sexta-feira, 13 de abril de 2012

XLIII


         No trajeto Leme- Humaitá (ainda no Rio, para quem não conhece esses bairros), a Van para em um ponto e tenta arrebanhar passageiros, apregoando: Rocinha! Quérida me olha assustada, e, embora querendo transmitir ao cobrador, diz a mim, em tom galhofeiro: eu não vou para nenhuma favela, sou prima dos Guinle, proprietários daquele palacete ali...
        O passageiro do banco da frente, de olhos lindos verdes-azulados, não para de se virar e indagar ao companheiro ,  – Tá ligado?
        Quando ele se levanta, Quérida me pergunta se reparei no corpo sarado...
         - Você tá ligada, hein? Respondo eu, e assim continuam a se divertir na Cidade Maravilhosa, na companhia uma da outra, irmãs amigas e bem-humoradas que somos.
         De volta a Brasília, vou pegar o jornal. Vejo um homem passando, de braços cruzados. Atitude dos homens quando estão com frio. Nos, mulheres, lançamos mão de casaco, cachecol, bota...
     Depois, ao sol, pensando em minha mãe, sinto algo roçar em mim.
     – Mãe, a senhora está bem? Me dê um sinal! Vejo então uma luz verde.
     –Verde, mãe?! A senhora sempre gostou da cor azul!
     Vai ver nessa dimensão não há livre arbítrio...

         Falando nela, estava bem contrariada por ter perdido meus óculos, comprados em Portugal, mas achei-os, após minha ordem incontornável de “vou achar agora!”. Na realidade, estava procurando um CD também perdido.
         Essa é uma das grandes alegrias da vida depois de certa idade. Vivemos achando alguma coisa de suma importância!

         E agora terei que perder urgentemente algum objeto, para encontrar o CD com a música Zorba´s dance tocada pelo David Garret! Meu neto, em plena adolescência, adora Beethoven, graças à Nona Sinfonia interpretada por esse exímio violinista.
          Acabei dormindo com tudo sob controle. Óculos reintegrados ao patrimônio afetivo e o CD extraviado ao alcance dos meus ouvidos, sem nem mesmo ter perdido mais nada. Por enquanto...


4 comentários:

  1. Ângela querida!
    Aqui estou na minha visitinha prometida!
    Encantou-me a sua frase: " Essa é uma das grandes alegrias da vida depois de certa idade. Vivemos achando alguma coisa de suma importância!" Linda imagem!Assim é a metáfora da vida :precisamos perder algo para achar o que realmente é importante para nós!
    Um beijo carinhoso, Nathalia.

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    1. O que você perdeu antes de achar o caçulinha?
      Beijos.

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  2. Angela querida, muito boa a crônica! Pude formar a imagem das duas irmãs divertidas em suas peripécias pelas favelas do Rio. Pegando o passe do comentário da Nathalia, aproveite e "ache" na primeira loja de disco (ainda se fala "loja de disco"?) com que se deparar, um disco da Maria Gadu (qualquer um). Ela é, na minha opinião e na de muitos, a maior cantora do Brasil! Vale a pena qualquer sacrifício para ter um cd dela nas mãos. Chegue em casa, ligue a "vitrola" e faça boa viagem! Beijos.
    Marcelo Ottoni

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    1. Obrigada, meu irmão,
      Que bom vê-lo novamente aqui!
      Hoje em dia, compramos cds em loja de cds (cada vez mais raras). Mas que entusiasmo...Vou até escutá-la, não na vitrola e sim no som do carro!
      E eu te recomendo cantoras portuguesas, como Mafalda Arnauth (a música "Estrela da Tarde" é a minha preferida). Você a encontrará no Youtube.
      Beijos.

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