segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Capítulo XIV de "Beijos na alma"

           Sim, mas enquanto Rigoroso não faz nada, passarinhos, que mal aprenderam a voar, atravessam a rua voando na frente dos carros e dou graças a Deus de não ser nenhuma ave. A Rainha das preocupações que sou eu teria um enfarte todo dia.    
            Como isto está virando um e-book, vamos lá: Italo Calvino em Se um viajante numa noite de inverno, um dos meus livros prediletos, compara o escritor produtivo com o escritor atormentado, em uma página memorável que não vou reproduzir aqui, mas apenas dizer que digito, abro o dicionário (sou viciada neles), procuro uma palavra que não tem nada a ver com o que estou escrevendo, vou à cozinha, volto, deleto, descubro que sou do tipo atormentado e volto a digitar:
Que pessoa simpática conheci há pouco! Quando lhe perguntei como se pronunciava o seu nome, me respondeu que eu podia chamá-la como quisesse, até por Psiu. Pois, Psiu, eu queria comentar com você o abuso de um país que retém no aeroporto compras do passageiro, sob pretexto de uma pretensa periculosidade. A alfândega quer ficar com uma pasta de dente? Então, pague por ela! O turista deixou seu dinheiro no país, mas não pode levar o produto. Isso é roubo, não é, Psiu?
E tenho mais coisas pra conversar com você, Psiu: sempre acordo agradecendo pelo tal dia “embrulhadinho” que recebemos de presente. Hoje, ele consistia basicamente em uma rusga com meu filho e uma baita dor de cabeça. Fui dormir cedo porque não conseguia mais ler ou fixar a tela do computador, pensando no meu presente “de grego”, quando o telefone tocou: Filha Antropóloga ligando para  me dizer que me amava...
E essa mesma filha apareceu aqui outro dia com uma amiga, que eu não conhecia. Como Filha Antropóloga já levou várias multas por falta do uso do cinto de segurança, na hora em que saíam, alertei a amiga: use cinto! Ao que ela respondeu que precisava mesmo, suas calças viviam caindo...
Que gargalhada gostosa demos Filha Antropóloga e eu! Imagine, se eu, tendo acabado de conhecê-la, iria sugerir usar cinto em sua calça!
E os quatro mosqueteiros, que são nossos netos entre 7 e 14 anos, virão para o carnaval. A fartura de balas, biscoitos e sorvetes que ainda sobrou das férias os aguarda, assim como geladeiras entupidas e o nosso amor. 
Psiu, agora ouça esta: vinha eu, tranquilamente caminhando, quando percebo um ciclista fazendo aquele gesto obsceno em retribuição à ligeira buzinada que alguém soou, com certeza, assustado pela irrupção de duas rodas à sua frente. Que destempero, não é, Psiu, e que oportunidade o ciclista perdeu de se mostrar sereno, além, de ecologicamente correto. Poderia ter acenado, querendo dizer que “foi mal”. Mas, ninguém é perfeito nesta vida...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

XIII

                                                  
Terminada a tarefa hercúlea dos arquivos revistos, digitados e prontos para serem plastificados, mergulho em um trabalho de versão para a língua francesa de um lindo livro de contos. Não o fosse jamais perderia meu tempo com ele. As palavras nos trazem mundos nunca olvidados. Serra de Petrópolis, subir à serra... Essa expressão a juventude de hoje desconhece, apesar de também subir nas tamancas. E aí estão universos paralelos no aqui e agora, no recôndito da alma. Mas antes que eu me enfronhe nessa viagem, preciso voltar à labuta da lapidação de frases, conteúdos, adaptações. Pois uma tradução ou versão não é uma cópia de um livro. Longe disso.
Mas, foi perto de uma formiga e seu arrastar de uma abelha morta que fiquei fascinada, querendo buscar uma câmara, sem poder perder o que estava vendo:
Uma formiguinha arrastando o seu festim, dez vezes o seu tamanho. Ela transpunha as crateras que eram as frestas entre uma lajota e outra, com a maior facilidade. Outras formigas passavam e eu me perguntava se iriam ajudá-la. Nem a ajudaram nem tentaram roubar o achado que a elas não pertencia. Por duas vezes, a formiguinha esforçada parou para recuperar forças. Peguei uma folha de papel, querendo-lhe proporcionar uma espécie de tapete mágico até ao formigueiro, mas ela caiu em uma das fendas e não a vi mais. Por que interferi? Não deveria ter emergido de minha imersão na literatura francesa, apesar de minha ótima intenção, foi como querer ajudar  borboleta a sair do casulo...
Pouco depois, trinava à beira da piscina, um passarinho querendo em vão, beber água, pois não alcançava o seu nível. Abstive-me de socorrê-lo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

XII

      Tive insônia na noite passada, pensando que a história do livre arbítrio é uma piada. Não o seria se, mais ou menos por volta dos 18 anos, tivéssemos sonhos reveladores e alguém nos dissesse: se seguir este ou aquele caminho, terá esse ou aquele destino. Ou, iluminações mais frequentes, como, se sair amanhã de carro levará uma batida frontal e sofrerá esporadicamente da síndrome do pânico. Vai sair, mesmo assim? Não somos, porém, advertidos de nada e depois tenho que cancelar um compromisso, porque estou receosa de pegar no volante. Onde está o livre arbítrio se não tenho nem o direito de ir e vir, como na rua de mão única do Pellicano, que diz que a considera inconstitucional?     
     Além desse handicap que nos impossibilita uma real liberdade, a idade nos traz outras limitações e, apesar delas, temos que nos lembrar de mastigar – quantas vezes mesmo?  Cento e sessenta em cada garfada - e, entre outras lembranças, saber onde está aquela revista de restaurantes, porque o marido quer almoçar fora. - Vou achá-la, talvez, em cinco dias, mas garanto que acho, tenho o dom e o faro para coisas perdidas.
     Enquanto isso, podemos almoçar aqui pertinho, é caro, mas uma vez na vida e outra daqui a alguns meses...
     E o que faço agora, menos de um mês depois? Passo a limpo todo um arquivo de receitas. Pensando na utilidade desse trabalho hercúleo, tendo tantas revistas e livros de receitas culinárias, percebo sua importância, vislumbrando a diferença entre um frio quarto de hotel e a nossa casa. As receitas das fichas, quando não vieram de longe, de nossas avós e tias, foram todas feitas com carinho, a maioria pelo chef local, degustadas em muitos natais e aniversários e passarão de filha para neto, ad eternum.
       Digitando as receitas, outrora batidas à máquina, depois de “salsa”, automaticamente digito “cebolinha” e novamente me reportei ao Ciro Pellicano e seu qualificativo “rigoroso”, que “cansado da longa parceria com o substantivo inverno, aproveita o advento da publicidade e mergulha de cabeça num relacionamento simbiótico com a expressão controle de qualidade. Apaixonam-se e um não sai mais do dicionário sem a companhia do outro. Mas, quando a união se desgasta, Rigoroso não perde tempo e flerta com outras expressões, não conseguindo, porém, estabelecer uma união mais duradoura. Aconselhado por amigos, frequenta um curso de atualização profissional, passando a trabalhar como advérbio. Fazendo o quê? Rigorosamente nada.”
Ao contrário do Rigoroso, estou sempre ocupada e, hoje, em minha caminhada reparei que algum dono de cachorro não recolhera o que devia ter colocado em um saquinho e tive o ímpeto de prevenir a quem vinha atrás de mim, mas, pensando que talvez o casal enxergasse tão bom quanto Quérida Sister e jamais admirasse o céu, em suas andanças, contive-me.



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capítulo XI


                                                                    
                                                     DIÁRIO DE PERNAMBUCO

    Chegamos em uma tarde chuvosa e minha filha Mariana, que ainda não sabe se locomover nesta cidade, se perdeu, apesar do GPS, batizado por Miguel, seu filho de catorze anos, de "Lola, a louca".
   Acho que Lola, de tanto Mariana dizer que a odeia, por mandar virar em ruas que é impossível entrar, a não ser que se queira provocar uma batida, resolveu se vingar, me “oferecendo” um city tour, com seu constante “Novo cálculo de rota” e assim, despachando para um dos lugares mais perigosos de Pernambuco, o Morro de Jaboatão, um Corolla com duas mulheres e quatro crianças.
     Após uma tentativa de comunicação com o motorista de um carro ao lado, que seguia com vidros fechados e de muito rirmos por causa da mímica utilizada por minha filha -  a de abaixar o vidro como se estivesse rodando a manivela dos carros de antigamente - e de uma hora rodando pela cidade e sairmos da BR101, que nos levaria a João Pessoa, chegamos ao belo prédio em que minha filha mora e onde ficarei por quinze dias.
     Deveríamos ter seguido o conselho do Ciro Pellicano: “Se você se perder numa cidade estranha, faça o seguinte: pegue a primeira à direita, a primeira à direita de novo, a primeira à direita mais uma vez, e pronto: você se achou.”
     Depois de desfazer a mala e dar uma volta pela área de lazer do edifício, recebi uma boa massagem, e hoje acordei pensando em Jaboatão, que é um município pobre, mas que, com sua pista principal asfaltada, nem de longe, e muito menos de perto, se parece com uma favela carioca, caso em que jamais teria sugerido à Mariana que parasse e pedisse informações... Mas, claro, minha idéia não foi acatada.
         Mais tarde, ela me perguntou se eu queria ir a um Museu. Achei melhor eu lhe comprar um mapa e, por hoje, conhecer apenas seu local de trabalho, por ser um roteiro conhecido.
     - Querem ir a Porto de Galinhas? Perguntou ela ao ver a manhã ensolarada.    
     A dúvida era se deixaríamos Lola em casa. Má idéia a de tê-la deixado ir, pois, com sua mania de nos direcionar para “a primeira à esquerda”, mesmo sendo contramão, acabou nos informando, como em outras vezes, estarmos “fora de rota”. Paramos, então, em um Posto e depois das informações: “Depois do segundo semáforo, vire à esquerda, passe pelos Correios, pelo viaduto, vire à direita e vamo s’imbora!”
     “Vamo s’imbora?” Se houvesse lugar no carro, até que seria boa idéia lhe oferecer carona, assegurando, assim, nossa chegada à praia em hora não cancerígena, pois Lola, sentindo-se traída por nossa falta de confiança, emudeceu.
          Hoje já é outro dia. Depois de deixar minha neta no colégio, do outro lado da rua, e de fazer ginástica ao som de Nicola Hall, saio a pé para explorar a redondeza. Compro o Diário de Pernambuco, entro em uma livraria e a chuvinha me manda de volta para casa. Amanhã levarei guarda-chuva.
     E é prevenida contra ela que, no dia seguinte, entro em uma das quatro livrarias da redondeza de prédios afastados uns dos outros, e compro “Trem noturno para Lisboa” para levar de presente.
     De volta ao Edifício Acácia, onde gosto da interação dos cumprimentos – apesar de serem só dois apartamentos por andar, são vinte andares e muita gente descendo, subindo e desejando bom-dia - dou uma olhada no presente que darei:
     “O som discreto de um ‘divertimento’ de Mozart dava a impressão de que se estava longe de tudo o que era ruidoso, feio ou opressivo.”
     Que coincidência é esta? Sou tão apaixonada por Mozart, que até trouxe CDs dele em minha mala! Se o livro não tivesse me atraído por um comentário ouvido outro dia, tê-lo-ia comprado só pela alusão ao “Divertimento”. 
    Não resisto e me embrenho leitura adentro. Um livro novo, pelo qual me interesso, é excitante como um novo amor e aqui as frases se alternam entre as do livro e as ouvidas dos netos.
     - Clara, coloque na mochila o casaco.
     - Pode deixar, vó, eu sei das coisas.
     - Sabe – pergunta o Davi – então quanto é um vezes um?
     - Conta de vezes eu não sei...
       Em Olinda, visitei o Mosteiro de São Bento, bem inferior ao do Rio de Janeiro; vi  pitorescas casas geminadas e coloridas; subi uma ladeira deserta, onde a água da chuva descia em pequenas cascatas pelos degraus da calçada, pensando onde é que tinha ido me meter; comi tapioca recheada com queijo; tentei admirar a vista do Alto da Sé, mas o tempo nublado e a garoa mo impediram; passei por várias lojinhas de artesanato, já um pouco preocupada com a volta; misturei-me às pessoas que desciam de um ônibus de turismo e terminei meu passeio entrando no único táxi à vista, antes que os passageiros que desembarcavam, fechassem a porta.
      Fui, vi e venci.
     Quase aliviada, chego à Rua Isaac Salazar em Recife (o táxi de Olinda a Recife é mais barato do que o do aeroporto em Brasília até minha casa), ansiosa por continuar a leitura de “Trem noturno para Lisboa”. Mas, antes, minha filha me deixou em um shopping, aonde fui à cata de alguns CDs. Não os encontrando, atravessei a rua e sentei-me em um dos bancos de jardim situados ao longo das duas filas dos caixas prioritários (sim, isso existe!), guardando o lugar para minha filha, que se abastecia pelas gôndolas do supermercado.
      Compras guardadas, reabri o livro que mais parece “O livro das Coincidências”. Primeiro o autor cita a música “Divertimento” de Mozart, que tenho escutado, com frequência, ultimamente. Depois, cai como uma luva para a fase pela qual minha filha está passando e, agora o autor citou Eurípides, o poeta e dramaturgo grego, mas que sempre me lembra um homônimo, para mim mais importante: o meu pai. 
     Passando pelo belo Parque da Jaqueira, vejo pessoas se exercitando pela alameda e penso em quão saborosa é a palavra “alameda”. Aos poucos, outros “acepipes” vão surgindo em minha mente: périplo, “It is always a pleasure”, “It is still a pleasure”...
     Uma amiga “gourmet” acrescentaria: Macarrão ralado, Trupico, Relish de pepino, figo recheado de nozes e tantas outras de suas orgias gastroetílicas.
     O périplo de hoje foi pela Praia de Boa Viagem e pelo Instituto Ricardo Brennand com seus belos quadros, armaduras, estátuas e a exposição em cera representando o julgamento de Fouquet (relembrando, ministro das finanças de Luis XIV, que ousou ofuscar o poder do rei, com uma festa monumental em seu enorme castelo de setecentos quartos e, ainda por cima, levá-lo, ingenuamente aos seus aposentos, onde o rei se deparou com o quadro de sua amante secreta! Quase o prendeu no ato).
     No belo café do museu, que nos remete a Paris (com a diferença do cardápio), degustei uma tapioca com coco muito gostosa e foi pensando nela que voltei ao livro:
     ‘... uma luta contra a paralisia interior”.
     “Quando Amadeu lê um livro não há mais letras depois. Ele não devora apenas o sentido, mas até a tinta.” Até parece eu transpondo as frases para cá.
     Fechei o livro, antes que passasse a manhã, afinal o livro vai comigo para Brasília e a cidade fica, e fui à Casa da Cultura, antigo presídio, cujas celas foram transformadas em lojinhas, em sua maioria, de artesanato.
    Hoje o sol voltou, mas como estava em meus planos ensinar à empregada a fazer torradinha com espinafre, ficaria complicada uma ida à praia. Restringi-me ao sol à beira da piscina, onde continuei presa à leitura de Pascal Mercier, “sentimentos são a lava da alma”.
     Joguei sinuca e muito totó, conheci a Livraria Cultura daqui, onde comprei “El arco y la lira” de Octavio Paz e com o término da leitura de “Trem noturno para Lisboa” finda também minha estada em Recife, mas, não concordei com o autor que disse que “O verdadeiro encenador da nossa vida é o acaso – um encenador cheio de crueldade, misericórdia e encanto cativante.”
     Cativante é o livro, mas se o acaso fosse o único encenador, quem colheria o que semeamos?
     “Sempre temera a última página, e a partir do meio do livro já o afligia o pensamento de que teria de haver irremediavelmente uma última frase. Ele protelaria o virar da última página e adiaria o último olhar tanto quanto possível.”
     Igualzinho a mim, lendo livro de Saramago ou do Calvino.
      Voltamos à Praia de Porto de Galinhas e agora já é hora de voltar para Brasília, contente por não ter havido pane no morro do Jaboatão, violências na ladeira da Sé, assalto de tubarões na Praia de Boa Viagem, arrastão em Porto de Galinhas ou apagão no elevador rumo ao décimo quinto andar. Daria mais emoção ao texto? Desculpem-me, mas não é o meu gênero, e muito menos o tipo de adrenalina de que gosto.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

capítulo X


Podemos ser ínfimos no universo, mas, que graça teriam as estrelas se não fossem contempladas por músicos, poetas, crianças, sentimentos? É a humanidade que dá grandiosidade ao universo, apesar de todo o seu joio.
Que graça teria a lua se prateasse a água desse nosso pequeno mundo para seres sem importância alguma que não lhe dessem valor?
A Igreja erra quando prega uma humildade excessiva. Se fossemos nada e ninguém, qual o problema em sermos pisados e esmagados?
Qualquer coisa de longe parece pequeno. Sugiro invertermos o processo e nos maravilharmos com a nossa magnificência, não exatamente a minha, mas, a de muitos homens e mulheres, compositores, escritores, cientistas, médicos, professores, atores e batalhadores.
No parágrafo acima, lembrando-me de um personagem de um livro de Italo Calvino, tratei logo de substituir uma palavra que já fazia parte do vocabulário deste livro, pois o personagem em questão, com a ajuda de um programa de computador, analisava o livro em função do número de vezes em que uma determinada palavra aparecia! Fazia uma lista dos termos com a freqüência em que surgiam e deduzia ser um romance de guerra, uma história de um erotismo popular sem refinamentos ou uma muito diferente com sentimentos sutis apenas esboçados e a vida cotidiana com suas diversas disposições de espírito.
Voltando ao assunto, a humanidade precisa de autoestima para seguir em frente, vencendo obstáculos e fraquezas, em vez de se deixar abater e se reduzir a pó antes do tempo, mas, sem majorar pequenos problemas e supervalorizar ninharias que devem, ao contrário, ser menosprezadas.
Que a elas não nos misturemos, pois somos uma bela maquete.
E a “maquete” da “maquete”, um “nininho”, como diz o meu neto de dois anos, em três segundos provoca três cenas desesperadoras. Vai tomar banho e molha a ponta da toalha na água do vaso sanitário (Homens, entendam de uma vez a importância dos tampos abaixados!). O pai o coloca na banheira ainda sem água, ele cai e quando é dela retirado, faz xixi no tapete.
Agora, ouço-o brincando em outro quarto (acho que uma criança, embora deva ser supervisionada, precisa aprender a brincar sozinha e a não exigir a presença constante de um adulto por perto).
Quando fui dar uma olhada nele, encontrei-o sentado no pufe, assistindo desenho.
- André, como você ligou a televisão?!
- No “tole”!
Retornando ao livro que estou lendo em espanhol, paro diante da palavra “antojo” e ameaço não pegar o dicionário, achando que deve significar “nojo”, mas como sou desconfiada, abro o “pai dos perfeccionistas” e quase caio dura quando vejo o significado: vontade! “Enhorabuena”, traduzida mentalmente por “Em boa hora!”significa “congratulações”. Ainda bem que tenho alguns dicionários à mão.

     Chego ao fim do livro, escrito em 1981. Fico imaginando alguém levar 30 anos para gostar do que escrevo!
Comprarei outro livro da Rosa Montero, o que quer dizer que gostei deste terceiro que li.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Capítulo IX

Um dia festivo
Acordamos com barulho de chuva. A praia foi adiada. Em compensação, tenho ao meu lado "Doidas e Santas". O livro é altamente recomendável: profundo, leve e divertido ao mesmo tempo. E, alternando as risadas provocadas por Martha Medeiros com as produzidas entre Quérida Sister e eu, quando colocamos nosso papo em dia, chego à conclusão de que ela divertiria qualquer terapeuta.
Fora o que acontece de inesperado, como, de repente, um indivíduo parar na minha frente e despejar à queima-roupa a fala teatral:
- Até quando vou suportar o sofrimento do sentimento da ausência do seu amor?
Que ator!
Além do almoço de hoje e do concerto maravilhoso de harpas, o que está rolando entre duas sexagenárias se preparando para ir, por exemplo, à praia, é hilariante. Claro que estão acordando uma às quatro, outra às cinco horas, para poderem pisar na areia às oito, oito e meia, e saírem, pontualmente, às dez horas. É um tal de abre e fecha mala, onde estão os óculos, onde está a canga, o protetor solar, livros e o dinheiro exato do ônibus à mão para não dar bandeira de abrir uma carteira na frente da roleta. Isso depois de curá-la da neura de, no Rio, só andar de táxi, informando-a do fato de um taxista ter estuprado uma passageira.
- Quérida Sister, já achou tudo?
- Já. Só estou abrindo e fechando zíper por puro prazer.
Outro dia fiquei por um tempo procurando algo que Quérida Sister havia guardado em sua mala, pensando que era dela. Então, após guardar a minha escova de dente, antes que esta julgasse ser a sua, saímos. Mas, morando em casas, não temos o costume automático de pressionar o botão do elevador do prédio da mamãe, onde estamos hospedadas, e este demora a chegar ao térreo. Ele não funciona por telepatia.
- Quérida Sister, ande mais devagar. Minha sandália não é muito boa para caminhadas. É mais para desfilar.
- Com esse enorme diamante aí entre os dedos, só pode...
Está há tanto tempo na Inglaterra que deve ter esquecido o significado de ouropel. E tem mais. Não gosta que a alertemos ante uma poça d'água. Diz que não é cega. É assim? À vista de algo amarronzado, se ela não estiver com uma sandália minha, lembrar-me-ei de que enxerga muito bem.
Uma vez instaladas no Leblon, Quérida Sister com seu chapéu na cabeça, remexe na bolsa.
O que estava procurando? O próprio.
Na volta, pegamos um ônibus vazio, o que fez com que ela perguntasse se eu o fretara. É o risco zero de sermos assaltadas, respondo eu, a não ser que a cobradora seja uma meliante. Mas, antes de entrarmos no ônibus-fantasma, que assim, incrivelmente, permaneceu até ao nosso destino, sugeri darmos uma olhada na Livraria Argumento, ali pertinho, onde há o tal “Café pendente” da crônica da Martha Medeiros, que nos conta a simpática idéia de um freguês, que, por falta de troco, deixou um café pago, para ser degustado em outro dia. Café este rebatizado pela Argumento de “Café do próximo”, à disposição de qualquer um que entre desprovido de troco ou de dinheiro para um cafezinho.
Mas ela retruca que não há tempo, pois está com pressa. No meio do caminho, porém, surge um cachorrinho. Quérida Sister para e pergunta qual a raça e, conversa vai, sorriso vem, quando escuto “é que eu moro na Inglaterra...”, cogitei em esperá-la na livraria, pois haveria toda uma biografia a ser desfiada e tempo para vários cafezinhos.
Na Inglaterra, onde ela mora, não costuma ler os jornais com o mesmo vigor com que lê, uma vez em solo natal, “O Globo”, apesar de estar pouco ligando para as minúcias partidárias do “PCS, do PFZ ou PXX do cu do BT”, como desabafa.
Ainda desabafando, é que me estarrece ao comentar sobre um jantar oferecido pelo Parlamento, onde seu marido foi homenageado, entre outros, na qualidade de representante da Câmara de Navegação, e onde se defrontou com uma inglesa cheia de empáfia, que, ao encetar uma conversação, lhe indagou o que achavam seus irmãos de sua transformação, após trinta anos de vivência na Inglaterra (caso ignorem, muitos ingleses, assim como os americanos, se acham superiores)...
Apesar de estranhar a pergunta (que transformação?!), timidamente, respondeu que não havia mudado. De fato, mudança, no sentido entendido pela esnobe e insensível, não. Mas, sendo a mulher inteligente que é, sabe muito bem que há sempre transformações em qualquer estágio de nossas vidas e era isso que deveria ter respondido à loura de nariz empinado, além, digo-lhe eu, de tê-la esclarecido que, pensando bem, sim, tivera que se adaptar à dura realidade de um país frio, sem a liberdade e as mordomias que temos no Brasil, onde, ao contrário das inglesas, a maioria das brasileiras desfruta, quase sempre, de uma ajuda doméstica sem precisar cozinhar, lavar, passar, esfregar chão, lavar banheiro ...
Vou voltar para Brasília e abraço uma das cuidadoras (lá se foi o tempo das acompanhantes...) que diz que me ama. Respondo que a admiro muito e que ela é uma preciosidade.
- Olha a sacanagem! Foram as últimas palavras da doce Quérida Sister,antes de me acompanhar até ao táxi, também me abraçar e desejar uma boa viagem.

Oitavo capítulo de "Beijos na alma"

Hoje, é outro o protesto. Mandei a seguinte cartinha para o jornal:
Vendo novamente ciclistas ignorando o sinal vermelho, impedindo a passagem de dezenas de carros à espera do sinal verde, resolvi consignar a minha indignação.
Claro que é desagradável interromper o embalo, principalmente quando há outros em sua cola, mas isso não lhes dá o direito de desrespeitar o sinal de trânsito. Um motorista, quiçá atrasado para um compromisso (o que não é o caso de alguém se exercitando), freia diante do semáforo, e é por isso que outros carros não devem estar grudados em sua traseira. Que os ciclistas tomem esse cuidado, é o mínimo que devemos deles esperar, em retribuição à faixa de acostamento, que perdemos para eles. Daqui a pouco será o corredor que corre com suas próprias pernas que também não há de querer parar simplesmente porque, imagine, o sinal deixou de lhe ser favorável!
Publicaram o desabafo, embora sem a frase final, e vejo o seguinte comentário:
“Moradora do Lago Sul questionou neste espaço a postura dos ciclistas em passeios coletivos. Segundo ela, não respeitam os sinais de trânsito e prejudicam os motoristas.
A postura ideal de todo ser humano deveria ser respeitar, ceder e acima de tudo agir sempre com bom senso no trato com os demais e o meio ambiente, pois se assim fosse, tudo ia andar corretamente e todos iam ter seus direitos e deveres preservados e viver em um mundo socialmente justo e preservado. Mas o ser humano optou por buscar o benefício próprio e geralmente isso significa o prejuízo alheio e do planeta. Porém, a despeito da falha de alguns ciclistas, até por serem seres humanos, a moradora revela em suas palavras uma postura mesquinha, alegando que os motoristas “já perderam” o acostamento para os ciclistas, mostrando que não busca compartilhar e apoiar ações vitais para a continuidade da vida no planeta, e sim manter suas facilidades para andar em seu carro, mesmo que isso signifique grande impacto ambiental e as demais consequências negativas que esse hábito vem gerando no planeta.”
Publicaram minha tréplica:
Revolto-me com a poluição e quando vejo um veículo descarregando uma fumaça excessiva, meu ímpeto é o de interceptar o motorista, ingenuamente como se o pneu dele tivesse furado, para lembrá-lo de que seu filho respira! Também procuro amenizar o impacto ambiental pedalando, mas foi a pé que presenciei o desrespeito ao sinal de trânsito por parte de ciclistas.
Preocupei-me com a possibilidade de um motorista atropelar um deles, caso em que a corda não arrebentaria do lado mais fraco, pois com certeza, embora injustamente, o ônus do acidente recairia sobre o motorizado.
Concordo com quem disse ser respeitosa a postura ideal de todo ser humano, mas não quando ele exclui os ciclistas de tal dever.
Às placas chamando a atenção dos motoristas para a existência de ciclistas à direita, deveria ser adicionado o alerta a estes de que podem surgir carros à sua esquerda.
Afinal, a pista ainda é deles.

Sei que o que um homem pensa de si mesmo determina, ou melhor, revela e decreta o seu destino, mas eu não quero o de tomar conta do mundo, como sentia às vezes estar fazendo Clarice Lispector (se não me engano). No entanto, por mais que não queria essa incumbência não tem jeito: saio a pé e vejo cenas que me tocam e me fazem reagir.
Depois de passar sermão aos ciclistas pelo jornal, hoje fiquei com pena ao ver dois deles caírem, por não terem tido tempo de frear diante de um carro irresponsavelmente parado em plena faixa dos ciclistas. Se o carro estivesse com um problema no motor, tudo bem, teria que pegar o acostamento novamente emprestado. Mas, a senhora estava ao que parece pegando uma muda, pois seu suposto jardineiro estava com uma enxada, ou será que haviam acabado de enterrar um animalzinho? O que sei é que foi muito rápido. Ela estacionou e pouco depois vieram os ciclistas saudáveis e louváveis em seu exercício do sábado. Deixei minha perplexidade se transformar em outro sentimento, dessa vez contra a motorista inconseqüente que foi embora sem nem ao menos socorrer os ciclistas, e, infelizmente, sem ação no momento, apenas testemunhei o ocorrido, me tranqüilizando ao ver um carro parando para acudir os ciclistas tombados. Parece que foi só um susto e arranhões no joelho, mas reitero aqui a precaução a ser tomada pelos esportistas de pedalarem a certa distância de seus companheiros, para poderem frear diante de imprevistos. Pois se em um dia um não respeita o sinal, no outro é a motorista que se apropria indevidamente de sua ex-faixa de acostamento.
E indevidamente também, é que completo mais um ano de vida, dessa vez, no Rio de Janeiro.
Diante do bolo, hesito quando Quérida Sister pergunta se o bolo era para o dia seguinte.
- Se não mexermos nele, ninguém o comerá até lá.
- Ninguém?! Então devemos comê-lo...
- Já que iremos à praia e depois almoçaremos fora, acho que podemos parti-lo... Mas, vamos ao menos esperar pelo Vianney, que ficou de vir hoje.
- Ele vai demorar...
Assim, inauguramos o bolo antecipadamente.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sétimo capítulo de "Beijos na alma"

O tempo é muito volúvel. Vive mudando de dia e hoje já é outro o que me envolve,o que me olha e me surpreende: não é a primeira parada de ônibus que vejo com os vidros quebrados. Acho que para educar o povo, vidros despedaçados por vândalos deveriam ser repostos por palha, pois o dinheiro do contribuinte não é capim.
Continuando em minha caminhada penso que, devemos agradecer a Deus o simples fato de não nos ter acontecido nenhuma desgraça e, quando abro o computador, vendo a resposta poética de minha irmã, agradeço novamente.
Havia-lhe transcrito a seguinte frase do Mia Couto: “O segredo é demorar o sofrimento, cozinhá-lo a lentíssimo fogo, até que ele se espalhe, diluto, no infinito do tempo.”
E ela me responde que com relação a sofrimento, ela e Couto miam com a mesma des-intensidade, desde que papai a ensinava a controlar o gênio: "Vamos, agora, um sorriso número três. Ah, não, esse ainda foi o número dois.”
E um sorriso número três foi o que minha alma deu, quando soube que, nos letreiros dos ônibus do Rio de Janeiro, “Sugar Loaf” foi devidamente substituído por “Pão de Açúcar”.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Nona postagem

Extratos de um depoimento traduzido de Nos 20 prochaines années de Christian Gatard (obrigada, Celinha!)
"Li esta manhã no jornal que estudantes da universidade de Hertfordshire mediram a velocidade dos passos dos pedestres em trinta e duas grandes cidades. A conclusão deles? A maioria hoje anda 10% mais rápido do que há dez anos.
Esta estatística mostra muito bem como pode ser a vida em uma cidade grande no século XXI: sobretudo não caminhar sem destino, mas atingir o seu objetivo o mais rápido possível. Mais de uma vez, eu mesma me surpreendi andando rápido, ultrapassando sem pudor os pedestres mais lentos, enquanto que nada me apressava realmente, simplesmente por hábito, para me conformar à trepidação ambiente, dependente do meu próprio ritmo, tendo a impressão de perder escandalosamente o meu tempo se eu esmorecesse. Quando dou por mim, me acho um pouco lastimável... mas continuo. É assim. Até em uma cidade desconhecida, onde estava de passagem, andar depressa era uma maneira de não passar por uma turista, de se fundir na vida da cidade. Absurdo? Com certeza. Também não é impossível que eu tenha adquirido esse hábito, para me precaver de pessoas, que se postam a pouca distância do pedestre que vagueia, e mais ainda da pedestre, sendo perambular frequentemente considerado como um sinal de disponibilidade. Hipótese feminista: quando se é uma jovem mulher, apressar o passo é garantir a sua tranquilidade. Os estudantes mediram a velocidade média do andar das mulheres e a do ritmo dos homens? Ignoro, mas poderia ser um dado interessante.

… O recurso mais raro seguramente não é o petróleo, nem a água, nem mesmo a inteligência ou a sabedoria. Juntos ou individualmente, temos tudo isso, podemos ter acesso à energia das estrelas, modificar nossos comportamentos e inventar novas formas de solidariedade, regular o relógio biológico, tornar-nos bicentenários e prender o gás carbônico no fundo da Terra. O único recurso que irá nos faltar é o tempo.

A imagem da encruzilhada situa-se no cerne do transculturalismo. É na encruzilhada que o transculturalismo começou. A encruzilhada – aquela primeira encruzilhada, na saída da aldeia – era a passagem obrigatória para a descoberta de outro e do mundo. Ela encarnava uma forma de renúncia: renúncia à tribo e ao solo natal. A primeira encruzilhada é o primeiro passo para a aventura. Na encruzilhada começa a hibridação de si. Primeiros passos para o transculturalismo que é uma fábrica de laços sociais, de conciliações culturais, de trocas. Na encruzilhada, a vida bifurca, e é preciso escolher uma via. Poderíamos também escrever: a via bifurca, é preciso escolher uma vida."

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Oitava postagem

Mal me tornei blogueira, soube dos vlogueiros colocando vídeos na internet. O que será que virá depois? Bem, depois do V, graças a Deus, só há o X, o nosso recente W, onde o campo será grande, e o Z.
Estou preocupada com essa infinita produção.
Depois dos controles remotos, surgiram os porta-controles, os porta-celulares, os porta-cds, enfim, para tudo o que se cria, há o seu canguruzinho e, a humanidade se arrisca a morrer soterrada sob tantos objetos, sem falar na quantidade de carros – em algumas cidades, dois para cada habitante.
E não adianta visualizar carneirinhos pulando cercas, pois comigo isso não funciona: é conversa pra boi dormir.