quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Entre o que vejo e o que digo...

Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia
vai e vem
entre o que é
e o que não é.
Tece reflexos
e os destece.
A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.
Os olhos falam,
as palavras olham,
os olhares pensam.
Ouvir
os pensamentos,
ver
o que dizemos,
tocar
o corpo da idéia.
Os olhos
se fecham,
as palavras se abrem.

Octavio Paz

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Colateral - Helcio de Souza Maia


Não quer se apaixonar?
Então, é simples...
Fuja das noites enluaradas,
de conversa inteligente...
Finja que não sente
o olhar embaraçado com desejo.
Disfarce com algum gracejo...
e tente seguir adiante.

Se preferir tratamento de choque,
é infalível: evite gente.
Se não funcionar
e isso for alarmante,
acione o alarme.
Mas nada de charme!
Chame um taxi...
e tente seguir adiante.

Se não der mais que um passo,
não perca a calma.
Existe um remédio chamado alma,
que deve estar sempre à mão.
Se não sentir seus pés no chão,
é apenas um efeito colateral.
Tolere, pois não faz mal.
Pode seguir adiante.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Idiossincrasia - Angela Delgado

Conheci A. Apresentei-o a B e falei a C de A. B hospedou C e acabaram se encontrando A, B e C. Esse e quaisquer outros círculos de amizades, como os de um lago ao receber uma pedrinha do ar, coloca um sorriso em meu rosto, espelho do que acontece em meu interior. Com o intuito de laços criar, ainda falarei de A, de B, C ou D a E, F, G... 2h40 e uma nuvem negra sobre minha cabeça paira. Quantas coisas bem à vista e só as enxergamos Kms de dias ou anos depois. Há tempos tenho uma lupa poliglota e só agora percebo o que ela estampa: Loupe lumineuse, Lupa com luz, Illuminated Magnifier, Reading Glass, Leuchtlupe, e ainda os caracteres chineses, que no computador não posso digitá-los... Mas deu vontade de aprendê-los. Um deles é uma espécie de "T" com a perna como se estivesse andando. Um outro é um A cortado duas vezes no meio. Há também um grupinho de dois: um "h" e um "x", ambos com um traço em cima, como se tampos de mesa fossem, e os dois duas cadeiras, com seus respectivos suportes de cerveja ou taças, acompanhadas imaginariamente de alguns salgadinhos. Examinando os caracteres, percebo que o amor esta bem "a caráter": um pouco complicado. E o "Shi", representando a morte deveria ser "Xô". Vou tentar dormir, que já estou extrapolando!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Tintin - Luis Fernando Veríssimo

Durante alguns anos, o tintim me intrigou. Tintim por tintim: o que queria dizer aquilo? Imaginei que fosse alguma misteriosa medida de outros tempos que sobrevivera ao sistema métrico, como a braça, a légua, etc. Outro mistério era o triz. Qual a exata definição de um triz? É uma subdivisão de tempo ou de espaço. As coisas deixam de acontecer por um triz, por uma fração de segundo ou de milímetro. Mas que fração? O triz deve corresponder a meio tintim, ou o tintim a um décimo de triz. Tanto o tintim quanto o triz pertenceriam ao obscuro mundo do micro. Há quem diga que não existe uma fração mínima de matéria, que tudo pode ser dividido e subdividido. Assim como existe o infinito para fora – isto é, o espaço sem fim, depois que o Universo acaba – existiria o infinito para dentro. A menor fração da menor partícula do último átomo seria formada por dois trizes, e cada triz por dois tintins, e cada tintim por dois trizes, e assim por diante, até a loucura. Descobri, finalmente, o que significa tintim. É verdade que, se tivesse me dado o trabalho de olhar no dicionário mais cedo, minha ignorância não teria durado tanto. Mas o óbvio, às vezes, é a última coisa que nos ocorre. Está no Aurelião. Tintim, vocábulo onomatopaico que evoca o tinido das moedas. Originalmente, portanto, “tintim por tintim” indicava um pagamento feito minuciosamente, moeda por moeda. Isso no tempo em que as moedas, no Brasil, tiniam, ao contrário de hoje, quando são feitas de papelão e se chocam sem ruído. Numa investigação feita hoje da corrupção no país tintim por tintim ficaríamos tinindo sem parar e chegaríamos a uma nova concepção de infinito. Tintim por tintim. A menina muito dada namoraria sim-sim por sim-sim. O gordo incontrolável progrediria pela vida quindim por quindim. O telespectador habitual viveria plim-plim por plim-plim. E você e eu vamos ganhando nosso salário tin por tin (olha aí, a inflação já levou dois tins). Resolvido o mistério do tintim, que não é uma subdivisão nem de tempo nem de matéria resta o triz. O Aurelião não nos ajuda. “Triz”, diz ele, significa por pouco. Sim, mas que pouco? Queremos algarismos, vírgulas, zeros, definições para “triz”. Substantivo feminino. Popular. “Icterícia”. Triz que dizer icterícia. Ou teremos que mudar todas as nossas teorias sobre o Universo ou teremos que mudar de assunto. Acho melhor mudar de assunto. O Universo já tem problemas demais.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Famíia é prato diícil de preparar - Francisco Azevedo

Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente. E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar, tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada. O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Meunière; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é a Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a famíia a seu jeito. Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir. Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Caixa de Pandora - Genserico Júnior

Adaptação de um mito grego Prossegue a temporada jornalegórica dos mitos metafóricos, de sentido parabólico, incorporando estilos hiperbólico, onírico, telúrico, lúdico, idílico, etílico, elíptico, poético, caótico e diabólico, com sutil olhar político. Esse palavrório inicial serve tão somente para impressionar e confundir o pobre leitor. Exatamente para isso: não está aqui para esclarecer, mas para obnubilar ainda mais o panorama visto da ponte. Quem quiser que destrinche as chacrinhas, digo, as charadas. Não estamos em época de falar às claras, diante do respeito, e mesmo temor que tenho pelo dito senso comum, que atende também pelo nome de opinião pública, de um público mesmerizado pela não dita e maldita, porque parcial, opinião publicada da grande mídia nacional. Eis a nova história: Brasiliano mantinha no fundo dos seus guardados uma caixinha com aplicações de marchetaria, de estilo árabe, que lhe foi presenteada por um gênio mesopotâmico, quando naquela região babilônica esteve, no início da década dos anos setenta do já saudoso século passado. Caixa que foi bem preservada durante todo esse tempo, mas que lhe reservou incontáveis surpresas, como a seguir contarei, tal como um emocionante e aterrorizante jogo de futebol do meu time no brasileirão deste ano, perigando cair no caldeirão do mundo inferior da segundona. Desde que recebeu a caixinha, ela fora displicentemente colocada no chão, num canto esquecido do seu escritório, sob uma coluna de pastas contendo papéis antigos, e nunca foi aberta. A experiência o aconselhava a não abri-la jamais, dada a sua origem misteriosa. Ninguém sabe o que ali estaria guardado, principalmente por ser um regalo de um gênio (gênio mesmo, daqueles que saem das lâmpadas maravilhosas). Aliás, esse maravilhoso ser o advertira nesse sentido, pois em tal interior teriam sido depositados segredos milenares da oriental sabedoria. Foi a sua arrumadeira, a Jefinha, quem bisbilhotou o misterioso objeto, possivelmente em busca de alguma coisa valiosa: dinheiro, jóias, dólares, euros, para compensar a parca remuneração que recebia do seu patrão, um pensador politicamente correto, mas um mão de vaca dos mais renhidos, coitado, por ter-se transformado em um aposentado senil, desamparado também pela sociedade, especialmente pelo INSS e pelo SUS. Assim posto, era incompatível seu estado de penúria com as grandes expectativas de Jefinha quanto ao conteúdo do receptáculo (para não ficar repetindo caixinha, caixinha...). O fato é que o recipiente (sempre evitando a repetição) enfim foi violentado. De lá saiu o pecado que gera todos os males do mundo: corrupção em todas as suas formas e nuances, e, ainda, todas essas imundícies humanas que fazem parte do jogo dos viventes em seu exercício de convivência, de competição e de poder. Saiu muito mais do que um simples reforço na mesada que tanto interessava a faxineira. Foi então que essa vetusta e rotunda senhora, frustrada com a aparição de tantas desgraças, na esperança de encontrar o perdão ou se vingar do pão-duro de seu patrão, pegou o seu celular, ligou para o 190 e delatou os males que estavam ocorrendo na vizinhança que, segundo ela, teriam origem na abertura daquela caixa misteriosa. Instaurado, o devido inquérito superou em todos os sentidos o que foi denunciado. O assunto foi levado à consideração suprema de uma corte de sábios que analisou a fundo a procedência do acontecido, julgou e condenou Brasiliano e Jefinha às miasmas do cativeiro por um longo período de tempo. Eles ainda penam por lá, não se sabe quando sairão. Mas a desgraça era tanta que transbordou da culpa do Brasiliano e de sua serviçal. A população atônita viu-se surpreendida com tanta sorte de torpeza e impureza que dali continuou saindo. Se possível voltar atrás, talvez fosse melhor nunca ter dado à luz tamanha porcariada, estancando a fonte de todas essas mazelas, pensou Jefinha. Manteria tudo por baixo da tapeçaria. Mas não se pode voltar no tempo. É para frente que se anda. O julgamento das imundícies foi exemplar. Espera-se que os ânimos delituosos se arrefeçam daqui para frente. Contudo, como deveria ser, o exemplo repercutiu para além (ou seria aquém?), do que foi julgado pelos zeuses. A caça às bruxas retrocedeu no tempo e foram julgados, culpados e condenados todos os responsáveis por terríveis delitos cometidos pratrasmente. E assim aconteceu: foi uma enxurrada de desgraças que assomou à superfície do pântano, o que deixou ainda, por muito tempo, a população estupefata, principalmente pelo cheiro que exalava. Mas assim é que deve ser, desde a prática da medicina antiga, quando se recorria às sangrias para extirpar o mal de certas doenças do organismo infectado, até o ápice da psicanálise freudiana que procura o afloramento e a consequente conscientização daquilo que está guardado nos escaninhos escabrosos da mente humana, para se chegar à saúde plena. Se não tanto, minimizar os males das doenças. Assim é também a vida das pessoas, que só melhora quando se perscruta o que vai além das aparências. Muitos são de opinião que se deve tampar a caixa tenebrosa de Pandora do Brasiliano, para se evitarem maiores tumultos. Outros, como eu, consideram ser bem melhor mantê-la aberta, deixando escorrer o sangue ruim ou, alternativamente, deitarmo-nos todos no divã do mestre austríaco. Para tornar exemplar o julgamento, faz-se mister deixar sair toda a podridão contida e chegar às últimas consequências da exumação, porque, caso contrário estaríamos vivendo no vergonhoso reino da indignação seletiva. No dia a dia da convivência entre as pessoas em nossas sociedades atuais, já não se pode mais apelar para a justiça de Zeus, no seu Olimpo, há muito alheio às nossas vicissitudes, para que nos livre de nossos males, amém. Só com a abertura da realidade, evitando-se os exibicionismos gratuitos e distorções mal intencionadas, se consegue um mínimo de correção dessas nossas distorcidas alminhas humanas que, pela observação milenar da espécie, se encontra em pleno processo de transformação, mas ainda muito longe do dia em que iremos galgar o Olimpo, e nos transformarmos também em semideuses, substituindo os zeuses decaídos. Isso jamais acontecerá. Palavra de contador de causos mitológicos revisitados. Afinal, os mitos originais foram criados há milhares de anos e ainda se prestam a adaptações atualizadíssimas. Nada de muito novo acontece que não tenha acontecido desde que o mundo é mundo. O conteúdo é sempre o mesmo, a forma é que muda. Itapoã, Vila Velha (ES). jornalego@terra.com.br www.ecen.com/jornalego

sábado, 27 de outubro de 2012

O vendedor de palavras - Fábio Reynol

Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical". Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico — apenas R$ 0,50!". Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse. — O que o senhor está vendendo? — Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa. — O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos. — O senhor sabe o significado de histriônico? — Não. — Então o senhor não a tem, não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem. — Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário. — O senhor tem dicionário em casa? — Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um. — O senhor estava indo à biblioteca? — Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado. — Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real! — Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la? — Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha. — O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras? — O senhor conhece Nélida Piñon? — Não. — É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui. — E por que o senhor não vende livros? — Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo. — E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga. — A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho. — O senhor não acha muita pretensão? Pegar um... — Jactância. — Pegar um livro velho... — Alfarrábio. — Está me enrolando, não é? — Tergiversando. — Quanta lenga-lenga... — Ambages. — Ambages? — Pode ser também evasivas. — Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você! — Pusilânime. — O senhor é engraçadinho, não? — Finalmente chegamos: histriônico! — Adeus. — Ei! Vai embora sem pagar? — Tome seus cinqüenta centavos. — São três reais e cinqüenta. — Como é? — Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço. — Mas oito palavras seriam quatro reais, certo? — É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende? — Tem troco para cinco?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Era una vez (em portunhol, quiça espanhol, por termos ouvido tanto as guias falarem em espanhol) - Angela Delgado


     Era una vez un templo de Zeus destruido por los romanos, cuando um terremoto lo acabó de ponerlo abajo. En el siglo vinte y dos después de Cristo, un arquitecto ve-ne-zi-ano, contratado para erguir un estadio paralimpico, descubrió en sus escavaciones, sob los escombros de una columna dórica, unas gafas (óculos) de procedencia, a lo mejor, de un taller (ateliê) brasileño. Fue la prueba que hacia falta para la confirmación de la estada, en el siglo anterior, en solo griego, de un grupo de jovenes brasileños, formado por un excepcional artista, que como Leonardo da Vinci, tenia muchas habilidades: además de hacer fotos, el era también ingeniero, productor de cerámica, escritor e lo esposo de la diosa Arligrant, mui estimada y alegre. Junto con ellos, iba la Chica de Copacabana, también mui querida, elegante y animada. Sin embargo, no le gustava la cerámica. Lo que fue ampliamente demostrado en su embestida contra los caballitos, cascos (capacetes), estatuíllas e vasitos, todos puestos abajo por la peligrosa Chica de Copacabana de ojos verdes. Last, but not least, la pareja de oftalmológos que prescribió la receta de las gafas desaparecidas. El escalava lo Kilimanjaro todos los años, e, por supuesto, en Grecia, queria subir la Acropolis todos los dias, para concretar su proyecto de edificar su infierninho cerca del cielo, donde su simpática e entusiasmada mujer Ester, pensava en bailar y se esbaldar. Mientras tanto, ésta sacó el móvil y leió la mensaje de la diosa Regina, narrando haber visto las gafas en el Museo Británico, junto a las estatuas griegas que los británicos llevaron de Grecia...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Eu, Tu e Ela (Réplica a uma crônica em que fui mencionada como Ela) - Angela Delgado

Com cuidado para não acordar a companheira de quarto, acende a lanterna por debaixo do lençol e, em uma atividade fantasmagórica, escreve não sobre Ti, mas sobre Itu e seu ledo engano. É em Atenas que tudo é monumental: copos, guardanapos e vistas. Foi onde também teve a maior ilusão de ótica de sua vida: Tendo ouvido de um dos seguranças de que, sem que ele sentisse absolutamente nada e apesar de nossa iminente partida, não poderíamos dar uma olhada no interior do teatro, afastou-se, então. Depois de alguns instantes, virou-se e vendo o segurança acenar, achou que ele havia mudado de ideia e reconsiderado o pedido negado pouco antes. Ato contínuo, mergulhou por debaixo do cordão isolante, fazendo sinal ao grupo, querendo significar que o caminho estava liberado. Foi o que bastou para que um terceiro segurança acorresse, com receio, talvez, de um bando com bombas e a intimasse a sair dali. Havia sido um ledo engano, mas, em seu desenlace, ninguém saiu ferido. Em tempos de superlativos, porém, foi a noite mais curta de sua vida, pois tendo que acordar às seis horas, pagou por todos os seus pecados, escrevendo até às três horas da madrugada, enquanto os demais se entregavam aos braços de Morfeu. Felizmente o episódio dramático-policial ocorreu com Ela e não com sua companheira Euclídia, sua mochila e seu casacão nos braços, com os quais, numa curva em seu percurso, varreu uma das estantes de uma loja de bibelôs, fazendo com que seu proprietário bradasse por "voitiha" (socorro), gritando haver uma vândala por aquelas paragens! Moral da história: todo cuidado é pouco com viajantes maiores de vinte anos, mais vinte, mais vinte, sob o risco de serem presos por um ledo engano. E agora Ela espera que Tu voltes a chamá-la, carinhosamente, de Angelita.

sábado, 13 de outubro de 2012

... Tenham uma boa viagem! - Angela Delgado

Primeiramente, temi não acordar às quatro da manhã. De fato, o alarme do meu delicado celular soou tão baixinho que se não estivesse de pé, desde às três e quarenta e cinco, talvez ele não tivesse me despertado. Depois, o avião estava tão vazio, que, para equilibrar seu peso, os passageiros das primeiras poltronas, onde eu me encontrava, tiveram que se espalhar ao longo da aeronave e, aí, foi só eu fechar o livro para derramar lágrimas copiosas (por sorte, não havia ninguém em um raio de sete fileiras), lembrando do meu pai que aniversariava exatamente em um dia vinte e três de setembro, dia de minha viagem. Agradeci-lhe mentalmente por mais esse presente, ou seja, a viagem proporcionada pelo que ele me deixara. Para não ir chorando de Brasília ao Rio, achei melhor escrever. O périplo pela Grécia e Itália prometia, já que meus companheiros eram hilários e bem-humorados, além de possuírem outras qualidades. Uma das primeiras risadas acontecera ao saber que uma determinada cidadã costuma levar em sua bagagem roupas velhas, inclusive a camuflada sob um casacão, e vai largando-as pelos hotéis. A princípio me empolguei. Desfazer-me de calças e blusas já com seus quilômetros rodados seria uma boa ideia.Sobraria espaço nas malas. Mas, talvez eu prescindisse disso. Afinal, o que um amigo me dissera era que eu teria excesso de bagagem existencial. De qualquer modo, não teria desapego para abandonar junto às ruínas gregas e romanas uma camisola com sua história. Mas, lá deixaria meus óculos de grau, em seguida, o recém adquirido que o substituíra; o Fon (travesseirinho de viagem, que também quis ficar pelo caminho; o leque grego que se recusou a deixar seu país e, por fim, quase que eu mesma ia ficando por lá, ao pegar a última lancha que me levaria de volta, de Mykonos ao navio, quando ela estava prestes a zarpar. Aproximando-me pela primeira vez de uma terra onde já não tinha mais nem pai nem mãe (minha primeira escala nesse périplo) voltaram as lágrimas. Melhor seria negligenciar a paisagem.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Surfando a onda - Genserico Júnor



Lanço uma nova bossa: uma crônica com vários títulos. Estava para escolher um entre os três que aí estão; na dúvida, eles foram ficando, ficando e enfim ficaram. Apraz-me cometer ligeira subversão dos costumes já que não tenho coragem para maiores transgressões.

Como corre o tempo! Nesta data o JORNALEGO completa seis anos de idade. O selo “ANO VII” já encabeça o presente texto, mostrando que o periódico decendial entra no sétimo ano de sua existência. No próximo número, também a dezena que se segue ao nome do redator, ao final de cada exemplar, pulará mais uma unidade. E como isso se reflete no viver, no pensar, no escrever! É por essa razão que as marcas do tempo vão sendo registradas por aqui. Esse expediente serve para o leitor considerar a passagem do tempo e aquilatar como ela afeta a cabeça do autor. Nos primórdios desta invenção jornalístico-literária, não expunha a minha idade escancaradamente. No entanto, compreendi que é importante para o leitor saber que quem escreve já rodou bastante, e que o que ele escreve está intimamente ligado ao seu DNA (data de nascimento antiga). Vejam, por exemplo, esta crônica, cujo tema já está ficando crônico.

Para começar introduzamos algumas máximas de celebridades intelectuais ao texto. Marx já dizia que a história só se repete sob a forma de farsa. Norberto Bobbio, sobre a senectude, chamou-a de tempo da memória. De minha lavra, mas sem a pretensão de me ombrear com os já citados: o passado só se recupera sob a forma de recordações, e essas, geralmente são ficcionais.

O que acontece nestes tempos pós-modernos, pós-industriais em que vivemos é que o hoje parece não ter relação alguma com o passado, não é a sua continuação. O futuro nunca foi a simples projeção do passado, ele contém o seu próprio germe. Mas o descolamento do que já foi com o que é e será, nos tempos que correm, é muito mais pronunciado do que fora antes.

O século passado, o estonteante início do atual – a que chamarei de tempo presente – e o que nos aguarda no futuro deixam-me pensativo e preocupado.

O novo século traz em seu bojo, novamente, depois que o fantasma de uma hecatombe nuclear parece superado, a possibilidade de extinção da humanidade, ou de grande parte dela, pela deterioração ambiental do planeta. Produto da estressante atividade econômica capitalística e da superpopulação mundial. Essa situação colabora para o embrutecimento dos costumes e das relações sociais, e daí, o perigo da decadência global.

As bases daquela atividade, as fontes primárias de energia, cuja maioria é ainda jurássica, vêm sendo disputadas a ferro e a fogo e seu consumo gera danos irreparáveis ao meio ambiente (inclusive a energia de geração hidráulica com a construção das grandes barragens). Se, por exemplo, a China vier a ter, com a sua enorme população, os mesmos índices per-capita de consumo energético registrados pelos americanos, o planeta possivelmente não suportará. Está sendo anunciada uma crise mundial de alimentos, devido às enormes populações da Índia, da China e, em menor grau, do Brasil, que estão se alimentando mais e melhor. Um fenômeno mais novo ainda é a possibilidade de a nova geração de energia, a partir dos biocombustíveis, vir a concorrer com a produção de alimentos, ocupando-lhe os seus espaços agricultáveis.

Há poucos dias assisti a três filmes que me deixaram inquieto, a provocar curtos circuitos nos meus neurônios ainda ativos, muito depois que a poeira das tramas cinematográficas se assentasse. O primeiro foi Onde Os Fracos Não Têm Vez (atentem para o título original em inglês: No Country For Old Men, que eu traduziria livremente como “não há lugar para os homens velhos”, muito mais contundente do que o título em português). Seguiu-lhe o Sangue Negro, uma história sobre as origens da exploração do petróleo (com o título original em inglês: There Will Be Blood, acredito que essa seja uma máxima bíblica, apocalíptica, que eu traduziria livremente por “choverá sangue”). Esses filmes são americanos e concorreram ao Oscar. Existe, portanto, vida inteligente no planeta Bush! O primeiro ganhou a estatueta do melhor filme e do melhor coadjuvante; o outro, o de melhor ator. Finalmente, assistido mais recentemente, Em Busca da Vida, um filme chinês (Hong Kong) com o título original inglês: Still Life (expressão idiomática que significa Natureza Morta).

São filmes que ultrapassaram a barreira prosaica do cinema, a de apenas contar uma boa história, com boas imagens e belas interpretações. Ao transpor os limites do entretenimento, esses filmes deixaram em mim um rastro de inquietação intelectual. Afinal, estamos falando da Sétima Arte. Portanto reverenciemo-la.

Pois bem, esses filmes me fizeram pensar que o novo século vem derrubando tudo o que era válido no passado e que a linguagem atual é a da força, da violência, do progresso a qualquer custo, do dinheiro, e que tudo mais vá para o inferno. Se é que o inferno já não é esse que os novos tempos trouxeram.

Onde os Fracos Não Têm Vez mostra a violência insensível utilizada para se apoderar de um punhado de dinheiro, produto de atividade criminosa. Patética é a impotência do velho xerife, demonstrada pela impossibilidade de compreender o que estava se passando ou pela tentativa frustrada de fazer justiça. Sangue Negro, por sua vez, associa a violência à atividade petroleira desde as suas origens, agora magnificada com a violência institucionalizada dos impérios contra os povos produtores. Em Busca da Vida, a implacabilidade do progresso sobre as populações carentes, criando-lhes dificuldades e situações pessoais desumanas. No caso específico, tratava da construção de barragens para geração de hidreletricidade.

Vejam o que acabo de ler na imprensa local: um pronunciamento da candidata à indicação dos democratas à Presidência dos Estados Unidos, depois de sua vitória nas prévias da Pensilvânia: “Se eu for eleita presidente, aviso que nós vamos atacar o Irã e destruí-lo.” [A acreditar no que publicou A Gazeta (ES), em 24-04-2008].

Não há mais espaço para o passado ou idéias passadistas. O velho já morreu, e o novo nasceu natimorto. O espaço do passado é a memória ficcional. São tempos duros!

Por mais que queira evitar ser saudosista, corro o risco de ser considerado como tal e sê-lo, efetivamente. Vivíamos um tempo de esperança. Agora prevalece o desespero. O fim dos grandes discursos ideológicos deixou o ser humano (principalmente o jovem) egoísta, hedonista e místico.

Esta é a crônica dos tempos que correm. Vejo o ser humano se equilibrar numa prancha de surfe, na descendente de uma onda de dimensões havaianas. O que o aguarda? Uma capotagem na descida da grande vaga provocando um fatal acidente de percurso ou uma chegada triunfante, suave, nas franjas espumantes e tranqüilas que a mesma onda faz chegar à praia?

Deu para entender? Meio confuso, meio embolado, não? Samba do branquelo doido. Livre pensar, tão-somente. Pessimista, sim. Esta, por acaso, seria a melhor maneira, a mais correta, de se comemorarem datas natalícias? Parece que bebi! Mas ainda não. No próximo dia 8 vou tomar um porre com o oportuníssimo, sintomático e também velho uísque VAT 69. Estou indo. Fui.

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

sábado, 8 de setembro de 2012

De alma leve (O que o vento não levou)


O mantra da maioria é: eu quero é mais. O meu é: eu quero é menos. Claro que o sentido desse “mais/menos” repousa no “ter”. Quando se trata dos domínios do “ser”, aí, sim, quero mais. No mais, quero menos. Em matéria de “ter”, vale lembrar a sábia observação do Millôr Fernandes: “O importante é ter sem que o ter te tenha”. Em matéria de querer menos, caminho na direção desses versos do poeta José Paulo Paes: “Para quem pediu sempre tão pouco / o nada positivamente é um exagero”. E se eu chegar a esse nível de desapego, poderei, enfim, subscrever estas palavras do José Saramago: “Talvez por nunca ter querido nada, tenho tudo”. A prática do desapego é um caminho seguro para a felicidade, felicidade que, segundo uma máxima latina, “é desejar o que se pode, e poder o que se deseja”. Tudo o que desejo é poder viver de alma leve, sempre aferindo se na bagagem não há pesos inúteis que podem ser eliminados. O budismo fala em caminho do meio como medida de equilíbrio. Eu proponho o caminho do menos. Acredito que na vida, tal como na matemática, menos com menos dá mais. Exemplos: menos gula com menos caloria dá mais saúde; menos ambição com menos competição dá mais leveza; menos apego com menos desejo dá mais contentamento; menos trabalho com menos pressa dá mais ócio etc. Ter mais com menos é tudo que quero. E esse tudo virá de eu nada querer, o que me lembra esta frase: “Eu não tenho nada e nada me falta”. Melhor que isso, só estes versos do Fernando Pessoa/Ricardo Reis: “Quer pouco: terás tudo. Quer nada: serás livre”. Hoje não quero nada além de um excelente fim de semana para mim e para todos! Isso é querer muito?

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Findo fim

Ouvi muitas vezes que o passado e o futuro não existem.
Que só lidamos verdadeiramente com uma dimensão
de tempo: o agora. O passado teria ficado para trás,
fora do alcance até do retrovisor, que só alcança o
que é mais recente, o quase agora. O futuro estaria na
ordem do prematuro, do ainda inexistente, seria uma
espécie de talvez, diluída em bilhões de hipóteses, todas
impalpáveis, incertas. Portanto, o conselho era que o
foco estivesse no dia de hoje ou mais, no momento
presente, numa estreita, exígua fatia de tempo, que mal
cabia na palma de minha curiosidade.
Essa orientação causou em mim uma certa tendência
imediatista, a angústia provocada pelo conhecimento de
que a existência consistia num único passo, pois o próximo
já pertenceria ao futuro e, portanto, seria somente uma
conjectura. E de pouco valeria a memória do que já havia
sido, pois isso pertencia ao mundo do que não pulsa mais.
E lá fui eu, como um saci, sobre uma perna só, tentando
equilibrar-me no estreito espaço do aqui e agora, onde nada
que existe demora, onde não existe hora, só segundo. Ao
menos, segundo os profetas da instantaneidade.
Confesso que não me senti muito bem. Eu queria mais, não
me satisfazia aquela situação tão provisória, em que a vida,
entendida como um átimo de qualquer coisa, escorria pelos
dedos dos tempos. Cheguei a abolir o uso do relógio, pois
se tudo que me pertence é o agora, os ponteiros não teriam
nada de útil a me informar. Além disso, poderia o relógio
constituir-se em instrumento delirante, pois remeteria ao que
está por vir e, por assim ser, inexiste.
Hoje, sinto a vida de outra maneira, numa perspectiva mais
humana e aconchegante, tridimensional. Passado, presente e
futuro andam sempre juntos, dialogam numa boa, desconhecem
qualquer hierarquia. Eles estão em mim, trafegam pelas avenidas
largas de minha imaginação, sem colisões, conflitos ou disputas
de espaço. Permito-me transitar pelas três dimensões, sem me
perder de mim. Adoro o que vejo nessas viagens, que dispensam
passaporte. Sou cidadão de um universo, em que se fala o idioma
do verso. Aqui a medida de tempo é a emoção que escorre de cada
sílaba para formar a próxima. Neste lugar nada nasce nem morre,
tudo simplesmente é.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ficção ou realidade? Fique são!

Ficção ou realidade? Fique são!
Cair na real?
Decido permanecer de pé,
pé ante pé, ante tantos perigos.
Realidade é cimento, concreto,
é ciumento projeto que proíbe outras versões?
Como assim, se não abro mão nem dos pequenos versos?
Quero os verões para transpirar a saudade
e o inverno para aquecer-me na chama.
A chama da vida me chama, ávida e por isso mais viva.
Deixem-me com minhas intuições ilógicas,
com minha lógica intuitiva,
com a serenidade aflitiva
que é meu emblema.
Feito um poema
que nem preciso escrever.
Só ser.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

As Cariátidas - Anngela Delgado





Ligo o computador, dou bom-dia à minha mãe em meu plano de fundo.
Bem ao lado de seus olhinhos vivos, a Claro me informa que estou off line. Quem me dera se Steve Jobs, lá de cima mesmo, pudesse nos proporcionar a maravilha de, ao justapor a seta à imagem, pudéssemos trazê-la para um papo on line....
Ontem, fui buscar um dos meus netos no Shopping. Antes, dou uma entradinha à procura de uma bolsa e saio de lá, com um lindo dicionário de italiano, que agora está aqui ao meu lado, transfigurado em "professore", pronto a me auxiliar, como por exemplo se eu tiver uma dúvida neste parágrafo, de “Se una notte d´inverno um viaggiatore”, do Italo Calvino:
“... dona di temperamento sensibile e inquieto, che risente dell´isolamento cui la costringono la dislocazione geografica, ma è sostenuta dalla sua insaziable passione per la lettura...” (Ecco sono io!)
“La moglie del Sultano non deve mai restare sprovvista (desprovida) di libri di suo gradimento (agrado) : cè di mezzo una clausola del contratto matrimoniale, una condizione che la sposa ha posto al suo augusto pretendente prima (antes) d´acconsentire alle nozze... Dopo una placida luna de miele in cui la giovane sovrana riceveva le novità delle principali letterature occidentali nelle lingue originali che lei legge correntemente, la situazione è diventata spinosa... “ (difícil)
Gostei da mulher do sultão, e do livro então, nem se fala!
Coincidentemente, recebi hoje, um convite para ir à Grécia e à Itália! Ecco,uma compra bem oportuna a do dicionário. Começara a estudar italiano, ignorando que em breve estaria (estarei) usando palavras como: Mi fa piacere, Come se chiama, Benissimo, Lunedì, Martedì, Mercoledì, Giovedì, Venerdì,Sabato, Domenica, Domenica sera,Volentieri, Buonasera, e così via (etc.).
O plano do ano passado era ir à Hungria e à Tchecoslováquia e já estava me familiarizando com expressões bem mais difíceis, quando minha cunhada levou um tombo, e com ele caiu também por terra o passeio planejado, pois, sem nossa Locomotiva, a viagem não tinha mais sentido.
Este ano o roteiro é outro e tento decorar, além das palavras fáceis em italiano, palavras em grego...: Parakaló (por favor), Sas efaristó (obrigada), Signomi (desculpe), Póso Káni? (Quanto custa?), Kaliméra (Bom-dia) e kalinixta (boa-noite).

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Carta aberta a um poeta

Obrigada, Marcelinho, pelos belos comentários. Realmente minha mais nova descoberta é um senhor escritor, que deve ter ficado também bem impressionado com o poeta Marcelo. Passei o domingo inteiro lendo o blog dele e ontem acordei com ressaca literária, no bom sentido, claro! Mas, eu devia ter agido como você fará e lê-lo aos poucos. O que aconteceu foi que, para não ter que voltar em cada um dos duzentos posts para comentar, fui lendo e comentando, lendo e comentando. Uma vez, para voltar aos textos, tão enfeitiçada estava, um breve comentário: Ai,delícia! Deveria ter acrescentado que o Michel Teló não sabe o que é delícia... Resultado, me tornei uma potência em comentários e nem o deixei ler meu blog, por causa do "duelo de afagos", como ele disse.
Eu lia, comentava e ele respondia. Lia, comentava e ele respondia. Arre! Foi um ótimo domingo, mas agora vou dar um tempo. Para não cair na tentação de fazer o milésimo comentário, farei como faz quem quer parar de fumar, direi a mim mesma: só por hoje. Mesmo porque ele precisa acessar o seu blog, o do Luiz e trabalhar... acho que ainda no Banco do Brasil, que, insuspeitadamente, é cheio de gente da mais alta categoria...
O diabo é que meu notebook rapidamente se viciou no www.artevida. Vou deixá-lo hibernando enquanto, meio a contragosto, darei uma caminhada; pegar um pouco de sol, ouvindo música; cuidar da casa, das plantas e, como era de se esperar, voltar ao Italo Calvino, que está morto de ciúmes.
Se o viciado aqui não aguentar, te aviso e você me envia o que de novo houver e eu faço o comentário só pra você, que tal? Arrependi-me de ter tomado tanto tempo dele. Imagine, um candidato em potencial ao Nobel ficar se ocupando com uma ilustre desconhecida.
Quando disse isso a ele, ele desembainhou sua espada literária e reverteu para "desconhecida ilustre" etc e tal. Que gentil!

sábado, 11 de agosto de 2012

O fio da palavra - Tarlei Martins Ferreira

A palavra falada não passa de uma rajada acústica, de um aglomerado de sons. A palavra escrita não passa de um aglomerado de traços. Contudo, é espantoso o que pode uma palavra carregar de sentido, de significado, de sopro de vida inscrito na sua superfície. Eu fico pasmo. É o fio da palavra que nos leva a todos os lugares, a todas as pessoas, a todos os sentimentos, a nós mesmos… É no fio da palavra que me equilibro. É na palavra que me seguro. É da palavra que vem meu sustento metafísico. É pela palavra que me salvo. É com a palavra que leio o mundo. É para a palavra que peço proteção. É a palavra que compõe os silêncios de quando rumino. A palavra anda na cabeça, anda na boca de todos os homens… A palavra cura feridas. A palavra abre feridas. A palavra enlouquece. A palavra traz sanidade. A palavra lança luz. A palavra lança sombras. A palavra faz rir. A palavra faz chorar. A palavra dá esperança. A palavra tira esperança. A palavra esclarece. A palavra confunde. A palavra acalenta. A palavra desespera. Parafraseando o grande Bartolomeu Campos de Queirós, autor do belíssimo livro que dá título a esta mensagem, digo que a palavra é meu porto, minha porta, meu cais, minha rota… Sem a palavra não sou (somos) ninguém. Viva a palavra!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Botafogo

NAS RUAS DO RIO
AS CASAS SINGELAS
TORNARAM-SE CONSULTÓRIOS
EMPRESAS, LABORATÓRIOS.

DÓI-ME A ALMA
VER SUAS FACHADAS
OFUSCADAS POR LÂMPADAS PROFANAS
PLACAS INTRUSAS

AVISOS DE QUE O APREÇO
MUDOU DE ENDEREÇO
AINDA TENHO ACESAS NA LEMBRANÇA
AS LUZES AMARELADAS
QUE DAS CASAS EMANAVAM
POR ENTRE CORTINAS RENDADAS.

AINDA SINTO O CALOR DOS ABAJURES
OUÇO O SOM DOS PIANOS, VITROLAS
CONVERSAS E RISADAS
QUE VASAVAM COMO ACORDES ABAFADOS
DA SINFONIA DAS INTIMIDADES.

EMBORA VIVESSE MAIS NOS BARES
BEBIA EM SEGREDO
O ACONCHEGO DOS LARES
SILENCIOSO E FURTIVO.

CAMINHAVA PELOS BAIRROS
ALIMENTAVA-ME DE JASMINS
EMBRIAGAVA-ME COM JARDINS.

IMAGINO OS CORREDORES INVADIDOS
QUARTOS VIOLADOS
TRANSFORMADOS EM DEPARTAMENTOS
COMPUTADORES E SECRETÁRIAS
NAS SALAS DE JANTAR
COPAS ECOZINHAS
COMO DEPÓSITOS, ALMOXARIFADOS
RECANTOS DESNUDADOS
INTERIORES DESTITUIDOS
DO ENCANTO DOS ABRIGOS.

COMO É DIFÍCIL ACEITAR
AQUELE ENTRA E SAI
DE GENTE QUE NADA SABE
DO SIGNIFICADO DOS PORTÕES
E QUE POR ELES PASSAM, BOVINOS,
MASCANDO A RELVA DAS RUÍNAS
PASTANDO INOCENTES
NO TESOURO DE TANTAS LEMBRANÇAS.

NÃO É O NOVO QUE CHORO
MAS A AUSÊNCIA DO ANTIGO
A HISTÓRIA QUE MORRE COMIGO.
AGORA, JÁ NÃO RIO.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Com tradições

Há uma eternidade
Entre a vida e a morte
Há mistérios infindáveis
Que circundam a minha mente
Por quê tenho que viver uma só idade?
De manhã acordo com 50,
Mais à tarde mal tenho 5!
À noitinha deleito-me com 18!
De madrugada chego aos 90!
Que viagem mais incoerente!
Quem sabe me desenho na esquina com sorte?

domingo, 8 de julho de 2012

XLVII (último capítulo de "Beijos na Alma)"

Ao final da missa de sétimo dia parecíamos conformados com a “velinha” extinta. Fora melhor para ela – dizíamos – avançada em anos, não falava mais, quase não ouvia e totalmente dependente, até para andar.
Mas sua ausência sempre presente tornou o sofrimento elástico. Quanto mais o tempo se dilata, maior é a saudade, contrariando o ditado "longe dos olhos, longe do coração".
Ao final da missa de trigésimo dia, parecíamos contentes, abraçando irmãos, primos e amigos não vistos por muito tempo. Ficara surpreendida. Minha mãe se fora, e eu, que tinha certeza que desabaria quando isso acontecesse, estava firme como rocha!
Ignorava que a dor cravada lá no fundo, iria aflorar pouco a pouco, sempre e com toda a fúria, na mesma intensidade do punhal que,à medida que se retira,traz em sua lâmina carne viva, sangue e lágrimas.
De que adianta meu dom de achar o que se perde? Queria achar a minha mãe!
Ao que, com o intuito de me consolar, um amigo escreveu: Angela, você não vai encontrar sua mãe por um motivo muito simples: você não a perdeu.
Fiquei com os olhos cheio d'água, mas minha irmã Quérida disse que eu a tinha dentro de mim.
Realmente, no entanto não a sabia tão chorona...
E, entre lágrimas; arrumações cada vez mais esporádicas de prateleiras e gavetas (sempre que termino uma faxina, penso: agora sim, a casa estaria pronta para receber a minha irmã, que afinal não veio. O tempo passa, arrumações são novamente necessárias, no eterno trabalho doméstico nunca valorizado, mas reconhecido por quem o realizou e isso quase que basta) e o acompanhamento pelo Facebook da escalada do meu neto primogênito ao Pico da Bandeira, mergulho em "Se una notte d’inverno um viaggiatore", de Italo Calvino, em uma re-releitura, desta vez no original, para aprender uma língua nova,tentando afastar a doença de Alzheimer, de maneira pra lá de prazerosa.Delícia de livro. Acordo com todo o gás, louca para abri-lo.
Leio, agradecendo a quem me deu esse grande interesse e ocupação, mas de vez em quando, surge a vontade de emergir para compartilhar o meu fascínio. No entanto, me contenho, pois as pessoas vivem mundos diferentes e as diversas fases não coincidem. Quando estou pairando nas alturas de um enlevo literário, outras estão chegando a casa, cansadas, sem ânimo ou tempo para curtirem as páginas que me deixam feliz.
Comecei este e-book após a morte de meu pai e o termino hoje,sem ambos os pilares de minha estrutura, dia oito de julho, data em que minha mãe, muito amada, faria 96 anos,e,pela primeira vez,não podendo abraçá-la, deixo-lhe um grande beijo em sua alma, esteja ela onde estiver...

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Decreto - Marcelo ottoni de Menezes


 Nesta noite de outono,

travestida de verão,

palavras descem as escadas
de meus interiores
e desabam, exaustas,
na primeira folha de papel.
Não controlo
o movimento
de meus dedos.
Expulso meus medos.
Proclamo a anarquia
a rainha de meus dias
e decreto liberdade perpétua
para todos os sonhos.




                                                         

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Transportador - Cinthia Kriemler

 
    Por profissão me foi dada a travessia. Quando pirralho, fazia o transporte de pequenas coisas. Levava os ovos para a vó preparar seus quitutes, depois equilibrava doces e salgados num carrinho de mão e saía para entregar as guloseimas fresquinhas no armazém da cidade. Ia num pé, voltava noutro, trazendo farinha, arroz, feijão e batata, aconchegados no mesmo carrinho rangedor.
    Nessa época, também ajudava o pai a entregar latões de leite na feirinha, encarregava-me de fazer chegar a merenda dos manos no pastinho, levava o milho das galinhas antes que elas se unissem num cocoricó histérico, e buscava os remédios da vó toda semana. Quando as suas pernas melhoravam das dores, dava pra aviar a receita só por quinzena, mas eu não me importava com a andança e nem sabia ainda que essa lida constante era ensinamento para as viagens de mais tarde.
   Logo que me aprumei um pouco mais, lá pelos 14 anos, passei a entregar bilhetes dos manos e de gente mais velha para as mocinhas das redondezas. Às vezes, transportava as palavras na boca ou na cabeça, jorrando os versos e os recadinhos com a ajuda da voz imberbe e da memória. De vez em quando, se a frase era de fazer corar, ou se era para desmanchar compromisso, a entrega era dentro do ouvido. Nesses casos, ficava por minha conta transportar de volta os tapas, os olhares furiosos e os choramingos.
   Assim, atravessei os anos verdes e, adulto, dei ao ir e vir uma serventia de maior monta: firmei-me na profissão de Transportador de Existências.
  Um Transportador de Existências não carrega móveis, nem malas, nem quaisquer objetos. Só o vivente e seu quinhão de problemas, alegrias, emoções, vazios… Saúde e doença; sonho e pesadelo; ganho e perda.
  Animais são permitidos. A morte, também. No entanto, para que o Transportador não seja enganado sobre carga tão funesta, é imperioso à Ceifadora declarar-se antecipadamente: se de corpos, a conduzir para a morte o vivente; se de almas, a matar em vida, sem levar o corpo. A conversa precisa se dar durante a travessia, para orientar o Transportador.
  No começo, eu lotava com famílias inteiras a carroça que o pai me deixou. Mas a confusão tumultuava a viagem. Alhos e bugalhos misturados, sacudindo aqui e acolá? Briga! O sonho da moça que buscava a capital, a tristeza da outra que se fazia acompanhar pela desonra, a imaginação sem freio das crianças, o lamento do velho, o desengano do desempregado, a luxúria do amante. Tudo engalfinhado num chãozinho de carroça!
  A coisa ficou mesmo feia quando um moribundo e uma prenha se encontraram. A Ceifadora de Corpos que viajava com ele resolveu disputar importância com a Parição que acompanhava a moça.
 — O Transportador vai rumar primeiro para o meu destino! Eu preciso entregar o velho ao seu repouso final! — decidiu a Ceifadora.
 — Uma ova que vai! Tem mais pressa o chegar do que o ir-se! — replicou a Parição.
     E a baderna só cessou quando a mulher gemeu tão alto que ao meu susto se somaram o júbilo da Parição e a rendição da Ceifadora: a iminência do parto tinha decidido a querela.
    Depois desse apuro, passei a transportar uma existência por vez. Apesar de o tempo encurtar com a decisão, não era mais possível permitir que certos destinos se cruzassem. Carregar um a um era mais justo e mais prudente.
  Da carroça passei para uma motoneta usada. Desastre! As pilhas de resmungos e de suspiros e de gargalhadas iam penduradas nas laterais do banco do passageiro, batendo no pneu recauchutado e vaticinando um acidente que, felizmente, nunca ocorreu porque a lentidão da maquineta impedia grandes riscos.
  Tentei ainda um barco, mas o rio e a travessia pertenciam à Ceifadora de Corpos, e não me apetecia pelejar por território tão sagrado. Ainda mais com quem!
  O veículo chegou-me via fatalidade, por meio de um viajante cujas pernas doentes e arroxeadas me lembraram, no instante em que bati os olhos nelas, as pernas da vó. No hospital, quando parei para despejar suas dores, gemidos e febres, pensei que nunca mais o veria. Mas, dias depois, recebi de presente do sujeito nada mais nada menos que uma caminhonete confortável, com o seguinte bilhete:
 “Minhas pernas se foram, mas eu sobrevivi. Segundo os médicos, porque o Transportador me conduziu a tempo. Em agradecimento, envio minha caminhonete, a quem chamo de ‘veículo’. É sua, agora, porque para mim não tem mais uso”.
   Não me fiz de rogado. O veículo era grande, cabia de um tudo. Eu não ia mais precisar carregar só a metade da bagagem dos viventes, nem me aborrecer convencendo-os a deixar para trás um meio fardo. Deitar fora as piores emoções, como medos e angústias, e subir a bordo as sensações mais frugais ou divertidas nem sempre era visto com bons olhos pelo proprietário da existência, por demais acostumado à companhia dos martírios.
  Mas mesmo grande, o veículo enfrentou seus percalços. Certa feita, acomodei uma mulher recém-separada que fugia da própria sina. Suas memórias, a dor da separação, a depressão aplacada por pílulas, o coração partido e um cachorrinho irritado — que insistia em ficar aos pés da dona — não eram nada se comparados aos mais de cinco mil relatos de um diário que ela havia escrito durante os 15 anos de casamento. Acomodar lembranças feitas de letras é um deus nos acuda para qualquer Transportador de Existências!
  Vez ou outra, era apenas uma carta ou um bilhete que me faziam companhia na estrada. Eu tinha que abrir e ler antes de fazer a entrega. Esse combinado me recordava os dias de menino em que eu levava recados cochichados e trazia de volta os tapas das moças coradas. Apanhei um bocado ao longo dos anos…
  O ofício me desgostou de verdade em duas transportações: os viventes eram meu pai e minha mãe, se retirando deste mundo. Nessas duas despedidas, retardei a entrega. Contudo, não me cabia impedir as viagens, somente cumprir, sem burlas, o transporte. Essa lição aprendi cedo, ainda nas primeiras travessias. Com dó de um jovem a quem a Ceifadora de Corpos acompanhava, decidi reconduzi-lo para casa. Subi os olhos até o espelho retrovisor para preparar o retorno. Foi quando, estarrecido, vi que a estrada atrás de mim tinha sumido, dando lugar a um deserto de crateras e troncos retorcidos! E quanto mais eu prosseguia, tendo à frente um pavimento firme e preservado, mais meus olhos encontravam um rastro de destruição em tudo o que ficava para trás. Percebi, depois de poucas vezes, que só acontecia da estrada apodrecer atrás de mim quando a única bagagem do vivente era uma das Ceifadoras, a de corpos ou a de almas.
                                                                              ***
  Hoje, não me procurou passageiro. Tenho só uma encomenda, um recado a entregar. A claridade me faz companhia e o caminho está vazio. Enquanto prossigo, abro a folha dobrada sobre o banco ao lado. No papel desmesurado, um imperativo irreplicável sela o meu destino: “Transporta-te!”.
  Meus olhos buscam correndo o espelho interno. Não há esperança. No reflexo retrovertido, cumprimentam-me a estrada desolada e a Ceifadora que veio por mim.
  Mas qual delas veio…? Qual delas?!

sábado, 9 de junho de 2012


Trechos de Vamos a calentar el sol  de José Mauro de Vasconcelos

“... - Si ese sol de Dios es tan lindo, imagínate el otro.
  -   Que otro sol? No conozco más que éste.
  -    Hablo de otro mayor: el que nace en el corazón de cualquier hombre. El sol de nuestras esperanzas. El que calentamos en el pecho para entibiar también nuestros sueños.
Quedé maravillado.
   - También eres poeta?
   -   No, solo que me di cuenta antes que tu de la importancia de mi sol.
   -   Como de “mi sol”?
   -    El tuyo, es un sol triste, cercado de lágrimas en vez de lluvia. Un sol que no descubrió todo su poder y toda su fuerza. Que todavía no embelleció todos sus momentos.
   -   Qué debo hacer?
   -   Poca cosa. Solamente querer. Necesitas abrir las ventanas del alma y dejar entrar la música. Es necesario regarlo todo con música…”
  
Depois de uma das diabruras de Zezé, ele foi levado à Diretoria do colégio, que lhe passou como castigo a penitência de escrever uma frase mil vezes:

             Tragué en seco. Mil renglones? Mejor sería escribir un libro, una novela, cualquier cosa. Una porquería cualquiera. Pero mil renglones sería ir más allá del Purgatorio. Y aun tenía que dar las gracias al cielo por no haber sido expulsado. Con que cara enfrentaría a mi familia?
               Con todo, La masacre aún no había terminado. Ahora tenía que escogerse la desgraciada frase. Y se decidió que ella sería de mi propia elección. Razoné rápidamente. Pero La sentencia exigía que utilizara algo que no me gustase, para dar mayor volumen al castigo.
    - Vamos, Vasconcelos. La frase?
Entonces pensé en una cosa que me gustaba mucho desde pequeñito. Diría que La detestaba y por lo menos podría escribir algo que amaba:
    - La frase!
    - Esta: - Oyeron del  Ipiranga las márgenes plácidas”... .
Fue un desconcierto general. El Hermano Director levanto las cejas, formando aquel famoso arco negro.
    - Este muchacho está completamente loco! Detesta el propio Himno Nacional?
Para pedir perdón a mi himno predilecto crucé los dedos, presos a mis brazos cruzados.
   - Muy bien. Usted eligió, pero aquí no termina todo. Hermano Joaquim, por favor, escriba em el pizarron.
El Hermano Joaquim se dirigió allí y tomo La tiza (giz).
- Escriba, por favor, Hermano:
- Oyeron del Ipiranga las márgenes plácidas que soy un alumno ingrato y irresponsable.
      
                                                              ***
Dada (empregada da casa), quien es el vecino de la izquierda?
-   Es un matrimonio solo. Dicen que tiene una hija que estudia en Rio y que v a venir en las otras vacaciones.
-  Y la mujer que vive del otro lado?
-   Ui! Esa es una inglesa con un carácter…!se llama doña Sevéruba.
-   Cómo?
-    Es un nombre muy difícil, y como la mucama no sabe pronunciarse bien la llama Sevéruba.
-    Lancé una carcajada.
-    Eso no es nombre de gente, pero es muy divertido!
Dada me avisó.
-    No vayas para el lado de ella, porque ni siquiera deja que su empleada coma aunque sea una fruta de su huerta.
Sonreí y pregunté de improviso:
-    Te gustan las guayabas Dada? Las guayabas rojas como la sangre?
-     Son las que más me gustan.
-     Entonces espera.
Levanté unas tejas y le mostré media docena de guayabas.
-     Prueba una. Son muy sabrosas.
-     Como las conseguiste? Aquí en la quinta no hay de éstas.
   En la casa de doña Sevéruba.
-    Te las dio ella?
Agrandó los ojos al preguntarlo.
-    Qué va a dar! Mira, todas ellas tienen un agujerito (buraquinho).
-     Hechos por algún bicho?
Como cada vez entendía menos, le expliqué.
-     Tomé una vara larga (longa), clavé en las puntas un clavo bien afilado, derribé al suelo las guayabas. Después las ensarté (trespassei) en el clavo y las fui subiendo con cuidado. 
                                   
                                                                              **
                Sugiro a leitura de Vamos aquecer o sol, livro comovente até o final. Mas, desde logo aviso que está esgotado. Devemos procurá-lo em algum sebo.






quinta-feira, 7 de junho de 2012

XLVI


     No desmonte do apartamento de minha mãe, herdei um manuscrito/”datiloscrito” datado de 1941. Cansada e com minha mala cheia, olhei um pouco desanimada para aquelas folhas amareladas, embora soubesse da excelência do autor. No entanto, elas humildemente se acomodaram entre objetos de menos valor, e viajaram comigo.




     Após alguns dias, como se eu fosse uma bibliotecária examinando papiros, de máscara, luvas e lupa, começo a folhear A Turminha dos Valentões. Encanto-me logo de cara e resolvo digitá-lo:

      “A sopa estava servida e fumegava quase debaixo dos narizes dos comensais daquele jantar. Mas, num momento em que os três pequenos tomaram suas colheres e se dispuseram a começar a refeição, o Sr. Figueiredo interpelou-os, piscando os olhos e sorrindo misteriosamente:                                                                                                                                                    - Esperem um instante. A sopa está quente e enquanto ela esfria, Mário tem uma notícia séria, importante, importantíssima, a contar a vocês.
            Zequinha, Olavo e Joãozinho instantaneamente largaram as colheres e voltaram seus rostinhos surpresos para o Mário, o simpático moço de Botafogo que os viera visitar àquela noite.
            Mário sorriu, enquanto o Sr. Figueiredo prosseguiu, dirigindo-se aos três pequenos:
            - Uma caixa de bombons para quem adivinhar o que é que Mário vai dizer...
            Mas Zequinha olhou para Olavo, este se virou para Joãozinho e ninguém se aventurou a dar palpite sobre a notícia que Mário tinha a lhes contar.
            E Mário para não encompridar aquela terrível seriedade curiosa começou logo a dar a notícia:
            - É uma coisa muito simples: um acampamento. Mas um acampamento direito: na floresta, junto de uma praia deserta, com tendas, faróis, cornetas, barcos, espingardas e não sei o que mais..."



            Quando vi alusão a uma primeira edição, pesquisei no Google e a encomendei em um sebo, que ma enviou, não em muito melhor estado, mas me auxiliou em alguns trechos, pois as 231 folhas que eu tinha em mãos, quase se desfaziam ao serem viradas.
            O livro se revelou uma delícia . Como grande escritor que era, Pio Ottoni Júnior nos surpreende com um estilo totalmente diverso do profundo Ópera do Poeta e do Bárbaro, onde demonstra uma imensa cultura.  Acho que este, juvenil, agradará a crianças, pré-adolescentes e marmanjos.                                                                                                                                                                            Quem se interessar pela obra, é só me avisar que a envio por e-mail.


terça-feira, 29 de maio de 2012

XLV


Comparando a mente de antigamente com a de hoje, e ressalvando-se as exceções, a humanidade em geral sofreu um terrível down-grade. Sem entrar no mérito dos valores morais que foram para a cucuia, penso nos médicos de família, que cuidavam de todos os achaques, do dedão do pé às enxaquecas, de velhos e crianças. Hoje, sentindo uma dor no polegar me desanimo em consultar um especialista desse dedo da mão esquerda. E reparem que esse minimalismo não foi devido à falta de tempo de médicos que não mais precisam subir em carruagens e se deixarem transportar, com certo vagar, por bons cavalinhos, para atender a um chamado distante.

Pelo contrário, carros velozes levam-nos aos seus consultórios e lá ficam eles a examinar apenas o quadril de um, ou outros a coluna de terceiros. Sei que a população cresceu uma barbaridade e haja quadris, mãos e outros membros para cuidar! Mas, mesmo assim...

                Outra novidade começou com a dentisteria pediátrica e continuou com o dentista geriatra. Irá isso nos levar à especialidade da arcada dentária superior?

                Valha-me Deus!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um dia refeito no coração - Angela Delgado

 
          Estou inocentemente voltando do cabeleireiro, com tempo a meu ver de me arrumar com esmero para a missa de trigésimo dia do falecimento de minha mãe, onde me encontraria com pessoas queridas e há muito não vistas, após pegar o ônibus, que em minutos nos deixaria em frente à igreja.
        Encontro-a esbaforida segurando minha saia para que a vestisse incontinenti e fossemos embora, pois o táxi que a trouxera do Flamengo estava à nossa espera, com o taxímetro ligado,
sabe Deus desde quando!
        Claro que não deu tempo nem de me olhar no espelho, mas em vez de ter deixado mais nervosa ainda aquela que já estava bem apreensiva e ansiosa, pois iria ler em público palavras do evangelho, magoei-a e contribuí irrisoriamente ao pagamento do táxi, sem nem mesmo ter-lhe antes perguntado a quantia devida.
     Faz de conta que peguei minha saia, rindo como sempre quando estamos (estávamos?) juntas, vesti-a do lado do avesso mesmo, entrei no táxi, sem meias, sem pentear o cabelo e segurando um sapato na mão, fazendo-a rir e não se importar com a minha bolsa esquecida lá em cima...
     Afinal de contas, era a nossa última saída dessa temporada e precisava ser perfeita. Mas, quem estava pensando nisso naquela hora, embaixo da chuva? Nenhuma das duas. E mamãe nos vendo lá de cima, deve ter balançado a cabeça... Essas duas, uma tendo já completado "quinze primaveras depois de meio século", a outra prestes a perpetrá-lo, e ainda, às vezes, como naqueles momentos, sem a lucidez necessária, quase que se engalfinham com palavras, para a surpresa do taxista!
      Faz de conta que paguei o táxi, e saímos dele, abraçadas e emocionadas pelo motivo que ali nos levaram, e porque era a derradeira saída de duas irmãs que se querem muito e precisam uma da outra, como toda mulher necessita de amigas verdadeiras. Suspeito, porém, que a mais velha tendo já um bando delas, na realidade não carece de mais uma...
    De todas as amizades que fiz na vida, você... foi uma delas...  Diria você e o Fagner.
   Faz de conta que não é nada disso, que ela, com seu imenso coração, quase não cabendo dentro dela, a perdoará e tudo esquecerá, assim, num passe de mágica...  


   Como é mesmo aquela história... O primeiro  a pedir desculpas é o mais corajoso, o primeiro a perdoar é o mais forte e o primeiro a esquecer é o mais feliz?

domingo, 6 de maio de 2012

Ordinários ou Extraordinários? - Roseli Ferraz Arruda

No livro Crime e Castigo, publicado em 1866, considerado o grande romance de todos os tempos e um clássico universal escrito pelo russo Fiódor Dostoievski, o autor relata o sofrimento vivido por Raskólnikov, um jovem estudante de direito que se vê condenado a suportar uma irremediável miséria. Raskólnikov, atormentado por pensamentos sombrios, divide os indivíduos em ordinários, que são aqueles que aprendem a disciplina de obedecer sem questionar e os extraordinários, que são os detentores do PODER. Como não quer ser incluido na vergonhosa lista dos ordinários, constrói a obsessão de que, cometendo um crime (qualquer crime), prova para si mesmo e para a sociedade que é um homem extraordinário. Para concretizar o seu plano, mata uma senhora indefesa com golpes de machado e, em seguida, a irmã da vítima, testemunha ocular do crime. Está feito: agora ele é UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO.
No dia 24 de janeiro de 2010, a cidade de São José do Rio Preto, Estado de São Paulo, Brasil, amanhece com a notícia de um horripilante desfecho familiar: Nilson de Andrade Justino mata a mulher e as duas filhas menores com golpes de marreta, decapitando-as em seguida. Segundo as palavras da mãe do autor do crime, a mulher e as filhas eram pessoas boníssimas que amavam Nilson, incondicionalmente, e como há algum tempo ele apresentava distúrbios emocionais e mentais, cuidavam dele como se cuidassem de um bebê. “O que deu na tua cabeça, meu filho?” pergunta a mãe (do criminoso) tão triste como uma pétala depois da flor, e ele responde com olhos desérticos e a docilidade dos anjos caídos: “Não deu nada mãe”.
Nilson, assim como Raskólnikov, jamais conseguirá explicar porque alguns sonhos enlouquecem ou em qual ponto minúsculo da vida perdeu o controle da própria mente e a razão, cedendo lugar a uma solitária doença da psique, gerou em seu íntimo uma pessoa estranha, que foi chegando mansamente sem ser notada e que estava adormecida em algum lugar da sua personalidade.
Na realidade, há muitos seres dentro de um mesmo ser, todos querendo ser extraordinários, todos querendo pensar nossos pensamentos, todos querendo poder.
Apesar da roda dinâmica da vida ter girado 144 anos de 1866 a 2010, apesar da passagem de Einstein pelos corredores do mundo quântico, da história ter gerado duas grandes guerras, do progresso ter levado o homem a obter o conhecimento do universo e das células tronco; a FOME das almas não mudou. Os nossos instintos inferiores sustentam séculos e o homem, criado à semelhança do Inefável, enfrenta e luta constantemente contra emoções perturbadoras. Os indivíduos ORDINÁRIOS, mesmo com as suas terras espirituais saqueadas ou inteiramente queimadas quer seja pelas relações de trabalho, pelo convívio social ou familiar, são capazes, num momento de loucura (ou lucidez?), de erguer machados ou marretas provando para o mundo o quanto são EXTRAORDINÁRIOS.
Assim, de tempos em tempos, a cada nova tragédia pública, a sociedade brasileira questiona horrorizada: “O que deu na tua cabeça, meu filho?”. ” Não deu nada mãe.”
A mitologia dos povos, as religiões, a ciência, a política, a justiça, o Estado, etc, procuram desvendar a razão das irracionalidades, e as respostas, a partir do ponto de vista de cada um, são portadoras de verdades incontestáveis, mas NADA consegue revelar COMO INFLAMAM AS CHAMAS DOS NOSSOS POTENTADOS INTERNOS.
Inseridos neste contexto paradoxal entre o bem e o mal, nossas mentes custam a CRESCER e passamos grande período da vida como inocentes, jovens e brincalhões Ícaros, com necessidade de voar cada vez mais alto, de amar e ser amados. Frágeis crianças de passagem por este planeta, esquecemos que as COISAS MAIS INSIGNIFICANTES e pequeninas têm às vezes maior importância e geralmente por minúcias, nossas asas de cera derretem.
Nilsons e Raskólnikovs estão inseridos em nossos lares, dormem em nossas camas, são nossos amigos, cônjuges e filhos, mas acima de tudo, habitam sorrateiramente nossas mentes e estão adormecidos nas camadas delicadas do espírito.
Sim, a agressividade mora nos subterrâneos de cada um de nós, faz parte do nosso íntimo, mesmo assim, NÃO É A FORÇA DOMINANTE da alma humana.
Talvez por possuirmos dentes miúdos e frágeis, preparados para sorrisos e boca pequena, talhada para o beijo, não tenhamos aparelhagem suficiente para agirmos como feras e sim como irmãos, pois, dentre todos os INSTINTOS humanos, o soberano, tanto para ordinários quanto extraordinários, indiscutivelmente, é o amor.
Roseli Arruda