quarta-feira, 21 de setembro de 2016

terça-feira, 20 de setembro de 2016

CALA-TE, BOCA ! - por Luiz E. Ottoni de Menezes


Desta vez estava no alto de uma escada, na área de serviço, fazendo um furo no teto, quando percebi uma senhora no andar de cima me acenando.  Desliguei a máquina barulhenta e ouvi:
– Moço, depois que o senhor acabar aí, pode dar um pulinho aqui, no 401?
Perplexo, minha única reação foi acenar de volta, sem saber o que dizer.  Fiquei mergulhado num turbilhão de pensamentos.  “E agora?  Acho que ela entendeu meu gesto como um sinal de concordância e deve estar esperando que eu vá lá em cima daqui a pouco.  Há quanto tempo eu era observado?  Em que encrenca fui me meter?”  Cogitei até em ligar pelo interfone e pedir desculpas por não poder ir.  Liguei novamente a máquina e tentei esquecer do assunto.  Meia hora depois, beijei minha mãe e fui embora.
No hall, entretanto, parei por um segundo.
Subi.  A curiosidade havia me vencido.
Toquei a campainha.  Abriu-se a janelinha da porta.
– Bom dia.  A senhora me chamou?
– Ah, sim, o senhor poderia ir lá pela outra porta, por favor?
E lá vou eu para a porta dos fundos.  Isso está ficando interessante…
Era também um problema no secador de roupa.
– O meu marido, que é médico, colocou a rodinha lá em cima, mas acho que alguma coisa está errada, não está funcionando bem.
– Vamos dar uma olhada.  A senhora teria uma escada?
E fui me desincumbindo da tarefa, sob os olhares atentos do distinto casal e de uma empregada que assistia a tudo de longe, em silêncio, passando roupa.  Expliquei os motivos pelos quais eu estava corrigindo o que o marido havia feito.  Tive a certeza de que meu trabalho estava agradando quando, já no final, a senhora perguntou, toda gentil:
– Que outros serviços o senhor faz?
– Bem, na realidade (segue-se uma longa pausa), faço projetos de loteamentos, cálculo estrutural, também escrevo, quando tenho tempo, já fiz cerâmica…
Sou interrompido com uma expressão de perplexidade total:
– Oh, meu Deus!  Me desculpe!  Eu vi o senhor lá embaixo …
– Ora, não se preocupe …
Ela não sabia o que dizer.  O médico, paralisado, anestesiado.  A empregada, lá atrás, rindo…
– Eu vi o senhor lá, em cima da escada e pensei que …
– Sim, eu estava consertando o secador de roupas …
– Que mancada!  O senhor é ligado à família?
– Sim, meus pais moram no 301.
Seu rosto fica pálido.
– O senhor é filho da D. Maria?  Oh, meu Deus!  Me desculpe!  Que mancada!
– Não se preocupe, eu gosto de consertar essas coisas.
– Oh, meu Deus !
E o Santo Nome continuou sendo invocado muitas vezes.  Recusei água, cafezinho e suco:
– Não, obrigado, acabei de tomar um copo d’água ao sair de lá.  Só preciso lavar as mãos.
Fui levado para a área social da casa.
– Aqui, por favor.  Use este sabonete, que é melhor.  Veja a reforma que fizemos na casa, tiramos esta parede, fechamos aquela, incorporamos a varanda ao quarto, que tal, não acha que ficou boa?  Agora pretendemos fazer isto e aquilo, o senhor me desculpe!
O médico, recuperado, já se divertia com o episódio.  Mas a senhora, com certeza, não iria dormir naquela noite, de tão preocupada.
E continuava tentando se desculpar:
– É tão perigoso, hoje em dia, chamar uma pessoa em casa para fazer algum serviço, eu vi o senhor lá, imaginei que seria uma pessoa…
– de confiança.
– Sim, é claro!  Oh, meu Deus!  Que vexame!  Me desculpe!  O senhor não quer sentar-se, não quer conversar um pouquinho?
– Não, muito obrigado, me desculpe a pressa, mas estou com um projeto meio atrasado, tenho que entregá-lo depois de amanhã, preciso ir correndo …
– Oh, meu Deus, que mancada!
Saí pela porta da frente e desci as escadas lamentando:  “Mancada minha!  Por que não fiquei de boca fechada?  Poderia ter ganho umas vinte pratas!”

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Precisão - Hélcio Maia

Precisa-se
de marceneiros,
que produzam almas móveis.
Precisa-se
de engenheiros,
que construam esperanças.
Precisa-se
de advogados,
que defendam a utopia.
Precisa-se
de obstetras,
que façam o parto da luz.
Precisa-se
de odontólogos,
que extraiam a maldade.
Precisa-se
de mágicos,
que distraiam o pessimismo.
Precisa-se
de chefs,
que tenham a receita do perdão.
Precisa-se
de faxineiros,
que limpem as mentes poluídas.
Precisa-se
de adultos,
que saibam brincar.
Precisa-se
de tempo,
para poder perdê-lo, sem culpa.
Precisa-se
de silêncio,
para ouvir a voz do coração.
Precisa-se
de muito pouco,
para entender que tudo o mais é supérfluo.

domingo, 18 de setembro de 2016

Mudando de tecla - Hélcio Maia


A vida é uma sina.
Ela ensina, se você deixar.
Reclamar, reclamar... libere a tecla recl.
Há mar para todo peixe, por mais que você se queixe.
Trocar de penteado ou o guarda-roupa... mudança pouca.
Trancar-se numa espécie de convento?
Experimente entregar-se ao vento.
Repetir para que?
Remoer, ressentir?.
Há tantas vilas que você nunca viu.
Tantos vales.
Um deles valerá a pena.
Resvale no inusitado.
E depois me conte o resultado.

sábado, 17 de setembro de 2016

Campeão olímpico - Luiz E. Ottoni de Menezes


Depois do intenso futebol de muitos anos atrás, fui desacelerando para um joguinho de vôlei, diminuí para corridas no calçadão, passei a apenas caminhar na praia, até que atingi a imobilidade total. Ao perceber a mumificação se aproximando, resolvo reagir e tomo a decisão heroica: vou aprender a nadar. É o esporte completo. E sem impactos. O que mais eu poderia querer?
Instruções recebidas, parto para o obrigatório circuito médico: dermatologista, cardiologista, ecodopplercardiograma e teste ergométrico. Passo com boas notas em coisas de nomes pomposos, tais como respostas cronotrópica e inotrópica, parâmetros hemodinâmicos e metabólicos. Acho que dá até para colocar no currículo!
E bato, então, à porta do Botafogo:
- Sim, claro que pode. Até recomendamos que o candidato faça um teste para se convencer, para ter a certeza de que é esta a modalidade que ele quer praticar. Venha depois de amanhã, que é um dia mais calmo.
Bela acolhida! Reforçou a simpatia que nutro por este clube, que sempre foi meu segundo time.
E no dia D, transbordando de otimismo e cheio de moral, saio de casa já imaginando um possível diálogo alguns meses à frente:
- Mas como ele está bem-disposto! O que é que você anda fazendo, não sai da praia?
- Estou nadando no Botafogo!
Chego lá a caráter: sunga preta e pele branca, não escondendo minha ascendência de países frios. Dia de sol radiante, nenhuma nuvem à vista, um calor infernal. Uma voz interna, sensata, sussurra discretamente: “Isto não vai dar certo”.
Com infinita paciência, o professor alerta aos novatos:
Tudo o que vocês fizeram de esporte até hoje não vale nada dentro d´água. Nada. Começaremos do zero. Atenção com a respiração: inspirar pela boca, expirar pelo nariz. Com ritmo. Vamos primeiro dar uma nadada daqui até lá, só para ver como é que vocês estão.
- Até o outro lado?
- Sim, mas de quatro em quatro braçadas. Podem ir parando para descansar. Se precisar, apoiem na borda.
São, realmente, concessões muito bem-vindas, mas descubro que a raia, para um calouro, parece ter uns dois quilômetros. E, naturalmente, não dá pé. Afinal, estamos numa piscina olímpica! Com os óculos encharcados e embaçados, nem consigo ver a outra borda. Torço para que todos continuem bem ocupados com suas tarefas, sem prestar atenção aos náufragos. Depois de muito esforço, obtenho minha primeira marca: cinquenta metros em quinze minutos, com direito a paradas e a instruções. Deve ser um recorde mundial ao contrário. E reparo que há pessoas na arquibancada. Que estão vendo esses vexames todos!
Ao final de uma hora, exausto e pagando todos os micos possíveis, já começo a duvidar de que seja isto, realmente, o que estou procurando.
Mas em vez de tomar uma decisão sensata, que seria il logo direto para casa, fico rondando por ali e acabo descobrindo que uma aula de hidroginástica começaria em poucos minutos. Talvez isso seja mais interessante ou, confessemos, mais leve. Apresento-me à professora como m possível futuro aluno e peço licença para assistir à aula. Mas sou convidado a participar! Por uma fração de segundo tenho a chance de recusar o convite ou mesmo de sair correndo de lá. Mas, irresponsavelmente, topo e no instante seguinte já estou novamente dentro d´água. Desta vez, amarrado a um flutuador, uma espécie de salva-vidas. Meu entusiasmo ressurge, pois agora não preciso me preocupar nem com respiração nem com a possibilidade de afogamento. Que moleza!
Engano total! Durante aquela interminável hora não degustamos um único segundo de folga. O grupo de ofegantes recebe ordens sem interrupção: - Façam este movimento, agora assim, com o outro braço, prestem atenção, tocando a ponta do pé, o outro pé, mais rápido! Sete, oito, nove, setenta, e um, e dois...
Nos últimos dois minutos de aula um corpo boiando vai se aproximando furtivamente da escada. Os últimos sons me parecem vir de muito, muito longe:
- ... três, dois, um, acabou!
Viva! Sou o primeiro a voltar à terra firme. Sobrevivente. Semisubmerso há duas horas, sob aquele sol inclemente, já havia até adquirido alguma cor: rosa-gringo. Naturalmente, só do peito para cima!
Na falta de macas, resta-me a alternativa de cambalear até o ponto de ônibus. Almoço e apago. Dois dias de cama. Insolação, dor de cabeça, cérebro inundado pela água que entrou pelo nariz, boca e ouvidos, dor no peito, febre, problemas de estômago e intestino. Apenas as pernas escaparam ilesas do massacre. Tentam mover-se, mas ouvem o protesto uníssono de todas as outras partes do corpo:
- Querem andar, vão sozinhas, que nó só levantaremos depois de amanhã!
Oscilando naquela fronteira entre acordado e desmaiado, embaralhava lembranças e pesadelos. Os pensamentos colidiam e se provocavam:
- As olimpíadas estão chegando. Já atingiu os índices? O Cielo está batendo recordes mundiais. Vai encarar?
- Me aguardem!



domingo, 12 de junho de 2016

Um Périplo com Alegria - Ângela Delgado


                                 
Com o invariável início das falas do historiador português que nos acompanhou na viagem, começo:
Ora bom,  o português de cá, fala “difrente”, e, assim, em cada dez palavras, diz apenas seis, como constatou Marcos Linhares, poeta e jornalista hilário que nos fazia rir e chorar.
Portanto, e essa foi a expressão que mais ouvimos em Portugal, os portugueses, como se o bacalhau não lhes bastasse, comem muitas sílabas.
- Ai é?
- É verdad.
Lisboa (Hotel Sana Malhoa) ; Porto (Hotel Nova Galé); Vila Nova de Gaia; Sintra; Viana do Castelo; Batalha; Arouca (Hotel São Pedro), no distrito de Viseu; Aldeia do Espinheiro e seu escondido restaurante “Casa no Campo”, de onde quase voltamos de barriga vazia, se não fosse a esperteza de Mena Filomena em descobrir a entrada; Braga; Alcobaça no distrito de Leiria; Valença; Ponte Vedra, Rianxo e Santiago de Compostela (Hotel Husa Santiago Apostol), estas três já na Galícia, estado autônomo da Espanha (que acredito ser como nossos filhos, que ao atingirem a maioridade, não deixam de ser nossa prole) são encantadoras, assim como nossos novos amigos Concha, Otília e Xurxo, o poeta gatinho que me pagou um delicioso café con leche, além de ter me dado dicas de músicas da Galícia, de Portugal e de Angola, de onde, acidentalmente, descobri mais tarde, Garda, uma cantora/compositora fenomenal. Se a viagem não tivesse valido por tantas outras coisas, só por essa pérola, já teria valido a pena. Tanto é assim que me consolo de ter perdido a máquina fotográfica na viagem , o que me fez ir à Fnac, para outra comprar e, de quebra, adquirir o seu CD. Falando na máquina, como todos sabem, nada se cria e ela se transformou em uma máquina de fazer café, que ganhei em um sorteio na Academia do Bacalhau, não necessariamente nessa ordem. Moral da história: não se regozije muito ao ganhar alguma coisa, pois, logo depois poderá perder algo valioso. Se bem que, no meu caso, a perda resultou em outro achado.

O grupo com o qual viajei “endoideceu meu coração, e agora o que é que eu faço”, cantarolava o português do CD do motorista, o bem humorado e sarado Nelson (tive que lhe traduzir essa expressão), que, por sua vez, teve que explicar aos desantenados brasileiros o significado de “vusviu” (ele vos viu). Além disso, ofereceu-nos, imagine, Champagne e um bolo enorme e divino, em comemoração ao aniversário do Rivera e da “Cília” (Cecília, no português de lá). Não digo que queria ter a receita, pois assim os portugueses pensam que não a quero mais. Digo então que “gostava” de tê-la, mas aí nós é que pensamos se tratar de coisa do passado. Ora bom, estamos, mais do que nunca, precisando do dicionário Lá & Cádo Roldão Simas Filho, marido da “Cília”, geminiana como eu, e que me fez ótima companhia, na ausência de Filomena Caixeta de Abreu, que na cidade do Porto ficou. Uma pena, e cruel seria lhe contar o que perdeu.
       Como por exemplo, as sessões de terapia em nossos trajetos por Portugal afora. As paisagens se sucediam enquanto nos revezávamos ao microfone. Alguns extrovertidos e de excelente memória, recitavam versos, contavam fatos pitorescos e abriam seus corações. O resultado foi uma torrente de risos e lágrimas, inesquecível para o Comendador Alegria a bordo, e para todos nós que vivenciamos esta viagem.  
Carlos Magno, o belo médico, levou um de seus dez livros Canção da Água e seu charmoso chapéu e me fará outro igual comprar, para dele me lembrar. Como se eu pudesse, um dia, me esquecer de seus olhos tão azuis, ai Jesus! Impressionou a "guitarrista"(no Brasil, violonista) e, quiçá, a baiana que, dizem, não nasce, mas estréia, e não sei se arretada é.
João Alfredo Sinício, o “pão” de outrora e o “gato “ de hoje, nos divertiu com inúmeros trocadilhos: Qual a “difrença” entre o padre e o bule. O primeiro tem muita fé, e o bule é pra “pô” café. Qual é o tour mais caro do mundo? O turbilhão. Completo, então, que o tour “Viagem às Nascentes Portuguesas” foi bem caro, pois foi um turbilhão de emoções, e gostaria  que Sinício, no lugar do seu excelente livro que levou para Portugal Nova Era Conscienciallá distribuído,  tivesse, para aliviar meu coração, colocado em sua mala na volta, as saudades que lá mesmo já se faziam presentes.
Aqui me lembro de Rui Rasquillo, em seu maravilhoso almoço que nos foi "ofrecido" em Aljubarrota, questionando sua mulher, a perfeita anfitriã Maria Manuel, sobre saudades, preferindo ele as memórias. Mas, estas as temos de coisas boas e más, enquanto que saudades são só de bons momentos, como a viagem em solidariedade a Portugal. 



José Jerônimo Ribeiro Rivera, que, para alguns, anônimo era, mudou de domicílio: mora agora em nossos corações. Levou na viagem sua tradução Poesia Francesa - Pequena Antologia Bilíngue, e já, já, vou ao Google copiar a linda “Balada da neve” de Augusto Gil, recitada por ele de cor.
Não sei se, como disse Fernando Pessoa, também citado de cor, pelo Rivera, “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente", mas, nessa viagem, era só esticar o braço e esbarrávamos em poetas que diziam, a respeito de um neto de padeiro, que “a massa de seu saber fora aquecida no forno de seu amor”. Palavras de Marcos Linhares sobre Rivera. Amém.
Santiago Naud, nosso Google ambulante de risonha fisionomia, querido por todos, além de ter levado na bagagem seus 47 poemas lusitanos, proferia consistentes depoimentos, enquanto pervagávamos por belas paisagens.
 Roseli F. de Arruda sorri com olhos rasgados e falou, em Portugal como em São José do Rio Preto, com uma das vozes mais maviosas que já ouvi, de seu livro Mathyê, o senhor das quatro direções.
Sua filha Amanda tem bem a quem puxar.
André, marido de Roseli, como todo gordinho, é bem simpático e dono de um belo rosto. Nele meiguice não falta.
Edilene Fernandes levou seu livro A palavra do presidente. Bonita como é, deve ter sido colírio para os olhos dos poetas.
Outra pantera, a Ana Lívia, fez parte do grupo assim como Isadora, trazida por sua avó de belos olhos verdes, a professora Wuilna que da neta não descuida, e disso entendo eu: neto é páreo duro com a excursão às nascentes portuguesas.
Hermínio Oliveira, o artista da fotografia, de iguais olhos coloridos, espírito sagaz, sempre gentil, atento e sensível, revelando suas fotos in loco e carinhosamente com elas nos agraciando, obrigada!
O jornalista e historiador Manuel Mendes e sua terna Lúcia, uma gracinha de casal. Ele, do alto de seus 86 anos, com receio de se fazer esperar, era um dos primeiros a chegar. Levou em sua bagagem Meu Testemunho de Brasília.
Carlos Jorge Mota, o culto historiador, prestimoso inda por cima, que as costas, um dia, nos deu, acho que magoado. Esses brasileiros não têm jeito. Antes de lhe agradecer por tudo o que fez por nós, quero lhe reafirmar que as piadas sobre portugueses e a imitação de seu falar não são feitos por maldade, mas pela graça da coisa. Nada temos contra nossos antepassados. Apenas contra os argentinos. Todo brasileiro que pisar o solo lusitano sairá dele amando Portugal e quererá a ele retornar. Como meu pai que, estando um dia na cidade do Porto, escreveu: 
"Jamais se me apagará da memória o espetáculo que tive diante dos olhos, quando pude mitigar aquela estranha saudade de uma cidade que visitava pela primeira vez..."
Adriana Kortland, grande contista, autora de Almagesto, que, apesar de ter comprado a passagem, não pôde viajar conosco, devido ao AVC sofrido por sua mãe, mas que, querida como é, esteve presente em nossos espíritos e foi constantemente lembrada.
 Last but not least" , Victor Alegria, nosso impagável comandante-em-chefe, de quem sorvemos as palavras, a figura mais incrível e divertida que todos profundamente amamos, a quem agradeço imensamente por esta inesquecível viagem, a melhor de todas de minha vida. Marcos Linhares, por outras palavras, disse que após ter convivido com Victor Alegria, compreendeu a razão de ser da grandiosidade de seu filho Tagore. Faço minhas suas palavras, pois o meu querido Tagore é de ouro. Tem também a quem puxar. Como sua mãe Dona Ísis é igualmente competente, sua herança e legado sanguíneo e espiritual é dos melhores.
Tive que terminar esse relato, pois já passava da meia noite e cedo era preciso acordar, do contrário, o culto e prestativo professor e historiador Armando Cristóvão Ribeiro, com sua pele lisinha notada por  Mena Filomena, armaria um fuzuê, mandando tudo para os “Ares e Mares”, revista que juntamente com Roseli e Edilene, será literalmente lançada aos ares e mares e  distribuída em oito países, ou seja, para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP, da qual fazem parte Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste.
Mas, preciso contar ainda sobre nosso encontro em Lisboa com o simpático Diretor-Geral da Biblioteca Nacional de Portugal, Dr.Jorge Couto, que nos recebeu na imensa mesa oval do salão nobre, onde cada um falou dos livros que ali deixaríamos, sobre o prazer de ter ouvido um violonista português, que nos encantou com suas músicas na UNICEPE, e sobre o privilégio de assistir a um concerto de órgão, dado exclusivamente para nós, em um convento em Arouca, cujo único convidado alheio ao grupo fora um cantor lírico, com recital agendado em Barcelona, vindo expressamente de Lisboa, para assistir ao evento. Após a alimentação espiritual, ainda no convento serviram-nos um magnífico jantar disposto em uma enorme mesa de pedra, com direito a lareira acesa.






Quando, no rodízio da vida, esta nos ofertar, em sua bandeja de tristezas e alegrias ou na montanha russa de altos e baixos, de vacas gordas e magras, arouquesas ou não, façam o que farei, fechem seus olhos e transportem-se para um certo ônibus recheado de poetas.
Termino, dizendo que, por lutar contra a tendência do tempo, cada vez mais veloz, em que se decretou, e muita gente crê nisto, que a véspera já caducou, a antevéspera é história e imemorial o ocorrido no ano passado, resolvi retirar da estante o livro que levei em minha bagagem, Ópera do Poeta e do Bárbarovertido para o francês, em uma tentativa de torná-lo atraente aos francófonos. Afinal, 1976, data de sua primeira e restrita publicação, embora pertença ao século passado, não está tão longe assim, justamente pela velocidade do tempo. Foi outro dia mesmo...

domingo, 1 de maio de 2016

Rosalinda - Mia Couto

(Conto abreviado)

     ... Rosalinda comprava flores quando viu chegar uma moça bela que se abeirou da campa de Jacinto e ali se prostrou, em mostrada tristeza. Rosalinda estranhou. Aquela era uma jovem muito concreta, suprametida.
     - Essa dever ser Dorinha, a outra última dele.
     A viúva chegou-se mais perto mas sem se fazer ver.. Parou em campa vizinha, ficou espreitando. A outra exibia um punhado de lágrimas. Rosalinda se decidiu. Dirigiu-se ao Serviço Funerário e solicitou que mudassem o lugar do caixão, trocassem o "Aqui jaz".
      - A senhora pretende transladar os restos mortais?
     E, logo o funcionário lhe mostrou os longos papeis que a superavam. A viúva insistiu. Era só uma mudançazita, uns metritos. O empregado explicou, havia as competências, os deferimentos. A viúva desistiu. Mas apenas se fingiu vencida. Voltou à noitinha, trazendo Salomão, o sobrinho. Às vistas da intenção, o miúdo se assustou.
     - Mas, tia, é para fazer o quê? Desenterrar o tio Jacinto?
     Não, sossegou ela. Era só para trocarmos as inscrições dos vizinhos túmulos.
Salomão tremia e a viúva tomou a dianteira;
      - Eu sempre disse: Lume pedido nunca acende.
     Jacinto, translapidado, devia se admirar daquelas andanças. Agora, só eu sei qual é a sua verdadeira tabuleta, malandro. Rosalinda sacudiu as mortais poeiras, se administrou o devido perdão. A paraviúva que dedicasse seus ranhos ao vizinho, o de morte anexa.
     Aconteceu como ela previra. No dia seguinte, a intrusa compareceu e entregou seu sentimento à campa errada. Rosalinda nutria-se de risos, enquanto espiava o equívoco.
     - Em vida me enganaram. Agora é o meu troco...