sexta-feira, 17 de agosto de 2018

É conversando que a gente se desentende - Rubem Alves


    É de madrugada, naquele intervalo confuso entre o sono e o estar acordado,
que os deuses me fazem suas revelações. Acontece, então, que as coisas mais
banais aparecem à minha frente pelo avesso, o que muito me surpreende porque,
pelo avesso, as coisas são o oposto do que parecem ser pelo direito.
    Hoje, por exemplo, os deuses revelaram-me que a separação vem da
compreensão. Para se ficar junto é melhor não entender. Isso é o oposto do que
pensam os casais que vivem brigando. Acham que suas brigas devem-se ao fato
de não se entenderem e pedem então socorro aos terapeutas, quem sabe a
terapia fará com que se entendam melhor, o que é fato, mas a conclusão não
segue a premissa. Não é certo que, depois de se entenderem melhor, vão ficar
juntos.
    Frequentemente é no exato momento da compreensão que a separação
torna-se inevitável. Nada garante que o compreendido seja gostado. Prova disso
é o que aconteceu com o meu sogro, que odiava miolo. Convidado para jantar,
deliciou-se, repetiu e fartou-se com uma maravilhosa couve-flor empanada.
Ao final do banquete, cumprimentou a anfitriã pelo prato divino. Mas ela logo
explicou: “Não é couve-flor, é miolo empanado...” E ele entendeu, entendimento
que o catapultou na direção do banheiro mais próximo, onde o jantar foi vomitado.
É assim. Às vezes, quando a gente não entende, come e gosta. Quando entende, desgosta e vomita.
    Afirmação assim avessa, tão contrária ao senso comum, exige uma explicação
e é o que passo a fazer.
    Abri, no meu micro, um arquivo com o nome de “Encíclicas”. Coloco ali o texto
das encíclicas que vou promulgar quando for eleito Papa. Como se sabe, o papa
Leão XIII, em 1891, promulgou a encíclica De Rerum Novarum que quer dizer
“Sobre as coisas novas”. De repente, a Igreja, que até então acreditava que tudo
o que merece ser conhecido estava guardado no seu baú milenar de doutrinas,
percebeu, com um susto, que coisas novas, interessantíssimas, aconteciam no
mundo.
    E o bom Papa apressou-se a passar essa informação adiante. Esse foi o início
de um enorme esforço de modernização da Igreja que não deu certo, pois não se
coloca remendo de pano novo em pano velho. O pano velho começou a rasgar...
Desejoso de reparar o mal que a encíclica De Rerum Novarum causou, escrevi
a sua antítese, a encíclica De Rerum Vetustarum, ou seja, “Sobre as coisas velhas”.
    E a sua substância é extraordinariamente simples. Reza a encíclica que, do
momento de sua publicação para frente, tudo, absolutamente tudo o que ocorrer
na Igreja, as fórmulas litúrgicas, as bênçãos sacerdotais, batizados, crismas,
casamentos, funerais, hinos, leituras dos Textos Sagrados, sermões, encíclicas,
e mesmo as falas do padre ao confessionário, tudo deverá ser feito em latim.
Ah! Como é belo o latim! Soa como uma “liturgia de cristal”, música pura
    Se os padres falassem em latim, a gente não entenderia nada e amaria tudo.
A linguagem clara e distinta mata a fantasia. Dentro do que ninguém entende
cabe tudo: miolo vira couve-flor e o corpo e a cabeça aprovam.
     A compreensão sempre dá briga. Imagino, mesmo, que foi por isso que
Deus confundiu as línguas da humanidade na construção da Torre de Babel.
As pessoas falavam a mesma língua. Falando, entendiam-se. Entendendo-se,
compreendiam as opiniões uns dos outros. Compreendendo as opiniões uns
dos outros não gostavam delas. E daí passavam às vias de fato.
Deus Todo-Poderoso compreendeu, então, que a única forma de evitar pancadaria
era fazer com que eles não se entendessem.
   Fica o conselho aos casais que estão brigando. Cuidado com a conversa.
Da conversa pode nascer a compreensão, da compreensão pode surgir a separação.
A compreensão pode ser tão fatal para o casamento quanto ela foi para o jantar do meu sogro.
É conversando que a gente se desentende.
  Previnam-se contra a terapia de casal. Ela pode produzir compreensões insuportáveis.
Adotem a sabedoria milenar da Igreja: adotem o latim como língua da casa. E
dediquem-se à música, dando preferência aos instrumentos de sopro, pois
enquanto se sopra não se fala e, assim, a compreensão e a separação são evitadas.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A manhã de hoje

                          

   Por causa de um salgadinho saboreado ao entardecer, à noite tive um pesadelo. E o culpei, porque a coincidência se repetiu, no mínimo, pela terceira vez. Mas, vamos ao que enfrentei enquanto dormia: nada mais - ou nada menos – do que Lula e Dilma. Seria possível a desgraça se alastrar em outra dimensão?
     Levei, então, a mistura de Pastor Alemão com Akita que temos aqui em casa e fomos, corajosamente, derrubar de uma vez por todas, a maldita dupla. Que me desculpem os petistas.
     Amedrontava a todos pela frente, até que contra-atacaram com um ratinho fatal. Estava eu nesse dilema, quando acordei aliviada.
     Daí me levantei disposta a recomeçar o namoro com o dia. Em frente ao espelho, constato a secura de minha pele. Chego à conclusão de que o famoso creme não está fazendo efeito. Acho que - aqui me rendo em minha batalha para usar o tempo futuro - vou apelar para a sabedoria antiga: a velha pomada “Minâncora”.
     Lendo a bula, relembro que ela combate espinhas e o efeito de picadas de insetos, mas não hidrata.Vick Vaporub igualmente combate espinhas; elimina dor de cabeça, vejam só;  alivia dores nas articulações, etc., mas só hidrata lábios... A última tentativa: Listerine, quem diria? Além de enxaguante bucal, serve para limpar vidros, pisos e, ao fim de uma longa lista de promessas, a limpeza do rosto é uma delas, mas não há menção de hidratá-lo. Como não?! Que droga de produto é esse que só resolve 37 problemas?
     Desisto e ligo o celular, onde há um apelo urgente para salvar elefantes na África, com a agravante de termos que enviar um donativo.
     Só me faltava essa. Como se eu não tivesse preocupações suficientes, e não me refiro à pele. Que me desculpem os ecologistas ou seriam os ambientalistas?
    Enquanto cedo a este impulso irresistível de tudo colocar no papel, na mensagem do Whatsapp me esperam, no elevador parado e às escuras, um argentino, um brasileiro, uma gostosa e uma freira... O dia avança, e a hora em que devo me colocar sob o sol, para a devida absorção de vitamina D, também.
     Eis que me defronto com duas pequenas abelhas engalfinhadas, na luta por uma folhinha. Com tantas ao redor, elas não a largam, há mais de 20 minutos. Joguei-lhes outra folha, porém ignoraram-na. Serão os animais tão cegos quanto os humanos? Deu vontade de pisoteá-las, mas pensando no Livre Arbítrio, deixei-as ao seu bel prazer. No entanto, a dúvida de que uma delas fosse fêmea e precisasse ser salva, me fez tentar separá-las. Em vão. Finalmente, tinha mais o que fazer e que me desculpassem os biólogos.
     À toda essa avalanche de acontecimentos, somaram-se as pouco emocionantes notícias do jornal, aberto ao lado do livro, que aguardaria pacientemente na fila sua  oportunidade de me encantar.

     Ao digitar no escritório, no andar superior e de janelas fechadas, ouvi um pedido abafado de socorro. Abri uma das janelas e chamei:
- Adélia?
     Não obtendo resposta, achei que fosse a vizinha vendo uma barata. Ela deve ter jurado haver aqui um roedor. Só que era meu marido caindo de uma escada. Bateu no chão com a testa, que logo sangrou muito, formando-se um enorme galo. O grito havia sido da faxineira e, graças a Deus, ele está bem.

Angela Delgado

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

As rãs, o pintassilgo e a coruja - Rubem Alves



     Era uma vez um bando de rãs – embora sua aparência sugira o contrário – são seres poéticos. Sobre uma rãzinha, Matsuo Bashô (1644-1694) escreveu o seu haicai: “Ah, o velho lago./De repente a rã no ar/e o tchibum na água...” As rãs da nossa história não saltavam em lagos, porque viviam presas no fundo de um poço. Só que elas não sabiam que estavam presas no poço, por pensar que o universo era daquele jeito. (Muitas pessoas vivem também presas no fundo de poços, sem se dar conta disso...)
     Tudo começara muito tempo antes, num momento de enlevo amoroso. Um casal de rãs apaixonadas ia saltando numa noite de lua cheia em busca de um ninho onde fazer amor. Olhavam para a lua romântica e não viram o buraco à sua frente (isso acontece frequentemente com os apaixonados...). O pulo seguinte os levou da luz romântica da lua ao escuro do fundo do poço. Pularam muito, o mais que podiam, para sair do poço. Inutilmente. O poço era muito fundo.
     Resolveram, então, transformar sua desdita em felicidade. Como naqueles filmes em que um lindo jovem e uma linda jovem naufragam e vão parar numa ilha paradisíaca de onde não podem sair. Lembro até do nome do filme: Numa ilha com você... Como não havia o que fazer no fundo do poço, puseram-se freneticamente a fazer amor, não por luxúria, mas para matar o tempo. Frequentemente, na vida dos casais, acontece o mesmo: faz-se amor não por amor, mas para combater o tédio. O resultado foi o esperado: rãzinhas e mais rãzinhas. O poço se encheu de rãs e o casal solitário se transformou numa grande sociedade de rãs.
     Como acontece com todos os seres vivos, o casal original, o Adão e a Eva das rãs, ficou velho e morreu. Com isso, morreram os únicos que tinham memória do mundo de fora. As rãs-filhas, sem memória da beleza do mundo, pensavam que o poço era tudo o que havia no universo. E o que havia lá dentro era lama, lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e escorpiões... Assim, suas cabeças só pensavam lama, lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e escorpiões.
    Aconteceu que, numa manhã ensolarada, voava por aqueles campos um pintassilgo que, passando perto do poço, ouviu a orquestra de rãs coaxando lá no fundo. Curioso, ele baixou o seu voo e entrou. Foi um grande susto para as rãs, que pensavam ser elas os únicos habitantes do universo. Algumas rãs disseram que se tratava de um extrapoço (pois não há extraterrestres?). Outras, que era alma do outro mundo. Umas poucas, de índole mística, pensaram tratar-se de um anjo. E outras havia que, tendo lido Freud, afirmavam que o pintassilgo era uma alucinação coletiva.
     O pintassilgo, penalizado da triste condição das rãs (triste para ele, que conhecia as belezas do mundo; mas as rãs, elas mesmas, que só conheciam o fundo do poço, estavam muito felizes...), começou a cantar: cantou flores, cantou rios, cantou nuvens, cantou pássaros, cantou borboletas. O que mais fascinou as rãs foi pensar que havia animais que não pulavam como elas: animais que voavam como o pintassilgo. As rãs se dividiram. Os sociólogos fizeram uma pesquisa. O resultado foi: 45% das rãs achavam que o passarinho era doido, pois falava sobre coisas que todas as rãs em juízo perfeito sabiam ser fantasia; 50% concordavam com os teóricos da psicanálise – o dito passarinho, que se sabe não existir, por não existirem coisas com asas, não passava de uma alucinação; somente 5% das rãs acreditaram no pintassilgo. E uma coisa curiosa aconteceu com estas: começaram a nascer asas em suas costas, asas como as do pintassilgo. E elas viraram pássaros – meio desajeitados, é bem verdade. Mas não importa. O fato é que se puseram a voar e saíram do poço. O pintassilgo, sentindo-se rejeitado por 95% da população de rãs, achou prudente ir embora para nunca mais voltar. E assim ficaram as rãs, pelo resto de suas vidas, sem o canto do pintassilgo.
     Corujas, como se sabe, são aves noturnas de rapina. Caçam animais no escuro. Pois o pintassilgo estava doido para contar sobre as rãs no fundo do poço. Viu uma coruja num galho de árvore. Chegou perto dela e lhe contou sobre as rãs. Rãs, como se sabe, são um deleite para o paladar. Até os humanos as apreciam, especialmente fritas. Ouvindo falar de um punhado de rãs, a coruja abriu os olhos, prestou atenção e pensou: “tenho comida garantida para a próxima estação”.
     Caída a noite, bateu suas asas e entrou dentro do poço. Noite ou dia, não fazia diferença: no poço era sempre escuro. Chegando lá, foi outro susto para as rãs. E a coruja, que não era boba, nada falou sobre as belezas do mundo de fora. Se as rãs acreditassem num mundo cheio de coisas bonitas, era possível que começassem a ter esperança. E é a esperança que faz crescer asas nas costas não só das rãs, como também de todos os bichos, inclusive dos homens. Com asas nas costas, as rãs se transformariam em pássaros, voariam, sairiam do poço e iriam fazer tchibum na lagoa. E na lagoa estariam a salvo do seu bico. “Esqueçam as bobagens que o pintassilgo cantou”, disse a coruja. “O pintassilgo é um poeta e fala sobre coisas que não existem. O que realmente importa é que vocês compreendam os seus próprios pensamentos. Podem acreditar em mim. As corujas, na literatura, são símbolos da sabedoria. Eu sou sábia.”
     A coruja iniciou, então, um detalhado processo de análise das ideias das rãs. Mas, como elas só conheciam lama, lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e escorpiões, o resultado da análise era sempre lama, lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e escorpiões – reelaborados, é bem verdade. E assim aconteceu. As rãs, através dos anos de análise, foram ficando cada vez mais “resolvidas” quanto a lama, lesmas, mau cheiro, moscas, minhocas, lacraias e escorpiões. E se esqueceram das belezas cantadas pelo pintassilgo poeta. A coruja, por sua vez, foi ficando cada vez mais gorda, enquanto, a intervalos regulares, uma rã desaparecia...
     As histórias – coisas que nunca aconteceram – têm o poder de nos ajudar a compreender as coisas que acontecem. Esta história, pura brincadeira, é sobre nós mesmos. Somos rãs no fundo do poço. Poços podem ser a casa, o casamento, o emprego, a bolsa de valores, a religião, as superstições, as memórias... O fundo do poço pode também ser a própria alma. Para entender a alma, Platão inventou uma estória parecida com a das rãs. Ele nos descreveu como prisioneiros acorrentados no fundo de uma caverna, com as costas voltadas para a entrada. Nessa posição, não vemos o mundo lá fora (como as rãs), mas apenas as sombras deste mundo, projetadas na parede à nossa frente.
     De que forma podemos quebrar a corrente que só nos permite ver as sombras? Qual o poder que dá asas às rãs, para que elas saiam do poço e vejam o mundo de fora?
     Disse Bernardo Soares que não vemos o que vemos. Vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo aqueles que têm belezas dentro de si. Com o que concordaria Ângelus Silésius, místico e poeta que viveu no século XVII, que dizia que, a menos que tenhamos o paraíso dentro de nós, não há forma de encontrá-lo fora de nós mesmos.
     Essa é a questão central da terapia: abrir os olhos aos cegos.
     Bachelard – maravilhoso pintassilgo – dizia que um psicanalista é uma pessoa que, ao receber do seu cliente uma rosa, volta-se para ele e lhe pergunta: “E o esterco, onde está?”. Como se o abismo da alma, fosse um esgoto! Essa visão terapêutica tem suas origens na psicologia do inquisidor que pressupunha que aquele que estava sendo interrogado mentia sempre. Assim, tudo o que ele dissesse de bondade e beleza não passava de máscara, disfarce para o pecado escondido. Sua tarefa era sistematicamente destruir a bela máscara para chegar ao rosto horrível: da rosa para o esterco.
     A essa visão sinistra do inconsciente, Bachelard contrapõe “um inconsciente tranquilo, sem pesadelos...”. Bachelard, se psicanalista fosse, ao receber esterco do seu paciente, perguntaria, com um sorriso: “E a rosa, onde está?”. A tarefa do terapeuta, então, não pode ser compreendida como uma infinita análise de esterco, mas como um alegre cultivo de flores. Há, de fato, no fundo do poço, lama de cujas profundezas sobem bolhas malcheirosas. Mas nesse poço floresce o lótus imaculadamente branco...

     O que salva não é a análise da lama. O que salva é a contemplação do lótus.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Vida - Ângela Delgado

A vida é rodízio obrigatório
de um cardápio contraditório.
Primeiro vem a alegria
e como se fosse a conta,

trazem-nos a tristeza.
Pedimos mais do primeiro prato e
vamos pagando.
Ora degustamos confortáveis na cadeira

ora a vida dá-nos uma rasteira.
Assim seguimos pela vida afora.
Remoendo nesta  canoa?
Não rumine, apenas se mime.

sábado, 2 de setembro de 2017

Uma crônica de Jacques Prévert - Ângela Delgado

 Ontem foi uma data triste, pois fazia um ano que um irmão muito querido se fora, mas ao final do dia, lendo na cama um livro de Jacques Prévert, pude rir com sua crônica:                                                                             
                               "  O professor
Hamlet!
                       O aluno Hamlet (tendo um sobressalto)         
 ... Hein... O quê... Desculpe... O que aconteceu...  O que houve...

                           O professor (descontente)
 Você não pode responder “presente” como todo o mundo? Impossível, você ainda está nas nuvens.
                                  
                           O aluno Hamlet

 Estar ou não estar nas nuvens!
                                
                          O professor

Basta. Vamos ao ponto. Conjugue o verbo ser, como todo o mundo, é tudo o que peço.
       
                     O aluno Hamlet
 To be...
                         
                     O professor

Em francês, por favor, como todo mundo.

                    O aluno Hamlet

Está bem, professor (ele conjuga) :
Eu sou ou não sou
Você é ou não é
Ele é ou não é
Nós somos ou não somos...
                                
                         O professor
                  (bastante descontente)

Mas você não está aqui, meu pobre amigo!

                       O aluno Hamlet

É isso, professor,
Eu estou “onde” não estou.
E, no fundo, hein, pensando bem,
Estar “onde” não se está
Talvez seja também a questão."


Não sei se foi engraçado para vocês ou se eu é que estava precisando rir.
Como há um probleminha de tradução, porque, em francês, a palavra “ou” é homônima de “onde”, transcreverei o texto original:

                                    Le professeur
 Hamlet!
                                   L´élève Hamlet         
                                     (sursautant)

 ... Hein... Quoi... Pardon... Qu´est-ce qui se passe... Qu´est-ce qu´il y a... Qu´est-ce que c´est?
                            
                                     Le professeur
                                     (mécontent)

Vous ne pouvez pas répondre “présent” comme tout le monde? Pas possible, vous êtes encore dans les nuages.

                                        L´élève Hamlet

 Être ou ne pas être dans les nuages!

                                       Le professeur

  Suffit. Pas tant de manières. Et conjuguez-moi le verbe être, comme tout le monde, c´est tout ce que je vous demande.
                         ]
                                       L´élève Hamlet
To be...
                    
                                       Le professeur
                          
En français, s´il vous plaît, comme tout le monde.

                                         L´élève Hamlet
  
 Bien, monsieur. (Il conjugue:)
Je suis ou je ne suis pas
Tu es ou tu n´es pas
Il est ou il n´est pas
Nous sommes ou nous ne sommes pas...

                                     Le professeur
                              (excessivement mécontent)      
]     
Mais c´est vous qui n´y êtes pas, mon pauvre ami!

                                    L´élève Hamlet

C´est exact, monsieur le professeur,
Je suis “où” je ne suis pas
Et, dans le fond, hein, à la réflexion,
Être “où” ne pas être

C´est peut-être aussi la question.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Carta aberta à Unb - Ângela Delgado



     Imagine a emoção de um estudante, após grande esforço e muita ansiedade, ser aprovado a uma vaga na Faculdade.
     O dia D chega. Consegue ca
rona, mas, como tantos outros, poderia ter ido em pé ou apertado em um ônibus. Está intimamente emocionado, tenso talvez. E com certeza, cheio de expectativas pelo "desembarque" ou aula inaugural, momento em que se inicia nova etapa em sua vida.
     A realidade, porém, raramente é o show que deveria ser. Ela nos envergonha cada vez mais.
     Tal um anfitrião, é dever do educador receber bem o futuro professor, matemático, médico, engenheiro, arquiteto, administrador, ou seja lá qual a pretensão do calouro - alicerce de um país - como igualmente auxiliá-lo, motivando-o a estudar, pesquisar, progredir até à sua formação. É essa a missão e o mais nobre dever do docente.           
    A propósito, para isso é pago.                                                                                     Em uma empresa aérea, o "no-show" ocasiona multa, mas a professora, descumprindo sua parte, que consiste em dar uma bela aula, fica imune. Foi operada. Ao que parece, não de emergência, pois o funcionário informara que ela está de atestado. Será que, em um mês de férias, faltou tempo e sensibilidade para a comunicação prévia à secretaria de seu impedimento para se apresentar, em tão importante dia; esta prover um substituto; adiar o início das aulas ou, pelo menos, avisar aos alunos?                                 O mínimo que se espera de uma autoridade é o bom exemplo. Do contrário, como exigir respeito, se é a primeira a desrespeitar?                                                                      A meu ver, dependendo das desculpas, esse descaso seria caso de séria advertência, suspensão ou, havendo reincidência, demissão por justíssima causa.                                 Só que não estão nem aí. A agravante é ter isso já ocorrido outras vezes.
  Por isso, não podemos nos omitir e continuar a "aceitar" o inaceitável.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Uma estada no Paraíso - Ângela Delgado

   No avião, rumo a Lisboa, o deleite com o Escondidinho de Carne e a sobremesa teriam me levado às alturas, se lá já não estivesse, rindo com o comissário de bordo que, ao me ouvir elogiar o menu, retrucou ter sido feito por ele. Kkkk.
   Claro “kã” (como pronuncia um português o nosso “que”) se tivesse ouvido uma reclamação, em vez de arrogar-se a autoria da refeição, com certeza, teria dito “kã” comunicaria  a queixa à Tap Portugal.
   Dali em diante, após o encontro dos irmãos e cunhados, o sucedido foi um festival de gargalhadas entremeadas com copos de vinho, Mojitos e Piñas Coladas.
   Mais tarde, no elevador do shopping “El Corte Inglés”, duas raparigas conversavam. Quando saíram, em andar inferior ao que nos dirigíamos, perguntei:
     - Elas não estavam falando português, estavam?
     - Estavam, respondeu uma portuguesa. Infelizmente, as jovens falam assim hoje!
     Fiquei pasma, pareciam oriundas da Hrvatska, ou seja, da Croácia.
     De volta ao hotel, sabedor da existência de uma escada rolante ligando o Chiado ao Bairro Alto, indagamos sua localização à recepcionista. Como a portuguesa arregalara os olhos, dizendo não existir tal coisa, nós nos espantamos mais ainda, e eu, com o intuito  de lhe elucidar o significado de “escada rolante”, já que me parecera “kã” em Portugal, usavam expressão diferente para tal comodidade, disse-lhe, que enquanto ficávamos parados, a escada nos transportava de um lugar a outro.
     - Não querem mais nada!
Desistimos e saímos incrédulos do hotel, eu com pena de não ter levado o dicionário de português "Lá como cá" e suspeitando de que a portuguesa apenas se divertira com brasileiros.
        Em uma manhã de vento forte em que nos dirigíamos à praia, foi lembrada uma historinha de uma senhora, beirando os oitenta, que estava preocupada em segurar o chapéu, enquanto o vento levantava sua saia. Alertada do fato, respondeu que o que ele exibia, ah, tinha quase oitenta anos, enquanto seu chapéu só uma semana!










  Ao final de um mês a me deliciar com Pastéis de feijão; Babas de camelo; Natas do céu; Samosas  - um pastel indiano -  e outros quitutes; após ouvir músicas gostosas; festejar meu aniversário com pessoas muito queridas (hélas, impossível passá-lo com todas); rir como nunca; ver beleza por toda a parte e constatar que Portugal continua limpo como sempre - o piso nas ruas chega até a brilhar - cheguei em Brasília tão bronzeada que minha filha ficou na dúvida se eu havia ido a Portugal ou à Bahia.

   Aqui coloco um adendo aqui, já que o assunto é Portugal.
Fernando Sabino precisava comprar esparadrapo.
   "Não foi fácil comprar. Eu sabia que em Portugal esparadrapo tem outro nome. Como seria? Entrei na farmácia tentando adivinhar. Se eu falasse em esparadrapo, o farmacêutico ia achar que eu estava de galhofa. Mostrei-lhe com mímica que queria aquela coisa com a qual se faz um curativo. Ele entendeu logo e me trouxe  um pacote de gaze e um de algodão.
     - Nem uma coisa nem outra. Aquela que cola.
     - Ah, o senhor quer dizer esparadrapo.
     Mais tarde descobri que não fui tão idiota assim, pois que a palavra era outra mesmo, o boticário devia ser bilíngue: eles chamam é de "penso."


                                                                   Tavira, no Algarve
                                                         música "I can´t live without you".

Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau - Rua Augusta, em Lisboa.




"♫ Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz..."


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