quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Carta aberta à Unb - Ângela Delgado



     Imagine a emoção de um estudante, após grande esforço e muita ansiedade, ser aprovado a uma vaga na Faculdade.
     O dia D chega. Consegue ca
rona, mas, como tantos outros, poderia ter ido em pé ou apertado em um ônibus. Está intimamente emocionado, tenso talvez. E com certeza, cheio de expectativas pelo "desembarque" ou aula inaugural, momento em que se inicia nova etapa em sua vida.
     A realidade, porém, raramente é o show que deveria ser. Ela nos envergonha cada vez mais.
     Tal um anfitrião, é dever do educador receber bem o futuro professor, matemático, médico, engenheiro, arquiteto, administrador, ou seja lá qual a pretensão do calouro - alicerce de um país - como igualmente auxiliá-lo, motivando-o a estudar, pesquisar, progredir até à sua formação. É essa a missão e o mais nobre dever do docente.           
    A propósito, para isso é pago.                                                                                     Em uma empresa aérea, o "no-show" ocasiona multa, mas a professora, descumprindo sua parte, que consiste em dar uma bela aula, fica imune. Foi operada. Ao que parece, não de emergência, pois o funcionário informara que ela está de atestado. Será que, em um mês de férias, faltou tempo e sensibilidade para a comunicação prévia à secretaria de seu impedimento para se apresentar, em tão importante dia; esta prover um substituto; adiar o início das aulas ou, pelo menos, avisar aos alunos?                                 O mínimo que se espera de uma autoridade é o bom exemplo. Do contrário, como exigir respeito, se é a primeira a desrespeitar?                                                                      A meu ver, dependendo das desculpas, esse descaso seria caso de séria advertência, suspensão ou, havendo reincidência, demissão por justíssima causa.                                 Só que não estão nem aí. A agravante é ter isso já ocorrido outras vezes.
  Por isso, não podemos nos omitir e continuar a "aceitar" o inaceitável.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Uma estada no Paraíso - Ângela Delgado

   No avião, rumo a Lisboa, o deleite com o Escondidinho de Carne e a sobremesa teriam me levado às alturas, se lá já não estivesse, rindo com o comissário de bordo que, ao me ouvir elogiar o menu, retrucou ter sido feito por ele. Kkkk.
Claro “kã” (como pronuncia um português o nosso “que”) se tivesse ouvido uma reclamação, em vez de arrogar-se a autoria da refeição, com certeza, teria dito “kã” comunicaria  a queixa à Tap Portugal.
     Dali em diante, após o encontro dos irmãos e cunhados, o sucedido foi um festival de gargalhadas entremeadas com copos de vinho, Mojitos e Piñas Colladas, cuja solicitações não haviam sido entendidas pelo garçom, pois como esclarecera meu irmão Luiz, eu não pronunciara o segundo “ele”.  Pelo visto, e não ouvido, estava eu a “comer “ letras, tal uma portuguesa.
   Mais tarde, no elevador do shopping “El Corte Inglés”, duas raparigas conversavam. Quando saíram, em andar inferior ao que nos dirigíamos, perguntei:
- Elas não estavam falando português, estavam?
- Estavam, respondeu uma portuguesa. Infelizmente, as jovens falam assim hoje!
Fiquei pasma, pareciam oriundas da Croácia.
     De volta ao hotel, sabedor da existência de uma escada rolante ligando o Chiado ao Bairro Alto, Luiz indagou sua localização à recepcionista. Como a portuguesa arregalara os olhos, dizendo não existir tal coisa, nós nos espantamos mais ainda, e eu, com o intuito  de lhe elucidar o significado de “escada rolante”, já que me parecera “kã” em Portugal, usavam expressão diferente para tal comodidade, disse-lhe, que enquanto ficávamos parados, a escada nos transportava de um lugar para outro.
- Não querem mais nada!
Desistimos e saímos incrédulos do hotel, eu com pena de não ter levado o dicionário de português "Lá como cá" de Roldão Simas.

        Em uma manhã de vento forte em que nos dirigíamos à praia, Arli se lembrou da historinha de uma senhora, beirando os oitenta, que estava preocupada em segurar o chapéu, enquanto o vento levantava sua saia. Alertada do fato, respondeu que o que ele exibia, ah, tinha quase oitenta anos, enquanto seu chapéu só uma semana!










  Ao final de um mês a me deliciar com Pastéis de feijão; Babas de camelo; Natas do céu; Samosas  - um pastel indiano -  e outros quitutes; após ouvir músicas gostosas; festejar meu aniversário com pessoas muito queridas (hélas, impossível passá-lo com todas); rir como nunca; ver beleza por toda a parte e constatar que Portugal continua limpo como sempre - o piso nas ruas chega até a brilhar - cheguei em Brasília tão bronzeada que minha filha ficou na dúvida se eu havia ido a Portugal ou à Bahia.

Tenho que colocar um adendo aqui, já que o assunto é Portugal.
Fernando Sabino precisava comprar esparadrapo.
"Não foi fácil comprar. Eu sabia que em Portugal esparadrapo tem outro nome. Como seria? Entrei na farmácia tentando adivinhar. Se eu falasse em esparadrapo, o farmacêutico ia achar que eu estava de galhofa. Mostrei-lhe com mímica que queria aquela coisa com a qual se faz um curativo. Ele entendeu logo e me trouxe  um pacote de gaze e um de algodão.
     - Nem uma coisa nem outra. Aquela que cola.
     - Ah, o senhor quer dizer esparadrapo.
     Mais tarde descobri que não fui tão idiota assim, pois que a palavra era outra mesmo, o boticário devia ser bilíngue: eles chamam é de "penso."


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                                                                   Tavira, no Algarve
                                                         música "I can´t live without you".

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Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau - Rua Augusta, em Lisboa.



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"♫ Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz..."


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domingo, 21 de maio de 2017

Substantivo abstrato? Imagine! - Anna Maria Assis Ribeiro


Raro dia em que não me chega uma apresentação em Power Point, escorrendo mel pela tela. E raramente as leio, mesmo por que quase sempre são correntes que me fazem ameaças terríveis caso não as envie a, no mínimo, doze pessoas. O por que deste número cabalístico nunca entendi. Mas eis que outro dia o título de uma me chamou atenção e resolvi ler: falava de saudade. E terminava me informando que saudade é o amor que fica. Bonito, né? Mais que isto verdadeiro. É quase sempre amor e vem pra ficar, sim. Me dou conta de que saudade está longe de ser um substantivo abstrato.
Saudade é pra lá de sólida. Os cinco sentidos são por ela estimulados o que não aconteceria se fosse abstrata. Saudade existe em minha vida. E me transporta para um mundo mágico, para um lugar deliciosamente bom. Uma das mais antigas é a de meu cavalo Dream Boy comendo cenoura. Sentada em cima da baia eu me fazia conviva daquele banquete tão colorido. Era incrível. Vinha-me a vontade de comer também e eu morria de inveja porque não conseguia sentir igual prazer ao mastigar uma cenoura. Conduzidos pelo incrível som da mastigação prazerosa os demais sentidos acordavam: minha mão deslizando por sua crina, meu olhar maravilhado pelo seu porte majestoso, o cheiro de serragem tomando conta da cocheira. Ficava faltando o gosto. Cenoura nunca foi para mim o que era para ele. Pena!
Dream Boy é responsável por muitas saudades. Do vento, por exemplo. Sei lá eu por que, nós (ele e eu) gostávamos de galopar no cocuruto do morro, contra a ventania que precedia a chuva. Sólido o vento, sólida nossa luta. Por que era uma luta. O vento era o inimigo e contra ele nos jogávamos intrépidos. Da casa vinham gritos: sai daí menina maluca! Os raios vão começar a cair. Ao som do primeiro raio desabalávamos morro abaixo, chegando às cocheiras encharcados e rindo muito. É... Dream ria... Sei que é difícil acreditar, mas ria. Dream era um cavalo ser humano.
E a saudade do barulho quase imperceptível das cobras no túnel de bambu, à noite? Quase sempre cabia a nós dois buscar os pães que saiam na primeira fornada da noite na padaria do então vilarejo de Estiva, hoje uma cidade: Miguel Pereira. O túnel de bambu, que hoje ainda dá acesso à casa, mesmo em noite de luar era muito, muito escuro. Dream escutava o mover das cobras bem antes de mim. Então diminuía o trote e orelhas esticavam-se para frente. Aí ele soltava o ar num resfolegar discreto para chamar minha atenção para o perigo. E eu dizia: tô escutando. É cobra, sim. Mas tudo bem! Ciente de que eu havia percebido seu alerta, sossegava e voltava ao trote. Ele sabia que juntos éramos imbatíveis.
Nesta saudade engata outra do que acontecia na seqüência da busca dos pães: a ceia das dez horas. Família reunida na mesa, o chocolate quente, às vezes gemada com vinho do porto e as conversas. Ah! As conversas! Outro engate: o sono que vinha manso como hoje não vem. E coroando tudo o cheiro da água da colônia inglesa de meu pai me dando boa noite Eu já na cama; eu já quase dormindo. No escuro, através da porta, abafadas, as vozes da sala vinham fabricando segurança. Tanta que o sentido do que diziam não importava. O som de todas elas, tão queridas, tão especiais, tão denunciadoras de seus emitentes me assegurava que o mundo era perfeito e que entre cavalos, pais, avó, tios e primos a vida era bela.
E Babá? A voz dizendo minha nega mesmo quando já “babasando” meus filhos. E eu voltava a ser aquela de então na vontade irresistível de pular para aquele colo tão confortável e protetor. Quando ela se foi eu já tinha uma neta e a vontade de pular para o colo era a mesma.
E por fim, e definitiva, a voz de meu filho mais velho, aos quatro anos, na incredulidade do que seria a morte: mas eu não posso ir agarrado na sua perninha? Não posso guardar sua cabecinha? Naquele tempo eu não soube dizer a ele que de certo modo eu ficaria presente na saudade. E como é eu podia saber que seria ele, e não eu, a ficar como saudade? Naquele tempo eu havia vivido tão pouco que saudade não tinha vez. Depois passou a ter. Não fiquei com a cabecinha dele, nem agarrei a perninha. Mas não é que ele ficou? Na voz, no cheiro, na imagem tão nítida de ter se tornado, estranhamente, meu filho mais moço. Numa saudade tão grande que tornou impossível competir com as outras.
E foi aí que tudo se juntou numa saudade só. Única. Como pode ser abstrata? Se tem tamanho, cheiro, imagem, cor, voz e presença? Se me acompanha no todo dia formada pela voz de meu filho, por Babá que me põe no colo, pelo perfume de água de colônia inglesa que traz meu pai para perto, pelo som de Dream mastigando cenouras? E desta imensidão de saudade me vem uma certeza: ainda que cobras se escondam entre os bambus da vida eu consigo ouvir Gonzaguinha se juntando a vida, Ele que sabia das coisas e da beleza de ser um eterno aprendiz. Com ele, tão sábio, aprendi que a vida devia ser bem melhor. E será? Mas isto não impede que eu repita. É bonita, é bonita, é bonita.
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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Meu inferno mais íntimo - por Luiz Felipe Pondé


Um jovem rabino, angustiado com o destino da sua alma, conversava com seu mestre, mais velho e mais sábio, em algum lugar do Leste Europeu entre os séculos 18 e 19.
Pergunta o mais jovem: "O senhor não teme que quando morrer será indagado por Deus do porquê de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias? Eu sempre temo esse dia".
O mestre teria respondido algo assim: "Quando eu morrer e estiver na presença de Deus, não temo que Ele me pergunte pela razão de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias, temo que Ele me pergunte pela razão de eu não ter conseguido ser eu mesmo".
Trata-se de um dos milhares de contos hassídicos, contos esses que compõem a sabedoria do hassidismo, cultura mística judaica que nasce, "oficialmente", com o Rabi Baal Shem Tov, que teria nascido por volta de 1700 na Polônia.
A palavra "hassidismo" é muito próxima do conceito de "Hesed", piedade ou misericórdia, que descreve um dos traços do Altíssimo, Adonai ("Senhor", termo usado para se referir a Deus no judaísmo), o Deus israelita (que, aliás, é o mesmo que "encarnou" em Jesus, para os cristãos).
Hassídicos eram conhecidos como "bêbados de Deus", enlouquecidos pela piedade divina (e pela vodca que bebiam em grandes quantidades para brindar a vida...) que escorre dos céus para aqueles que a veem.
São muitas as angústias de quem acredita haver um encontro com Deus após a morte. Mas ninguém precisa acreditar em Deus ou num encontro como esse para entender a força de uma narrativa como esta: o primeiro encontro, em nossa vida, que pode vir a ser terrível, é consigo mesmo. Claro que se Deus existe, isso assume dimensões abissais.
Para além do fato óbvio de que o conto fala do medo de não estarmos à altura da vontade de Deus, ele também fala do medo de não sermos seres morais e justos, como Moisés e Elias, exemplos de dois grandes "heróis" da Bíblia hebraica. Ser como Moisés e Elias significa termos um parâmetro moral exterior a nós mesmos que serviria como "régua".
A resposta do sábio ancião ao jovem muda o eixo da indagação: Deus não está preocupado se você consegue seguir parâmetros morais exteriores, Deus está preocupado se você consegue ser você mesmo.
Não se trata de pensar em bobagens do tipo "Deus quer que você seja feliz sendo você mesmo" como pensaria o "modo brega autoestima de ser", essa praga contemporânea. Trata-se de dizer que ser você mesmo é muito mais difícil do que seguir padrões exteriores porque nosso "eu" ou nossa "alma" é nosso maior desafio.
Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer suas mazelas, suas inseguranças e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão. Ninguém pode fazer isso por você, é mais fácil copiar modelos heroicos, por isso o sábio diz que Deus não quer cópias de Moisés e Elias, mas pessoas que O enfrentem cara a cara sendo quem são.
Podemos imaginar Deus perguntando a você se teve coragem de ser você mesmo nos piores momentos em que ser você mesmo seria aterrorizante. Aí está o cerne da "moral da história" neste conto.
Noutro conto, um justo que morre, chegando ao céu, ouve ruídos horrorosos vindo de uma sala fechada. Perguntando a Deus de onde vem aquele som ensurdecedor, Deus diz a ele que vá em frente e abra a porta do lugar de onde vem a gritaria. Pergunta o justo a Deus que lugar seria aquele. Deus responde: "O inferno". Ao abrir a porta, o justo ouve o que aqueles infelizes gritavam: "Eu, eu, eu...".
Ao contrário do que dizia o velho Sartre, o inferno não são os outros, mas sim nós mesmos. Numa época como a nossa, obcecada por essa bobagem chamada autoestima, ocupada em fazer todo mundo se achar lindo e maravilhoso, a tendência do inferno é ficar superlotado, cheio de mentirosos praticantes do "marketing do eu".
Casas, escritórios, academias de ginásticas, igrejas, salas de aula, todos tomados pelo ruído ensurdecedor do inferno que habita cada um de nós. O escritor católico George Bernanos (século 20) dizia que o maior obstáculo à esperança é nossa própria alma. Quem ainda não sabe disso, não sabe de nada.
Só quem perdeu a esperança de ser virtuoso deveria falar sobre moral.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Acordemos - Anna Maria Assis Ribeiro


Dizia-se “merci”. Na verdade ela ainda diz “merci”. Escapole no sem querer, revelando o que nunca lhe afligiu revelar: está velha e só os velhos e os franceses, é claro, dizem assim. Sua mãe dizia chauffeur, ao invés de motorista; restaurant ao invés de restaurante; e Leblon, pronunciado por ela podia ser um bairro de Paris. No dia da queda da França ela, uma menina, foi levada à frente do Teatro Municipal para cantar a Marselhesa. Todos choravam e ela também chorou, chorou muito, por imitação – é verdade – mas, sobretudo, porque era aniversário de uma amiga e ela não iria.
Toda esta lembrança lhe veio ao acordar no primeiro dia do ano: nunca tinha se dado conta! Reveillon, além da ceia do dia 31 de dezembro, significa Acordemos! Para que? Para um novo ano, para novos desafios, para novas empreitadas e sabe ela mais o que. Fazem-se planos, promessas, tomam-se decisões seriíssimas como perder 10 quilos, deixar de fumar, procurar o amor perdido caindo de joelhos, pedindo desculpas, implorando por uma nova chance. O engraçado é que se está, quase sempre, em meio a muita gente e as decisões tomadas são sempre individuais. Beija-se a pessoa que está ao lado, marido, namorado ou, hoje em dia, um ficante, pensando-se: este ano “eu”....
No entanto acordar é necessário, todos os dias. Acordar mesmo. Literalmente. Tirar os pés da cama e andar em frente. Ficar parada é que não dá pé. Isto não parece ser um grande problema mas... o problema não é o “andar”. É o “em frente”, significando um rumo certo para chegar a algum lugar. Agora – ela pensa - danou-se! O “certo” pesa pra valer, tornando o problema imenso. O que é certo? Nem está pensando no “certo” com um viés moral. Não! É o certo para cada um. Aquela opção que vai nos levar adiante. A gente passa a vida escolhendo entre opções, né? E nem sempre as certas. Fica-se adulto no momento em que se percebe que ao fazê-las – as opções – ganha-se alguma coisa e perde-se outra. E fica-se velho, numa boa, quando não se culpa o mundo, a má sorte, alguém ou “alguéns”, pelo que deu errado. Fácil? Quem falou?! Não é, não. Nem um pouco. Mas faz parte do “reveillon”. Está nele embutido com todos os “fff e rrr”, embora a palavra não os tenha.
Ao pensar “fica-se velho”, surpreende-se: não “acordou” para isto antes que ocorresse! É claro que pensava, nos idos da mocidade – e põe idos nisto - em aposentadoria, por exemplo. Discutia valores e fazia projeções (bem mais otimistas do que se revelou a realidade), mas, nestas projeções, estranhamente, nunca se viu velha. E um dia - pareceu-lhe que repentinamente - ficou! E deu uma baita sorte: sem que houvesse planejado, seus maiores prazeres eram permitidos para a mais avançada idade desde que e enquanto a cabeça ajudasse: ler, ouvir música e conversar. Para o desempenho deste último verbo as substantivas leitura e música irão garantir assuntos no momento em que dificuldades de locomoção não mais permitirem colecioná-los no mundo dos seres circulantes.
Vai daí vem a certeza: no “reveillon” de todos os dias, a grande “trouvaille” (pensa em francês, imitando a mãe, mania um tanto cabotina que lhe acomete ultimamente com uma certa freqüência) é acordar para o treinamento de acumular de prazeres, garantindo uma velhice gostosa, para que um dia, sabe-se lá quando e pedindo licença ao poeta, possa “chegar humana ao mar da morte”.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Conselho ao acaso - Anna Maria Assis Ribeiro

CONSELHO AO ACASO    -  Anna Maria Assis Ribeiro
No momento em que esta crônica está sendo lida,quem sabe, já serei eu Bisavó. Nesta reta de chegada para ocupar tão honroso posto sou vítima da maior confusão: o que dizer à minha bisneta? Oitenta e um anos nos separam. É muito, não? Será que todo este tempo vivido deixou algum ensinamento que possa ajudá-la vida afora? Qualquer coisa que ela pudesse, já adulta, dizer aos filhos, iniciando com um “aprendi com a tataravó de vocês. Dá certo”. Sei que estou tentando tornar-me eterna a qualquer custo. Mas é verdadeira minha preocupação com a vidinha lá dela. Como facilitar as coisas, diminuindo os sofrimentos e frustrações que certamente virão? Tudo muda muito ao longo dos tempos e o que hoje dá certo pode não dar amanhã, e periga eu encaminhá-la para uma estrada que, no mínimo, não vai dar em nada. O falar francês, indispensável quando eu era criança, transformou-se em falar inglês. Vai daí que é mais que provável que minha Joana se veja as voltas com o chinês mandarim. Para piorar minha confusão, eis que o horóscopo do mês anuncia aos arianos como eu: em campo afetivo, evitem inúteis especificações para não comprometer a relação. Seria uma temeridade me estender em explicações e comentários, sob pena de comprometer nossa relação que apenas começa. Tem que ser curto e grosso. Nenhuma das muitas soluções que dei a problemas ocorridos neste tanto tempo de vida parece-me digna da póstuma citação. Mas eis que amigos me convidam para uma noite num bar da Lapa e fez-se a luz! Tenho especial carinho pela Lapa e seus arredores. Saudosa, lembro os almoços diários, na melhor das companhias, no Bar Brasil, no Nova Capela, no Cosmopolita (para nós do SERPRO, Porta de Bandido) e das intermináveis “a saideira e a conta” na Adega Flor de Coimbra que por ser em frente ao estacionamento onde deixávamos os carros, nos levava a prolongar o expediente que vez por outra entrava noite adentro. Tudo isto é motivo de lembranças risonhas e emocionadas para muitos de nós. Tanto que até hoje nos reunimos para lembrar. Só que agora rotulados de SERPROVECTOS, e não mais na Lapa. Ao contrário do que possam imaginar, não estou pensando em indicar a minha bisneta o caminho dos bares diurnos ou noturnos. Este ela irá encontrar sozinha no momento certo. E espero que o faça e que, como eu, guarde as melhores lembranças. Ocorre que o tal bar para onde fui convidada responde pelo nome de Bar do Acaso. É isto! É o que posso deixar de melhor, na certeza de que este ensinamento estará a salvo de qualquer efeito causado por Tempora e Mores! Ainda bem jovem descobri (com enorme ajuda de meu pai) que muito do que me acontecia de importante na vida, fosse bom ou ruim, tinha origem no acaso. Portanto dele eu não deveria fugir, ao contrário, deveria deixar que ocorresse expondo-me à vida e a tudo que esta pudesse me oferecer. O problema, o grande problema, é que o acaso é maroto como ele só: depois de propiciar o surgimento do bom e do ruim, desinteressa-se pelo assunto e não ensina o pulo do gato, para que o ruim seja eliminado e o bom desenvolvido ao máximo. Ai o oposto deve entrar com força total impedindo que se deixe o acaso ao acaso. Uma enorme carga de análises, planejamentos e ações têm que necessariamente se seguir às estripulias do acaso. Caso contrário corre-se o perigo de ativar as coisas danosas por ele ofertadas e eliminar o que deveria ser cultivado. Começa pela análise profunda da oferta do acaso: é boa coisa ou não? Parece fácil, mas não é. O Príncipe Encantado em que a moça literalmente esbarrou na rua e mostrou-se encantador, e sobretudo interessantíssimo, pode se transformar em Sapo no futuro ou tornar-se o mais companheiro dos maridos; a viagem maravilhosa e baratíssima, cujo folheto de propaganda entrou pela janela, conduzido pelo vento pode ser encantadora ou uma monumental furada; o antigo e sumido colega de trabalho que encontramos porque viramos à esquerda e não à direita e que nos saúda com: “incrível! Você é a pessoa que eu estava procurando para...” pode nos fazer uma oferta irrecusável de trabalho ou nos meter em uma enorme enrascada. E por ai vai. Mesmo depois de avaliada a obra do acaso, mesmo quando se anuncia promissora, há um enorme trabalho pela frente. O princípio da entropia entra em ação: se não cuidamos incessantemente tudo será destruído. Enfim a máxima que resulta parece ser: nunca fuja do acaso, ao contrário exponha-se a este, aceite o que lhe trouxer, depois trabalhe como um mouro para dar certo. Pobre Joana! Olha só a Bisavó que o acaso lhe deu! Como existem outros três bisavós vivos, quem sabe adoçarão a pílula que, acredite, não é tão amarga quanto parece. Porque a vida, Joana, queira-se ou não, é uma administração constante, um tratamento sem fim, do que o acaso nos oferece. Fugir do acaso para não ter que administrá-lo é uma forma de não viver. E viver, minha linda, é pra lá de bom. Esta não é uma história de fadas (sossega, também as contarei a você), mas como acontece nestas, se você atentar para esta falação da Bisa, sua vida terá uma grande possibilidade de muitos finais felizes.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Canoa furada - Luiz E. Ottoni de Menezes

CANOA FURADA

Às vezes embarcamos numa.   
Chegamos a tempo, achamos nossos lugares e ficamos observando.
Os músicos se acomodam e experimentam os instrumentos.  Cada um escolhe suas notas.  Em conjunto, produzem o caos.  Depois, em longa e disciplinada fila, surge o coro.  Oitenta vozes, que gastam um bom tempo para se posicionar.  Uma população está no palco, talvez umas cento e cinquenta pessoas.
E o concerto começa.  A platéia se aquieta e presta toda a atenção.  Após alguns minutos começo a me preocupar com o andamento muito lento, mas luto por adotar uma atitude otimista, torcendo para que logo brotem cores e vida naquela música.  Faço uma caridosa concessão, mas a orquestra permanece vagarosa e morfética.  O que é que estamos fazendo aqui?  Dois incautos pegos de surpresa.
De fato, não era nada disso o que queríamos. Tínhamos ido à bilheteria procurar entradas para uma noite preciosíssima: Nelson Freire tocando Beethoven, com regência do Isaac Karabtchevsky.  Mas justamente na véspera do concerto, olhem só que santa inocência!  É lógico que já estava tudo vendido.  Como consolação, estamos aqui ouvindo Dvorák.  Consolação?
Ondas periódicas de sono me embalam lentamente, mas faço força para manter os olhos abertos.   A cabeça já deu três ou quatro caídas, seguidas daquele espanto ao perceber que estou em pleno Theatro Municipal!
Em cima do palco há um retângulo onde correm as legendas:
“Faz essas chagas lacerar-me o coração e esta cruz inebriar-me”.
É verdade, juro, copiei isto nas costas do ingresso. 
“Inflamado e aceso, ó virgem, seja eu por ti defendido lá no dia do juízo”.
E tudo isso cantado em tcheco, suponho!  Muito lentamente, zzzzzz. 
Viro para o lado, dou uma piscada para a musa, trocamos olhares cúmplices e balançamos as cabeças em sinal de total desapontamento.  Olho para o teto, para o candelabro, aliás, belíssimo, para as cortinas, para a platéia, imagino quantos estarão roncando, olho para o palco e vejo que a segunda violinista luta com seu vestido curto.  As pernas não são lá essas coisas, mas são as únicas à vista.  Nos “pianíssimos”, e são muitos, ela tenta, sem sucesso, esticar o vestido até os joelhos.  Ao final dos “allegros”, mal consegue se arrumar, já muito preocupada.  Num “forte”, vai ao desespero.  Não, o concerto não teve nenhum “fortíssimo”.
Duas gordas solistas custam a achar os copinhos d’água.  Estão no chão e bem junto das cadeiras, mas perdidos no meio de tantos metros de vestidos longos. 
E não há um piano!  Não poderia haver um piano, pergunto revoltado, que pudesse dar alguma solidez a esta orquestra molenga?  Então vocês estudam e ensaiam não sei quantas horas para vir aqui tocar isso?  Uma hora e meia de música lenta, pastosa?  Cremosa?
Crianças e adultos dormem tranquilamente.  Pelo menos uns mil…
De repente, percebo que o trompista sumiu.  Talvez tenha caído da cadeira!  Sim, ele estava lá na última fila, ao lado da tuba.  Tenho certeza!  Deve agora estar dormindo no chão.  Esboço um sorriso ao imaginar o susto que levará quando o vizinho soprar com força!
Finalmente, o letreiro mostra a tão aguardada palavra “Amém”!  Corrijo depressa minha postura na poltrona, recupero o ânimo e lanço a idéia de irmos tomar um chope.
Mas ainda sofreríamos um bocado, pois o Amém precisaria de dez minutos para ser pronunciado.  Sim, quatrocentas colcheias para cantar quatro letras.
Dois chopes, por favor!
Um pouco depois entramos em casa, já correndo em direção aos CDs.  Rápido, rápido, um antídoto, uma dose forte de Chopin!   Um grande piano, depressa!  O que temos aqui na UTI? 
A Grande Polonaise Brilhante, é claro!  Duas aplicações!