domingo, 12 de junho de 2016

Um Périplo com Alegria - Ângela Delgado


                                 
Com o invariável início das falas do historiador português que nos acompanhou na viagem, começo:
Ora bom,  o português de cá, fala “difrente”, e, assim, em cada dez palavras, diz apenas seis, como constatou Marcos Linhares, poeta e jornalista hilário que nos fazia rir e chorar.
Portanto, e essa foi a expressão que mais ouvimos em Portugal, os portugueses, como se o bacalhau não lhes bastasse, comem muitas sílabas.
- Ai é?
- É verdad.
Lisboa (Hotel Sana Malhoa) ; Porto (Hotel Nova Galé); Vila Nova de Gaia; Sintra; Viana do Castelo; Batalha; Arouca (Hotel São Pedro), no distrito de Viseu; Aldeia do Espinheiro e seu escondido restaurante “Casa no Campo”, de onde quase voltamos de barriga vazia, se não fosse a esperteza de Mena Filomena em descobrir a entrada; Braga; Alcobaça no distrito de Leiria; Valença; Ponte Vedra, Rianxo e Santiago de Compostela (Hotel Husa Santiago Apostol), estas três já na Galícia, estado autônomo da Espanha (que acredito ser como nossos filhos, que ao atingirem a maioridade, não deixam de ser nossa prole) são encantadoras, assim como nossos novos amigos Concha, Otília e Xurxo, o poeta gatinho que me pagou um delicioso café con leche, além de ter me dado dicas de músicas da Galícia, de Portugal e de Angola, de onde, acidentalmente, descobri mais tarde, Garda, uma cantora/compositora fenomenal. Se a viagem não tivesse valido por tantas outras coisas, só por essa pérola, já teria valido a pena. Tanto é assim que me consolo de ter perdido a máquina fotográfica na viagem , o que me fez ir à Fnac, para outra comprar e, de quebra, adquirir o seu CD. Falando na máquina, como todos sabem, nada se cria e ela se transformou em uma máquina de fazer café, que ganhei em um sorteio na Academia do Bacalhau, não necessariamente nessa ordem. Moral da história: não se regozije muito ao ganhar alguma coisa, pois, logo depois poderá perder algo valioso. Se bem que, no meu caso, a perda resultou em outro achado.

O grupo com o qual viajei “endoideceu meu coração, e agora o que é que eu faço”, cantarolava o português do CD do motorista, o bem humorado e sarado Nelson (tive que lhe traduzir essa expressão), que, por sua vez, teve que explicar aos desantenados brasileiros o significado de “vusviu” (ele vos viu). Além disso, ofereceu-nos, imagine, Champagne e um bolo enorme e divino, em comemoração ao aniversário do Rivera e da “Cília” (Cecília, no português de lá). Não digo que queria ter a receita, pois assim os portugueses pensam que não a quero mais. Digo então que “gostava” de tê-la, mas aí nós é que pensamos se tratar de coisa do passado. Ora bom, estamos, mais do que nunca, precisando do dicionário Lá & Cádo Roldão Simas Filho, marido da “Cília”, geminiana como eu, e que me fez ótima companhia, na ausência de Filomena Caixeta de Abreu, que na cidade do Porto ficou. Uma pena, e cruel seria lhe contar o que perdeu.
       Como por exemplo, as sessões de terapia em nossos trajetos por Portugal afora. As paisagens se sucediam enquanto nos revezávamos ao microfone. Alguns extrovertidos e de excelente memória, recitavam versos, contavam fatos pitorescos e abriam seus corações. O resultado foi uma torrente de risos e lágrimas, inesquecível para o Comendador Alegria a bordo, e para todos nós que vivenciamos esta viagem.  
Carlos Magno, o belo médico, levou um de seus dez livros Canção da Água e seu charmoso chapéu e me fará outro igual comprar, para dele me lembrar. Como se eu pudesse, um dia, me esquecer de seus olhos tão azuis, ai Jesus! Impressionou a "guitarrista"(no Brasil, violonista) e, quiçá, a baiana que, dizem, não nasce, mas estréia, e não sei se arretada é.
João Alfredo Sinício, o “pão” de outrora e o “gato “ de hoje, nos divertiu com inúmeros trocadilhos: Qual a “difrença” entre o padre e o bule. O primeiro tem muita fé, e o bule é pra “pô” café. Qual é o tour mais caro do mundo? O turbilhão. Completo, então, que o tour “Viagem às Nascentes Portuguesas” foi bem caro, pois foi um turbilhão de emoções, e gostaria  que Sinício, no lugar do seu excelente livro que levou para Portugal Nova Era Conscienciallá distribuído,  tivesse, para aliviar meu coração, colocado em sua mala na volta, as saudades que lá mesmo já se faziam presentes.
Aqui me lembro de Rui Rasquillo, em seu maravilhoso almoço que nos foi "ofrecido" em Aljubarrota, questionando sua mulher, a perfeita anfitriã Maria Manuel, sobre saudades, preferindo ele as memórias. Mas, estas as temos de coisas boas e más, enquanto que saudades são só de bons momentos, como a viagem em solidariedade a Portugal. 



José Jerônimo Ribeiro Rivera, que, para alguns, anônimo era, mudou de domicílio: mora agora em nossos corações. Levou na viagem sua tradução Poesia Francesa - Pequena Antologia Bilíngue, e já, já, vou ao Google copiar a linda “Balada da neve” de Augusto Gil, recitada por ele de cor.
Não sei se, como disse Fernando Pessoa, também citado de cor, pelo Rivera, “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente", mas, nessa viagem, era só esticar o braço e esbarrávamos em poetas que diziam, a respeito de um neto de padeiro, que “a massa de seu saber fora aquecida no forno de seu amor”. Palavras de Marcos Linhares sobre Rivera. Amém.
Santiago Naud, nosso Google ambulante de risonha fisionomia, querido por todos, além de ter levado na bagagem seus 47 poemas lusitanos, proferia consistentes depoimentos, enquanto pervagávamos por belas paisagens.
 Roseli F. de Arruda sorri com olhos rasgados e falou, em Portugal como em São José do Rio Preto, com uma das vozes mais maviosas que já ouvi, de seu livro Mathyê, o senhor das quatro direções.
Sua filha Amanda tem bem a quem puxar.
André, marido de Roseli, como todo gordinho, é bem simpático e dono de um belo rosto. Nele meiguice não falta.
Edilene Fernandes levou seu livro A palavra do presidente. Bonita como é, deve ter sido colírio para os olhos dos poetas.
Outra pantera, a Ana Lívia, fez parte do grupo assim como Isadora, trazida por sua avó de belos olhos verdes, a professora Wuilna que da neta não descuida, e disso entendo eu: neto é páreo duro com a excursão às nascentes portuguesas.
Hermínio Oliveira, o artista da fotografia, de iguais olhos coloridos, espírito sagaz, sempre gentil, atento e sensível, revelando suas fotos in loco e carinhosamente com elas nos agraciando, obrigada!
O jornalista e historiador Manuel Mendes e sua terna Lúcia, uma gracinha de casal. Ele, do alto de seus 86 anos, com receio de se fazer esperar, era um dos primeiros a chegar. Levou em sua bagagem Meu Testemunho de Brasília.
Carlos Jorge Mota, o culto historiador, prestimoso inda por cima, que as costas, um dia, nos deu, acho que magoado. Esses brasileiros não têm jeito. Antes de lhe agradecer por tudo o que fez por nós, quero lhe reafirmar que as piadas sobre portugueses e a imitação de seu falar não são feitos por maldade, mas pela graça da coisa. Nada temos contra nossos antepassados. Apenas contra os argentinos. Todo brasileiro que pisar o solo lusitano sairá dele amando Portugal e quererá a ele retornar. Como meu pai que, estando um dia na cidade do Porto, escreveu: 
"Jamais se me apagará da memória o espetáculo que tive diante dos olhos, quando pude mitigar aquela estranha saudade de uma cidade que visitava pela primeira vez..."
Adriana Kortland, grande contista, autora de Almagesto, que, apesar de ter comprado a passagem, não pôde viajar conosco, devido ao AVC sofrido por sua mãe, mas que, querida como é, esteve presente em nossos espíritos e foi constantemente lembrada.
 Last but not least" , Victor Alegria, nosso impagável comandante-em-chefe, de quem sorvemos as palavras, a figura mais incrível e divertida que todos profundamente amamos, a quem agradeço imensamente por esta inesquecível viagem, a melhor de todas de minha vida. Marcos Linhares, por outras palavras, disse que após ter convivido com Victor Alegria, compreendeu a razão de ser da grandiosidade de seu filho Tagore. Faço minhas suas palavras, pois o meu querido Tagore é de ouro. Tem também a quem puxar. Como sua mãe Dona Ísis é igualmente competente, sua herança e legado sanguíneo e espiritual é dos melhores.
Tive que terminar esse relato, pois já passava da meia noite e cedo era preciso acordar, do contrário, o culto e prestativo professor e historiador Armando Cristóvão Ribeiro, com sua pele lisinha notada por  Mena Filomena, armaria um fuzuê, mandando tudo para os “Ares e Mares”, revista que juntamente com Roseli e Edilene, será literalmente lançada aos ares e mares e  distribuída em oito países, ou seja, para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP, da qual fazem parte Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste.
Mas, preciso contar ainda sobre nosso encontro em Lisboa com o simpático Diretor-Geral da Biblioteca Nacional de Portugal, Dr.Jorge Couto, que nos recebeu na imensa mesa oval do salão nobre, onde cada um falou dos livros que ali deixaríamos, sobre o prazer de ter ouvido um violonista português, que nos encantou com suas músicas na UNICEPE, e sobre o privilégio de assistir a um concerto de órgão, dado exclusivamente para nós, em um convento em Arouca, cujo único convidado alheio ao grupo fora um cantor lírico, com recital agendado em Barcelona, vindo expressamente de Lisboa, para assistir ao evento. Após a alimentação espiritual, ainda no convento serviram-nos um magnífico jantar disposto em uma enorme mesa de pedra, com direito a lareira acesa.






Quando, no rodízio da vida, esta nos ofertar, em sua bandeja de tristezas e alegrias ou na montanha russa de altos e baixos, de vacas gordas e magras, arouquesas ou não, façam o que farei, fechem seus olhos e transportem-se para um certo ônibus recheado de poetas.
Termino, dizendo que, por lutar contra a tendência do tempo, cada vez mais veloz, em que se decretou, e muita gente crê nisto, que a véspera já caducou, a antevéspera é história e imemorial o ocorrido no ano passado, resolvi retirar da estante o livro que levei em minha bagagem, Ópera do Poeta e do Bárbarovertido para o francês, em uma tentativa de torná-lo atraente aos francófonos. Afinal, 1976, data de sua primeira e restrita publicação, embora pertença ao século passado, não está tão longe assim, justamente pela velocidade do tempo. Foi outro dia mesmo...

domingo, 1 de maio de 2016

Rosalinda - Mia Couto

(Conto abreviado)

     ... Rosalinda comprava flores quando viu chegar uma moça bela que se abeirou da campa de Jacinto e ali se prostrou, em mostrada tristeza. Rosalinda estranhou. Aquela era uma jovem muito concreta, suprametida.
     - Essa dever ser Dorinha, a outra última dele.
     A viúva chegou-se mais perto mas sem se fazer ver.. Parou em campa vizinha, ficou espreitando. A outra exibia um punhado de lágrimas. Rosalinda se decidiu. Dirigiu-se ao Serviço Funerário e solicitou que mudassem o lugar do caixão, trocassem o "Aqui jaz".
      - A senhora pretende transladar os restos mortais?
     E, logo o funcionário lhe mostrou os longos papeis que a superavam. A viúva insistiu. Era só uma mudançazita, uns metritos. O empregado explicou, havia as competências, os deferimentos. A viúva desistiu. Mas apenas se fingiu vencida. Voltou à noitinha, trazendo Salomão, o sobrinho. Às vistas da intenção, o miúdo se assustou.
     - Mas, tia, é para fazer o quê? Desenterrar o tio Jacinto?
     Não, sossegou ela. Era só para trocarmos as inscrições dos vizinhos túmulos.
Salomão tremia e a viúva tomou a dianteira;
      - Eu sempre disse: Lume pedido nunca acende.
     Jacinto, translapidado, devia se admirar daquelas andanças. Agora, só eu sei qual é a sua verdadeira tabuleta, malandro. Rosalinda sacudiu as mortais poeiras, se administrou o devido perdão. A paraviúva que dedicasse seus ranhos ao vizinho, o de morte anexa.
     Aconteceu como ela previra. No dia seguinte, a intrusa compareceu e entregou seu sentimento à campa errada. Rosalinda nutria-se de risos, enquanto espiava o equívoco.
     - Em vida me enganaram. Agora é o meu troco...

domingo, 10 de abril de 2016

O MENINO E OS SANTOS REIS - RAQUEL DE QUEIROZ

De todos os personagens do presépio, os prediletos do menino são os santos Reis Magos, que ele aliás chama de Reis Magros. E entre os três, acha que o mais bonzinho é Baltazar, o negro, porque só ele se ajoelha e tem na mão a caixinha mais bonita.
     Entretanto, reclama porque, com aquelas vestes flutuantes, os santos Reis não parecem tão magros que justifiquem o nome. Só se eles comeram tanto peru, rabanada, coquinho de Natal, que ficaram gordos. Peru engorda, só engorda menos do que leite, porque leite é feito para bezerrinho e bezerrinho tem que ser gordo. Também, o que engorda muito é banana e faz ficar forte, porque tem vitamina do a-bê-cê, e a pessoa por isso mesmo aprende a ler mais depressa. Depois dos Reis, a coisa mais bonita do presépio é a Estrela Guia, que ele de começo chamava estrela-de-rabo. Advertido pela mãe, passou a chamá-la de "cometa". A avó procurou insistir em Estrela Guia, mas ele anda muito entusiasmado com esse negócio de cometa e adora mostrar erudição.
     Mas implica com os camelos. Não há quem o convença de que o camelo é uma nobre besta, afeita milenarmente ao transporte de riquezas e homens pelos caminhos mais antigos da terra. No fundo, ele gostaria de substituir os camelos dos Magos por três bons caminhões - pensando que ficaria dono dos caminhões quando se desmontasse o presépio. Como meio termo, põe ao lado dos Reis uns cavalinhos de plástico. Cavalo sim, é a flor dos animais, companheiro dos caubóis e vencedor do faroeste, Se camelo é bom de sela, por que caubói não monta em camelo? Responda a esta! E o espetáculo que lhe proporcionou o camelo do Jardim Zoológico o confirmou nessa descrença. Aquele bicho desengonçado, de pêlo a despegar pelas costelas, feio de corpo, antipático de cara, estúpido de expressão, nunca, mas nunquinha, podia chegar nem perto da manjedoura de Belém.
     A propósito, essa expressão manjedoura tem suscitado muitas discussões. Não vê que na escola maternal onde ele "estuda" lhe disseram que o Menino nasceu numa estrebaria? Parece que a mãe achou feio estrebaria e ensinou manjedoura. A avó, ignorante dos debates anteriores, falou em gruta de Belém. Aí complicou tudo. Afinal tudo não queria dizer a mesma coisa? Então para que tanta palavra diferente? Acabou por se descobrirem uma quarta fórmula: presépio. Ele optou por presépio depois de verificar que ninguém sabia direito o que era. E palavra que a gente não sabe o que é, é mais bonita.
     Vencida essa etapa estrebaria-manjedoura-gruta-presépio, entrou-se em outra, igualmente delicada: as ofertas ao Menino. O ouro, o incenso, a mirra. Por estranho que pareça, o que ele entendeu melhor foi o incenso. Não vê que no apartamento vizinho mora um senhor meio excêntrico que tem o hábito de queimar incenso a certas horas da tarde ou da noite, e o garoto, muito atento a impressões sensoriais, gosta do cheiro? Incenso, pois, ele aprova. Mas a mirra? Verifica-se que mesmo os grandes não sabem explicar com a devida clareza o que é mirra. Há debates, vai-se ao dicionário. Mirra é uma essência vegetal muito apreciada no Oriente, com a qual se faz um unguento. Passando rapidamente pelas questões suscitadas pela palavra Oriente (lugar onde o sol nasce; lugar onde o sol se põe; porque não nasce em outras partes, ao  norte ou ao sul; se o sol nasce o sol morre? Como é que ele nasce todo o dia, tem gente que que pode nascer todo o dia? E morrer, só morre quem fica velho, mas menino às vezes também morre sem precisar de ficar velho, quando é atropelado, automóvel também atropela velho; ele tem cinco anos mas faz muito tempo que conhece sinal verde, vermelho e até amarelo), o que é UNGUENTO?
     Unguento? Bem, é uma pomada. Pomada! Então o Rei Magro vai passar pomada no Menino Jesus? Coitadinho! Será que ele está doente, tem ferida, tem coceira, perebinha? Pomada é a coisa pior de todas as coisas ruins! Não, unguento de mirra  é só para cheirar, não é remédio, é perfume. Ora, não convence. Muito parecido com quando lhe querem impingir pomada de tubinho para as coceiras alérgicas. Não, neste Menino Jesus que é meu, ninguém passa pomada.
     A conversa caía em crise e então se apelou para a terceira dádiva, o ouro. Que ele também estranhava. Ouro como? Colar? Anel? Mas criancinha pequena não usa essas coisas. Menina pode ser, assim mesmo quando já é maior. Menino nunca. Para que o menino quer ouro?  Alguém sugere que talvez para dar esmola. Mas ele sabe que esmola a gente dá é com dinheiro. Pobre é como criança, não usa relógio nem anel nem pulseira nem... Se dá é nota de cinco ou então comida ou leite ou roupa ou cobertor. Nunca ninguém viu dar coisa de ouro de esmola! Admiro esse Rei Magro!
     Para o desviar do ouro e seus problemas, a mãe pela centésima vez diz que não é magro, é Mago. Mas por que Mago? Mago quem diz é criança que não sabe falar - diz mago, pato, for, em lugar de magro, prato, flor. Hein, por que é Mago? Q que é mesmo Mago? Bem - Mago é assim uma espécie de feiticeiro... Mas, feiticeiro não é ruim? E os Reis Magos são ruins? Este problema de ética está sempre presente nas suas conversas: elefante é bicho ruim ou bicho bom? A Rainha da Inglaterra é rainha boa ou má? Baleia é boa ou ruim? Como é que a gente sabe que um cachorro é ruim? Mocinho é bom, bandido é ruim. Se os magos são feiticeiros bons, quem é ruim?
     - Bem, ruim era Herodes.
     - Herodes? Esse eu nunca ouvi falar. (Quem lhe contou a história do Natal, expurgou-a da matança dos inocentes.) Por que Herodes era mau? Ah, mandou matar as crianças... puxa, era mauzinho, hein?
Mas você sabe quem era mau, mas muito mau mesmo? É aquele dragão de S.Jorge, que bota fogo e fumaça pelas ventas. Quando eu tenho raiva de uma pessoa, tenho vontade de botar fogo pelas ventas também!
     Mas se os Reis Magros - oh, Magos - eram feiticeiros, por que é que eles andavam nesses camelos tão mixurucas? Por que não arranjaram um gênio para carregá-los como o da lâmpada do Aladim? E por falar no Aladim...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Lygia Fagundes Telles - Ângela Delgado

     Na rede, lendo a recém indicada pelo Brasil ao prêmio Nobel. Atenção, pronuncia-se como dúplex e tríplex.
    O primeiro dela eu amei.
    O segundo tem frases ótimas e engraçadas, em meio a uma e outra página relatando delírios de drogados tão deprimentes, que, se o livro não fosse de quem é, eu o teria fechado.
     Dei as instruções básicas à nova faxineira e agora ia me levantar, para lhe falar isso ou aquilo,
mas quer saber? Ela achará tudo. Lygia está me puxando, me detendo.
     Voltemos à leitura:
     "Ouço duzentos e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo a alegria está instalada em mim."
     Parece alguém que está se enxergando cada vez mais.
     Um pouquinho mais adiante:
     "Lembro da ampulheta quebrada, entrei no escritório do pai pra pegar o lápis vermelho e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico vendo o tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e os cacos. Passado e futuro. E eu? Onde ficava eu agora que o era e o será se despedaçaram? Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em trânsito sem se comprometer com os extremos."
     "A volúpia com que os homens criam e descriam a fatalidade. E depois atribuem a responsabilidade aos deuses."
      "Apenas um terço de nós é visível. O resto não se vê. O avesso.
Deve ter ficado satisfeita com sua alta porcentagem de mistério."
      Está explicada a invisibilidade. Quem mandou ser tão misteriosa?
       "Tacto com c para impedir a precipitação, certas palavras devem ter seu degrau, medida contra afobados."
       "Todo aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar seu prejuízo. Não cumprindo a obrigação, responde o devedor por perdas e danos." ' Isto é uma norma. Norma jurídica. Por negligência sua perdi a alegria.' - falou a personagem estudante de Direito.
     "Um telefonema hoje, um encontro rápido amanhã, uma esperança para Deus sabe quando."
     E perco a esperança de achar o trecho em que ela fala da filosofia do ser ou estar...
Resumindo, o estilo é sumamente magnético.
     O terceiro, em breve.
    Ouvindo Aznavour, vou tão feliz dirigindo rumo à Biblioteca, para pegar outros livros dessa grande escritora, que digo a mim mesma: Menos, menos! Você sabe como a vida cobra cada alegria, sabe do círculo vicioso, alegria, tristeza, alegria, tristeza, per omnia saecula saeculorum...
   "Dominus vobiscum. Et cum spirito tuo. Ite, missa est."
   

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Quod erat demonstrandum - Ângela Delgado

    Apenas inaugurado o consultório, ela se apossou do divã e nele se instalou qual posseira (?), provando sem dúvida, que a vida era parecida com moedas! Era o óbvio mostrando a cara ou sua coroa.
   - E o que disse?
   - Como em um confessionário, a ética não permite indiscrições, mas só para o histórico, foi mencionado que ela constantemente entra na roda de seus personagens, a quem dá as mãos no girar do ritmo. Eureca! Personagens de livros, embora sem carne, osso e alma, também fazem parte da vida, graças a Deus; são linhas que cortam nó górdio, encantando, e compensando carências.
     Por hoje, seu tempo terminou. Veremos em que dará o desenrolar deste coração. Esperemos que, ao ter alta, você se conscientize de que as músicas arrebatadoras e os personagens que a encantam são o fermento de seu mundo. Mundo este que se revela um banquete, onde cogumelos venenosos e alimentos indigestos devem ser evitados. Quod erat demonstrandum é que se o inferno são os outros, o céu também são os demais.                                                                                                                 
      A vida nesse ponto já adquiriu novo sabor para ambos, médico e paciente. No entanto, ele terá que refletir sobre o que ela declarou: apaixonada por si própria ela não se machuca. Autoestima levada ao extremo? O melhor é de fato dar por encerrada a consulta, como acima foi decretado. Não é emocionante saber que amanhã teremos ou escreveremos outro capítulo, no qual seremos leitores e personagens, a um só tempo? E como é bom virar a página! Isso impede um  mergulho e a permanência no fundo da banheira. Desperdiçar a vida... Eu, hein? Aproveito até um pedaço de pão ou água pra chuchu, vou lá jogar fora uma vida?!   
     - Que diabo significa isso de água pra chuchu, se ele não se cozinha com água ou fica aguado e sem graça? Tem que ser só refogado.    
     - É que adoro usar expressões da era dos Beatles. Você não sabe que chuchu se propaga com a maior facilidade? Daí a metáfora da abundancia, capisci?
     Interrompidas as sessões de "análise", terminadas as aulas de japonês, aproveito  o caderno para contar que não conseguindo largar "Ciranda de pedra" de Lygia Fagundes Telles, ele foi comigo à padaria, onde esperava encontrar algum rosto amigo. Sequer vislumbrei um, mas, obrigada, meu Deus, por não ser cega; por saber ler; por gostar tanto de música e de livros e por tê-los à disposição, assim, em um estalar de dedos, um acelerar de pedal e chegar à Biblioteca ou livraria. Um simpático cronista escreveu que a gente não morre, enquanto não acaba de ler o que se está lendo. Sendo assim, não morrerei nunca, pois eles se sucedem e, de encantamento em encantamento, me viciei. Só interrompo a leitura quando o dever me chama, quando escutar música é algo inadiável, quando vou caminhar, fazer ginástica, cuidar das plantas, da casa em geral ou me dedicar a outros prazeres, como por exemplo, dar uma olhadinha no WhatsApp, que do Facebook estou conseguindo me afastar. Igual fumante: Só por hoje, e mais hoje... Há dias que não "piso" lá.
     Bem, voltando aos livros, eles me chegam até pelos Correios, pois belas almas não se esquecem de mim, obrigada!
     "Ele não te enxerga." De vez em quando essa frase pipoca na minha cabeça. No entanto, não tendo asperezas, a pipoca não dói. Mesmo assim, essa machuca. Melhor diria, martela. Quer saber? Cada vez mais, eu estou me enxergando, e bola pra frente, que amanhã renasço com o sol, pra viver e curtir o resto dos meus dias!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015



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            Aos  aniversariantes do mês de outubro, os meus calorosos parabéns!

sábado, 16 de maio de 2015

Manuel Bandeira na minha memória - de Anna Maria A.Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro
     Em minha bem sucedida carreira de “serial clumsy”, muitos dos episódios ocorreram em momentos trágicos e de grande sofrimento. A lembrança de um deles me vem hoje na leitura da deliciosa crônica Memória sobre Manuel Bandeira, publicada no último número do Montbläat, escrita por José Roberto Teixeira Leite (será ele parente de Dr. Edgar Teixeira Leite uma das figuras que mais me encantava nas minhas lides com Reforma Agrária?). Foi um dos episódios mais absurdos de minha capacidade de criar situações embaraçosas para mim, e muitas vezes para outros, e se deu exatamente num momento de grande tristeza para mim e para muita gente. Era dezembro de 1959, tinha eu vinte e nove e naquela época apenas dois filhos. Morava em Recife, casada com um oficial da FAB. Radiante, havia vindo passar as férias no Rio de Janeiro para participar das festividades de fim de ano que todos os anos envolvia a família numa sucessão de almoços, ceias e jantares que começavam no dia 24 de dezembro e se desenrolavam até o Dia de Reis, em janeiro. Poucos dias antes do Natal um telefonema destruiu nosso mundo familiar, tão divertido e tão unido. O choque de um avião da VASP com o de um cadete da aeronáutica havia provocado a morte de todos os envolvidos. Entre eles estavam meus tios Lucia Miguel Pereira e Octávio Tarquínio de Souza, ambos escritores. Ela, crítica literária, ensaísta e autora de extraordinárias biografias de Machado de Assis e de Gonçalves Dias; ele, historiador de fama, com quem aprendi que D. Pedro I era “femeeiro”, palavra que nunca havia escutado. Em casa de Lúcia (para mim Madinha) eu havia sido introduzida, muito cedo, num mundo de beleza, inteligência e cultura. Desfilavam por lá senhores e senhoras, criadores de personagens, poesias, quadros e desenhos que me haviam sido apresentados antes dos autores, desde muito cedo. Emocionada eu apenas assistia as conversas que me pareciam mágicas. Aquela cobertura, de onde se via o Parque Guinle, era para mim um lugar sagrado. Não eram só os tios que eu havia perdido. Uns poucos que os frequentavam eram também amigos de meu pai. Mas não todos. E eu não mais os veria em sua inteligência e brilho. O enterro no São João Batista estava um tumulto. No mesmo acidente havia morrido o repórter Luciano Carneiro. Eram três personalidades que ao mesmo tempo deixavam a vida e centenas de pessoas chocadas lotavam as capelas. Minha mãe, muito abatida, pediu-me: minha filha: cuida de Tio Frederico. Ele está muito velhinho e fez questão de vir. Tenho medo que se emocione demais. Tio Frederico era um desses tios que só se vêem em enterros. Morava fora da capital e raramente sabíamos dele. Era irmão de meu avô que eu nem havia conhecido. Corri os olhos pela multidão que lotava a capela. Lá no canto, sentado e chorando muito estava Tio Frederico. Sentei-me ao lado dele, sem coragem de dizer nada. Peguei sua mão e passei a acariciá-la tentando dar um apoio que nem seria tanto. Ele me olhava com uma expressão estranha. Era visível que não queria falar nada. Respeitei o seu silêncio e ficamos apenas chorando. Vez por outra, quando o choro recrudescia, eu o abraçava e lhe dava um beijo que parecia provocar mais estranheza ainda. Ao sairmos em direção ao túmulo eu lhe dei o braço e o amparei no andar. Lembro-me que pensei: ele anda bem para idade dele. Mas assim mesmo retardei o ritmo que ele tentava imprimir como que querendo fugir de meus cuidados. Quando tudo terminou alguém que eu não conhecia apoderou-se de tio Frederico dizendo que ia levá-lo em casa. E ele partiu sem se despedir de mim, ainda chorando muito. Livre da incumbência procurei localizar a família e dou de cara com Jorge Laclette, amigo de infância, meu e de meu irmão. Não consegui achar os outros e resolvemos ir a pé para casa de minha mãe, que era na Rua Mena Barreto e onde, certamente, todos se reuniriam naquela necessidade de se estar junto depois de um golpe desses. Foi aí que Jorge fez uma declaração que me deixou confusa: não sabia que você era tão ligada ao Manuel Bandeira. Surpresa, respondi: não sou, não, Jorge. Eu o via apenas em casa de Madinha. Ele veio? Jorge arregala os olhos e dispara: você está maluca? Passou horas de mãos dadas com ele. Abraçando, beijando, agarrada a seu braço!!!  Estarrecida me dou conta de que aquele velhinho (que na época era mais moço do que sou agora) não era Tio Frederico. Até hoje, anos passados de sua morte, o nome Manuel Bandeira me dá arrepios. Mesmo quando releio as poesias que adoro. Imagino o que deve ter pensado daquela louca que dele se apoderou impedindo que fugisse das carícias e do apoio não desejados: o olhar que eu identificara como estranho era de espanto e horror! Rezo para que ele nunca tenha identificado naquela moça a adolescente que o devorara com os olhos mais de dez anos antes. Chegando a casa mamãe me interpela: E Tio Frederico?  Covardemente informo que ele havia ido direto tomar o ônibus de volta. E passei algumas horas no terror da chegada da notícia de um velho desorientado vagando pelo São João Batista. Mas, aparentemente, Tio Frederico retornou são e salvo ao seu refúgio e morreu anos depois, sem saber que havia sido abandonado por uma sobrinha neta trapalhona.