domingo, 3 de março de 2013

Acontece sempre aos personagens - Cinthia Kriemler



     Um dragão exausto. Isso sou eu sentada aqui neste começo de noite gelada, soltando neblina pela boca e pelas ventas. Já aqueci os dedos murchos e a garganta com duas xícaras de chocolate quente com chantilly, raspinha de casca de limão e uma pingada leve de licor, Aceita uma xícara?
     Estou escutando músicas antigas, enquanto decido se vou ao cinema ou se abro um vinho mais tarde, e assisto a um filme em casa mesmo.
     Eu vejo o futuro repetir o passado... O tempo não para, não, não para...
     Que coisa! O tempo não para é de vender essa imagem de inesgotável. Bobagem. É um grande ilusionista, isso sim; um fanfarrão elegante esse tal de tempo! O que ele faz, e bem, é aplicar recursos. Mas não resiste a um olhar mais de perto, a uma avaliação mais detalhada. De perto, é fácil ver que os acontecimentos, as histórias e as vontades são sempre os mesmos, ciclicamente. Guerras, amores, terremotos, mortes, tudo se repete. Modernizam-se os instrumentos, as palavras e os atores. As tramas, nunca. Uma mesmice.
     Pois saiba você que o tempo sobrevive mesmo é das percepções, como num truque houdiniano. O que eu vejo não é o que você vê. Não vemos na mesma hora. Não nos importamos do mesmo modo a respeito do que vemos. O truque é este: impedir que a gente tenha consciência de que de inesgotável só as desigualdades das nossas percepções.
     Uma vez ou outra, é claro, passeamos, sem querer, pela mesma sintonia, por uma fração de segundos. Déjà vu ! – gritamos. – Que déjà vu que nada! É o tempo escorregando na gestão. Mera digressão.
     Costumo pensar em cada um de nós como um grande globo de metal, igual ao que se usa nos bingos ou nos sorteios de prêmios. No início de nós, o tempo nos recheou de uma vez com todas as datas e fatos e sentimentos que iríamos precisar para termos uma vida. Mas se tocou que um bom planejamento estende-se a um futuro, e aí decidiu que era melhor liberar uma pedra por vez. Acrescentou o mexe e remexe aleatório do globo para assegurar transparência e criar um pouco de frisson na plateia.
     Por isso, o meu bingo nunca é, foi ou será igual ao seu. Eu recebo o amor aos 20; você, aos 35; ele, nunca. Você aprende os sofrimentos aos 10; nós, aos 38; eles ainda sofrem. Tudo culpa do mexe e remexe.
     Não me importo com o estratagema. Do tempo, só registro uma queixa: para si mesmo, nunca traz velhice; para nós, rugas dolorosas no corpo e na alma. Injustiça!
     Ah, não? Você não acha? Deixe ver se entendi... Experiência. É assim mesmo que você desculpa o reumatismo que proíbe às suas juntas subir escadas? Segurança é o nome mais interessante que você encontra para o seu platô de conformismos? Está bem. Entrego os pontos. Eu mesma apelidei de “maturidade” o assassinato dos meus sonhos. Aliás, melhor dizer: massacre, porque os exterminei em conjunto para não ouvir mais suas vozes insensatas.
     O tal do amor maduro, então, é o pior dos disfarces. Preciso forçar mais a memória, um dia desses, e me lembrar quando foi que aprendi a gritar “Bingo!” na pedra da desistência. Logo eu que nunca dispensei um amor maldito, uma paixão inconsequente, me conformar com um amorzinho morno, centrado, sem tempero?
     Pois me escute: o mal é que a gente aceita qualquer coisa depois das rugas. E não adianta reclamar, tipo: Hei! Eu quero aquele olhar que vi na mocinha de ontem, na fila do supermercado. Quero aquela roupa sensual da vitrine do shopping. Quero atravessar a piscina sem perder fôlego. Reclamar só traz mais rugas.
     O que foi? Apavorou-se? Descobriu que lhe furtaram as possibilidades? Finalmente você começou a entender como o tempo é ladrão? Como eu lhe disse, um ilusionista. E você aí pensando que eram seus o amor, a alegria, as gargalhadas e os sonhos! Sei como é isso, portanto, não se preocupe, você não é bobo sozinho. Acontece sempre aos personagens.
     Ainda dá tempo de me acompanhar numa xícara de chocolate. Mas, se preferir, venha tomar um vinho mais tarde. Afinal, ainda não falamos sobre a melhor parte disso tudo. Aquela onde eu lhe conto que insônia, depressão e amor despedaçado também te abandonam, mudam de corpos.
     É o tempo, redistribuindo recursos. Acontece sempre aos personagens!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Vila Velha (parte final ) - Angela Delgado

                          

     Kérida e Chérie foram almoçar com um casal amigo. Sendo ele um senhor inglês de uns setenta e poucos anos, Kérida me fizera trocar a blusa que eu vestia por outra mais “composta” e ainda reclamou do batom que, sob a luz do elevador, lhe parecera branco.
     A caminho do restaurante, comentando o que lera do indiano Deepak Chopra, conta que o livro sugere que a cada dia nos aferremos a um lema, e ela naquele dia, estava no da liberdade.
     - Que liberdade é essa, se tive que trocar de blusa e ouvir comentários sobre o batom?
     - A minha liberdade de falar, Chérie!                                                      
     - Ah, entendi!
     Hoje, as duas tomaram café em um restaurante bem aprazível, o “Mezanino”, antigo “Prima Villa” e de lá foram direto para a praia. Kérida, com batom de Chérie, redimido devido à incidência da luz solar. Ao lá chegarem, Kérida disse que esquecera a boia. Boia?! Sim, a que comprara para relaxar no mar. Volta então ao seu apartamento, enquanto Chérie fica à sua espera na areia. Os minutos passam e esta calcula: cinco para subir, cinco para, digamos, passar fio dental, mais cinco para se lembrar do que fora mesmo fazer lá, e outros cinco para se juntar a ela. Esse tempo já se esgotou e “Margarida” ainda não reapareceu. Se o lema dela hoje for o da “Perfeita organização” vai custar a chegar. 
       Então, como no excelente filme “La Belle verte”, Chérie tenta transmitir, com os pés na água do mar, pensamentos de amor e serenidade. O problema é que, pelo menos no filme, para que essas “ondas” sejam captadas, o destinatário precisa igualmente estar com os pés na água, nem que seja na do banho.
       Falando em água, dois dias depois da experiência traumática no “banana-boat” iam as duas irmãs pela beira do mar, quando Kérida se deteve à vista do novo esporte chamado “Stand up”, que consiste em remar em pé em cima de uma prancha.
      - Kérida, não vou deixar você fazer isso...
      Pouco tempo depois Chérie  estava na prancha. Aprendeu rapidinho e até ganhou uma salva de palmas da “arquibancada” na areia. Só não agradeceu acenando do mar, para não estragar tudo mergulhando involuntariamente.
       Kérida devia estar morta de vontade de fazer o mesmo. Que maldade! Amanhã, então, irão as duas remar, porém, sentadas em um caiaque.
     As Gatosas (gatas idosas) remaram; se exercitaram; se bronzearam e riram muito, pois Kérida, que anda pelo calçadão com uma boia a tiracolo, “causando” espanto, não admite que em seu trajeto rumo ao restaurante, Chérie abra o guarda-chuva para se proteger do sol cancerígeno. Ou seja, continua aferrada ao lema da liberdade, pessoal, mas já é alguma coisa.
     Falei em caminhada pelo calçadão, mas a da Kérida é sui generis,  pois quando enxerga um cachorrinho é como se estivesse diante de um sinal vermelho. A parada é automática. Como Chérie já a conhece de outros carnavais, antes que Kérida indague sobre a raça e os costumes do cãozinho, e conte boa parte de sua vida, ela está à meia légua de distância. Outra maldade?
     Depois da sauna da tarde, Chérie agradece por tudo o que a temporada lhe proporcionou. Com exceção do momento em que apreciando embevecida o lindo visual da Praia da Costa, vira aterrissar e correr pelo seu braço o inseto Kafkiano. Aquela cena de terror, destoante  do cenário, a fizera gritar a mais não poder, porque na imensidão de todo aquele ar livre, como fora possível aparecer uma barata e, ainda por cima, em vez de ao menos pousar em uma das barracas, vir parar justamente em cima dela? Mas, fora mulher suficiente para ir atrás da abominável que corria pela areia e matá-la com uma firme chinelada.
            Moral da história: o bem e o mal são siameses e não adianta espernear.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Vila Velha - Angela Delgado




No avião que me levará ao Espírito Santo, coloco um dos meus livros no bolsão da poltrona à frente do assento ao lado. É a corrente literária que me empenho em fazer fluir.
         O lugar é rapidamente ocupado e meu vizinho de voo pega o livro e começa a lê-lo.
         Gostaria de relê-lo com o rabo do olho, pois nem me lembro mais direito o que escrevi...
         Suspense: largará o livro, pulará páginas? Espero que, pelo contrário, o aprecie, compensando-o eu por ter de escutar essa maldita tosse, que cismou de viajar comigo. O alto-falante do piloto está com defeito e isso me regozija, pois as palavras de boas vindas abafadas, quase inaudíveis, não tiram a concentração do meu mais recente leitor.
         Vontade de observar as expressões faciais do simpático cidadão que não larga meu livro, mas, prefiro deixá-lo à vontade. Quando o avião decolar, com o pretexto de olhar a paisagem, darei uma espiada. E não é que o passageiro da janela espicha o olho em direção ao livro, como se fosse o jornal aberto do cavaleiro ao lado, no metrô? Bom pra mim... Acalmou até a minha tosse! O avião sacoleja um pouco em seu percurso pela pista, antes de alçar voo. Fecho o livro que estava lendo, o que não faz meu super simpático vizinho, que continua firme e absorvido em sua leitura. Dois outros passageiros, do outro lado do corredor, pegaram a minha tosse, e meu precioso leitor, marcando a página com o marcador, fecha os olhos sem, contudo, recolocar o livro no bolsão. Ficou segurando-o, enquanto eu também fechava os olhos. Afinal, o xarope contra a tosse me dera sono. De repente, ouço um ronco. Abro os olhos. É o sujeito da janela. E meu vizinho, que além de ser simpático, não ronca, me pergunta se eu era a autora. Conversamos durante o resto do trajeto. Fiquei sabendo que ele gosta muito de ler e que estava achando divertido o meu livro. Que bom!
         Hoje, minha irmã e eu fomos à praia. Na volta, comemos uma gostosa moqueca de cação e depois, apreciando o visual do mar, agradeço pelo privilégio deste paraíso, enquanto penso naqueles que jogam suas vidas fora, lançando bombas e fazendo a vida ao redor deles um inferno.
         Agora, apagarei as luzes do apartamento, pois minha irmã Kérida, chegando da praia com os óculos escuros, acha tudo sombrio e as acende todas.
         Em mais um dia de praia, Kérida inventa de nos aventurarmos em uma daquelas “bananas” puxadas por uma lancha e lá vamos nós, depois de ter ouvido para não nos afobarmos, caso a “banana” virasse, pois estávamos com salva-vidas.
         Como em um avião, escutando sobre assento flutuante e máscara de oxigênio, nem por um segundo, pensei que esse risco pudesse ocorrer. Ajudadas por um dos outros onze passageiros, escalamos a “banana-boat” e a lancha zarpou. Pouco depois, encontrávamo-nos em alto mar e a “banana” emborcada.
      Novamente somos içadas “a bordo” e voltamos a "surfar" as ondas, com a brisa do mar no rosto e apreciando a paisagem. Kérida, assustada, nem tanto. Até que de novo nos vimos dentro da água, Kérida tendo caído em cima do sujeito que havia nos auxiliado a subir, e que fora o mesmo que provocara o tombo.  Aí não achamos mais graça e preferimos terminar o passeio dentro da lancha, onde estaríamos a salvo de mais uma “hipótese remota” de abruptamente mergulharmos na água.
     E não é que a “banana” virou uma terceira e uma quarta vez? Propositadamente, visto que a maioria dos onze fizera de tudo para que isso acontecesse.
     Já na areia, Kérida, não satisfeita com a quantidade de adrenalina, se depara com botes e remos. Imediatamente, combina para o dia seguinte mais uma aventura! Desta vez, no entanto, mais calma, pois seremos as únicas tripulantes.
     Doce ilusão. Kérida está imobilizada, sem poder sequer tossir e hoje exige que eu revele também o que apronto, como o acontecido hoje ao pisar na areia e retirar pela cabeça a saída de praia: eu havia me esquecido de colocar o biquíni. Estava de calcinha! A mais nova delas, mas, apesar de combinar com a peça de cima e ser só um tantinho menor, era uma calcinha e eu sabia disso... Menos mal que a praia estava quase vazia.    Voltei ao apê e quase explico ao simpático porteiro, um pouco surpreso com o entra e sai: esqueci a peça de baixo!
     Finalmente estou devidamente composta, mas perco a concentração de minha leitura por causa das “bananas-boats” que passam, pois não “fico a ver navios”, ao contrário, espio se “a pimenta vai arder em olhos alheios.” Em ritmo carnavalesco, cantarolo  "se a banana não virar, ♪ olê, olê olá, eu chego lá! ♪".
    Mas hoje estão todos comportados. Nada acontece e reabro meu livro.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Matando a fome - Angela Delgado


Dormi mal à noite, pois meu corpo tem um ciclo diverso ao de minhas ideias, que são notívagas. Basta que eu me deite (antes das galinhas) e relaxe, para que elas, não as galinhas, mas as ideias, despertem, fazendo-me perder o sono no acende-apaga do abajur, com o intuito de não deixá-las se volatizarem, novamente as ideias, porque as galinhas, como todos sabem, voam mesmo. Baixo, mas voam.                                                                                                 
            E as ideias desta noite me fazem contar que eu havia sido convidada para uma degustação em um lugar especial. Ambiente acolhedor, com uma série de sofás com fones de ouvido por toda a parte. Assim que me  instalei, o garçom trouxe o cardápio:
- Hoje temos como entrada, “Caviar” e “Calangueei” com Zeca Pagodinho. Se preferirem, há Marina de La Riva cantando “Voy a guardar mi lamento” e David Garret interpretando “Zorba´s dance.”
Como “pièce de résistence”, temos Roberto Vecchioni cantando “Mi manchi”.
Muito apreciado também é o fado de Mafalda Arnauth, Kátia Guerreiro e Cristina Branco.
Temos igualmente música árabe com “A milésima segunda noite” e a sugestão da casa hoje é a dupla Luiz Gonzaga e Gonzaguinha que vem acompanhada por Zélia Duncan e Fafá de Belém.
Paganini está em falta.
Às sextas-feiras oferecemos Charles Aznavour, Il Divo, Isabelle Boulay e Scott Joplin.
Aos sábados temos leituras para deixar qualquer alma satisfeita.
Ante tal fartura, quis dar uma olhadinha nas sobremesas, para ver se seria imperioso deixar algum espaço disponível.
Para finalizar, Crème Brulée e doces portugueses, incluindo Ninho de ovos e Pastel de Belém, que ninguém é de ferro.
           

domingo, 27 de janeiro de 2013

Hipnotizando à distância - Angela Delgado


(Depois de transcrever "Sob os escombros" tive vontade de trazer à tona o que escrevi há algum tempo.) 

Filho, seu carma será voltar como mãe. São 3h25 da madrugada. Mães geralmente acordam cedo, mas não tanto. É que ainda não dormi. Estou dialogando com seus tios lá do céu, que supostamente devem nos proteger, e até apelando para os santos.
– Afinal, resolva. Quer que ele chegue são e salvo ou quer que ele chegue logo?                                                                                                                                                        -             –  Não dá para atender dois pedidos de uma vez?  Aladim concede três...                                                                  
   A hora vai passando. Depois de parlamentar em vão com a secretária eletrônica, o jeito é hipnotizar por telepatia.
   – Filho, você está com sono, muito sono, mas cuidado, olhe o poste! Está com uma vontade irresistível de voltar para a casa. Volte...
    4 horas. A via crucis da mulher não é fácil. De dia os afazeres. De madrugada as preocupações.                                                                                                           
– Sinta-se hipnotizado...  (Já é tarde, queimarei um cartucho. Apelarei ao Supremo, visto os santos estarem dormindo.)                                                                                                                                                           –  Filho, onde está seu bom senso?  Sabe o que deixarei de herança? Saúde, bom senso e senso de humor. As três coisas mais importantes desta vida. Tendo isso, o      amor  virá.  Quando já de saída, você me perguntou onde eu estivera a tarde toda – tal pai, tal filho – desculpe-me ter respondido mal. É que fui a tantos lugares que dava nem tempo de enumerá-los. Você já dobrava o corredor. Além da preguiça da longa lista: lavanderia, costureira, cabeleireiro, engarrafamento, Banco, médico, supermercado, sapateiro (curioso, a única profissão onde não há mulheres ainda...). Bem, a gincana do dia-a-dia de uma mulher. Tudo isso em uma tarde. E você, em uma noite? Sentado, jogando; acocorado, trocando pneu; deitado, transando? Se cuida, você vai voltar mulher... Um dia acordando às 5h30, no outro, pregando o olho às cinco. Homens renascerão mulheres. Não é praga. É carma. O rodízio é o nosso consolo. Até porque seria injusto se assim não fosse. Mas, quando você chegar, vou perguntar: 
 –  O que aconteceu, filho? Trouxe ao menos pão quentinho?                                                                                                                                                     –  Ô de casa! Ô lá de cima, estão todos cochilando? Quero dormir! Um dia vocês me dão uma insônia, no outro são os filhos que não chegam. Quousque tandem? Vou já pedir minha aposentadoria de mãe.   
– Varou a noite estudando?                         
 Tem mãe que é cega... Mas acredito no que quero. Nisso puxei à minha mãe, que puxou à dela, que puxou..., que puxou à Eva.          
 E eu que não ia escrever! Para quê, pensei. São dois pensamentos, três linhas. Mas comece, porque sairá igual lenço de cartola de mágico. E aí você não dormiu, mas escreveu. Afinal, não ia dormir mesmo. Qual a mãe que nestes tempos de desenfreada violência o consegue?
  6h30. Arrisquei e levantei-me para ver se, por um acaso, ele já havia chegado. Pasmem. Estava tranquilamente dormindo. 
– Obrigada, quem quer que tenha me escutado. Devo começar o dia, como antigamente, com uma oração. Só espero que o carro também esteja na garagem, sem qualquer escoriação.
 Como veem, trair, roubar e escrever é só começar. 
Águas rolaram desde que hipnotizei Filho Varão pela primeira vez. Orgulhei-me de sua aprovação em vários concursos, mas às vezes ainda hipnotizo ora Filho Varão ora Filha Antropóloga, quando se prolongam fora de casa noite adentro.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sob os escombros - Cinthia Kriemler

 

Lembrança é vida soterrada. Escondida sob escombros fundos, onde a dor se acomoda em letargia e desistência por um tempo longo demais, curto demais.
Conveniência? Ou seria medo o que nos faz insistir no esquecimento? Sofrer é hábito descuidado. E a gente nem percebe há quanto tempo não sente alegria. Ou paixão. Ou vontade. Ou qualquer coisa que aqueça o coração. Segundos, anos… Quanto tempo se leva sendo triste?
Tornar-se infeliz é bordado lento. É como poeira nas roupas, que se assenta em camadas finas, toldando o viço, deturpando os fios da trama.
Ser triste leva uma vida. A vida que depois a gente esconde na memória. E pensa que esqueceu.

Um fim de tarde magnífico se debruçava sobre o mar de ondas soluçadas. Na areia, um pedaço de jornal que dançava sob a regência da brisa chamou a atenção de Salvatore, exumando memórias inesperadas e dolorosas. Apanhando a folha bailarina enroscada em seus pés, olhou em volta, procurando o passado.

Inês corria pela praia atrás do jornal que lhe fugira das mãos. Segurando o chapéu para que não voasse como as folhas, pareceu a Salvatore, num primeiro e divertido olhar, que tentava arrancar a própria cabeça.
–– Melhor voarem as notícias do que o cérebro! — caçoou ele.
–– Como? –– interpelou-o a moça, séria.
–– Deixe que eu pego o fujão –– disse ele, prosseguindo com a troça.
–– Agradeço, mas dou conta sozinha! –– respondeu a jovem, altiva.
Mas antes que um ou outro alcançasse o jornal, o papel fujão decidiu por vontade própria ir parar aos pés de Salvatore.
–– Agora, não se pode negar: ele gosta de mim –– provocou-a, bem humorado.
Cedendo ao sorriso sedutor daquele homem charmoso, Inês aproximou-se dele, aderindo à brincadeira.
–– Ingrato! Eu o compro, eu lhe faço companhia e ele me abandona assim, pelo primeiro estranho!
–– Onde está o estranho? Vamos, diga-me onde está que eu o ponho daqui para correr! –— disse ele, fingindo procurar ao redor algum intruso.
Em seguida, estendeu a mão forte e apresentou-se a ela:
— Salvatore Rossetti.
–– Inês Santana –– respondeu ela.
As mãos de Maria Inês eram conchas quentes e macias, e o sorriso fez com que ele prestasse a atenção aos dentes benfeitos. Achou-a tão linda que, ainda no cumprimento, sentiu-se tomado por um abobamento incontrolável. Tentou recompor-se, mas era tarde demais. Inês tomou-lhe a vida naquele mesmo instante.
A diferença de idade entre os dois era de dez anos. O que não seria muito, não fosse a vida desregrada que Salvatore levara até conhecê-la, que o tinha transformado em um cínico, um mundano. Sentia-se velho. E tinha medo de magoá-la. No entanto, ali, à beira-mar, Inês se tornou um cais. E ele foi deixando, aos poucos, de ter medo. Do tédio que lhe tomaria os sentimentos quando cessasse o êxtase. De outras carnes que lhe atrairiam o desejo quando findasse nas dela o frescor da mocidade. Da irritação que sentiria, numa manhã de domingo, quando um “por favor”, um “me ajude” o desconcentrasse da escrita dos textos. Esqueceu-se apenas de ter medo de que ela deixasse de amá-lo quando ele voltasse a ser o homem que o habitava antes.
Inês, contudo, o surpreendeu. Cedeu e impôs-se a seus caprichos em igual medida. Agradou-o com carícias; respeitou-o com silêncios. Ela o fez feliz. Como ele nunca tinha sido. Como jamais seria. Mas ele se cansou de ser feliz. Enjoou-se das manhãs, das tardes e das noites perfeitas. Aborreceu-se com a repetição das horas. Desprezou o amor maduro que ela lhe oferecia. E só descobriu que era inverno quando viu a neve em seus próprios cabelos.
Quando partiu, não se voltou uma só vez para saber da tristeza de Inês. Não se despediu dos quadros que acenavam suas tintas enfraquecidas pelos anos, nem revidou ao relógio que marcava “É tarde!”.
 
Memória é vento que se encolhe com frio de si mesmo; tormenta que se guarda para um próximo açoite. É linha que costura na alma, em ponto miúdo, todos os choros, todas as belezas, toda a rebeldia. E repousa, e repousa, e então desperta. Esparrama-se em rajadas. Como um pulmão que expele. Para não sufocar.

A lua fazia desenhos na água. A brisa assediava Salvatore, despenteando-lhe os cabelos ainda fartos. Ele não queria ir embora. Não de novo. Tudo doía, mas ele gostava da dor. Não sentia remorso pelos anos de liberdade e de excessos, e enfrentava o aperto no peito sem sobressaltar-se. Mas a falta das memórias o atormentava. As memórias de Inês. E a certeza de que, sem elas, não haveria consolo a acompanhar-lhe a velhice.
Precisava vasculhar os escombros daquela casa em ruínas e ouvir o murmúrio dos destroços. Até encontrar as lembranças. Seguiria o sorriso de Inês, deixaria que o rastro da vida soterrada lhe indicasse o caminho. Não descansaria. Não permitiria que a solidão o encontrasse distraído, para que se apossasse do que lhe restava a respirar.
–– Salvatore –– escutou, então, a voz tranquila.
Fechou os olhos e entregou-se ao arrepio que o sacudiu por inteiro. Depois, sentiu que Inês o puxava pela mão e deixou que os seus pés a seguissem. Abriu os olhos para reencontrar os quadros em suas cores vívidas, e olhou para o relógio que marcava “Enfim!”.

A gente pensa que esqueceu. A gente acredita que acabou. Então, a vida se levanta das ruínas. Sussurra. Alcança-nos. E tudo está lá, intacto. Para nos levar além.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Um pouquinho mais de Italo Calvino


Para quem não leu Marcovaldo do Italo Calvino, vou transcrever o delicioso trecho do coelho nascido em laboratório, roubado por um paciente pobre que dele se afeiçoou, e depois liberto de sua nova gaiola por seus filhos, que, na ausência do pai, queriam salvá-lo da truculência da mãe, esfaimada, pensando em colocá-lo na panela, e que acabou por se ver  livre no telhado. Detalhe: o coelho havia sido inoculado com os germes de uma horrível doença e disso seus novos proprietários ainda não sabiam.
 

            “Quando fu solo, il coniglio prese a muoversi. Tentò alcuni passi, si guardò intorno, cambiò direzione, si girò, poi a piccoli balzi, a saltelli, prese a andare per i tetti.”

Quando se viu sozinho, o coelho começou a se mexer. Ensaiou alguns passos, olhou ao redor, mudou de rumo, virou-se, depois com pequenos saltos, pôs-se a andar pelos telhados.

            “Demeuré seul, le lapin commença à bouger. Il fit quelques pas, regarda autour de lui, changea de direction, se retourna. Puis, par petits bonds, en sautillant, il se mit à progresser sur les toits. ”

            “Era una besta nata prigionera : il suo desiderio di libertà non aveva larghi orizzonti. Non conosceva altro bene della vita se non il poter stare un po´senza paura. Ecco ora poteva muoversi, senza nullo intorno che gli facesse paura, forse come mai in vita sua.”

            Era um animal que nascera prisioneiro: seu desejo de liberdade não tinha grandes horizontes. O único bem que conhecia da vida era poder ficar algum tempo sem medo. Eis que agora podia se mover, sem nada em volta que lhe amedrontasse, talvez como nunca antes em sua vida.

            “Il était né dans um clapier: son désir de liberté était assez limité. La seule bonne chose qu´il connaissait de la vie, c´était d´être un peu tranquille, sans avoir peur. Maintenant, il pouvait bouger sans que rien autour de lui ne l´effraie, comme il ne l´avait peut-être jamais fait de sa vie. »

            « Il luogo era insolito, ma una chiara idea di cosa fosse e cosa non fosse solito non aveva potuto mai crearsela. E da quando dentro di sé sentiva rodere um male indistinto e misterioso, il mondo intero lo interessava sempre meno. Così andava sui tetti; e i gatti che lo vedevano saltare non capivano chi era e arretravano timorosi.”

O lugar era insólito, mas jamais pudera construir uma clara ideia do que fosse ou não habitual. E desde quando sentira roer dentro de si um mal indistinto e misterioso, o mundo inteiro lhe interessava cada vez menos. Assim, caminhava pelos telhados; e os gatos que o viam pular não atinavam quem era e recuavam temerosos.

            “L´endroit était insolite, mais il n´avait jamis pu se faire une idée précise de se qui était insolite et de ce qui ne l´était pas. Et depuis qu´il sentait qu´un mal imprécis et mystérieux le rongeait, l´univers entier l´intéressait un peu moins chaque jour. Donc, il progressait sur les toits ; et les chats en le voyant sautiller se demandaient qui il était, et se retiraient craintivement. »
           

            A sequência também é uma delícia. Podem comprová-lo se lerem o livro, ou podem me pedir que continue aqui, por mais um pouquinho (rs) minha amostra de como aprender facilmente outras línguas.