sábado, 1 de fevereiro de 2014

Vem e passa - Angela Delgado

     Pulverizo WD-40 no basculante do banheiro, mas nada acontece. Deixo por mais meia hora e tenho que arrematar o serviço com o martelo de borracha. Finalmente, consigo fechar a janela. Ganho o dia, porque o que me levara a remediar a situação fora ter visto, logo ao acordar, uma barata na parede do banheiro. O inseto veio de fora, pois a casa foi dedetizada há pouco - como dissera o marido -, então,  enquanto ele está às voltas com o bacalhau na cozinha, resolvo fechar na marra a janela, há anos impossível de ser fechada.
     Nesse dia obteria mais uma vitória: meu neto, inusitadamente, não conseguiu trocar a música do meu blog, e eu só dormi depois de triunfar: ufa, consegui!
     E assim, enquanto o “chef" coleciona quitutes, vou somando o que, pelo menos para mim, são pequenas vitórias gratificantes. É um baita preconceito achar que é coisa de homem tentar consertar fechadura; pegar em alicate e martelo; resolver um problema na cerca... Não que eu goste especialmente desses afazeres. Do que gosto é de consertar coisas, sejam lá o que forem. E claro que enveredei por esse lado por estar a cozinha ocupada...
     Mas por que escrevo isso? Porque também me apraz escrever e pelo conselho de minha amiga Jacqueline Aisenman:

     “Não se preocupe com o pecado das letras e nem com a militar formação das frases. Escreva. Não busque os olhos críticos, tente encontrar os corações. Esqueça os títulos e as graduações. Escreva. Rime e brinque, crie, invente, seja poesia e faça poemas de vida. Escreva. Conte o seu dia, o momento do amigo, a saudade do pai. Escreva. Crie personagens, dê-lhes vida, conte histórias. Escreva. Mostre. O perigo não está em alguém não gostar do que você escreveu, nem no estilo, nem nos erros. O perigo está em você não deixar livre sua alma, está em se preocupar com o que os outros fazem, em pensar que existe melhor ou pior. Escreva. Seja você em cada linha, seja cada palavra, viva tudo o que escrever, seja na vida ou na imaginação. Viva. Escreva...”
   

     Então, aqui estou para contar que, em minha caminhada, cumprimento com um bom-dia a mulher que cruza meu caminho, mas que não responde. Será que é surda ou, não sendo exatamente a coisa mais linda, mais cheia de graça, que vem e que passa, está se perguntando por que a “magrela” que sou está se exercitando. Esse é o ser humano invejoso. Mas, será que é apenas aérea e sua mente está alhures, e sou eu o ser humano que julga?
     No dia seguinte, indo num doce balanço, a caminho de casa, eis que à frente vem um cidadão. Como meu neto, com seu talento teatral, costuma exagerar dizendo que não paro em Posto de gasolina à noite, com medo de ser assaltada, sequestrada, violentada e morta, cogito em atravessar a rua, porém a calçada sombreada do lado de cá foi mais forte, e ouço do indivíduo um sorridente bom-dia! É o ser humano que também pode surpreender.
     Mariazinha é outro exemplo disso: Trabalhou para minha mãe, igualmente Maria, durante 40 anos e depois continuou a servir aos filhos de D.Maria, ao mesmo tempo em que plantou uma semente de amendoeira em sua casa, planejando se aposentar, quando a árvore crescesse o suficiente para que ela pudesse ler sob sua sombra!
      Um dia, não muito belo, o aviso foi dado da maneira mais pitoresca e eufemística possível: A árvore estava dando sombra...                                                                                  Embora tenha eu sugerido, em tom de brincadeira, que ela fosse urgentemente podada, 
para que não se perdesse a Mariazinha, fiquei encantada com seu gosto pela leitura e lhe enviei alguns livros, para o seu mais do que merecido descanso.                                                     
     Lembro-me agora de outro modo de se transmitir a má notícia, bem sui generis: Seu animal de estimação morreu, no incêndio, involuntariamente provocado pelo desespero de seu marido, que, vendo-se arruinado financeiramente, se suicidou.                                                                                                                                                                                             
            E uma cronista incrível, que estava me alegrando diariamente com seus textos, anuncia, de supetão, a sua derradeira postagem, sem ao menos ter anunciado a subida do gato ao telhado...

4 comentários:

  1. Delícia de crônica, Ângela. A parte a menção ao monstro que não posso admitir nem a escrita do nome, Arranja outro motivo para a martelação do basculante do banheiro mas não menciona este inseto horrível. Adorei o conselho de sua amiga: escreva! No mais inveja do bacalhau. Um marido que sabe preparar bacalhau é coisa rara e preciosa, Estas pequenas vitórias e êxitos do dia-a-dia são importantíssimas na vida. Eu ontem consegui consertar minha impressora e até telefonei para meus filhos para contar, Não ficaram impressionados nem um pouco o que demonstra uma ausência de sensibilidade que me desgostou. Hoje vou contar para minhas netas. Quem sabe puxaram mim! Eu avisei, sim, que o gato iria subir no telhado quando iniciei a publicação das crônicas. Embora você assim não julgue eu não sou cronista. Sou só uma falastrona que escreve o que fala, o que, segundo minha avó é um perigo porque "as palavras vão e os escritos ficam". Ainda ás voltas com a festa de 15 anos de minha bela neta Maria Clara. Agora é a decoração do salão e a discussão com o filho (que é pai e mãe) e que acha um absurdo o que eu estou fazendo. Chegou ao disparate de dizer que eu não fiz festa de 15 anos para ele!!! Caramba! Uma cobrança de 37 anos.

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  2. Querida "Falastrona",
    Claro que seus filhos não se impressionariam com o fato de você consertar a impressora.Ora, uma analista de sistemas e isso, desde décadas atrás, tem a sua genialidade reconhecida há muito tempo. E ainda bem que os escritos ficam, assim tenho um tesouro no meu notebook e até impresso. Quanto ao seu filho, apesar de achar que ele estava brincando, que meninos de 15 anos, geralmente preferem uma bola de futebol. Não estão nem aí para "debutar". Hoje em dia, só querem saber de joguinhos eletrônicos, enquanto as meninas amadurecem mais rápido. Sábado, meu neto, que já fez curso de dança de salão, foi à uma festa e dançou com todas as meninas, além de dançar com a mãe da aniversariante, que também fez 17 anos. Que a sua festa seja também ótima. Um beijo na linda Maria Clara e outro em você.

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  3. Que textos gostosos, o seu, o da Jacqueline e o da Anna Maria! Uma barata pra motivar, uma sombra pra ler e descansar, o dia de hoje pra curtir. Adorei a visita.

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  4. Luci, a Anna Maria é uma cronista de primeira! Pena que já parou de postar em seu blog www.vaidaiquemsabe.blogspot.com
    Mas, acho que durante um bom tempo, ainda se pode acessá-lo. Ali há conteúdo para um excelente livro. Também adorei seu comentário!

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