sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capítulo XI


                                                                    
                                                     DIÁRIO DE PERNAMBUCO

    Chegamos em uma tarde chuvosa e minha filha Mariana, que ainda não sabe se locomover nesta cidade, se perdeu, apesar do GPS, batizado por Miguel, seu filho de catorze anos, de "Lola, a louca".
   Acho que Lola, de tanto Mariana dizer que a odeia, por mandar virar em ruas que é impossível entrar, a não ser que se queira provocar uma batida, resolveu se vingar, me “oferecendo” um city tour, com seu constante “Novo cálculo de rota” e assim, despachando para um dos lugares mais perigosos de Pernambuco, o Morro de Jaboatão, um Corolla com duas mulheres e quatro crianças.
     Após uma tentativa de comunicação com o motorista de um carro ao lado, que seguia com vidros fechados e de muito rirmos por causa da mímica utilizada por minha filha -  a de abaixar o vidro como se estivesse rodando a manivela dos carros de antigamente - e de uma hora rodando pela cidade e sairmos da BR101, que nos levaria a João Pessoa, chegamos ao belo prédio em que minha filha mora e onde ficarei por quinze dias.
     Deveríamos ter seguido o conselho do Ciro Pellicano: “Se você se perder numa cidade estranha, faça o seguinte: pegue a primeira à direita, a primeira à direita de novo, a primeira à direita mais uma vez, e pronto: você se achou.”
     Depois de desfazer a mala e dar uma volta pela área de lazer do edifício, recebi uma boa massagem, e hoje acordei pensando em Jaboatão, que é um município pobre, mas que, com sua pista principal asfaltada, nem de longe, e muito menos de perto, se parece com uma favela carioca, caso em que jamais teria sugerido à Mariana que parasse e pedisse informações... Mas, claro, minha idéia não foi acatada.
         Mais tarde, ela me perguntou se eu queria ir a um Museu. Achei melhor eu lhe comprar um mapa e, por hoje, conhecer apenas seu local de trabalho, por ser um roteiro conhecido.
     - Querem ir a Porto de Galinhas? Perguntou ela ao ver a manhã ensolarada.    
     A dúvida era se deixaríamos Lola em casa. Má idéia a de tê-la deixado ir, pois, com sua mania de nos direcionar para “a primeira à esquerda”, mesmo sendo contramão, acabou nos informando, como em outras vezes, estarmos “fora de rota”. Paramos, então, em um Posto e depois das informações: “Depois do segundo semáforo, vire à esquerda, passe pelos Correios, pelo viaduto, vire à direita e vamo s’imbora!”
     “Vamo s’imbora?” Se houvesse lugar no carro, até que seria boa idéia lhe oferecer carona, assegurando, assim, nossa chegada à praia em hora não cancerígena, pois Lola, sentindo-se traída por nossa falta de confiança, emudeceu.
          Hoje já é outro dia. Depois de deixar minha neta no colégio, do outro lado da rua, e de fazer ginástica ao som de Nicola Hall, saio a pé para explorar a redondeza. Compro o Diário de Pernambuco, entro em uma livraria e a chuvinha me manda de volta para casa. Amanhã levarei guarda-chuva.
     E é prevenida contra ela que, no dia seguinte, entro em uma das quatro livrarias da redondeza de prédios afastados uns dos outros, e compro “Trem noturno para Lisboa” para levar de presente.
     De volta ao Edifício Acácia, onde gosto da interação dos cumprimentos – apesar de serem só dois apartamentos por andar, são vinte andares e muita gente descendo, subindo e desejando bom-dia - dou uma olhada no presente que darei:
     “O som discreto de um ‘divertimento’ de Mozart dava a impressão de que se estava longe de tudo o que era ruidoso, feio ou opressivo.”
     Que coincidência é esta? Sou tão apaixonada por Mozart, que até trouxe CDs dele em minha mala! Se o livro não tivesse me atraído por um comentário ouvido outro dia, tê-lo-ia comprado só pela alusão ao “Divertimento”. 
    Não resisto e me embrenho leitura adentro. Um livro novo, pelo qual me interesso, é excitante como um novo amor e aqui as frases se alternam entre as do livro e as ouvidas dos netos.
     - Clara, coloque na mochila o casaco.
     - Pode deixar, vó, eu sei das coisas.
     - Sabe – pergunta o Davi – então quanto é um vezes um?
     - Conta de vezes eu não sei...
       Em Olinda, visitei o Mosteiro de São Bento, bem inferior ao do Rio de Janeiro; vi  pitorescas casas geminadas e coloridas; subi uma ladeira deserta, onde a água da chuva descia em pequenas cascatas pelos degraus da calçada, pensando onde é que tinha ido me meter; comi tapioca recheada com queijo; tentei admirar a vista do Alto da Sé, mas o tempo nublado e a garoa mo impediram; passei por várias lojinhas de artesanato, já um pouco preocupada com a volta; misturei-me às pessoas que desciam de um ônibus de turismo e terminei meu passeio entrando no único táxi à vista, antes que os passageiros que desembarcavam, fechassem a porta.
      Fui, vi e venci.
     Quase aliviada, chego à Rua Isaac Salazar em Recife (o táxi de Olinda a Recife é mais barato do que o do aeroporto em Brasília até minha casa), ansiosa por continuar a leitura de “Trem noturno para Lisboa”. Mas, antes, minha filha me deixou em um shopping, aonde fui à cata de alguns CDs. Não os encontrando, atravessei a rua e sentei-me em um dos bancos de jardim situados ao longo das duas filas dos caixas prioritários (sim, isso existe!), guardando o lugar para minha filha, que se abastecia pelas gôndolas do supermercado.
      Compras guardadas, reabri o livro que mais parece “O livro das Coincidências”. Primeiro o autor cita a música “Divertimento” de Mozart, que tenho escutado, com frequência, ultimamente. Depois, cai como uma luva para a fase pela qual minha filha está passando e, agora o autor citou Eurípides, o poeta e dramaturgo grego, mas que sempre me lembra um homônimo, para mim mais importante: o meu pai. 
     Passando pelo belo Parque da Jaqueira, vejo pessoas se exercitando pela alameda e penso em quão saborosa é a palavra “alameda”. Aos poucos, outros “acepipes” vão surgindo em minha mente: périplo, “It is always a pleasure”, “It is still a pleasure”...
     Uma amiga “gourmet” acrescentaria: Macarrão ralado, Trupico, Relish de pepino, figo recheado de nozes e tantas outras de suas orgias gastroetílicas.
     O périplo de hoje foi pela Praia de Boa Viagem e pelo Instituto Ricardo Brennand com seus belos quadros, armaduras, estátuas e a exposição em cera representando o julgamento de Fouquet (relembrando, ministro das finanças de Luis XIV, que ousou ofuscar o poder do rei, com uma festa monumental em seu enorme castelo de setecentos quartos e, ainda por cima, levá-lo, ingenuamente aos seus aposentos, onde o rei se deparou com o quadro de sua amante secreta! Quase o prendeu no ato).
     No belo café do museu, que nos remete a Paris (com a diferença do cardápio), degustei uma tapioca com coco muito gostosa e foi pensando nela que voltei ao livro:
     ‘... uma luta contra a paralisia interior”.
     “Quando Amadeu lê um livro não há mais letras depois. Ele não devora apenas o sentido, mas até a tinta.” Até parece eu transpondo as frases para cá.
     Fechei o livro, antes que passasse a manhã, afinal o livro vai comigo para Brasília e a cidade fica, e fui à Casa da Cultura, antigo presídio, cujas celas foram transformadas em lojinhas, em sua maioria, de artesanato.
    Hoje o sol voltou, mas como estava em meus planos ensinar à empregada a fazer torradinha com espinafre, ficaria complicada uma ida à praia. Restringi-me ao sol à beira da piscina, onde continuei presa à leitura de Pascal Mercier, “sentimentos são a lava da alma”.
     Joguei sinuca e muito totó, conheci a Livraria Cultura daqui, onde comprei “El arco y la lira” de Octavio Paz e com o término da leitura de “Trem noturno para Lisboa” finda também minha estada em Recife, mas, não concordei com o autor que disse que “O verdadeiro encenador da nossa vida é o acaso – um encenador cheio de crueldade, misericórdia e encanto cativante.”
     Cativante é o livro, mas se o acaso fosse o único encenador, quem colheria o que semeamos?
     “Sempre temera a última página, e a partir do meio do livro já o afligia o pensamento de que teria de haver irremediavelmente uma última frase. Ele protelaria o virar da última página e adiaria o último olhar tanto quanto possível.”
     Igualzinho a mim, lendo livro de Saramago ou do Calvino.
      Voltamos à Praia de Porto de Galinhas e agora já é hora de voltar para Brasília, contente por não ter havido pane no morro do Jaboatão, violências na ladeira da Sé, assalto de tubarões na Praia de Boa Viagem, arrastão em Porto de Galinhas ou apagão no elevador rumo ao décimo quinto andar. Daria mais emoção ao texto? Desculpem-me, mas não é o meu gênero, e muito menos o tipo de adrenalina de que gosto.

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