felicidade que há dentro delas,
 e então Ele lhes dá uma superfície de que viver, e lhes dá uma tristeza."

“É preciso ter técnica para pedir. Não é só dizer "me dá" e acabou-se! É preciso pedir disfarçando.
 Se a senhora precisa de um par de sapatos, o mais aconselhável seria dizer aos pouquinhos:
 meus sapatos estão velhos. Compreende? Seu marido um belo dia acordaria de manhã e,
 sem ao menos saber por que, diria assim: Vitória, meu amor, vou lhe dar um par de sapatos!
 Receber pedidos assusta muito as pessoas, que, no entanto, às vezes estão doidas para dar, entendeu?"

"... consigo levava a impressão que hoje, agora, neste momento, enfim se revelava. 
Como se tivesse guardado tanto tempo que o acontecimento enfim exalasse um maduro odor 
de fruto, e o vinho que fora novo tinha ganho espessura e essa qualidade que ilumina uma taça."

“A senhora olhou aquele homem, aquele homem que era cruamente o dia de hoje, e como tocar diretamente no dia de hoje, nós que somos hoje?
 E tudo é teu se tiveres coragem de olhar de frente, mas de súbito, naquele homem ali, 
o tempo viera de tão longe para se esborrachar em: hoje!  Urgente instante de agora.
Por erro de vida - e bastava um erro, nessa coisa frágil que é a direção, para que a pessoa 
não chegue - por um erro de vida ela jamais usara o silencioso pedido que usamos
 que faz com que os outros nos amem."

"Sobressaltou-se de novo, ainda não firme naquelas pernas que lhe estavam sendo dadas.
 E como um cego que tivesse recobrado a visão e não reconhecesse com os olhos aquilo que 
 mãos sensíveis sabiam de cor, ela então fechou um instante as pálpebras, tentando recuperar o conhecimento íntegro anterior; abriu-as de novo e procurou fazer das duas imagens uma só."

“Preciso me exagerar. Senão que é que faço de mim pequena?”

domingo, 23 de março de 2014

Um pouquinho de Humberto Maturana


     Se cuenta la historia de una isla en Alguna Parte, donde los habitantes anhelaban intensamente ir a otro lugar y fundar un mundo más sano y digno. El problema, sin embargo, era que el arte y la ciencia de nadar y navegar nunca habían sido desarrollados (o quizás habían sido perdidos hacia mucho). Por esto había habitantes que simplemente se negaban siquiera a pensar en las alternativas a la vida de la isla, mientras otros hacían algunos intentos de buscar soluciones a sus problemas, sin preocuparse de recuperar para la isla el conocimiento de cruzar las aguas. De vez en cuando, algunos isleños reinventaban el arte de nadar y navegar. También de vez en cuando, llegaba a ellos algún estudiante, y se producía un diálogo como el que sigue:
-          Quiero aprender a nadar.
-          ¿Que arreglos quieres hacer para conseguirlo?
-          Ninguno. Sólo deseo llevar conmigo mi tonelada de repollo.
-          ¿Qué repollo?
-          La comida que necesitaré al otro lado o donde quiera que esté.
-          Pero si hay otras comidas al otro lado.
-          No sé qué quieres decir. No estoy seguro. Tengo que llevar mi repollo.
-          Pero así no podrás nadar, para empezar, con una tonelada de repollo.
-          Entonces no puedo aprender. Tú lo llamas una carga. Yo lo llamo mi nutrición esencial.
-          ¿Supongamos, como una alegoría, que no decimos repollos sino ideas adquiridas, o presuposiciones o certidumbres?
-          Mmmm… Voy a llevar mis repollos donde alguien que entienda mis necesidades.


quinta-feira, 13 de março de 2014

Velhinho em folha - João Ubaldo Ribeiro


     Vai ter reclamação. Sempre tem reclamação, quando me declaro velho. Vem de leitores com mais idade do que eu que me consideram um infante mal saído dos cueiros e veem no que digo a insinuação de que já estão mais ou menos com um pé na cova. Nunca pretendi fazer tal sugestão, mas compreendo que reajam dessa forma e até parei de me chamar de velho. Agora, contudo, é oficial, está na lei. Não a li, mas é do conhecimento público que quem tem mais de sessenta atualmente se enquadra na categoria de idoso, ou seja, velho mesmo. Isto quer dizer que sou idoso há três anos e, portanto, se não posso ter-me na conta de veterano, não há como classificar-me de calouro. Manda a honestidade, porém, que eu confesse ter sido um idoso negligente e alienado. Até a semana passada, nunca havia feito o menor esforço para assumir de verdade minha condição. Mas agora, subitamente, fui despertado para sua plenitude e devo dizer que estou encantado com os horizontes abertos. Achando-me calejado e até meio cético, pensava que não toparia com mais descobertas e desafios. Que engano, que visão estreita da existência! Como tinham razão os que diziam que a vida começa aos sessenta! Vocês, meninas e meninos de cinquenta, ainda não viram nada, em sua ingenuidade juvenil. Percebo claramente que ser idoso é um grande barato e mal posso esperar pelos dias vindouros, quando pretendo explorar todas as vias abertas, cujas potencialidades ainda apenas vislumbro, mas tenho certeza de que serão uma fonte inesgotável de experiências enriquecedoras.                                                                            Sei disso porque já estreei minha (desculpem) idosidade e é igual a um brinquedo novo, não quero largar. Da mesma forma que outros achados felizes, minha iniciação se deu por acaso. Foi numa prosaica fila de banco. Estava eu na fila comum, quando observei, bem ao lado, que havia uma para gestantes, deficientes e idosos. No raciocínio veloz que  me caracteriza, ponderei as informações durante alguns minutos. Não sou deficiente (a não ser mental, mas até hoje relativamente pouca gente reparou), não me encontro grávido, mas – aleluia! – sou idoso. Como perder aquela chance inédita? Senti falta de um fotógrafo para registrar o momento, mas a felicidade não pode se completa e, sem a menor hesitação, passei emocionado e, não nego, um pouco nervoso, para a primeira fila de idosos.                                                                                      Ah, nem lhes conto, foi um impacto atrás do outro. A fila, naturalmente, andava bem mais devagar do que a normal, mas aqueles moços imaturos que compunham a do lado não faziam ideia do que estavam perdendo, a começar pela extraordinária companhia em que me vi, logo rodeado de amigos feitos na hora, todos ansiosos por trocar experiências e estabelecer um sadio convívio geriátrico. Creio até mesmo, Deus me perdoe, pois não quero ser gabola nem indiscreto, que, se tivesse demorado na fila mais do que os quarenta minutos que passei nela, a conversa com a companheira de bengala e aparelho de surdez teria dado futuro. Cheguei a cogitar em pedir o número do telefone dela e só não o fiz porque ela observou que seu programa favorito era bingo e eu não sou bom de bingo. Mas foi muito estimulante para o ego notar que ainda desperto vivo interesse feminino e, se me dedicar um pouco ao bingo ou aos bailes da terceira idade, sou capaz de fazer grande estrago no mulherio, que é que vocês estão pensando?   
         Saí dali para um cenário luminoso e repleto de perspectivas inebriantes. Sim, agora eu via como a vida nos destina surpresas preciosas, descerrava-se um mundo ignoto e inexplorado, cabia esmiuçar cada possibilidade, era preciso desfrutar do esplêndido leque que se desdobrava, uma avalanche tão farta que estonteava. Por onde começar? Difícil, bem difícil, mas ao mesmo tempo fácil, é só não se afobar e ir pegando o que aparece, sem dar importância a prioridades complicadas de estabelecer, deixando a vida me levar.
          E ela leva. Mal pus os pés na rua, quis o feliz acaso que eu comprasse um jornal e visse, logo de primeira, que o Estatuto do Idoso prevê adoção para nós. O coração bateu mais acelerado. Adoção? Quer dizer que poderei inscrever-me num dos programas que certamente serão criados e esperar pelos meus pais adotivos? Não se deve querer impor condições excessivas ao processo de adoção, mas de uma coisa estou seguro. Vou querer um pai tipo paizão mesmo e, se prometo bom comportamento (inclusive tomar banho assiduamente, pois li também que nós, idosos, costumamos criar dificuldades para tomar banho, coisa que ainda não faço, mas vou treinar para fazer, enquanto não for adotado), exijo mesada digna e Papai Noel, espero ser levado regularmente ao Maracanã e, quando completar setentinha, comemorar no Disney World. Além, é claro, de passar as manhãs no Baixo Vovô, fruto natural da existência, inegavelmente discriminatória, do Baixo Bebê, aqui no Leblon.
          Fiquei tão exultante que decidi ostentar meus status e mesmo inaugurar uma linha de camisetas para nossa identificação, com dizeres apropriados. Aceito sugestões, porque até agora só bolei “Idoso – Use sem agitar”, o que pode ser até um bom começo, mas haverá melhores. O céu é o limite e, garanto a vocês, minha próxima iniciativa, acreditem se quiserem, será usar meu sagrado direito de andar de graça nos ônibus. Estou apenas aguardando que se apresentem voluntários para minha equipe de apoio, pois dizem que exercer esse direito é um esporte radical, que requer adestramento especial e uso de capacete, joelheiras, cotoveleiras e tanque de oxigênio portátil. Mas um dia destes eu tomo uma papinha de aveia reforçada, meto no juízo uma dose dupla de Maracugina, fico doidão e encaro. O idoso brasileiro é o melhor do mundo.



domingo, 2 de março de 2014

QUEDA DO MINISTRO EM TRÊS TEMPOS -- Anna Maria Assis Ribeiro

Episódio 1

Orgulhosa, ela escutou o convite: o Ministro queria conhecê-la. Sua solução para a automação no tratamento das informações daquele importante projeto era uma inovação, na época. Merecia elogios. Aprontou-se, o mais executiva que conseguiu com seu guarda-roupa nada ortodoxo e mandou-se para o ministério. Ali sentada, frente ao Ministro emoldurado pela Bandeira e pelo retrato do Presidente, deitou falação. Às folhas tantas o Ministro embatucou diante de uma fórmula matemática. Ela levantou-se, rodeou a mesa e colocou-se em pé, a seu lado, curvando-se para melhor explicar. Foi neste exato momento que sentiu alguma coisa roçar no peito do pé, acondicionado numa meia Dior, como pedia a ocasião (naquele tempo os Ministros eram importantíssimos! Acreditem os mais jovens). Deus! Faça com que não tenha corrido um fio! Esta meia é caríssima! Um discreto olhar revelou o horror! Uma barata instalara-se ali! O mundo desabou. Tudo escureceu! Privação de sentidos total! Ao voltar a si, percebeu-se de quatro, em cima da mesa do Ministro, aos gritos: Mata! Mata! A Bandeira e o Presidente da República ainda ladeavam o Ministro que em pé, com uma frieza glacial, ordenou: a senhora desça! Procurando manter elegância, impossível pelo quadrúpede recuo, escorregou mesa abaixo, obedecendo à ordem severa: a senhora está dispensada.
Episódio 2
Alguns meses depois. No dia 29 de dezembro duas datilógrafas batiam furiosamente uma Instrução Especial que teria efeitos tributários e que deveria para tanto, depois de assinada pelo Ministro, ser publicada no DO, antes do dia 31. Naquele tempo não existia xerox e o raio da Instrução era em 8 vias. As máquinas não eram corretivas e as cópias eram feitas com carbono, naquelas folhas fininhas, fininhas. Um trabalho cão. Terminaram já tarde. Alguém graduado tinha que ir colher a assinatura do Ministro. Infelizmente o único alguém disponível era ela. Fazer o quê? Disfarçou-se o mais que pode. Mas não surtiu efeito. Ao entrar viu o horror do reconhecimento nos olhos do Ministro. Um exame discreto para o chão garantiu a não existência de baratas por perto e ela postou-se ao lado do Ministro virando as páginas para que ele rubricasse cada uma daquelas malditas folhas de papel fino. A cada folha um sentimento de alívio. Nada iria acontecer. Foi aí que surgiu, sabe-se lá de onde, um copeiro com uma bandeja com xícaras de café. Cheias e pelando. Ao levantar o braço, alçando mais uma folha, foi-se a bandeja pelos ares. As xícaras derramaram-se sobre o Ministro e sobre a Instrução Especial, inundando-os de café. Em sua aflição ela tentou secá-lo com as próprias folhas da Instrução enquanto ele se debatia aos tapas, tentando dela se livrar. Escorraçada, ela retornou e confessou-se ao Presidente e ao Diretor que entre risos e censuras fizeram com que duas datilógrafas passassem a noite em claro (nunca mais falaram com ela, as duas).
Episódio 3
Alguns meses mais se passaram e ela foi chamada ao Gabinete do Presidente. O Diretor também estava presente. Solenes eles informaram que a Missão Francesa viria visitar a instituição, a convite do Ministro. Ela, em hipótese alguma, deveria estar presente. Que fosse a praia, ao cinema, onde bem lhe desse na telha, mas sob pretexto algum deveria aparecer nas imediações do prédio, no dia da visita. Enfim alguma coisa de bom havia resultado dos incidentes. O acúmulo de trabalho lhe tirava até os fins de semana. Uma trégua seria mais que bem vinda. No dia da visita arrebanhou os filhos: vamos à praia! Se eu vou faltar ao trabalho, vocês vão faltar colégio! Uma heresia nunca vista! Naquele tempo ela não tinha telefone. Era difícil conseguir. Era o número 1.144 da fila para obtê-lo! A campainha da porta revelou um colega e o prenúncio de tragédia: o interprete havia quebrado a perna num acidente de carro. Que conhecesse o projeto e falasse francês só mesmo ela. Tremeu! Uma hora depois se viu numa sala, sentada como um suspeito em interrogatório, acuada pelo Diretor e pelo Presidente que de pé, ferozes, gritavam: fique o mais afastada possível! Imóvel. Aja como um robô!  O olhar do Ministro, ao vê-la, revelou pânico. Ela engoliu em seco e com uma voz trêmula começou a traduzir e verter as diversas manifestações. Aos poucos foi se acalmando. É claro que nada iria acontecer. Até o momento em que um idiota qualquer sugeriu que o Ministro mostrasse ao General Francês, o CPD. Naquele tempo computadores eram raridades dignas de serem exibidas. A escada que conduzia ao CPD não tinha o espelho dos degraus. O Ministro, ao lado do General, começou a descida. Ela veio atrás, traduzindo, furiosamente. E... eis que o salto de seu sapato pisa fora do degrau e ela tomba para frente. Falta de outro apoio agarra-se às costas... do Ministro. Alguém que estava atrás impede sua queda. Mas ninguém, ninguém mesmo, impede a do Ministro que rola os felizmente poucos degraus que faltavam. Confusão total. Todos se precipitaram para ajudar o Ministro a recompor-se da queda. Ele levanta-se rubro de raiva gritando: esta mulher é uma catástrofe! Demita-se!
Epílogo
O Diretor e o Presidente não cumpriram a ordem e ela ficou escondida, impedida de participar de qualquer evento em que o Ministro pudesse estar presente. Já se passaram anos, muitos anos. O trauma causado não a abandonou, nem com seis anos de terapia. O Ministro, agora bem velhinho, às vezes vem ao Rio. Quando ela vê seu nome nos jornais recusa-se a sair de casa. Não importa o que tenha que fazer. Tranca-se no quarto enquanto ele permanece na cidade. Tem certeza que se pisar fora de casa, vai topar com ele e sabe-se lá o que poderá ocorrer! Pensa, às vezes, em se converter a alguma religião que, afirmando a existência de reencarnação, explique o que este Ministro lhe teria feito de terrível em outras vidas. Isto explicaria tudo e ela poderia se livrar, sem culpa, deste Carma.